Lapso Paradoxal

23 Capítulo 22 - Declaração de Guerra


Depois de tomar um banho merecido, me estiquei naquela cama dura mas ao mesmo tempo confortável de um hotel nada luxuoso em Poços de Calda, o frescor do ar condicionado me fazia relaxar ao ouvir seu som percorrendo pelo quarto, olhava para o teto branco de massa corrida, eu não podia exigir muito naquele momento, havia tirado todo sangue do meu corpo, mas as cicatrizes em minha mente jamais desapareceriam, vários corpos foram juntados formando uma pirâmide que ia até o céu, meu objetivo ainda continuava o mesmo, a cada segundo que se passava sentia cada vez mais falta de Vitor, que aliás, me preocupava, pois Lucia, a portadora do ‘Domínio Total’ estava naquele hospital e podia mata-lo a qualquer instante, no caso, se Vitor morresse, contanto que eu vencesse esse jogo, poderia pedir para revivê-lo saudável, mas não sei se isso seria possível, talvez não seja como Dragon Ball e as esferas do Dragão, eu devia ter perguntado isso a Lúcifer, queria tanto poder falar com ele, entender o porquê desse maldito survival game, o quanto mais de sangue eu teria que derramar para ser o suficiente? Minha sanidade se foi e aceitei essa despedida, vivia apenas por um ideal e para proteger meus preciosos amigos, eles, que em questão, já estavam envolvidos até a alma nisso, sabia que não tinha como fugir, agora que Lourenço, Carlos e Elias estão mortos, faltavam mais 7 habilidades, mais 7 portadores, e não importava quantas vezes eu lesse aquele bloco de notas, todas elas pareciam bem mais difíceis de se lidar quanto essas que enfrentamos até agora, mas se eu venci três monstros, três pessoas com super poderes, pensei que eu tinha chance, foi quando Marco entrou em meu quarto sem nem bater.

— Pensei que estivesse acordada. – Disse ele enquanto se sentava na cama, seu cabelo estava molhado, ele cheirava a sabonete de hotel.

— E eu pensei que você fosse mais educado ao ponto de bater.

— Somos as únicas pessoas nesse hotel, Naiara, Guilherme fez questão de falar na portaria pra dizer que estão fechados, mas mesmo assim, acho que seria melhor você começar a trancar as portas, nunca se sabe quando um portador pode aparecer.

— Por quê? Você vai me molestar enquanto eu durmo?

— Eu imagino qual a visão que você tem de mim. – Marcos sorriu, era raro atualmente ver alguém de nós sorrindo assim, despreocupadamente, mas eu sabia que aquele momento pacato não duraria nem 10 minutos. Guilherme era policial e tio de Heitor, este havia pedido ajuda daquele para nos ajudar, na verdade, para me ajudar, e se não fosse ele, eu provavelmente estaria morta agora, Heitor me salvou de novo, ele tinha essa capacidade fantástica de resolver as coisas facilmente e pensar com estratégia, mas se ele tinha um parente policial que pudesse ajudar, acho que ele devia ter feito isso antes! Guilherme nos pagou alguns quartos no hotel, ele levou até à mídia a informação de que haviam vários maníacos nos perseguindo na cidade por temos ganhado um prêmio da loteria, mas é claro que isso não convenceria nem 70% dos expectadores, mas com a policial afirmando, acho que a credibilidade aumentaria, Guilherme trabalhava em Belo Horizonte, ele era Sargento da polícia de um batalhão designado na zona oeste da capital mineira, ele veio até Poços de Calda quando Heitor pediu horas atrás, o mesmo explicou TUDO para seu tio, isso sem a minha permissão, mas o homem pareceu acreditar, por incrível que pareça, e agora, estava lá, nos ajudando, o que eu achava ainda mais perturbador, visto que no lugar dele eu teria ‘nos prendido’. A polícia de Poços de Calda confiou em Guilherme, o mesmo disse que saímos de Americana por ameaças de Elias, mas que o mesmo nos perseguiu até aqui contratando algumas pessoas para trabalhar para ele e pegar nosso ‘prêmio’, em tese isso não era mentira, tirando o fato de que Elias estava controlando literalmente eles, e o prêmio, era a chave, o que poderia valer mais que todos os prêmios da loteria que saíram até agora. A mídia não sabia onde estávamos, muito menos a polícia, Guilherme disse que iria nos proteger, Heitor disse que ele não precisa nada em troca, e isso me fazia desconfiar bastante.

— Acha mesmo que Guilherme vai nos ajudar? – Perguntei me levantando sentindo uma forte dor na costela quebrada.

— Ele parece dizer a verdade, sabe, eu também não acredito muito, mas ele não parece uma má pessoa. – Marcos comia uma barra de cereal enquanto olhava para a parede em sua frente, sem piscar, ele parecia não saber que rumo tomar a partir dali.

— Voltar pra Americana é o mais sensato, creio eu.

— Já discutimos isso Naiara, eu não concordo com esse seu plano, pode dar muito errado. – Marcos era sempre tão pessimista. Eu havia criado um plano um tanto suicida, voltaríamos para Americana com Guilherme, ele convenceria a polícia da cidade que estamos sendo alvo de alguns malucos em um fórum virtual, um grupo que fez um jogo de ‘caça’, um jogo cujo qual um homem dá uma chave a uma pessoa, se essa pessoa aceitar essa chave, 10 outras pessoas terão que ir atrás dela pegar essa chave, a primeira pessoa que pegasse essa chave ganharia um ótimo prêmio, vou contar que aceitei a chave mas que logo a joguei fora, mas que os malucos continuam a me perseguir, pois todos eles só querem ganhar esse jogo doentio. Não estava mentindo completamente, portanto não seria difícil explicar tudo isso aos policiais e aos jornalistas, nós ficaríamos com proteção da polícia, os portadores teriam que usar seus ‘truques’ para nos atacar, mas ao menos a polícia não iria atrás da gente, porque lutar contra os portadores e a polícia era algo que eu não podia enfrentar, mesmo com um exército.

— Sabe, devíamos ter feito isso desde o começo, digo, pedir ajuda da polícia, eles não têm porque nos prender nem nada, Naiara, sei que aconteceu as merdas lá em Americana e tals, e sei também que você QUER essa chave, quer curar Vitor, mas não acha que é hora de visarmos nossa segurança? Nós quase morremos! – Marco estava mais do que correto, era hora de parar e visar nossa segurança, mas como eu conseguiria?

— Eu disse pra vocês se esconderem, eu até dou o dinheiro, não precisam me ajudar, aliás, isso é o que quero, não quero vê-los morrendo, essa guerra é minha, então eu vou lutar sozinha. – Eu dizia isso mas sentia necessidade da ajuda deles, mas não queria ser egoísta ao ponto de implorar por isso, eu quero mesmo que eles fiquem bem.

— Não vou a lugar algum, não depois de tudo, eu e Heitor estamos envolvidos, os portadores iriam vir atrás da gente, de um jeito ou de outro, e nós três juntos somos mais fortes, então é melhor não se separar.

— Ou seja, faz isso por sua própria segurança também?

— Mas é claro, eu não tenho mais escolha, mas ao mesmo tempo quero te ajudar Naiara, pois vi como esses lunáticos são, esse Lúcifer escolheu os piores tipos de pessoas pra isso.

— Nós vamos vencer Marco, vamos pra Americana acabar com eles, aposto que a maioria está por lá, mas nossa prioridade agora é aquela vadia.

— Acha que ela vai ser complicada?

— O poder dela parece inferior ao de Elias, mas ela, diferente dele, pode controlar vários ao mesmo tempo, ela não fica no corpo deles como Elias, ela dá um comando, eles vão e fazem, isso por um determinado tempo, creio eu. Parando pra pensar, ela parece um oponente bem mais difícil que Elias, e mais inteligente também. – Senti a preocupação de Marco estampada em sua cara, eu também estava com medo, por todos nós e por Vitor, mas iria acabar com a raça daquela maldita, eu não iria perder agora.

— Acho que vocês estavam falando de mim, minha orelha tá coçando aqui. – Heitor entrou no quarto carregando meu notebook aberto em suas mãos.

— É tão bom ter um hotel só pra gente, eu me sinto como algum tipo de diplomata famoso. – Disse Marcos jogando o papel do seu cereal de barra no lixo do meu quarto.

— E desde quando diplomatas não são famosos? – Heitor se sentou na cama com o notebook em seu colo. – Bem, está feito. – Heitor abriu um link e nos mostrou, com a ajuda do seu tio, ele havia conseguido entrar naquele fórum falado por Elias, agora que EU sabia qual era a senha, podíamos entrar lá, havia só um membro online, seu ‘nick’ era Ragnaros, não sabia se era homem ou mulher, mas pouco me importava com aqueles portadores, era perigoso se envolver demais pois eles poderiam descobrir minha localização se souberem que eu era a ‘IceQueen’ que entrou no fórum, aliás, Heitor não tinha criatividade alguma pra criar user names.

— Eu já fiz toda montagem, usei essa plataforma do chat, tirei uns prints e fiz como se os usuários estivessem conversando entre si, bolando planos para nos pegar enquanto um desafiava o outro para ver quem conseguia a chave primeiro. – Heitor clicou no nome de Ragnaros, eu olhei para ele brava. – O que foi? Não podemos nem trocar um papinho com esse? – O meu plano também incluía pegar as conversas desse fórum, ‘forjá-las’ e passa-las na mídia, para que todos entendessem o porquê de sermos caçados. A polícia iria trabalhar pra hackear os locais de hospedagem dos ips das outras máquinas que logariam nesse fórum, era questão de tempo, mas eu sabia que os portadores não se entregariam à polícia.

— Tudo que temos que fazer agora é voltar pra Americana, mas antes disso, a declaração de guerra. – Olhei para Heitor e Marco, eles não pareciam nada confiantes com ‘isso’.

— Tem certeza? Vitor pode correr grande perigo com isso, não só ele mas outras pessoas do hospital. – Marco como sempre com seu conservadorismo barato. Eu não tinha escolha, se eu não entregasse a chave para Lucia, ela mataria Vitor, mas se eu entregar a chave, Vitor também morre, então ele morreria de todo jeito, ao menos que eu fizesse isso que pensei, e Guilherme havia concordado em me ajudar.

— Meu tio não é Deus sabe, ele está tendo mo trabalho pra fazer isso. – Heitor parecia pessimista com os resultados do meu plano para tirar Vitor do hospital. Antes de alguém falar mais alguma coisa, Guilherme entrou no quarto, ainda trajando sua farda, acho que naquela situação, aquilo dava mais segurança para ele. No dia anterior havíamos discutido tudo, as coisas que passamos até agora, toda insanidade ocorrente, ele no começo não levou a sério, mas visto que haviam três testemunhas incluindo seu sobrinho, ele não teve chance se não crer em nossos relatos, ele também pensava que a chave na mão de algum portador acarretaria na destruição mundial, e assim, ele era mais uma pessoa enganada por mim.

— Eu consegui, Naiara, a ‘operação’ vai ocorrer hoje às 18:00, chegaremos em Americana 17:50. – Eu havia me arrepiado com as palavras de Guilherme, senti o alivio mais bombástico de anos tomar conta do meu corpo, sentia que agora eu podia ficar menos tensa, se esse plano desse certo seria só encontrar Lucia e por uma bala em sua cabeça, bom, eu sei que não seria fácil assim, mas com Vitor seguro, eu iria dilacera-la.

Horas depois deixamos aquele hotel barato mas reconfortante para minha alma e aquela cidade que pretendia nunca mais voltar, todas as mortes foram encobertas momentaneamente pela mídia e a polícia, mas assim como a de Lourenço em Americana e o sumiço dos corpos em Limeira, era só questão de tempo até tudo vir à tona. Estávamos na viatura de Guilherme, andar em um carro de polícia não era das melhores sensações, mas de uma forma psicológica, me sentia tranquila ali, por mais que um policial não pudesse nos proteger dos poderes dos portadores.

— Então, Vitor vai sair disfarçado de enfermeiro e um enfermeiro ficará no lugar dele, certo? Isso com várias pessoas ao redor quando Vitor sair, o que confundirá Lucia, ela vai pensar que Vitor teve alguma complicação, e logo depois, é claro, pedirá pra entrar no quarto e ver o rapaz, ela provavelmente pode controlar a recepcionista a hora que quisesse, ver Vitor era o de menos, e depois que Vitor estiver fora do hospital, a polícia ficará atenta, se Lucia entrar em seu quarto, ‘nossas suspeitas’ se concretizarão e a polícia vai ter que leva-la até a delegacia, mas é claro que isso vai dar merda! – Marco começou seu discurso narrativo de maneira calma, mas terminou gritando olhando para mim que estava sentada ao seu lado no banco de trás.

— Filho, você está subestimando a polícia. Ela é uma garota só, pelo que a Naiara disse, não deve ter mais de 30 anos, então não vejo porque temer. – Disse Guilherme enquanto dirigia olhando para a pista.

— Não vê o que temer? Quem sabe pelo fato dela poder controlar qualquer um com sua voz, se ela falar pros policiais se matarem, eles vão se matar!

— Marco, meu tio sabia disso, é claro que os policias de lá não vão acreditar em algo assim, mas meu tio disse que ela tinha algum dispositivo que poderia prejudicar os tímpanos dos policiais, por isso ele aconselhou aos mesmos, quando entrarem no quarto, irem com os ouvidos tampados, não importa o que ela dizer, vai estar presa, pois esse é o único poder dela, e sem sua voz, não lhe resta mais nada. – Heitor sorriu e olhou para seu tio, aquilo tudo era perfeito, perfeito demais para dar certo, é claro que era um bom plano, mas eu já subestimei demais os portadores.

Alguns minutos se passaram, e enfim, estávamos na entrada de Americana, faltavam 12 minutos para o início da operação para tirar Vitor do hospital, no total, haviam 3 enfermeiros e 4 policiais trabalhando nisso, Guilherme era mesmo alguém de respeito por ter conseguido isso tão rápido.

— Agora é só esperar. Você prometeu que daria a chave para ela até meia noite, não é? Até agora ela não ligou, não acha isso estranho Naiara? – Marco olhava pelo vidro de trás da viatura, estávamos parados a alguns metros do hospital, meu coração acelerado temia pela vida de Vitor.

— Realmente, ela devia ter ligado, faltam poucas horas pro fim do prazo... – Eu suava frio e queria poder sair daquela viatura e ir de encontro à Vitor, eu estava com saudade, precisava dele, pretendia ficar longe do mesmo até essa disputa terminar e eu salvá-lo, mas agora lá estava eu, de volta ao ponto inicial, queria vê-lo mais do que tudo. O telefone de Guilherme havia tocado naquele momento.

— Alô? Já? E como foi? Então vocês a pegaram? Ótimo! Estamos a caminho. – Guilherme colocou a chave na ignição e pisou no acelerador.

— Eles pegaram ela? – Heitor parecia surpreso.

— Sim, pelo que falaram. Viu Marco, você devia confiar mais na polícia. – Eu comecei a chorar de alivio e me debrucei em Marco, ele me abraçou, será que havia vencido tão facilmente dessa vez? Mas o mais importante era Vitor seguro. Chegando no hospital, descemos rapidamente da viatura e corremos até a recepção do hospital onde os quatro policiais mantinham uma garota loira algemada, ela parecia ter 18 anos, e quando ouvi sua voz, foi que percebi o que aconteceu mesmo.

— Eu juro, só me pediram pra entrar no quarto e ver se o rapaz na cama era o mesmo da foto que ela me passou no celular! – Aquela não era Lucia, no momento em que fui ver o celular que o policial havia pegado da garota, um enfermeiro chegou por trás da menina com uma tesoura de cirurgia, uma bem afiada, e enfiou em seu pescoço, um pouco abaixo de sua nuca, a garota abriu sua boca, um bocado de sangue foi jorrado no chão, um dos policiais segurou a garota e o outro imobilizou o enfermeiro que não dizia nada, apenas tinha seus olhos arregalados. Meu celular havia tocado, atendi sem nem pensar.

— Sua maldita! – Gritei enquanto o eco percorreu pelo corredor do hospital.

— Você ainda tem cinco horas sua miserável, você tentou salvar o seu amorzinho, mas querida, sinto em lhe dizer, você acabou ferrando com as coisas mais ainda, agora não vai ser só ele que vai pagar, lhe darei um aviso, e isso é sério, eu quero a chave. – Lucia desligou na minha cara, e naquele momento, comecei a temer pela vida de todos que conhecia naquela cidade.