Lapso Paradoxal
25 Capítulo 24 - Repetição
Acordei e estava sentada em uma cadeira amarrada, aquela era uma cena clichê que havia se repetido, Elias havia me capturado (tudo bem que propositalmente) e me colocado em uma cadeira, ele me deu vários socos e me maltratou verbalmente com o intuito de saber a localização da chave, e agora, em minha frente, em uma sala toda branca e fechada, sem nada em volta, apenas paredes, Marco se encontrava com um martelo em suas mãos, ele me olhava quase que sem piscar, estava esperando que eu despertasse, a pancada com o cano da arma em minha cabeça foi tão forte que ela latejava, além do galo que ficou no local, em uma dessas eu poderia até morrer, sei que a vida real não funciona igual nos filmes de hollywood, mas no momento eu queria que acontecesse um daqueles momentos em que o protagonista acorda assustado de um pesadelo, porém, a dor que eu sentia naquele instante me fazia perceber que aquela era a merda da realidade distorcida e corrompida.
— Você foi pego? Mas como!? Marco, acorde! – Não adiantava eu falar, eu sei, quem está preso nesse poder da Lucia não pode acordar do transe até a ordem ser cumprida, foi o que disse Heitor, se isso estivesse certo, me pergunto, qual seria a ordem de Marco?
— Onde está a chave? – Ele não fez nada, apenas me perguntou com uma voz seca, seus olhos pareciam de alguém sem vida, ele não movia um músculo do corpo. Eu me lembrei que ele havia atirado em Heitor e em Guilherme...provavelmente estavam mortos, mas no momento, me lembrei de outra coisa.
— Minha mãe! O que aconteceu com ela? Aquilo que me disse era verdade? – Comecei a lacrimejar e ficar em desespero, eu rezava para que Marco tivesse mentido só para me pegar de guarda baixa, tinha que ser aquilo.
— Sua mãe está morta mesmo, ela foi morta pelo seu pai. – Que piada era aquela? Como assim? Lucia não podia ter conseguido entrar na casa dos meus pais, os policiais estavam usando protetores no ouvido, não tem como! Eu negava aquilo com todas as minhas forças, mais importante, como Marco saiu do hospital? Ele também estava sendo protegido por policiais.
— Como você saiu do hospital? Isso é insano. – Marco parecia um robô na minha frente, ele apenas respondia friamente minhas perguntas, eu tentava enrolar para ser salva por sei lá quem, não sabia onde estava, mas no momento eu me via sem alternativas se não ganhar tempo.
— Eu apenas saí pela porta.
— Heitor está morto?
— Ele está do outro lado dessa porta, uma enfermeira do hospital está tratando dos ferimentos dele. – O que? Marco havia pegado Heitor e uma enfermeira e trazido para cá?
— Por que trouxe eles?
— Eu quero a chave, só pedirei mais essa vez. – Aquele definitivamente não era Marco, ele começou a bater a ponta do martelo na palma de sua mão esquerda, ele pretendia mesmo me torturar.
— Marco, acorde, você está sendo controlado, não percebe!? – Gritei com todas as minhas forças, esperava que alguém pudesse me ouvir, havia mesmo uma enfermeira tratando de Heitor do outro lado daquela porta a poucos metros da minha cadeira? Eu não ouvia som algum fora daquele local, havia uma janela bem no alto do lado esquerdo daquela sala, era uma janela pequena semi aberta, eu não podia fugir por lá, fora isso, havia só a porta da frente, minhas mãos estavam bem amarradas atrás da cadeira, meus pés estavam livres, mas com Marco ali, eu não poderia fazer nada.
— Eu quero a chave droga! – Marco movimentou o martelo em sua mão e o bateu contra meu ombro direito, a dor foi tão forte que soltei um urro sem pensar.
— Será que você se lembra... daquelas coisas que me disse naquela sexta-feira, Marco?
2 Anos Atrás
— Sério, eu não sou uma criança! Nem Vitor me trata assim, eu tive câncer, TIVE, eu estou curada, você não precisava ir buscar os lanches pra mim Marco, eu sei andar, estou bem. – Naquela época, eu ainda era uma tola. Sabia de tudo, mas fingia não saber nada. Estava com Marco em uma lanchonete, estávamos comemorando a promoção do emprego do mesmo, aquela era a lanchonete que íamos sempre, era meio que uma rotina, toda sexta-feira, irmos até lá pra falarmos mal das pessoas, bebermos e reclamarmos da vida, mas naquele dia, em especial, Marco parecia estranho e com um sorriso bobo em seu rosto.
— No fundo você ainda é uma bebê Naiara, se suja comendo. – Olhei nervosa para Marco que sorriu mas virando seu rosto desviando o olhar, percebi aquilo e fiquei sem entender.
— Marco, você está agindo estranho hoje, aconteceu alguma coisa? Digo, sei que está feliz e tal, mas além disso... – Marco olhou em meus olhos como se quisesse dizer ‘você é boa’.
— Muitas coisas vêm acontecendo recentemente. Eu não sei como lidar, na verdade, eu sei mas não quero, porque isso pode tornar o mundo em um caos.
— Marco, você foi promovido, eu te invejo, muitos te invejam, o que poderia ser o caos? Sei que agora tem mais responsabilidades, mas vai se acostumar!
— Acha que o trabalho é o que mais me preocupa? Eu não me importo com isso, me esforço lá, mas nunca fiquei mal nem nada do tipo, há outra coisa que eu queria, além de uma promoção, muito dinheiro ou vida eterna. – Naquele momento, comecei a suar frio. Os olhos de Marco parecia querer me dizer algo que eu já tinha a resposta.
— O que é que mais te preocupa, Marco? – Eu sabia que não devia perguntar aquilo, mas a minha curiosidade era mais forte, o meu desejo de ouvir me fazia tomar a direção errada.
— O fato de que eu estou em um beco sem saída. Naiara, você já quis algo e sentiu que nunca podia ter, por mais que no fundo, estivesse tão perto de ti? Sabe, eu posso até tocar, posso sentir que às vezes, posso realizar essa utopia, mas no fundo sei que são vagas ilusões. – Meu coração palpitou, eu mal consegui continuar comendo as batatas.
— Pare de ser dramático Marco, o que aconteceu pra dizer isso? Qual o seu desejo? – Depois daquelas palavras, não havia mais volta.
— Estou olhando pra ele, Naiara. – Eu não pude dizer nada, nem expressei surpresa, aquelas palavras não haviam sido captadas com toda coesão por minha pessoa, podia ser que eu havia confundido... podia ser que eu seja bem tola. Antes de eu dizer algo, Marco se levantou e deixou cinquenta reais para pagar a conta em cima da mesa, ele saiu sem nem olhar para mim, e depois disso, só fomos nos falar 1 mês depois, mas nada voltou a ser como era antes.
— Quero a chave, Naiara? – O próximo golpe de Marco foi no meu joelho, se ele tivesse colocado mais força, ele estaria quebrado agora.
— Vai se foder! Você não é o Marco. – Cuspi inconscientemente no rosto daquele na minha frente que, certamente, não era o Marco que eu conhecia. Se bem me lembro, Lúcifer disse que o controle desse portador do Domínio Total só duraria 7 horas ou até o usuário cumprir o que foi prometido... então é isso! Quando pensei em algo que poderia funcionar, acabei de me lembrar uma coisa: Marco não era bom em dar nós, ele nunca foi, sempre apanhava para amarrar seu tênis, eu comecei a forçar minhas mãos sobre a corda que me prendia, e foi como pensei, se eu colocasse mais esforço, iria me libertar dali.
— Não precisa disso. – Marco ainda parecia um androide em minha frente, totalmente sem sentimentos, sem compaixão, ele deu a próxima martelada em meu pescoço, aquilo doeu mais do que eu pensei que doeria, até cheguei a ficar sem fôlego, mas não o suficiente para parar de forçar a corda que começava a se afrouxar.
— Você disse aquelas palavras pra mim, acho que diria novamente, não é? E agora me tortura com um martelo? Marco, isso é o limite da bipolaridade. – Eu finalmente estava livre, consegui soltar as cordas de minha mão, mas não podia mostrar para Marco que já estava solta, precisava esperar uma brecha do mesmo para lhe golpear, era o único jeito, o rapaz era forte, eu sabia que em uma luta eu perderia, portanto, tinha de jogar sujo.
— Não sei do que está falando. – Eu parei de me mexer na cadeira e fiquei quieta, Marco olhava para mim como se eu fosse uma pedra, eu teria que tomar aquele martelo de sua mão, mas como?
— Marco, quem abriu a porta? – Eu usei um truque clichê e infantil, Marco olhou para trás, e nesses breves segundos, voei em seu corpo e peguei o seu martelo derrubando-o no chão, felizmente, eu também era forte.
— Sua... – Ele olhou com raiva para mim, não sei como ele estava sendo controlado nem se podia expressar tais sentimentos, mas agora era minha chance.
— Eu sinto muito Marco, queria que não doesse, mas vai doer. – Eu bati com o martelo contra sua cabeça, do lado direito, Marco ficou tropicando no chão e cambaleando, foi quando, sem piedade, dei mais uma batida com o martelo no mesmo lugar. Marco caiu no chão desacordado, e eu, me sentindo mal por isso. Ouvi algo vindo do outro lado da porta, quando peguei o martelo em posição para atacar, Heitor apareceu em minha frente, sua expressão era de dor, atrás dele havia um mulher loura com longos cabelos, uma pele delicada, olhos claros e vestimento branco.
— Nai! Você tá bem? – Heitor, andando manquitolando, se aproximou, juntamente da mulher que parecia ter os olhos lacrimejando.
— Eu tive que desacordar ele, espero que esteja bem... – Olhei para o corpo de Heitor e vi que seu abdômen estava todo enfaixado. – Mas quero saber de você, acabou de tomar um tiro!
— Eu estou bem, a dor é forte mas consigo andar, a Cristina ali falou que não pegou nenhum órgão, a bala atravessou, graças a ela consigo ficar em pé. – A moça começou a me olhar com um ar de dúvida.
— Por que ele trouxe vocês aqui? Aliás, por que ele deixou você vivo?
— Você quer dizer ‘ela’ não? Eu queria saber também, acho que ela pretendia me usar, caso você não falasse a localização da chave. – Heitor pegou o pedaço de corda que estava anteriormente me amarrando e prendeu as mãos de Marco, ainda desacordado, contra suas costas.
— Sim, aquela vadia...de qualquer forma, você não sabe onde está a chave também, então ela iria cair do cavalo. – Ao falar isso, olhei para a enfermeira, ela não disse nada até o momento, parecia não entender patavinas do que estava acontecendo.
— Gente, não conheço vocês e não sei o que tá havendo, mas quero sair daqui! – Ela começou a tremular seus lábios e a chorar.
— Cara, lá no hospital foi uma merda, meu tio... – Heitor olhou para baixo cerrando os pulsos.
— Eu sinto muito... e pensar que Marco seria controlado! Foi naquela vez que ele pegou o celular pra falar com ela, ainda em Poços de Calda, eu deveria ter me lembrado disso!
— Mas quer dizer então que essa puta consegue dar ordens que acontecerão horas ou até mesmo dias depois! Ela pode, por exemplo, pedir pra que eu mate você depois de amanhã, no caso, eu faria isso, mas antes, agiria como eu mesmo até o momento da execução. – Heitor respirou fundo e olhou em meus olhos. – Parece que subestimamos ela, Nai. – Ele estava certo, Lucia era mais formidável do que qualquer outro oponente que enfrentamos agora, diante disso, ao olhar para o rosto de Heitor, percebi um ponto vermelho em sua testa, e antes que eu pudesse me virar e olhar para aquela pequena janela daquela sala fechada, uma voz se ecoou, vindo de fora.
— NINGUÉM SE MEXE OU EU MATO O MOLEQUE! – Virei meus olhos lentamente para a janela e pude ver a figura de um homem segurando um rifle quase que todo contorcido para poder mirar por aquele pequeno espaço.
— Eu estou sob a mira de um sniper, nada melhor poderia acontecer. – Heitor olhou para o homem que parecia sério, ele usava um boné e uma jaqueta de couro.
— Se você matar ele, nunca direi onde está a chave! – Eu disse gritando.
— Chave? Que porra de chave você tá falando? Eu só vim vingar a morte da minha filha! – Droga, então ele não estava sendo controlado por Lucia? Ele devia ser o pai da menina que morreu no hospital, se era assim...
— Se quer isso, está mirando na pessoa errada, eu sei quem fez isso com sua filha, e garanto que não foi nenhum de nós aqui! – Antes que ele pudesse me responder, vi sangue ser jorrado sobre os vidros da pequena janela em que olhávamos, em seguida, ouvimos o corpo do homem caindo do outro lado, e quando me dei conta, 4 homens entraram naquela sala, todos eles usando facas de cozinha, visando somente a mim com olhos enfurecidos e irracionais.
— Parece que chegamos em um estágio onde esperamos por outro milagre, Nai. – Naquele momento senti que lutar era o único caminho.
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