Lapso Paradoxal

20 Capítulo 19 - A Sobrevivente


“A oito anos, eu estava morta. Parei na frente da janela do hospital e comecei a sorrir, as lágrimas não caíam, eu não sei porque, eu era uma garota sensível, para uma pisciana, desabar em momentos de tristeza era mais do que natural, mas por que então, eu não deixava escorrer nenhuma lágrima? O ar condicionado daquele quarto me fazia tremer, mas eu acho que na verdade tremia de pavor, mas eu não tinha mais medo, era só o temor do desconhecido que me encarava, com 18 anos, dia 18 de maio, fui diagnosticada com câncer no ovário. Foram dois anos de tratamento, eu mal conseguia viver, passava os dias no hospital, meus pais aguentavam todo esse sofrimento comigo, não era fácil, nunca foi, mas naquele dia, eu vi que meu destino estava traçado em uma rota diferente do das pessoas comuns por aí.

— Naiara, você já está pronta? – Enquanto eu olhava fixamente no espelho do meu quarto com a luz apagada, enxergando apenas meus olhos, minha mãe me chamava para irmos até o hospital verificar como estava o meu ‘problema’. Eu sinceramente havia desistido a muito tempo, sabia que morreria cedo ou tarde, todos morrem, as pessoas podem lutar o quanto forem contra o câncer, mas no final ele sempre vence, eu só estava prolongando minha dor, é claro que eu não queria morrer, mas não por mim, por meus pais, eu não queria vê-los sofrendo, amava demais os dois, eram tudo que eu tinha, queria sobreviver por enquanto, pra que eles ficassem felizes, mas ouvir minha mãe chorar todos os dias nos cantos da casa e no banheiro, aquilo me matava mais do que o câncer, eu fiz incontáveis sessões de quimioterapia, meus pais eram ricos mas de nada adiantava, nem o dinheiro poderia me salvar, eu era conformada com meu destino, queria eu, pelo menos, antes de morrer, conhecer alguém que fizesse meu coração bater mais forte, em vinte anos eu nunca me apaixonei, queria pelo menos passar um tempo com alguém que me fizesse bem, e não foi por falta de oportunidades, claro que os garotos ao saberem da minha condição não queriam nada sério, mas vários queriam me comer, eu era bonita, desejada por muitos, mas duvido que alguém me amaria, afinal, eu não duraria muito e todos sabiam, e com isso eu não me conformava, me conformava com minha morte, mas com isso não.

— Estou indo mãe. – Fechei a porta do quarto e fomos em direção ao hospital. Chegando lá, tudo me parecia tão familiar que começava a me dar arrepios, estava acostumada com aqueles mesmos rostos, aquela enfermeira ruiva que sempre sorria pra mim, e meu médico, Doutor Rubens, ele tinha por volta de 70 anos, não podia negar que era competente, ao entrar em seu consultório, percebi sua expressão facial diferente do habitual, aquilo de alguma forma disparou meu coração, para alguém que tinha um câncer supostamente sem cura, seria normal achar que ele diria que tenho apenas alguns dias de vida, durante todos esses anos, ele sempre esteve ‘normal’, por mais que eu estivesse toda fodida, mas naquele dia, eu via em seus olhos a agitação eminente, minha mãe também se desesperou, vi os olhos dela se encherem de lágrimas, na mesa do doutor, tinha um envelope marrom escuro, e dentro dele, os resultados do meu último exame, minha mãe queria abri-lo rapidamente, ela colocou a mão sobre o mesmo, mas o doutor colocou sua mão por cima, impedindo-a.

— Senhora, estamos sem entender o que aconteceu aqui. – Minha mãe e Rubens ficaram se entreolhando, eu queria chorar, mas não podia, isso faria minha mãe desabar também, por dentro, eu já havia morrido, senti meu corpo todo se arrepiar, não queria pensar em nada, pensar em morrer, por mais que eu estivesse acostumada com essa ideia, eu ainda tinha pequenas esperanças brotando em meu peito, mas aquela situação crítica me fez ver o mundo real, não havia fuga, não havia rotas alternativas, a morte estava com a foice em minha garganta.

— Senhor... – Minha mãe falava com os lábios tremendo, Rubens pegou o envelope e o abriu, ele colocou seus óculos e analisou mais uma vez o papel em sua frente, eu não entendi o porquê, ele devia falar logo que eu estava no buraco já, droga, o que eu estava fazendo ali? Pensei comigo mesma quando ele deu o envelope primeiramente para mim.

— Veja você mesmo, Naiara. – No começo eu era leiga, não entendia muito bem todas aquelas linhas e diagramas, mas de uma coisa eu tinha certeza, quando meu câncer piorava, eu podia ver a linha vermelha em níveis mais acima, mas naquela vez, algo estava errado. Onde estava a linha vermelha?

— Não entendo, foi alguma falha? Algum erro? – Minha mãe tomou a força o exame da minha mão e constou o que havia me deixado até sem ar. Meu câncer havia desaparecido.

— Não, isso está correto, mas não tem como ser possível, a duas semanas, seu câncer estava progredindo, é claro que ele poderia regredir, como eu falei, mas depois de anos, sinceramente Naiara, pra mim era impossível, o que poderíamos fazer era estabilizar e mantê-lo na mesma faixa, mais do que isso era pedir demais, mas agora isso? Não mudamos os medicamentos, sua rotina é a mesma, então teremos que fazer um novo exame, pois garanto que isso está errado, desculpa jogar essa bomba logo pra vocês, nosso hospital pede desculpas, isso nunca aconteceu antes, mas erros vem algum dia, ainda mais com máquinas e computadores, nós pagaremos todas as taxas desse mês no hospital, não se preocupem. – É claro, eu sabia que aquilo era impossível, por um momento, senti que o mundo havia renascido, mas não me deixei iludir, não era criança e sabia que aquilo era impossível até em uma ficção barata hollywoodiana. Minha mãe começou a chorar baixinho, ela devia ter ainda alguma lasca de esperança que acabou de se espedaçar.

Uma semana depois realizei um novo exame, e três dias depois, fomos novamente buscar o resultado, minha mãe e eu estávamos preparadas para o pior, meu pai nem foi trabalhar naquele dia, mas ele não conseguiu ir conosco no hospital, ficou em casa orando, o que eu achava bem inútil. Quando pequena eu acreditava em um tipo de Deus, mas depois de todos esses anos encarando aquelas mesmas pessoas, aquela mesma aura sombria daquele hospital, percebi que Deus também era uma ficção barata. Ao me sentar na poltrona confortável do consultório que tanto amava, sorri, aceitando logo meu destino e parando de sonhar, Rubens estava com os olhos arregalados, eu via sua mão tremer, talvez eu já estivesse em minha última semana? O que me estranhava era que eu não sentia mais nada, estava tão conformada que apenas meu peito doía e eu tinha falta de ar, mas nada mais, havia me acostumado com todos aqueles sintomas, as pernas moles, tudo que me fazia querer estar morta logo.

— Senhora, eu realmente, não sei como dizer isso. – Rubens falava formalmente com minha mãe, algo que era bem anormal, nos conhecíamos a anos, ele nunca havia agido de tal forma.

— Meu Deus, fale logo! Me dê logo essa droga! – Minha mãe havia perdido a paciência, assim como eu, ela queria saber quantos dias eu tinha restando, e quando ela abriu o exame, vi seus olhos arregalarem, ela até parou de respirar, olhou para o médico nervosa.

— Isso é um tipo de piada?

— Não senhora, confirmamos isso mesmo, o exame foi feito com outra máquina para evitar outros erros. Isso que está aí, é mesmo a verdade. – Então eu estava morta já? Eu devia pular daquela janela agora mesmo, ao menos seria uma morte digna e ‘diferente’, nunca ouvi falar em um paciente terminal que pulou da janela do consultório do seu médico, eu seria famosa por algumas semanas, mas eu não conseguia nem me levantar daquele lugar, minha mãe segurou minha mão, ela estava gelada como um iceberg, que droga, ela ia sofrer mais do que eu, e não queria isso, foi quando ela me mostrou aquele papel branco e duro, eu o segurei, trêmula, e não notei a cor vermelha. Vermelho? Onde está o vermelho nesse exame? Fiquei por um minuto procurando a linha vermelha, mas eu não a encontrei. Eu não encontrei nada vermelho. Onde estava meu câncer? O que diabos era aquilo? – O médico olhou para mim com sua mão estendida, ele sorria e chorava, minha mãe começou a chorar também, eu nunca havia visto Rubens sorrindo, em todos esses anos, e sem entender, estendi minha mão para ele, e ouvi suas palavras que me fizeram ver o mundo de outra maneira: “Parabéns Naiara, você está curada.”

Enquanto eu recebia um soco na boca por minuto, amarrada em uma cadeira de madeira bem suja e bamba, Elias sorria limpando o sangue de suas mãos.

— Guria, você parece um cabra macho, tomou uns 10 socos, acho que quebrou uns três dentes, e ainda assim, não vai mesmo nem me dar uma pista da chave? Se morrer, de que adianta? – Eu aguentaria, aguentaria o quanto fosse, passei por coisas piores, eu era uma sobrevivente, não tinha porque desistir, dor? Não era nada pra mim! O problema é que com Heitor e Marco presos, não sei o que eu poderia fazer, ele não iria me matar, mas poderia, sabendo que Marco e Heitor tem ideia da localização da chave, poderia me matar e torturar os dois, um deles, por mais que gostasse de mim, iria falar, então eu tinha que pensar em alguma coisa.

— Não vai me matar, se fizer isso nunca saberá onde está a chave, só EU sei, então desista.

— Não seja teimosa Naiara, eu pensava mesmo em te torturar por semanas, ou até o fim do término do prazo, mas agora a situação mudou pro meu lado, tenho meios melhores de conseguir o que quero. – Ele estava certamente blefando, não tinha como, Marco e Heitor estavam presos....Droga! Eu entendi agora.

— Pela sua cara, deve ter percebido, não é? Acha que eu não iria controlar nenhum policial mesmo? Nenhunzinho? Pois foram dois, Nai, mandei dois deles pra minha coleção de fantoches, e agora é só trazer Marco e Heitor pra cá, matando um, você iria me dizer, antes que eu matasse o outro. – Ele já estava indo longe demais, mas não duvidava disso, se ele tem o controle de dois policiais, ele vai de alguma maneira, trazer os dois pra cá ou matar um deles com um policial, e o outro ficaria só preparado para atirar também, caso eu não fale, droga, ele nem precisa trazer os dois aqui!

— Se eu falar a localização dela, promete soltar os dois? É minha condição. – Elias me deu um chute bem forte no estômago, fiquei sem ar por alguns segundos, e logo olhei para o mesmo que me olhava com raiva.

— Acha que sou burro? Você me levaria pra algum lugar no meio do nada e aí iria esperar, esperar eles estarem salvos e então me tapear, eu sei que você é muito inteligente Naiara, mas eu já sei ler seus movimentos. – Eu pretendia fazer isso mesmo, mas o idiota não sabe que eu tenho duas chaves falsas comigo, e que a verdadeira está com o designer em Americana, o mesmo que mandei fazer as chaves falsas, eu posso muito bem entregar uma das cópias pra ele, é claro que ele iria me matar depois, mas eu tinha que ter uma garantia de liberdade, eu na verdade, precisava fugir de todo jeito, eu tinha que sobreviver, cumprir minha promessa com Vitor, a chave era o de menos agora.

— Sinceramente, acho sim, e no final, você vai se foder seu filho da puta. – Cuspi no rosto de Elias que em seguida me deu 3 tapas consecutivos no meu rosto, eu havia quebrado um dente na parte de trás do lado esquerdo da minha boca, meu rosto estava cortado com os murros que ele havia dado anteriormente, foi quando a camareira chegou na sala pequena onde estávamos com uma expressão assustada e falando baixo.

— S-senhor, tem um carro ali na frente! – Um carro? Poderia ser a polícia? Heitor e Marco? Eu rezava para que fosse isso, só a sorte mesmo poderia me salvar naquele momento, e aliás, eu não entendi o fato da camareira estar ali, mesmo sem ser controlada, o que estava acontecendo? Olhei nos olhos dela e vi o medo que impregnava em todo seu corpo, ela na certa, não estava ali porque queria.

— Como assim? Tsc, deve ser algum dos vizinhos, eu não devia ter atirado naquele babaca, eu quis chamar atenção da nossa convidada, e agora vou ter que fazer mais uns fantoches! Você viu em quantos eles estão?

— Em 2 senhor, um homem e uma mulher.

— Vai ser fácil, você fica de olho nela, se tentar alguma gracinha, já sabe, não é mesmo? – Antes de sair da sala, Elias tampou minha boca colocando uma bola de jornal velho e todo sujo dentro dela, eu quase vomitei na hora, ele fechou a porta me deixando com a camareira ali que olhava para meu rosto sem interrupções.

— Você...eu sinto muito! Tentei te matar no hotel, não é? Sabe que não era eu... eu não queria isso... mas meu filho... – Então Elias estava ameaçando o filho dela? Ela sabia que estava ‘morta’ já? Essas pessoas, elas são zumbis, quando Elias morrer, todas elas vão morrer também, elas não sabiam disso? Isso era triste, muito triste, provavelmente ela sabia, mas fazia aquilo para proteger seu filho, que supostamente, ainda estava vivo. Fiz um movimento com a cabeça para ela me desamarrar, sabia que era impossível mas, para minha surpresa, foi o que ela fez, tirou as cordas que me prendiam naquela cadeira e também o jornal da minha boca, ela chorava mas sem fazer barulho, limpava suas lágrimas com as mãos para poder enxergar, ela levou a boca até meu ouvido e sussurrou baixinho:

— Peça ajuda, eu soltei meu filho minutos atrás, quando ele estava controlando o rapaz negro, ele acha que ainda me tem sob controle, mas eu vou dar um fim nisso, eu vou mata-lo, eu já estou morta, eu sei moça, mas quero que encontre meu filho, ele deve ter entrado naquele mato atrás da casa, ache ele e diga que eu o amo, diga pra ele cuidar do seu irmão, ele tem só 11 anos, pedi pra ele não voltar pra me salvar, por favor, cuide dele, me faça esse último favor! – Eu não consegui segurar minhas lágrimas também, aquilo acabava comigo, mas eu não podia mais ficar parada, Elias podia voltar, eu tinha a chance de fugir, precisava tirar Marco e Heitor da cadeia.

— Eu prometo, seu filho estará seguro senhora, acabe com ele, tá? – Eu olhei nos olhos daquela mulher humilde, ainda lacrimejando, e pulei a janela daquele quarto, correndo em direção ao matagal metros distante daquela casa, torcendo para que ela desse fim no Elias mesmo, mas ao entrar no meio do mato, meu celular havia tocado de novo, vi aquele número de Americana, era a maldita portadora. Falei por 5 minutos com ela, xingando-a sem parar e tentando acalmá-la explicando minha situação, mas nesse período de tempo, ouvi três tiros vindo da casa onde Elias estava, e logo em seguida, meu celular estava tocando com outra chamada, era o número de Heitor.

— HEITOR? Você está bem? – Do outro lado, uma risada familiar me deixou com o coração acelerado.

— Ele não está nada bem, Nai, e o Marco também não vai ficar isso se não vier aqui em menos de 5 minutos, e quando digo menos de 5 minutos, quero dizer, AGORA.