Lapso Paradoxal

19 Capítulo 18 - Vulnerabilidade


Desde quando eu era tão idiota? Lá estava eu, caminhando pelas ruas de Poços de Calda, ouvindo várias sirenes de viaturas policiais, todos estavam querendo minha cabeça em uma bandeja, parecia algum filme clássico de western, mas eu não era o Clint Eastwood e nem o John Wayne, eu era só uma pessoa caindo na insanidade pronta pra fazer qualquer coisa por um só objetivo. É, eu tinha um objetivo, ele estava distante, mas não podia desfocar minha visão embaçada. Foda-se, agora é tarde, eu tenho que fazer, juntar todos os malditos portadores e passar a navalha em seus pescoços. Eu caminhava trêmula até o hotel de onde havia saído anteriormente, estava com um boné e uma jaqueta de couro do Marco, felizmente ninguém me reconheceu, parei na porta do hotel, mas antes que eu pudesse entrar, um homem ao meu lado segurou minha mão, de início, levemente, mas em seguida, de uma maneira bem apertada, ele começou a caminhar para longe dali, naquele instante já sabia que o miserável era um dos clones.

— Você fica calada e sobrevive, é simples. – Foi tão fácil assim? Será que os ventos estavam soprando ao meu favor? Não, não era hora de comemorar. Elias tinha mesmo muitos fantoches por aí, quantos será que ele matou? Esse cara só parecia inofensivo, ele é um doente de primeira. O homem que segurava minha mãe era negro e tinha por volta dos 30 anos, estava vestindo um terno, parecia um empresário, seu perfume também era de uma fragrância adocicada bem cara, foi então que algo me veio à cabeça.

— Pra onde vamos? Droga, quem é você?

— Não se faça de idiota. – Ele parou de falar, entramos no carro do mesmo, um Peugeot 2013 preto, ele estava no estacionamento do hotel, provavelmente, me esperando. Ele me colocou no banco de trás e montou no banco do motorista, ligou a chave e começou a ir para leste da cidade. Naquele momento, Marco e Heitor estavam naquela pseudo casa do velho, com uma pequena caixa de som enquanto ouviam tudo que se passava comigo através da escuta que eu tinha em minha presilha.

— Você é um deles, não é? Um clone? Digo, você é o Elias, é claro, se não fosse, não estaria fazendo isso. – Percebi que estávamos indo para perto do SESC da cidade, eu visualizava os nomes das ruas, precisava de uma brecha, e quando chegássemos em seu ‘esconderijo’, falaria a localização discretamente para Marco e Heitor.

— Se você sabe por que não cala a boca? Eu vou precisar te torturar pra dizer onde está a chave, eu sei. – As palavras do rapaz não me assustavam, por mais que eu soubesse que ele poderia mesmo me torturar, depois de tudo que passei, não sentia mais medo, mas eu precisava demonstrar, se não ele poderia descobrir o meu plano, aliás, Elias já deveria estar desconfiando do fato de eu ter saído sozinha, mas na situação atual, eu fui pega, ele não tinha com o que se preocupar, Marco e Heitor estavam sendo caçados pela polícia.

— Qual seu objetivo? Depois de pegar a chave, o que você fará? – Forcei meus olhos para lacrimejarem, era mais difícil do que eu imaginava demonstrar estar com medo, me sentia com sangue de barata correndo nas veias.

— Eu não tenho que te falar isso, não quer calar a boca? – Percebi que ele pegou uma pista que saía da cidade, o nome era Tiradentes.

— Rodovia Tiradentes, hein, vai me levar pra alguma chácara e me estuprar antes de me torturar? – Falei o nome da rodovia para Marco e Heitor ficarem atentos, o problema é se ele sair cada vez mais da cidade, parecia mesmo que estávamos indo pra alguma chácara ou fazenda.

— Você quer isso? – Elias, na pele daquele rapaz negro, parecia mais frio e calculista do que aquela sua aparência deprimente de motorista, e parece que realmente julgar pelas aparências é um instinto primário do ser humano.

— Eu quero que você vá pro inferno, seu filho da puta. Me desculpe, eu não pude segurar. – Soltei um leve sorriso, estava cansada de fingir estar com medo, aquilo só me desgastava. – Aliás, me diga, como não acharam os corpos lá da chacina do ônibus ainda? Nessa altura, isso já deveria ser noticiário mundial. – Perguntei inclinando meu corpo para frente, queria que o rapaz ficasse nervoso.

— Você parece não saber de nada mesmo, não é? – Aquelas palavras me irritaram.

— Do que eu não sei? Eu tenho a merda da chave, e você sabe que ela não está comigo, eu tenho a vantagem aqui.

— Parece que não Naiara, você é leiga nisso tudo, você só sabe do que vê. Aquelas pessoas do ônibus, elas não estavam em nosso ‘plano’, aquele portal criado é um outro universo semelhante ao nosso, esses corpos nunca serão encontrados, não aqui, diferente do ônibus. – Aquilo não havia me surpreendido. Quer dizer então que era mesmo outro universo, isso me aliviou e muito, por isso Elias não havia nos denunciado ainda, mas na questão do ônibus, ainda poderia dar merda.

— Você sabe que pode estar fodido também em relação ao ônibus, não sabe?

— Não, não sei. – Ele falou isso enquanto sorria, vi isso pelo retrovisor central. – Você acha que eu faria isso me colocando em risco? Tola. Primeiro, todas aquelas pessoas do ônibus darão como desaparecidas pelos noticiários, segundo, eu não era o motorista oficial daquela merda, eu matei o motorista e o enterrei bem enterrado, ninguém vai descobrir nada, todos vão procurar o motorista e as pessoas que estavam no ônibus, incluindo vocês e seus dois amiguinhos que, aliás, olha só, estão vivos! O que quer dizer que se houver alguma suspeita, vocês estão fodidos, e eu sinto dizer. – Eu havia ficado sem palavras, estava tão irritada, se eu pudesse cortar o corpo daquele bastardo agora mesmo, se bem que aquele na minha frente dirigindo o carro não era Elias, mas mesmo assim, apenas queria fazê-lo sentir toda dor do mundo.

— Como assim desaparecidas? E os corpos originais delas? — Naquele momento, engoli seco e me encostei no banco de trás novamente.

— Corpos originais? Querida, não há corpos originais, aquelas pessoas eram quem elas eram. – Minha mente ficou confusa, parece que eu havia tomado um soco no cérebro.

— Eles não estavam mortos então?

— Estavam, sim, claro, você mais do que qualquer um deve saber, ‘ele’ deve ter lhe passado as regras do meu poder, é preciso de uma vida humana para se criar uma marionete viva, pois bem, todos eles morreram e seus corpos foram transformados em bonecos, todos vazios, apenas com lembranças vagas de suas vidas mundanas e instinto de sobrevivência, só. E olha que conveniente, eu poderia transformar você em uma boneca agora mesmo com essa seringa que eu tenho. – O rapaz mirou os olhos no painel do lado do câmbio do carro, havia uma seringa dourada enorme com uma agulha bem grossa. – Mas infelizmente aquele bastardo disse que isso só não funcionaria em você, que abençoada não é mesmo Naiara? – Comecei a tremer, o medo que eu não sentia antes tomou conta do meu corpo que ansiava por violência gratuita.

— Você aplica essa agulha nas pessoas e elas se tornam seus zumbis já?

— Não é bem assim, essa agulha não tem nada, nenhum líquido, ela mata a pessoa na hora se eu mandar na veia e puxar, e em seguida, elas já se tornam bonecos, é um feito tão simples, eu me arrisco a dizer que não existe habilidade mais forte que a minha, então eu acho que já ganhei esse jogo. – Realmente, aquela habilidade era totalmente diferente de voltar no tempo ou criar um loop em outro universo, ele poderia chegar em qualquer pessoa e matá-la, transformando-a em um fantoche, por que ele não fez isso com Heitor e Marco então? Ele não teve a chance, estávamos sempre com a guarda alta.

— Então você e Carlos trabalharam juntos no ônibus?

— Carlos? Ah, sim, claro, você acabou com ele não é mesmo?

— Miserável, você só se importa com você não é?

— Com quem mais eu deveria me importar? Eu cresci sozinho, aliás, todos nascemos sozinhos Naiara, se apegar a alguém é uma ilusão temporária que é destruída com a porra da convivência.

— Você é apenas um mal amado então não é?

— Um mal amado que vai arrancar todas as suas unhas e raspar sua língua com uma lixa. – Eu vi outra placa na estrada, uma que dizia: ‘Chácara Vicentino’.

— Chácara Vicentino? Que droga é essa? Vai mesmo me estuprar? Um mal amado virgem de 40 e tantos anos, realmente desejaria o corpo de uma mulher esbelta antes de dominar o mundo não é mesmo? – Esperava que Marco e Heitor começassem a agir, esse filho da mãe ainda não havia percebido que seria pego de jeito.

— Falando assim, parece que você quer mesmo ser estuprada Naiara, eu sempre soube que você é uma vagabunda imunda, todos nós sabemos. – Fiz uma pausa drástica em minha respiração. O que ele quis dizer com ‘todos nós’? E aliás, é um tanto bizarro o fato dele controlar por tanto tempo um desses ‘bonecos’.

— Como assim todos nós? Você agora tem uma seita ou algo assim, é?

— Eu disse, Naiara, você é uma garotinha ingênua, apesar de ser uma vadia de primeira. – O homem no volante que eu não sabia o nome e que estava sendo dominado por Elias, naquele momento, começou a rir.

— Qual a graça?

— A graça é que você nunca esteve um passo a diante da gente, e mesmo assim, achou que poderia vencer.

— Como é? – Esse miserável está me subestimando demais, é verdade que o poder dele é além da imaginação, mas meu plano já está dando certo, Marco e Heitor devem estar a caminho já, só espero que o cretino não mude a rota repentinamente.

— Naiara, achou mesmo que os portadores não se conhecem nem nada do tipo? – Senti minha espinha congelar com aquela frase, olhei para os lados e via o rapaz entrando em uma entrada que parecia levar para algum sítio ou chácara, haviam várias árvores ao redor. – Pois nos conhecemos, não tão bem como melhores amigos, sabe, mas somos conhecidos. Quando tudo isso começou, algum dos portadores, que pra mim, deve ser algum gênio da computação, espalhou para todas as redes de internet da cidade, para todos os e-mails das pessoas que residiam em Americana, um spam com o título ‘CHAVE DO FIM DO MUNDO’. Claro que 99% das pessoas iriam apagar esse e-mail como fazem com tantos outros que só servem de vírus, worms ou propaganda enganosa, alguns podem ter até entrado, mas dentro dele havia um link, que ao ser clicado, direcionava o usuário para um site que perguntava: “Qual o nome DELE, que nos entregou a chave?”, a maioria, obviamente, não responderia Lúcifer, porque eles não fazem ideia do que essa frase significava, mas os portadores, ah, eles sabiam muito bem o que era isso, e sendo assim, depois de uma só semana, todos ‘nós’ com exceção daquele burro que morreu voltando tempo, nos reunimos em um site em rede fechada criptografada, é como se fosse um chat, e antes que você pergunte, é claro que ninguém quis ajudar ninguém, nós apenas conversamos pra entender o que acontecia, um deles até revelou o seu poder, justamente a pessoa que me ajudou com o ônibus, eu consegui atraí-lo pro meu lado, o restante se negou a trabalhar juntos, isso é óbvio, diante de tamanha recompensa, mas usamos esse chat para criar teorias sobre tudo isso, alguns tentam conseguir informação uns dos outros, mas todos lá são bem precavidos, acredito eu que o objetivo do rapaz que fez isso era nos rastrear, ele deve saber já quem são todos os portadores, o que eu não entendo é, se ele sabe isso, porque não veio atrás de você? Digo, ele fez algo que eu não sei se existe nessa era, esse negócio de mandar um e-mail pra todos da cidade deve ser alguma habilidade, pensei nisso, mas o fato é que, nada disso importa Naiara, porque você vai morrer. – Eu não sabia o que dizer depois daquele discurso, aquele bastardo gostava de falar, mas mais do que isso, minhas pernas começaram a tremer violentamente naquele momento, e se ele me matasse antes do Heitor e Marco virem? Não, nosso plano não ia falhar. Eu enrolaria o tempo que fosse, mesmo sendo torturada, eu teria que esperar os dois chegarem. O homem encostou o seu carro embaixo de uma árvore, logo à frente, havia uma casinha bem antiga e toda acabada, ele abriu a porta de trás e me tirou do veículo, eu observei todos os arredores e tentei descrever o máximo que podia.

— Chácara Vicentino, isso é nome de algum bispo? E olha só que lugar acabado, essa casa amarela gema de ovo descascada não é a suíte que eu esperava pra nossa noite de núpcias. – Acreditava eu que aquela era a única casa entrando nessa chácara, Marco e Heitor teriam que pegar um carro pra vir até aqui, mas confiava neles, acreditava que eram capazes disso, até agora, eles já me salvaram inúmeras vezes.

— Você está mesmo com fogo né? Mas eu não quero nem pensar em tocar em uma vagabunda feito você. – O rapaz me segurou violentamente pelos braços e me levou para dentro daquela casa mofada. O local estava bem cuidado, apesar da aparência externa deteriorada, por dentro, parecia que alguém vivia lá. Ao entrar, me surpreendi ao dar de cara com a camareira nordestina que havia nos abordado horas atrás, ela estava sentada em uma poltrona preta, e na frente dela, em um sofá marrom posto em uma sala retangular bem gelada, estava Elias, que parecia em transe, foi quando o homem que me segurava, repentinamente, teve um espasmo e me soltou, ele olhava assustado para todos os cantos sem entender o que estava acontecendo, Elias, rindo de canto, se levantou, pegou um 9mm presa entre sua calça e a cintura e atirou bem no meio do rosto do homem negro, alguns pedaços do seu crânio voaram pela sala, crânio com carne e pele, o corpo caiu no chão, sua boca estava deformada, seus dentes se espalharam, a língua ficou toda à mostra, a bala havia atravessado seu pescoço fazendo sangue jorrar por todas as paredes no canto de trás da sala.

— Seu doente filho da puta! – Eu estava amarrada mas mesmo assim parti pra cima de Elias, que me deu um chute no estômago, me fazendo sentar no sofá onde a camareira estava, ela parecia assustada, chorava baixinho olhando para baixo.

— Essa é a recepção que mereço? Sei que está toda fervorosa mas acalme os ânimos filha, tem algo que quero te mostrar. – Elias pegou o controle da tv do lado do sofá e mirou para a mesma, ligando-a. Fitei meus olhos naquela tv preta de 20 polegadas toda suja, e o que li no rodapé daquele noticiário me fez perceber que eu havia perdido. “Suspeitos de matarem um taxisista e espancarem uma camareira foram presos nesse instante”.