Lapso Paradoxal
31 Capítulo 30 - Fim do Mundo
Eu e Marco estávamos sentados um na frente do outro, sem dizer nada por minutos, isso tudo no quarto de Marco, que para alguém de sua idade, parecia um tanto peculiar, haviam vários pôsteres de baseball e algumas figure actions da Marvel, eu sabia que ele era fã de baseball e HQ’s, mas fazia um tempo que não entrava em seu quarto e não me lembrava desses detalhes.
— Então vamos ficar nisso? Parece que tudo não passou de um sonho, Naiara! – Marco se levantou repentinamente, me assustando ao falar alto.
— Eu também quero entender isso, mas a verdade é que isso tudo está ao nosso favor, Marco, estaríamos presos se todo mundo lembrasse do que exatamente aconteceu. – Eu estava feliz, claro, não podia negar, havia me livrado de entrar em cana, toda exposição que eu teria foi apagada por esse misterioso acontecimento, todos não se lembram do que realmente aconteceu em Americana nessa semana, todas as mortes, meu envolvimento, o ataque ao prédio, tudo parece que foi ‘mudado’, e na lista dos portadores, há alguém com a capacidade de mudar a memória das pessoas, mas se essa pessoa está agindo, eu gostaria de saber o porquê, pois, até então, achava que todos os portadores eram meus inimigos, mas nesse caso em particular, ele me salvou, mas eu não iria baixar minha guarda, precisava pensar no motivo dessa suposta ajuda e também descobrir quem é que está por trás disso.
— Mas não te incomoda? Digo, isso já é algo surreal demais, ok que vivenciamos essa loucura muitas e muitas vezes ao longo dessa jornada, nada me espantava, até isso acontecer, parece que tudo está ocorrendo ao seu favor Naiara. – As palavras de Marco ecoaram em minha mente. Tudo parecia mesmo estar ao meu favor.
— Isso é irrelevante agora, o ponto é: Onde diabos está Heitor? Ninguém o viu saindo do prédio, então, posso deduzir que o portador que muda as lembranças está com ele? Isso explicaria ninguém tê-lo visto sair do prédio, ele pode estar usando Heitor para achar a chave ou então até me pegar, por isso foi conveniente para ele não me expor na mídia nem colocar a polícia contra a gente. – Eu tinha quase certeza que Heitor havia sido capturado, mas ainda havia algo que eu precisava confirmar antes de levantar mais hipóteses. O enterro da minha mãe havia sido no dia anterior, meu pai desde então se trancou em seu quarto, eu não conseguia ficar naquele apartamento, pedi para Marco me deixar ficar em sua casa até tudo se acalmar, eu tentava parecer forte, mas estava totalmente quebrada.
— Eu também to preocupado com ele, por mais inteligente que seja, ele já se ferrou várias vezes e quase morreu umas cinco, então não garanto que está tudo bem, sem querer ser pessimista. – Marco se sentou novamente, a casa estava silenciosa, os pais do mesmo estavam no trabalho, tudo parecia normal em Americana, dois dias depois do ataque ao meu apartamento, alguns vizinhos ainda não voltaram pra lá, a polícia ainda procura mais suspeito do caso, mas quase tudo praticamente foi esclarecido, mesmo que de uma maneira falsa, eu nem se quer cheguei a ser citada no jornal local. Antes que eu pudesse me levantar para ir ao banheiro, meu celular tocou, me dando um novo susto, era minha prima Carla, ela estudava educação física aqui em Americana, tinha 19 anos, quase nunca falava comigo, por isso estranhei essa ligação. – Carla?
— Naiara, o que aconteceu?
— Como assim o que aconteceu? – Naquele instante meu coração acelerou como o motor de uma Ferrari, será que tudo havia chegado à tona? O portador pode ter feito isso apenas para me deixar relaxada, e então, ele daria de volta as lembranças originais para todos, apenas para me afetar, mas com a resposta da menina, percebi que não era isso.
— O seu pai, por que ele foi pro Rio de Janeiro?
— O quê? Como assim? Você tá brincando comigo? – Meu pai também não havia se lembrado de nada do que havia acontecido, somente que estava preso no prédio depois de matar minha mãe, mas depois do ‘apagão’ em todas as pessoas, a polícia não se lembrava também, meu pai havia sido inocentado, a morte da minha mãe foi associada à Lúcia, meu pai só lembrava que ela havia entrado no prédio e que os policiais estavam tentando protege-lo.
— Ele veio aqui hoje cedo... disse pra cuidarmos do canário dele, que ele não voltaria tão cedo, eu e a Telia ficamos confusas, ele parecia estranho, disse que agora que ele estava sozinho iria passar um tempo com seu irmão, eu citei você, mas ele disse que não conhece nenhuma Naiara, eu e minha mãe tentamos pará-lo mas não adiantou, ele tinha comprado a passagem já, deve ter embarcado esse horário, tentei te ligar antes mas seu celular estava desligado... ele está com algum problema Naiara? Vocês brigaram? Depois da morte da sua mãe sei que tudo ficou uma bagunça, mas negar que tem uma filha... – Eu não entendia o que escutava do outro lado da linha, meu pai foi pro Rio de Janeiro...logo associei isso ao portador, ele certamente modificou as lembranças do meu pai, isso não era totalmente afirmativo, mas não imaginava meu pai me abandonando, não após minha mãe ser assassinada!
— Eu vou tentar falar com ele, obrigado por avisar! – Sem demandas, desliguei o celular e olhei para Marco, o celular estava no viva voz, ele havia ouvido tudo. Liguei para o meu pai mas ninguém atendia.
— Então o maldito está agindo, ele tirou seu pai de cena, talvez para te afetar... – Nesse momento, interrompi Marco.
— Ou talvez para me ajudar. Marco, pense bem, meu pai correria muito perigo aqui, todos os portadores restantes querem minha cabeça, eles iriam usá-lo pra me deixar mal, ele ir pro Rio de Janeiro foi um grande alívio pra mim, por mais que ele não se lembre que sou sua filha ou que existo, eu aguento isso sabendo que ele estará seguro... Marco, será que realmente temos um aliado agora? – A ideia de que alguém estava me ajudando me deixou um pouco animada, se eu tivesse um portador do meu lado, essas lutas iriam ser mais fáceis.
— Não podemos pensar assim! – Marco parecia nervoso ao olhar diretamente em meus olhos. – Não tem como um portador ser nosso aliado... – Marco falava isso mas, claramente, estava em dúvida internamente, mas é fato que era difícil alguém se aliar a mim, ainda mais sabendo que estando ao meu lado o mundo será destruído.
— Tem alguém apertando a campainha, Marco, você chamou alguém? – No momento em que ouvi o barulho da campainha, senti uma sensação ruim naquele mesmo instante, parecia que algo perfurava meu coração.
— Eu não chamei ninguém, mas deve ser dos correios, eu comprei munição... estava com medo de ir em alguma loja daqui, precisamos disso. – Marco estava me surpreendendo a cada dia que passava, nunca esperava que ele comprasse munição para seu revólver, ele se levantou rapidamente e foi atender a porta, eu esperei sentada na cama, onde estava, e segundos depois, ouvi uma gritaria vindo da entrada, me preparei para o pior, peguei a arma de Marco que estava na gaveta do seu criado mudo e lentamente, me esgueirei até a sala de estar, olhei de canto enquanto me escondia atrás da parede do corredor, dois policiais estavam algemando Marco enquanto ele gritava sem entender, eu escondi a arma em minha cintura, cobri com a camisa e fui até o rapaz, mesmo aquilo podendo ser uma armadilha.
— O que houve!? – Eu estava certamente assustada, poderia ser mais uma armação do portador, mas não imagino ele fazendo isso depois dos acontecimentos durante esses dois dias.
— Está segura agora Naiara, pode ficar tranquila. – Um dos policiais falou isso enquanto o outro levava Marco para dentro de uma viatura estacionada na esquina de sua casa.
— Segura? Como assim? Por que levaram Marco? – Perguntei.
— Não precisa mais ter medo ou fingir, ele não te fará nada, recebemos oito denúncias de que ele estava te estuprando e ameaçando para ficar calada, alguns vizinhos aqui chegaram a pedir por favor pois não aguentavam mais ouvir você gritando e pedindo ajuda, eles tinham medo de Marco, mas agora você pode relaxar, esse canalha vai ter a dele. – Eu comecei a rir naquele momento, de alguma maneira, só podia rir, o policial olhou para mim achando que eu estava em choque, o outro policial voltou para a casa e entrou no quarto de Marco, eu ainda tentava raciocinar aquilo, certamente foi algo feito pelo portador que mudava as lembranças das pessoas, ele havia incriminado Marco para me deixar sozinha, ele estava tirando todos do meu lado, meu pai, Heitor, Marco, eu não entendia o que ele queria, ele poderia chegar até mim com outros métodos.
— Obrigada... eu não me sinto bem, preciso ir pra casa, posso prestar a queixa mais tarde, é sério, eu passei por mal bocados... – Me senti um monstro por mentir e incriminar mais ainda Marco, mas eu não tinha nada para fazer, eles estavam com as lembranças alteradas, não havia como eu negar o que eles ouviram de oito pessoas, eu tinha que entrar na dança do portador.
O policial concordou e disse que daria duas horas para que eu pudesse descansar, não cheguei a falar ou nem olhar para Marco que gritava dentro da viatura, eu achei melhor assim no fundo, ele estava se arriscando por mim e não queria isso, antes, achei que poderia usá-lo e depender dele e de Heitor, mas não quero isso, eu cometi muitos pecados irremediáveis já, preciso ao menos ser um pouco humana, quero ao menos proteger as pessoas preciosas para mim, pois até eu terminar isso, sei que perderei tudo.
Ao chegar em meu apartamento me deitei na cama e olhei fixamente para o teto branco, eu estava exausta, não havia como lutar mais, não com tantas pessoas ao redor, não envolvendo quem eu amo, eu estava acabada e se eu não vencesse não teria mais nada, mesmo que Vitor estivesse curado totalmente, o que iria me restar? Eu poderia ser feliz com ele, mas veria o mundo todo devastado, não me esqueceria de nenhuma das pessoas que matei, Heitor e Marco estariam ferrados, minha mãe ainda estaria morta, por que eu continuo isso? Eu não entendo mesmo, não entendo por que ainda almejo a vitória, sendo que não há nada para ganhar! Comecei a chorar e a quebrar tudo em meu quarto, a tv, meu aparelho de som, rasguei meus livros enquanto gritava e chorava, arranhei todo meu corpo insultando Deus, Lúcifer e todos esses seres malditos, eu estava louca já, eu sabia disso, gostava de ver sangue, gostava de matar, então agora eu não podia mais parar, não é mesmo? EU não quero mais parar, quero continuar até o fim, até vencer todos, eu vou eliminar esses lixos, o que eu estive fazendo até agora? Eu queria destruir o mundo? Marco, Heitor, mãe, pai... eu matei todos eles, não matei? Eu olhei para meu espelho e comecei a soca-lo até minhas mãos sangrarem, eu virei um monstro e queria sair daquela pele, queria voltar aos meus dias normais, eu devia ter me matado naquele dia, se eu tivesse feito isso minha mãe ainda estaria viva, meu pai ainda estaria aqui, Vitor não teria que passar por tantos problemas, esse mundo já acabou a muito tempo, então eu vou enterrar tudo que ainda há nele para que ninguém se machuque.
— Me desculpe Marco, pai, mãe, Heitor...Vitor, eu vou fazer isso, eu vou vencer e viver com vocês novamente. – Saí de casa levando a arma de Marco comigo, eu caminhava bufando e olhando apenas para minha frente, minha mão ainda sangrava, deixei uma trilha de sangue na calçada, eu estava indo até o hospital onde Vitor estava, foda-se Marco, foda-se Heitor, foda-se tudo, eu apenas quero lutar sozinha e ter o meu desejo realizado, é... isso mesmo, meu desejo não é curar Vitor, eu havia mudado meu desejo, eu pensei em algo e agora nada poderia me parar, era uma escolha arriscada mas o que eu tinha a perder? Eu venceria, custe o que custasse. Entrei no hospital, me identifiquei na recepção, e ao entrar no quarto de Vitor, ele me olhou com aqueles mesmos olhos serenos e aqueles tubos enfiados em suas narinas, aquilo me matava, me dilacerava, eu não queria mais ver isso, o sofrimento da pessoa que eu mais amo.
— Você demorou Nai, pensei que tinha fugido, eu te pedi pra fugir, não? – Vitor não teve suas lembranças apagadas, eu esqueci desse fato, ele sabia da minha situação, mas mesmo assim, segurou minha mão com toda força que ainda lhe restava.
— Eu não vou fugir nunca, Vitor, lembra do que você me disse? Que eu devia acreditar nas pessoas, em mim mesma, e agora decidi acreditar em mim e fazer o que acho certo Vitor, eu vou vencer, eu prometo. Você poderia me esperar meu amor? – Comecei a chorar enquanto olhava nos olhos de Vitor pela última vez, ele parecia não entender, mas ainda assim me compreendia.
— Sei que não fugirá, você se tornou mais forte do que eu imaginei, Naiara. – Antes de ouvir mais qualquer coisa de Vitor, peguei a almofada de sua cama e comecei a sufoca-lo, eu a pressionei contra o rosto do rapaz o afundando contra a cama, ele nem tinha forças para se rebater ou tentar dizer algo, eu me segurei para não chorar nem gritar, e em poucos minutos, Vitor estava morto, a porta ainda continuava fechada, eu me levantei e comecei a chorar enquanto olhava para o corpo de Vitor sem piscar, eu fiz o que eu devia fazer, fiz o que achava correto, quando eu vencesse, eu iria pedir para que todos que morreram nesses 90 dias voltassem a vida saudáveis, isso ajudaria Vitor, Heitor, minha mãe e todos que eu matei, era a única coisa que eu poderia fazer, era vencer ou vencer agora, mesmo que meu coração estivesse em pedaços, eu abandonei tudo, joguei fora meus sentimentos, matei meu único amor, agora só precisava me focar em algo, matar os miseráveis que restaram. Saí rapidamente do hospital sem dizer nada para as enfermeiras ou na recepção, eu seria procurada por assassinato, mas foda-se, eu venceria todos, os portadores, Lúcifer, a polícia, ninguém iria me parar, eu tinha algo como vantagem, eu sabia disso, quando cruzei a rua do hospital, alguém apareceu na minha frente, alguém que eu conhecia muito bem.
— Vejo que você fez isso mesmo, hein. – Aquela pessoa... era Lúcifer.
— Você! – Eu queria mata-lo, queria esfolá-lo, mas eu mal podia me mover, estava como pedra na frente dele.
— Deve ter sido difícil matar ele, mas sabe, você está perdida mesmo, só que queria te dar um pequeno aviso. – Lúcifer fez uma pausa enquanto sorria discretamente. – Não há como reviver as pessoas que morreram nessa linha do tempo, caso você deseje isso ao vencer, sinto em lhe dizer, Naiara.
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