Lapso Paradoxal

11 Capítulo 11 - Morte Encaminhada


Não sei como fui parar naquela situação, tudo parecia surreal demais, mesmo para alguém com um ‘super poder’. Fui pega completamente, apesar de estar com Marco e Heitor, o filho da mãe previu tudo de antemão, e agora, junto do meu amigo, estou amarrada de joelhos na frente daquela grande rocha iluminada pelos faróis amarelos do ônibus, eles colocaram cordas em nossos pulsos para que não pudéssemos nem nos mover, Marco se mantinha calado olhando para baixo, ele tinha medo, alguns estavam ameaçando nos matar, aquela era a pior situação possível. Depois que Moacir morreu, todos suspeitaram obviamente de nós, afinal, só nós dois estávamos no ônibus quando isso aconteceu, e todos da parte de fora juraram que ninguém entrou no ônibus, por baixo ou nem pela janela ou comporta do banheiro, e acho que nem teria como mesmo. A morte de Moacir é o que me fazia refletir mais naquele momento, mais do que achar quem é o portador. Realmente, aquela era uma morte impossível, só havia eu e Marco no ônibus e estávamos juntos, mesmo se fosse pra desconfiar de Marco, não teria como, ninguém dos entrevistados entrou no banheiro antes de Moacir, o corte no pescoço de Moacir foi feito por uma lâmina, a mesma se encontrava jogada no chão do banheiro, eu estava desesperada, mas ainda tinha uma carta na manga, uma fatal, mas não sei se podia usá-la agora, o meu medo era de que o portador me matasse a qualquer momento, eu precisava fazer algo, tentei, junto de Marco, convencer todos de nossa inocência, mas eles pareciam animais selvagens nervosos prontos para dilacerar sua presa, ainda mais Cleuza e Andrea, as duas que perderam seus entes, elas queriam mesmo nos matar, por mais que fossem senhoras com mais de 40 anos, no momento em que pensei em abrir a boca novamente para argumentar, Heitor e o grupo que foi procurar uma ‘saída impossível’ surgiram na frente do ônibus.

— Mas que porra é essa? – O motorista nos olhou com espanto, todos estavam de cara fechada, Cleuza e Andrea chorando gritando apontando os dedos para nós.

— Foram esses dois! Foram eles! Assassinos! Demônios! – Cleuza pegou uma pedra afiada do chão, ela tinha o tamanho de um sapato, ela jogou contra a cabeça de Marco, vi o sangue escorrer segundos depois do impacto por seu rosto pálido, ele finalmente encarou todos ali.

— Vão se foder! Não fizemos nada! – Nunca havia visto Marco tão nervoso antes, ele sempre foi uma pessoa calma e controlada, mas eu sentia, em seus olhos, o medo da morte, assim como eu, se eu morresse ali... Vitor...

— Calma, calma! O que aconteceu? Expliquem pelo amor de Deus. E cadê o Moacir? – Carlos começou a entender a situação, ele nos encarou com nojo.

— Eles mataram minha filha e o Moacir! Esses assassinos! – Cleuza começou a passar mal enquanto gritava, ela teve que ser segurada por Leonardo.

— Realmente, foram eles mesmo, os dois estavam no ônibus fazendo uma ‘entrevista’ pra descobrir quem poderia ser o assassino da menina, o Moacir foi o último a entrar, e quando a Andrea foi ver porque ele estava demorando, encontrou ele morto no banheiro. – Neide explicou a situação, aquilo parecia coerente, mas Heitor logo percebeu nossa situação, e começou seu contra ataque.

— Ora, ora, ora, mas que besteira! Vocês acham que foram eles, só porque os dois estavam no ônibus no momento em que Moacir morreu? – Heitor se colocou na frente de Cleuza, Leonardo e Neide, Gustavo se aproximou empurrando o garoto.

— Tá louco fi? Não ouviu a velha? Só tava os três lá! Só! Ninguém de nós entrou. – Heitor se afastou, olhou para o ônibus apontando sua lanterna para ele todo e percebeu que a janela do banheiro estava aberta, como sempre ficou.

— A janela está aberta, alguém pode ter entrado. – João se aproximou de Gustavo e encarou com raiva Heitor.

— Não ouviu porra? Ninguém entrou, ele disse.

— Ninguém de vocês, que ficaram aqui, entraram, certo? – No momento, Carlos e o motorista fitaram Heitor com estranheza.

— E quem mais poderia entrar meu!? – Juliana balançou a cabeça negativamente desprezando o rapaz.

— Um de nós que saiu, oras. – Junto com a resposta de Heitor, veio a pergunta de Mariana.

— Mas vocês não ficaram juntos? – Marcio olhou seriamente para Mariana, ela havia entendido.

— Porra, vocês não ficaram juntos!? Como assim? – Gustavo olhou para o seu amigo que começou a explicar.

— Fi, foi o moleque aí que pediu pra gente se separar, ele falou que seria melhor se fossemos seguindo em locais abertos pela luz da lua, tava bem claro lá, Márcio pegou o norte, o moto foi pelo leste, a mina ali pelo oeste, eu fui pra noroeste, eu podia ver a mina, ela tava com medo e ficou meio que me seguindo, e o moleque foi pro sul – Leonardo colocou as mãos no ombro de João que não gostou nada disso o olhando torto.

— E pera, que direção ficava o ônibus? – Imediatamente, Carlos e Márcio olharam para Heitor que sorriu.

— Haha, acho que me pegaram, então, fui eu que entrei no ônibus, não tem porque esconder. – ‘O quê? Que porra é essa? Não tem como o Heitor ter feito isso... Por que ele está dizendo que entrou no ônibus? É claro, Naiara sua idiota, ele quer me salvar junto com o Marco, esse burro! Ele está se incriminando apenas pra nos libertar, ele corre risco de vida assim. Essa história das direções pode ser verdade, e isso foi uma grande sorte pro meu lado, com isso, ele pode inventar que foi ele que entrou no ônibus.’

— Tá louco? Não tem como isso! Você só quer ajudar seus amigos! Aposto que os três estão juntos nisso! Por exemplo, o garoto quer soltar os dois porque sabe que os dois soltos tem mais chances de soltar ele, do que ele soltar os dois, eles são três assassinos! Aqueles jovens que ficam o dia todo jogando e acabam ficando loucos uma hora ou outra, devem confundir realidade com ficção, aposto que eles que nos colocaram em uma situação dessas sem saída! – Juliana começou a ficar eufórica, e isso não era bom. Realmente, seria difícil acreditar que Heitor entrou no ônibus.

— Louco? Fui eu sua vadia de merda! Por que acham que falei da ‘chave no banheiro até meia noite’? Porra, já é meia noite, não vi a chave lá, e alguém morreu, como eu disse! Eu voltei pra trás justamente pra isso, seus acéfalos, eu propus a ideia de nos separarmos e vocês idiotas aderiram, eu só queria voltar pro ônibus pra matar mais um como prometi, eu fiquei esperando no escuro, atrás do ônibus, só pra ver quando alguém entrava no banheiro, eu tava impaciente porque ninguém entrava, mas aquele velho maldito finalmente foi cagar e passei a faca no pescoço dele! HAHAHAHAHA. – Heitor ria como louco, ele realmente queria convencer todos ali que era o culpado, naquele momento, João deu um chute no estômago de Heitor que caiu no chão.

— Louco do caralho!

— Ele falou a verdade gente! Como ele sabia do corte no pescoço? Como ele sabia que ninguém entrou antes no banheiro? Foi esse merda! – Mariana começou a chorar ao olhar para o rosto de dor de Heitor, ele tentou se levantar mas Carlos foi por trás do mesmo e imobilizou seus braços.

— E pensar que tinha te achado um cara legal... seu lixo! – Carlos parecia triste, ele realmente tinha considerado Heitor (?)

— EU VOU MATAR ELE ME SOLTEM! – Cleuza se remexia nos braços de Leonardo, Andrea só podia chorar nos braços de Neide por seu marido, Heitor também foi amarrado por cordas e colocado ao nosso lado.

— Eu sou a favor de mandar pra vala o filho da puta, não tem como porra! – Gustavo andava de um lado pro outro com a intenção de matar Heitor, foi então que o motorista se pronunciou com seriedade.

— Esses dois parecem mesmo inocentes, acho que não tem motivo pra deixá-los amarrados, não somos animais. – Carlos olhou para mim e pareceu perceber que eu era inocente, ele já havia demonstrado interesse logo que me viu no ônibus, ele poderia ser um grande aliado naquele momento.

— Você realmente não está trabalhando com esses dois? – Leonardo deu um chute forte no estômago de Heitor, eu estava começando a ficar preocupada, naquela situação, alguém iria mata-lo, mas ele se mantinha forte, Heitor realmente era um grande amigo, eu precisava tirar ele dali.

— Eu disse que não porra, vocês querem saber o porquê da chave? O porquê de tudo? Bem, então vamos lá, a chave que eu digo é a chave do coração da Naiara, eu quero ela, sempre quis! EU QUERO ELA SÓ PRA MIM, mas esse merda desgraçado vivia atrapalhando meus planos, como acham que eu me sinto ao ver ela beijando esse bastardo em minha frente! Amei ela muito antes dele, e ela nunca viu isso, nunca teve olhos pra mim, por isso eu disse, se ela não me der a chave do coração dela, mais pessoas vão morrer! Eu pretendia acusa-la de assassinato mas vejo que não tem porque esconder isso, vocês nasceram um pro outro seus filhos da puta! – Naquele momento, Heitor cuspiu em mim, ele realmente fazia uma atuação impecável, não tinha como as pessoas não acreditarem nele, exceto pelo portador, ele era o único que sabia que aquilo era uma farsa, e ele iria querer negar aquilo tudo. Me pergunto de onde saía essa criatividade instantânea do rapaz.

— Você é doente cara, vai morrer logo. – Kelly balançou a cabeça negativamente olhando para Heitor que sorria abertamente. Depois daquilo, todos decidiram nos soltar, eu e Marco estávamos livres, mas graças à Juliana, que foi contra nos soltarem, todos decidiram ficar de olho na gente, e com isso, dificultaria pra eu ir até o banheiro e pegar o meu ‘chaveiro’ espião. Quando Tainá morreu, na primeira oportunidade que tive, fui até o banheiro, o portador realmente havia sido tolo, se ele sabia quem eu era, ele perceberia que, ao ir ao banheiro, eu poderia supostamente estar deixando a chave lá, então fui ao banheiro uma hora depois da morte de Tainá, deixei o chaveiro espião que comprei antes da viagem posicionado perto da pia, em um local que possibilitaria filmar quem quer que entrasse lá, eu não podia viajar sem recursos, comprei vários aparatos baratos para lutar contra esses miseráveis, e agora, quem quer que tenha entrado depois de mim no banheiro ou matado Moacir, estaria nas filmagens, eu só precisaria ir até o banheiro e pegar aquela droga, mas com essa vigilância repentina, as coisas ficariam complicadas. Antes que eu pudesse pedir para ir ao banheiro, Gustavo lembrou de algo que nem eu mesmo me lembrava.

— Mano! Ces não lembram? – O rapaz se colocou na frente de todos.

— Lembrar o que? – Mariana questionou.

— No ônibus porra, na viagem, passamo por uma barraca de água de coco, lembro bem, mas quando fomo vê a porra dos caminho aqui não vi nada... – Gustavo tinha chegado em um ponto interessante. Eu também vi a barraca de água de coco, e mais de uma vez! Mas quando fomos procurar uma saída horas atrás com o ônibus, o motorista foi por caminhos diferentes, portanto, não fomos capazes de encontrar essa barraca de coco, mas ela devia estar lá. Foi então que repentinamente, Mariana começou a falar novamente, e isso me surpreendeu.

— Pessoal, vocês não estão entendendo? Estamos em um ‘loop’ em um espaço fechado, andamos de um lado para o outro e voltamos pro mesmo lugar, é como se fosse um labirinto, quando fomos procurar uma saída com o ônibus, o motorista cortou caminho, mas eu me lembro de ter visto mesmo duas ou três barracas de água de coco no caminho, mas agora que sei disso, percebo que se tratava da mesma, então ela se encontra nesse loop. – Todos ficaram surpreendidos com a explicação de Mariana, a maioria não acreditando naquilo de loop.

— Foi você que fez isso moleque? – Carlos se abaixou e olhou diretamente nos olhos de Heitor.

— Se eu tivesse um poder desses, acha que deixaria ser pego, bastardo? Eu apenas aproveitei essa situação pra matar aqueles dois e chamar atenção da Naiara, eu não sei o que tá acontecendo aqui que estamos presos. – Todos pareciam desconfiar das palavras de Heitor, e naquele instante, Kelly, para complicar ainda mais a minha vida, sugeriu algo insano.

— Já que esses dois estão sob suspeita, mandem eles mais duas pessoas atrás dessa tal barraca aí. – A garota realmente queria me foder.

— São 00:32, acha que terá alguém ainda lá? – Perguntou Neide.

— Pode não ter ninguém, mas já ajudará, pode ter um telefone, comida, algo sabe, e quem sabe o cara não more lá, parece que eu vi uma pequena casinha nos fundos. – Valdecir havia falado depois de muito tempo, mas certamente ele não tinha visto casinha nenhuma lá, como eu não pude perceber, e nos mandar diretamente pra encontrar essa barraca... pensando bem, isso era meio suspeito. Eu vi uma pessoa nessa barraca, isso com certeza, um homem de boné, por que o portador colocaria um loop com alguém de fora do ônibus preso? E por exemplo, se essa pessoa estivesse presa no loop, ele não conseguiria voltar para sua casa, ao menos que Valdecir estivesse certo e ele tivesse uma casa aos fundos da barraca, e se não tivesse, ele tentaria achar uma saída como nós ao perceber que estava preso, e teoricamente, ele teria que se cruzar com esse ônibus, mas como ele não o fez, significa que, ou ele tem uma casa mesmo na beira da estrada, ou ele... é o portador. Ele pode ter matado Taina e Moacir, pois não tem como ninguém das pessoas aqui ter matado Moacir, e parece que o que Heitor disse é verdade, ele pegou o caminho do ônibus, mas sei que ele não havia matado Moacir e tudo que havia dito era mentira, então só resta essa possibilidade, foi então que me decidi.

— Eu estou de acordo. Quero ser útil e provar minha inocência, vamos até lá Marco. Mas antes preciso ir ao banheiro. – Como estava sob suspeita ainda, a maldita da Kelly me acompanhou e entrou no banheiro junto de mim, ela estava desconfiada demais, eu não fui capaz de pegar o chaveiro, se fizesse isso ela certamente me veria como cúmplice e culpada, ao invés de Heitor, mas eu precisava pegar aquela droga. E se eu pedisse pra outra pessoa? Marco também seria vigiado ao entrar no banheiro, mas em quem eu podia confiar naquela merda? Todos podiam ser o portador! Decidi esperar e pensar em uma maneira de provar minha inocência para entrar sozinha no banheiro e finalmente pegar o chaveiro, com aquilo eu podia provar a inocência de Heitor e finalmente revelar o culpado, mas se eu contasse pra todos que fiz isso, eles poderiam desconfiar de mim, mas, se nas filmagens, o culpado aparecesse... Eu não queria perder mais tempo, fingi no banheiro que estava passando mal e me inclinei para perto da pia, em um rápido movimento peguei o chaveiro, consegui colocar em meu bolso antes que Kelly pudesse ver, mas ali estava o problema, precisava passar as filmagens para meu notebook na bolsa.

— Então vai ser assim, temos exatamente duas bicicletas no bagageiro, elas são de Gustavo e João certo? Vocês dois vão com Leonardo e João atrás dessa barraca com as bicicletas, vocês estão de acordo? – O motorista parecia ter bolado algo idiota, mas todos pareceram concordar no momento.

— Porra mas vou ter que ir numa bicicleta com esse cara ae? – João olhava pra Leonardo um pouco descontente.

— As estradas não passam carros, por mais que estejam escuras, vai ser complicados ir na garupa, mas as bicicletas são boas, não posso tirar o ônibus daqui... – Todos estavam curiosos para saberem o porquê de não podermos ir todos de ônibus, até que o motorista finalmente nos contou. – Alguém furou o tanque do ônibus. Estamos sem combustível, esse ônibus não poderá mais andar. – Todos ficaram chocados e assustados, o portador estava prestes a usar todas as suas cartas para me dar o check mate.