Lapso Paradoxal
16 Capítulo 16 - Dominação
— Ah cara, isso foi cansativo, ter que explicar pra esses policiais, você é uma excelente mentirosa Naiara, me lembrou até o Benjamin Linus. – Heitor se jogava na cama de costas, ele parecia ainda com dor, vi em sua expressão, por mais que ele tentasse disfarçar.
— Eu faço o que posso, mas será mesmo que eles acreditaram? – Olhei pra janela lá fora, estávamos no hotel Bandeirantes de Poços de Calda, no quarto e último andar, de frente pra rua, depois de ficar meia hora explicando o que aconteceu pros policiais, fomos liberados, é claro que agora corríamos mais perigo ainda, a notícia do ônibus e dos corpos ainda não havia sido espalhada pela imprensa, mas quando a polícia descobrisse, já considerava a hipótese deles virem até nós, passei meu celular pra eles – fui obrigada na verdade -, por sorte Marco e Heitor tem carteira A de habilitação, então isso não foi um problema, conseguimos por hora fazer com que a polícia acreditasse que tivemos um acidente, eles só ficaram bem confusos com o fato das motos terem caído no rio, dissemos que descemos o barranco abaixo e que não conseguimos evitar que as motos fossem para dentro do rio que cruza o estado, não sei se eles mandariam uma equipe de busca, espero que não, e como Heitor (que contei que estava certo e que a culpa do acidente foi minha e do Marco) não prestou queixa, eles nos liberaram. Viemos para o hotel mais próximo do hospital, precisávamos pensar com calma em nosso plano de ataque, se é que Elias estava mesmo nessa cidade, mas tendo o poder que ele tem, não iria ficar parado, e nem a gente.
— Aposto que não, eu vi a cara de desconfiado daquele policial magrelo, ele mais parecia um dono de um bar antigo e mofado do que um policial, essa cidade realmente tem pessoas estranhas. – Marco parecia mais animado, de tempos pra cá, via seu semblante menos preocupado, nem parecia o Marco que eu conheço a anos, estando nessa situação insana que estamos, pensei que ninguém ali, poderia sorrir.
— Tá, mas vamos ao que interessa, como chegaremos até o necrotério? Digo, é óbvio que não vão nos deixar entrar, e nem sei como Elias teve acesso a isso, só se ele trabalhar no ramo mesmo, o que acho improvável. – Eu dizia isso enquanto lia atentamente a lista que fizera sobre os poderes citados por Lúcifer, Heitor inclinou sua coluna par frente na cama e me questionou.
— Nai, você não percebeu algo estranho no nosso primeiro portador?
— Como assim algo estranho? – Olhava para o rapaz sem entender sua colocação.
— O poder dele era voltar no tempo, e isso estava relacionado com sua história de vida e seu passado, veja bem, ele perdeu a esposa e filho, tudo que queria, era voltar no tempo e mudar tudo, o tempo pra ele, foi o que o destruiu, literalmente falando, duas vezes. Pode ser coincidência, é claro, mas e se não for? – Marco se sentou na cama com os olhos cerrados.
— Acha então que cada poder tem a ver com algo da vida dos portadores?
— É possível Marco, não vejo porque eles foram escolhidos se não por algum propósito ou motivo. – Eu realmente comecei a pensar mais atentamente nessa análise levantada por Heitor. Se for o caso, Elias poderia ser mesmo alguém que sempre lidou com cadáveres, sendo assim, ele poderia ser um técnico em perícias criminais, alguém que limpa defuntos, motorista de uma funerária... motorista de uma funerária? Isso não me parecia algo tão errado, afinal, ele estava dirigindo nosso ônibus, como ele conseguiu autorização para dirigir um ônibus de uma empresa famosa, se não for um motorista? Não, estamos sendo idiotas! A empresa nunca contrataria um motorista novato, Elias tinha que trabalhar com aquilo, ele realmente era motorista, pensei na hipótese dele ser motorista funerário e de ônibus também, isso faria todo sentido, e para comprovar isso, eu sei o que faria. Peguei meu celular, entrei na internet e procurei o número de todas as funerárias de Americana, liguei para a primeira.
— O que tá fazendo? Tá ligando pra quem? – Marco se levantou preocupado enquanto eu apontava a mão para ele pedindo para o mesmo se calar.
— Alô? Boa tarde, aqui quem fala é a Marisa, eu gostaria de saber se o Elias se encontra. – Até Heitor me olhou com os olhos bem abertos, ninguém entendia quais eram minhas intenções, mas ao ouvir a resposta da atendente, meu coração disparou.
— Entendi, é que me disseram que ele ainda trabalhava aí de motorista. Muito obrigada então! – Desliguei o celular enquanto Marco já havia compreendido a situação.
— Você ligou pra uma funerária mesmo?
— Sim, na mais famosa de Americana, e acreditem, o maldito era mesmo motorista lá. – Agora que eu sabia disso, tinha certeza de que ele poderia se infiltrar nas funerárias. Era um pouco confuso ainda, como ele conseguiu ir até a de Limeira? Talvez, assim como Heitor sugeriu, ele só esteja relacionado com esse poder, em detrimento de sua profissão, ele apenas visitou todos os velórios na cidade vestido de motorista dos carros funerários, pegou algum fio de cabelo dos mortos ou sabe-se lá o que ele faz, e depois foi embora.
— Naiara, não acho que devemos temer esse cara. Ele não tem como fazer isso aqui, você mesma disse, se as pessoas verem alguém morto pelas ruas vão entrar em pânico, acha que ele faria isso? – Marco me questionou.
— Sim, acho sim. Ele está desesperado e vai tentar de tudo, não lhe restam muitas cartas na mão. – Liguei a tv para ver se havia notícias sobre o ônibus e os corpos, mas ainda nada fora notificado, isso que eu estava vendo o jornal local.
— Não é estranho? Já eram pra ter encontrado algo! – Marco salientou.
— Sim, já eram... – Eu comecei a ficar inquieta naquele momento, não sabia porquê, quando ouvi alguém batendo na porta.
— Camareira. – A voz de uma mulher podia ser ouvida atrás da porta.
— Mas que diabos ela quer? – Disse Heitor sem nem se importar se a mesma ouvia isso, aliás, só deixaram nós três ficarmos em um quarto duplo porque paguei a mais, no Brasil, com dinheiro, tudo era resolvido. Marco abriu a porta e a senhora em nossa frente era da minha altura, aparentava ter uns 40 anos ou mais e tinha a pele morena, pelo rosto e sotaque, parecia nordestina.
— Falaram pra eu vir aqui trocar a toalha do banheiro, o hotel pede desculpas, pois alguma outra camareira acabou esquecendo. – Em suas mãos, a senhora carregava várias toalhas brancas. Marco abriu mais a porta para ela entrar, a mulher se dirigiu até o banheiro enquanto Heitor a fitava.
— Isso acontece mesmo, são muitos quartos... – Marco tentava dizer alguma coisa, quando percebi que algo estava errado. Vi através das toalhas um objeto metálico, eu não podia dar sopa pro azar, se fosse um engano, eu apenas me desculparia, mas eu não poderia dar brechas, segurei a mulher pelo pescoço lhe dando um cadeado e a joguei na cama, a mesma deixou cair as toalhas, e no meio delas, havia uma faca bem afiada, parecia ter sido comprada minutos atrás.
— Mas que diabos é isso senhora? – Marco deu uma de idiota em perguntar, eu continuava a prendê-la jogada na cama, mas a mulher começou a gritar.
— Socorro! – Antes que ela pudesse gritar mais uma vez, Heitor cobriu sua boca com o lençol, amarrando-o bem firme, impossibilitando-a de falar qualquer coisa. Marco o ajudou e prendeu seus braços também com o outro lençol, a mulher estava imóvel sentada na cama enquanto eu olhava para a mesma.
— Vou dar duas opções: Ou você fala onde o Elias está, ou você roda. – Peguei a arma que estava na minha bolsa e coloquei o dedo indicador no gatilho, é claro que eu não iria atirar dentro do hotel, mas essa era nossa chance, havíamos pego um fantoche, agora era o momento certo para contra atacar.
— Hmmm hm hm! – A mulher, com a boca coberta, não podia falar, mas tinha medo de que se liberássemos sua boca, que ela gritasse para pedir ajuda, foi então que Heitor ligou a tv no máximo em um canal de música, assim ninguém ouviria se ela gritasse, Marco tirou o lençol de dentro de sua boca e ela começou a chorar.
— Por favor, eu imploro, me soltem, eu não sei o que vocês querem, mas eu só vim trocar as toalhas... – O que me deixou inquieta naquela situação foi que a mulher chorava de verdade, eu via o medo em seus olhos, ela tremia com medo de ser morta. Abaixei minha arma e encarei meus amigos.
— Ela não parecia diferente do que tá agora? – Perguntei enquanto a mulher não gritava nem nada, ela sabia que podíamos apaga-la se ela fizesse isso.
— Realmente, ela estava fria e até sorrindo... – Marco olhou mais atentamente para a mulher que chorava baixinho.
— Pensem bem, e se o Elias pode controlar só uma pessoa por vez com a sua mente, e as outras, forem apenas ‘cópias’ das que morreram? – Heitor coçou o queixo enquanto olhava para a mulher que parecia não entender nada.
— Tipo... clones? – SIM! Por que eu não pensei nisso antes? Clones, droga, esse poder era tão óbvio, e eu só percebi agora. Elias tem a capacidade de criar clones de pessoas que já morreram, por que ele escolhe pessoas que já morreram? Oras, pra parecer que elas estão vivas, pessoas clonadas de alguém vivo seria um problema, se ambos se encontrassem ou se alguém visse os dois, mesmo em outra cidade, mas com pessoas mortas tudo seria diferente, pegar alguém morto de Americana e trazer pra cá, essa pessoa poderia ser controlada por Elias, se ele tem a capacidade de controlar um por vez (como, eu não sei). – Eu acho que pode ser isso mesmo, mas pensem bem, essa senhora, desde que chegamos, está trabalhando no hotel... – Naquele instante, Marco engoliu seco imaginando o que eu quis dizer. – É, só tem um jeito dela ser um clone, e estar aqui. — A senhora ficou ainda mais inquieta ao ouvir nossa conversa, ela começou a ameaçar falar algo e gritar.
— Por favor me deixem sair! Eu dou todo dinheiro que tenho eu faço qualquer coisa!
— Ela foi assassinada? É isso que quer dizer? – Marco tinha os olhos bem sérios, Heitor também parecia preocupado com essa hipótese.
— Elias não parece alguém que faria isso, mas dadas às circunstâncias, é matar ou morrer agora. Suponhamos que tais clones sejam feitos em questões de segundos, ele mata alguém, esconde o corpo em sua casa e cria os clones, manda eles pras ruas e controla um por vez até chegarem a nós. – Heitor estralou seu pescoço.
— Então quer dizer que ele sabe onde estamos!? – Perguntei eufórica.
— Deve saber sim. Sabe-se lá quantos clones há aí por fora, quantos ele deve ter matado, porque pra outras pessoas que não sabem de nada, elas ainda são pessoas que estão vivas! – Naquele momento, me lembrei de algo que me perturbou ainda mais.
— E as pessoas do ônibus? Quando perguntei sobre o Albergue das Massas, por que elas fingiram conhecer?
— Simples, esses clones tem as memórias dos ‘originais’, mas eles são diferentes, eles foram criados sem um conhecimento total do mundo, se você perguntar pra eles se eles são felizes, eles vão dizer que são, porque eu acho que eles não tem noção da realidade como as pessoas vivas tinham, eles seguem o fluxo apenas, responderam que conhecem por medo da situação naquele momento, de você desconfiar deles se respondessem que não conheciam. – Heitor havia dado uma boa explicação, mas como ele podia ter noção de todas aquelas coisas.
— Heitor, você é inteligente pra caramba, ou você sabe de algo? – Eu falei aquilo brincando, sabia que o garoto era inteligente e perspicaz, mas ele me olhou feio com essa pergunta.
— Sei do que eu sei apenas. – O garoto se afastou e se encostou contra a porta. Não sabíamos o que fazer com a mulher, se nossa teoria estivesse correta, então ela, nesse momento, era apenas a camareira que foi assassinada, uma cópia dela. Foi nesse momento que pensei em algo que fez meu coração doer.
— E as almas...? Acha que as almas das pessoas que morreram... – Marco me interrompeu imediatamente.
— Não, não tem como. Essas pessoas só tem as lembranças iguais das pessoas originais, e nada mais. É como você copiar um CD de um original... – Marco tinha razão, não era possível que a alma daquelas pessoas fosse transferida. Depois de muito pensarmos, não consegui chegar a uma conclusão. Se deixássemos ela sair, seríamos denunciados, ou o Elias podia tomar controle dela novamente e nos matar, e se matássemos ela, eu não iria me perdoar, e também, o hotel iria descobrir que fizemos isso, e se deixarmos ela presa, alguém iria subir e descobrir o que fizemos, seríamos perseguidos pela polícia de todo jeito, droga, eu acho que era o fim da linha, ou seguiríamos com esse jogo, ou seríamos presos, eu estava preparada já pra viver fugindo da polícia depois de matar o primeiro portador, e agora acho que chegou a hora. Marco havia colocado mais uma vez o lençol na boca da mulher porque ela estava ameaçando chorar alto e gritar.
— Eu não quero matá-la, sei que ela viva é um receptáculo pro Elias, e também só uma casca vazia... – Eu estava mesmo enfrentando um enorme dilema. Eu libertaria essa pobre farsa? Deixaria ela viver com a vida da camareira que morreu?
— Não tem jeito, Nai. Vamos deixa-la presa aqui até alguém do hotel subir, eu não sei se quando Elias morrer, os clones morrem também, mas é melhor do que matarmos ela e sermos presos, mesmo se a polícia nos pegar ao saberem que amarramos ela em um quarto de hotel, eles não vão nos prender imediatamente, ainda podemos nos safar. – Heitor estava falando sério sem brincadeiras, e aquela cena rara me fez balançar a cabeça concordando imediatamente.
Saímos do hotel já aceitando que aquela senhora não nos falaria nada, nem ela, nem ninguém, afinal, Elias podia controlar um por um, eu só não sabia se um por vez, mas esperava que sim. Agora que sabíamos que ele matou alguém, era improvável ele estar em um necrotério ou velório, portanto, estávamos perdidos atrás de uma agulha no palheiro.
— É questão de minutos pra polícia vir atrás da gente, precisamos achar esse filho da puta e dar cabo nele. – Comecei a ficar ansiosa, não tínhamos muito tempo, estávamos no centro da cidade observando todo nosso redor, claro que havíamos nos trocado e tomado um bom banho, deixamos a senhora no hotel amarrada, fiquei com um pouco de pena, confesso. Quando fui atravessar uma rua, vi que um carro não respeitou o sinal vermelho e passou reto, era um táxi, o motorista virou o carro na minha direção, e antes que eu fosse atingida, Marco me segurou e deu um salto para frente, caindo no chão e se ralando todo enquanto eu me soltava dos seus braços e batia a cabeça contra o concreto, minha costela ainda doía, o táxi subiu em cima da calçada e se chocou contra a parede de uma loja de perfumes.
— Vamos cair o fora, agora! – Heitor nos ajudou a nos levantarmos, sabíamos que precisávamos sair dali, o taxisista era um clone, então, Elias... ele estava mesmo matando várias pessoas? Corremos até um pequeno beco úmido e que cheirava a esgoto, não havia ninguém lá, foi quando peguei meu celular e reparei que havia chegado uma mensagem.
— Quem é? – Perguntou Marco, mas eu não dei resposta. Meus olhos começaram a tremular, quase deixei o celular cair, meus dentes começaram a ranger na hora quando li aquilo.
— O que foi caralho!? – Dessa vez, Heitor pegou o celular à força da minha mão e leu a mensagem: “Estou no quarto do Vitor, e se você não aparecer aqui em 12 horas, seu namoradinho vai pro céu antes do esperado. Ass: A progenitora do fim do mundo”
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