Lapso Paradoxal
18 Capítulo 17 - Temor
Quando peguei o celular da mão de Heitor, não parava de tremer, não era uma tremedeira normal, eu não conseguia nem segurar a porra do celular, deixei ele cair e então cambaleei pra trás, me encostando contra aquele muro de concreto sujo e gelado do beco onde estávamos, não consegui codificar ainda o que acabara de ler, mas era óbvio, um portador estava no hospital, ele ameaçou Vitor, isso era mais do que esperado, como fui tão burra?
— Calma Nai! Pode ser um blefe, você sabe disso, esses miseráveis estão desesperados, eles podem usar o Vitor pra te atingir, no momento em que eles descobriram sobre você ser a dona da chave, eles vão usar o Vitor, seus pais, e quem for preciso, já que vejo que eles não tem pudor ou moral, apenas jogam pra vencer. – Heitor estava certo, podia ser uma mentira, mas não queria arriscar, peguei o celular novamente e disquei para o número que havia me mandado a mensagem sem pensar em mais nada.
— Alô? Sua filha da puta, eu juro que eu vou te esfolar pra caralho sua piranha, eu juro por Deus que eu vou acabar com sua raça, vou te torturar até você me pedir pra ter uma bala na cabeça desgraçada vadia. – Eu comecei a gritar de maneira frenética sem me controlar, Marco e Heitor se espantaram, afinal, nunca me viram assim, nem eu mesma havia me visto daquele modo, mas quando se tratava de Vitor, eu virava outra pessoa.
— Alô? Moça, o que tá acontecendo? Calma pelo amor de Deus! – A voz de uma mulher podia ser ouvida por mim.
— Como assim sua puta!? Você está me ameaçando, é isso mesmo?
— Meu, você tá descontrolada, esse celular não é meu, uma guria deixou ele cair e foi embora, eu sou da recepção do hospital, quem é você? – Eu deixei o celular no viva voz para que Marco e Heitor pudessem ouvir, eles estranharam isso, e logo eu já imaginei que podia ser uma armadilha.
— Eu não sou ninguém, sua vagabunda, eu sei que você foi a pessoa que me mandou mensagem, não adianta mentir, sou muito mais inteligente que você. – Por alguns segundos, a pessoa do outro lado da linha fez uma pausa, e voltou a falar rindo histericamente.
— HAHAHAHAHAHA, boa, você é boa Naiara! Como esperado, foi como ele me disse mesmo. – O sangue naquele momento subiu até minha cabeça, eu só tinha intenções assassinas, e nada mais.
— Sou melhor do que você imagina, se você relar um só dedo no Vitor... – Antes que eu terminasse de falar, foi a vez da mulher gritar.
— CALA A BOCA SUA PIRANHA! Não vê a situação que se encontra? Eu estou no controle, eu estou na porra do comando, e não to sozinha nisso, eu posso matar Vitor a qualquer segundo, é só você me desobedecer que ele vai pro buraco, você quem escolhe o destino do moribundo. – Marco colocou uma de suas mãos em meus ombros, ele sabia que eu não estava pensando direito naquele momento, e com sua outra mão, me pedia pelo celular, eu não podia passar pra ele, eu tinha que falar com aquela mulher, ela podia matar Vitor, eu não podia deixar isso acontecer! Mas antes que percebesse, Marco pegou o celular, eu estava tão fraca e com a pressão baixa que mal pude reagir.
— Alô? Aqui quem fala é o Marco, o que você quer?
— Há, então ela chamou o amiguinho? A piranha não tem coragem nem de fazer nada sozinha? Uma puta interesseira! Não vê que ela está te usando? Escravoceta de merda, a puta gosta de um cara que tá nas últimas aqui e você correndo atrás feito um cachorrinho, hahahahaha, MARCO, eu te conheço bem, melhor do que você imagina! O que eu quero? Bem, eu quero a chave, eu quero a porra da chave Marco, é difícil de entender? – Eu ouvia a mulher falar com o tom de voz alto, aquilo me dava mais vontade de matar, de estraçalhar, de picotá-la por inteira, eu perdi as forças, estava sentada encostada na parede enquanto observava Marco falar com ela e Heitor olhar pelas ruas à procura de mais algum clone que nos caçava.
— Se entregarmos, você sumirá do mapa? Vai deixar o Vitor em paz? – Eu não entendo porque Marco disse isso, ele sabia que eu não entregaria a chave a nenhum custo, mas pensando bem, mentir era a melhor opção, estávamos em Poços de Calda, e ela, em Americana, tínhamos tempo, pois teríamos que levar a merda da chave lá, nesse período poderíamos pensar em alguma coisa, mas eu nunca vou abrir mão dessa chave, eu prometi...
— Você acha que eu sou o que cara? Para, vai, você é melhor do que isso! Sei que não vão entregar merda nenhuma, vocês já mataram várias pessoas por causa disso, a única maneira de entregarem, em modo SEDEX 10, é eu dando um aviso de que estou falando MUITO sério, eu sou uma pessoa bem séria, sabe, Marco, não tenho paciência também, então pra provar minhas intenções, eu preciso falar com a Naiara, por gentileza.
— Ela não está bem, fale comigo!
— Vai se foder você! Sei que estão no viva voz, então, Naiara, eu tenho uma pequena questão moral pra você, mas quero que seja bem sincera, pois isso definirá a vida de várias pessoas, e sabe, são pessoas que você ama, então eu espero mesmo que responda com toda sinceridade do mundo. – Eu não aguentava mais ouvir a voz daquela mulher, pelo tom, parecia alguém com menos de 30 anos, ela podia ter minha idade, eu estava desesperada, meu coração batia rapidamente, o medo de perder Vitor falava mais alto.
— Pode falar... – Eu me levantei e peguei o celular novamente.
— Quem você gosta mais? Seu pai, sua mãe, ou Vitor? – Naquele instante, comecei a chorar, eu realmente estava com medo das ações daquela mulher que eu nem conhecia. Antes que eu pudesse responder, vi o taxisista de antes todo ensanguentado, carregando uma katana em suas mãos, correndo em nossa direção.
— MAS QUE PORRA? – Marco se jogou na minha frente, o homem vinha muito rápido com a ponta da katana apontada para Marco, Heitor pegou minha bolsa, retirou o revólver de dentro da mesma, e apontando para o homem, puxou o gatilho sem demandas. O tiro acertou no peito do ‘zumbi’ que foi jogado para trás caindo duro no chão, nessa altura, estava morto já.
— Alô? Alô? – Quando percebi, a mulher do outro lado tinha desligado, e antes que eu pudesse ligar novamente, uma multidão cercou o beco, Heitor escondeu a arma em sua calça, eu não sabia o que fazer, só tínhamos um outro caminho fora onde o homem apareceu, segurei a mão de Marco e começamos a correr por lá, era uma passagem estreita, Heitor vinha atrás de nós correndo de costas, estávamos mesmo ferrados, a polícia logo apareceria, foi quando Marco viu uma porta aberta em um daqueles prédios do beco, era um local bem sujo e acabado, havia um senhor de mais de 60 anos lá dentro, parecia bem pobre, Marco e eu fomos entrando sem que o senhor pudesse dizer nada, Heitor foi o próximo, fechamos a porta e ficamos em silêncio enquanto o senhor mal sabia o que dizer, apenas olhava para gente com a boca aberta.
— Tio, eu te dou 100 reais se ficar quieto ok? Então por favor, apenas fique em silêncio e espere um pouco, sairemos daqui, toma. – Tirei da carteira 100 reais e dei para o senhor, é claro que me arrependi daquilo, mas o velho estava tão necessitado de dinheiro que aceitou sorrindo.
— Tá mas e agora? – Perguntou Marco enquanto ficamos sentados esperando que ‘algo’ acontecesse. O senhor não dizia nada, apenas nos observava, foi quando ele abriu a boca.
— Vocês são fugitivos?
— Digamos que sim, e não, enfim, a polícia vai procurar a gente, prometo que não ficaremos muito, mas acredite, não fizemos nada de errado. – Eu acabei de contar uma mentira descarada, fizemos muitas coisas de errado e ainda faríamos muitas outras mais. Percebi que o velho em nossa frente usava um boné, foi então que tive uma ideia.
— O senhor tem mais bonés aqui? – Perguntei olhando para os olhos murchos do senhor que se sentou em uma poltrona toda esburacada na cor marrom claro.
— Tenho, vocês querem usar eles pra fugirem? – Disse o senhor olhando para frente sem nos encarar.
— Acha que é uma boa ideia? A polícia vai nos pegar de todo jeito. – Marco tinha razão, usar boné poderia ser uma distração temporária, mas naquela cidade, se ficássemos por lá, seríamos pegos. O senhor naquele momento ligou sua televisão antiga que quase não tinha cores, ela era cheia de chiados e imagem chuviscada, ele queria deixar o ambiente barulhento para que ninguém que passasse nos ouvisse.
— Temos que fugir, Naiara, não tem jeito. – Marco me olhou seriamente.
— Não, não acabou ainda. Eu tenho um plano. – E eu realmente tinha, eu havia colocado aquela maldita câmera que nos salvou anteriormente na borda da saia da camareira no hotel, se ela fosse liberada, e consequentemente, fosse até Elias, saberíamos o seu paradeiro. Naquele momento, comecei a sentir um mal estar enorme, tontura e ânsia de vômito, além de sono, pensei que ainda era por conta da pressão ter caído, com aquela ameaça.
— Naiara, você tá bem? – Marco se aproximou de mim segurando minha mão.
— Eu só estou com mal estar, deve ser pelo choque que levei, aliás, ainda preciso ligar pra aquela puta. – Antes que eu pudesse pegar o celular, Heitor me advertiu.
— É melhor esperar. Ela sabe que estamos fodidos, ela não fará nada, esperemos que ela ligue, ela não vai matar ninguém, eu sei disso, temos que dar um jeito na nossa situação atual, antes de qualquer coisa. – Heitor estava pensando de maneira racional como sempre, mas meu desespero era aparente, estava preocupada com Vitor e meus pais! Eu não sei porque mas estava sentindo muito sono, foi quando comecei a pensar em uma coisa.
— Eu realmente não to bem... – Encostei a coluna na parede daquele lugar, quando fiz isso, não consegui mais me mexer.
— Naiara, você tomou alguma injeção no hospital? – Perguntou Marco ao levar a palma de sua mão até minha testa para verificar se eu estava com febre.
— Sim, o médico que me atendeu me deu uma injeção, ele disse que era pra passar a dor da costela... – Naquele momento, meus olhos se abriram com espanto. – Você acha que...
— Se ele fosse um maldito fantoche, ele poderia ter te matado, mas é claro que Elias não te mataria, ele quer a chave, ele apenas te faria dormir, como o primeiro portador quis fazer, ele pretende te desmaiar e torturar até você dizer onde está a chave, já que ele presume que você não a leva consigo, eles já estão bem astutos pro meu gosto. – Heitor se levantou e esticou suas costas e braços. – Você lembra como era esse médico? – Perguntou o garoto olhando para as horas em seu relógio.
— Ele era magro, bem alto, cabelo preto, dentes bem brancos, uma aparência abatida, parecia desgastado, para um médico isso não parecia nada legal. – Meu corpo começou a formigar demais naquele instante.
— Droga, ele pode ter te envenenado e vai nos ameaçar agora, ele vai oferecer a cura em troca da chave. – Marco estava pensando o pior já, não pude deixar de rir.
— Não acho que na porra do interior de Minas exista um veneno assim, e mais, se ele é um clone, então ele não teria esses recursos de antemão, acho que foi só um sedativo, mas o que me preocupa mesmo é como Elias está matando essas pessoas por aí, já são três!
— Sim, são três e aposto que tem muito mais. Eu pensei em algo. – Heitor pediu para o velho lhe emprestar o seu boné, o velho lhe deu sem nem dizer uma só palavra. – Naiara, Marco, precisamos nos separar ao sairmos daqui, ficar aqui não vai adiantar nada, eu também acho que fugir não será uma boa ideia, precisamos dar cabo em todos os portadores, não tem jeito, se fugirmos seremos pegos, é um fato, Naiara, eu tenho pó de guaraná e de café aqui, você consegue andar? – Heitor tirou do bolso de sua jaqueta duas pílulas negras e jogou em minha direção, imediatamente levei até minha boca, eu não podia dormir, não podia ficar daquele jeito.
— E pra onde você vai? Pra onde vamos? – Perguntei tentando me levantar enquanto Marco me ajudava.
— Eu vou até esse médico, mas Naiara, você disse que tinha um plano, qual seria?
— Bem, é mais um plano de sorte, como fizemos com o primeiro portador. Temos que contar com o ‘destino’. Como você disse Heitor, o poder do Elias, pelo que percebemos até agora, só pode controlar uma pessoa por vez, é como se ele usasse o corpo do fantoche e pudesse revogar esse ‘uso’ quando quisesse, ele troca de fantoches de acordo com nossa localização, é como se ele controlasse vários boots, mas ele só pode controlar um por vez, quando os fantoches não estão sendo controlados, eles agem normalmente, como se estivessem vivos, igual as pessoas do ônibus, então só precisamos distrair o maldito. Sabe, dinheiro é tudo nesse mundo, esse senhor só nos deixou ficar aqui por conta da grana que demos a ele, e é assim com tudo, dinheiro compra a maioria das coisas, e ele vai nos levar pra nossa vitória pessoal. – Fiz uma pausa enquanto todos me olhavam atentamente, até o velho, que não entendia nada do que eu falava, mas parecia não se importar. – Enfim, vou contratar uma garota, uma das bem putas mesmo, daquelas que fazem tudo por dinheiro, eu direi pra ela se fingir de morta no meio da praça municipal aqui, isso pode parecer infantilidade, mas seria uma presa fácil pro Elias, por exemplo, alguém que morreu por se envolver com a gente, digamos que um fantoche vá atrás de nós para nos machucar e me pegar, essa mulher está passando e eu dou um tiro nela sem querer, se Elias estiver por perto, ele vai aparecer e tentar fazer um clone dela, não sei como mas descobriremos como ele faz, nesse momento, pegaremos o filho da puta. – Respirei fundo recuperando o fôlego após terminar de falar.
— Isso tem muitos furos. Primeiro, ela pode ser levada pro hospital. Segundo, o Elias pode nem estar por aqui, terceiro, a polícia pode nos pegar. – Marco era mais realista e chato do que eu imaginava.
— Eu sei disso mas precisamos arriscar!
— Eu tenho um plano melhor. – Marco se levantou e ficou sério enquanto olhava pra mim. – Você vai se deixar ser pega por um fantoche, Naiara. – Fiquei com um ponto de interrogação na cara ao ouvir isso. – Você será pega, mas com uma escuta. O fantoche provavelmente te levará até o Elias, e então, você, no caminho, nos fala por voz a dica de onde está, enquanto eu e Heitor vamos dar o bote e te salvar. Ainda bem que compramos essas escutas e a câmera antes de sair, realmente, dinheiro é tudo. – Pela primeira vez, Marco estava agindo sem pensar no perigo que nos domina, ele sempre foi muito precavido até agora, mas sua atitude me deixou feliz, todos devíamos se arriscar pra vencer esse jogo, inclusive eu, e não via outra maneira melhor.
— Nai, olha a tv. – Heitor parou em frente à tv antiga do senhor, o noticiário local mostrava nossas três fotos, dizendo que éramos suspeitos de torturar uma camareira e matar um taxisista.
— Parece que somos procurados, não é? – Heitor sorriu enquanto eu senti um frio na espinha, pressentindo que lutaria contra tudo e todos a partir dali.
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