Eu estava com aquela maldita garrafa gelada em minhas mãos, a luz do quarto parecia se apagar aos poucos, mas na verdade eram meus olhos que escureciam gradativamente com o ranger do piso de madeira, uma botina ou coturno poderiam criar aqueles ecos sobre o meu quarto, ou então aquela dor que sentia aguçara meus sentidos, podia ouvir uma voz me dizendo que não queria que eu estivesse ali, mas droga, era o meu apartamento. Eu pensei que realmente não havia ninguém ali, a não ser o meu eu corrompido por pensamentos que distorciam a realidade, como se eu estivesse em um buraco negro, comecei a sentir como se tivesse deixado algo importante passar, depois de sentir o cheiro de sangue naquele dia, talvez eu havia sentido o desespero bater em minha porta, ainda sentia o gosto do café em minha boca, eu queria tanto um cigarro, eu sabia que era um viciado e que poderia contrair um câncer de pulmão daqui alguns anos, mas naquele momento obscuro eu sentia que não me importava menos com isso, tudo que podia desejar era que aquela dor cessasse e eu acordasse na minha cama dura olhando pro teto branco do meu quarto com minha vizinha cantando aqueles sertanejos antigos que ouço todo domingo de manhã. Ao me deparar com uma sombra em minha frente, eu vi que não era ficção e muito menos fruto de alguma bala alucinógena, eu nem tinha verba pra comprar uma, então a pessoa em minha frente existia, ou eu estava dormindo, caindo no sono como uma criança depois de brincar o dia todo, ou então o estresse me colapsou, acho que eu realmente me renderia diante daquele paradoxo que me cercava. Eu fechei finalmente meus olhos e então pude ouvir uma voz familiar que soava fria e distante:

— Fez bem Gilberto. Durma. – Queria poder abrir meus olhos e ver quem estava na minha frente, mas tudo que eu enxergava era um pedaço de culpa que cercava meu ser que já caía em sono profundo.