Lapso Final
2 Capítulo 01 - Paranoia Concretizada
9:12 AM – Sábado – 16 de Março de 2017
Acordar com dor de cabeça não era um dos planos que eu tinha para um sábado de manhã, aliás, jamais havia acordado com dor de cabeça em meus 32 anos de idade, tudo bem que na noite passada, depois de beber alguma boas doses de conhaque em companhia da minha antiga vitrola com os clássicos do Led, naturalmente não me sentiria bem, visto que não bebia mais que um copo de álcool desde janeiro do ano passado, exatamente onze meses desde que vi minha amada ser enterrada, e nesse dia, já percebi que minhas companhias de sexta-feira seriam meus vinis e a brisa que me acompanhava através da veneziana aberta. Morar no décimo terceiro andar tinha lá suas vantagens. Depois de tomar um bom café preto, me preparei para encarar aquele dia cansativo, porém, proveitoso, ao menos era assim que eu pensava antes de sair da cama, mas acordar depois das 9:00 sempre me deixava com mais preguiça do que cair da cama com o despertador martelando em minha cabeça às seis da matina. O jornal não estava na minha porta como habitualmente, talvez o porteiro estivesse atrasado ou se esquecido, não era a primeira vez, o noticiário da Globo News dizia que haviam vários protestos na capital por conta do preço da passagem do ônibus, haviam aumentado mais vinte centavos, parece pouco, mas para pessoas que usam esse transporte todos os dias acaba pesando no bolso.
Depois de me vestir com uma camisa polo branca, calça jeans convencional e um tênis esportivo confortável, dei os toques finais aos meus cabelos encaracolados, que afinal, mal podiam ser penteados, e parti rumo ao primeiro desafio do dia, e acho que o mais importante.
10:33 AM
Chegando no metrô, me deparo com uma cena rotineira na paisagem paulistana, pessoas pregando seu evangelho como se fosse o fim do mundo, mas acho que aqueles lunáticos de filmes apocalípticos conseguem me convencer mais do que essas senhoras carregando suas bíblias manipuladas por suas igrejas, elas mal sabiam o que estavam dizendo, mas não podia deixar de achar curiosa sua determinação.
— Você está interessado no que ela tem a dizer? Já te disse que posso te levar pros cultos quando quiser. – Diana apareceu repentinamente atrás de mim, se fosse um assaltante, eu já estaria com o cano de um revólver em meu pescoço e passando minha carteira.
— Já disse que mesmo que você me faça uma lavagem cerebral ala Laranja Mecânica, eu ainda vou continuar com minha posição cética odiada por você e metade dessas pessoas ao meu redor. Aliás, você poderia parar de chegar por trás desse jeito? – A garota chamava atenção perante aquela multidão clonada que se amontoada na beirada da plataforma do metrô da linha amarela da zona sul de São Paulo, seus olhos verdes combinavam com a blusinha carmesim que vestira por cima de uma camiseta estampada bem jovial, apesar de ter quase minha idade, sua vitalidade e estilo a deixavam com ar de vinte anos, era certamente uma pessoa que os homens adicionavam em massa no facebook, ainda mais por ser simpática mesmo com desconhecidos, uma qualidade que desaprovava mas que já estava condicionada em Diana, com seus cabelos curtos e negros, ela parecia uma estrangeira com sede de aventura pelas ruas da capital, eu a via como uma irmã mais nova que não estava satisfeita com o cotidiano, no fundo, ela era alguém que se entediava facilmente, mas por trás daquele rostinho delicado, havia mais perspicácia do que olhos atentos podiam perceber, e era por essa personalidade forte e aguerrida de Diana que eu estava gastando a manhã do meu sábado, ela desejava algo que eu possuía, mas que sabia que não podia ter, não depois de saber que ela faz parte dos globalistas e desde o começo, está de olho em mim.
— Você tem tanto medo assim de mim? Gil, não pode estar falando sério, não é?
— Falando sério sobre o quê? – A garota me fitava sem nem piscar, eu conhecia poucas pessoas capazes de fazerem isso, ela parecia não ter temor e nem medo de encarar as verdades direcionadas a ela, por outro lado, eu era um péssimo mentiroso e nunca soube fingir.
— O motivo de estarmos aqui. Eu no caso, preferiria estar no meu sofá agora com meu gato vendo algum programa repetido do History Channel, mas eu vou ouvir suas paranoias e tentar mais uma vez te convencer, pois sei que você é uma pessoa sensata.
— Desculpe Diana, mas como alguém pode me chamar de paranoico sendo que está a dias batendo em uma tecla que se afundou faz tempo? Eu não tenho aquele maldito papel, por mais que acredite que você não queira ele, mas sim, outras pessoas.
— Sim, você acredita que quero aquela droga porque eu vou repassar pra aquele cara de terno que você me viu conversando semana passada. Pelo amor de Deus Gilberto, se toda testemunha de Jeová que me abordasse fosse um membro de alguma seita secreta, da CERN ou um maldito reptiliano, tenho certeza de que o mundo estaria em ruínas já.
— Aquele dia eu estava embriagado, você não devia ter dado bola pra o que eu disse, e não se pode mais nem brincar hoje em dia? – Eu me envergonhava profundamente ao saber que na verdade, nunca foi uma brincadeira. Diana estava realmente falando com aquele rapaz de terno suspeito, e quando me aproximei, ela mudou subitamente o rumo da conversa e fingiu que ele era um estranho, mas eu não sou nenhum esquizofrênico pra ouvir coisas que nunca foram ditas, e com absoluta certeza ouvi ela dizendo que conseguiria aquilo em menos de uma semana, bom, hoje era o último dia do prazo, então ela terá que me matar pra tirar aquela fórmula de mim, e mesmo que ela o fizesse, jamais acharia. Não ligo de parecer o psicótico conspiracionista, mas eu tenho que confessar que sou uma pessoa inteligente e que conhece bem os humanos, apesar de ter estudado exatas a minha vida toda e ser um professor de física em uma federal, lidar com alunos era uma experiência que te deixava apto a conhecer certas peculiaridades do ser humano. Conhecia Diana por mais de três anos, e sabia que ela não era a pessoa que demonstrava ser em público, e eu havia colhido provas suficientes para que suas palavras de defesa não me atingissem, por outro lado, eu precisava negar, mesmo sendo um péssimo mentiroso, afinal, ela também não possuía provas concretas do que dizia.
— Era uma segunda-feira, Gil, você não bebe nem de sábado.
— Pois saiba que ontem eu bebi.
— Percebi por suas olheiras.
— Pensei que soubesse pelo fato dos seus homens terem me vigiado durante parte da noite.
— Agora temos que ir direto para um psiquiatra?
— Isso foi uma brincadeira também. – Antes que ela pudesse me responder de maneira irônica como eu previa, o nosso metrô havia chegado. Estávamos indo direto para a estação da Luz, nos despediríamos depois de dois quarteirões, mas até lá teríamos uma longa e chata conversa de tópicos já discutidos anteriormente, ela não tinha mais argumentos para me convencer a dar aquela fórmula, já ouvi que seria processado, difamado e até mesmo ameaçado em perder o cargo na UNESP, como se isso fosse acontecer, ao menos que ela realmente tenha algum tipo de influência dos globalistas, o que pra mim, não era impossível, eu sentia que não corria risco de vida, mas essas possibilidades anteriores poderiam bem acontecer.
— Que tal me convidar para sua casa? Eu poderia dar uma olhada embaixo do seu colchão, já que você diz que não sabe de nada, aliás, eu devo estar muito louca no caso, porque naquele dia que fomos jantar, você foi a única pessoa que me encontrei das 17:00 até o horário em que fui dormir, deixei a maldita folha na minha bolsa, pois saímos do campus às 18:12, desde esse horário ela permaneceu lá, e você era o único ser vivo na terra que sabia disso, eu não cheguei a tirar nem a comentar com ninguém, e coincidentemente, quando chego em casa, não havia mais nada na minha bolsa a não ser meu quite de maquiagem e meus cartões de táxi, então você quer dizer que entramos em um universo paralelo onde esse papel nunca esteve em minha bolsa?
— Ou então, onde ele nunca foi se quer escrito?
— Você é um cara de pau, Gilberto.
— Já me falaram muito isso. Mas eu realmente não peguei nada. – Depois de longas conversas com um contradizendo o outro e ela tentando algum modo de me fazer dizer o que queria ouvir, havíamos chegado na estação da luz. As pessoas desciam do metrô como formigas programadas para buscarem o alimento do dia, Diana começava a ficar impaciente e a me olhar com certa destreza, sentia em sua boca contorcida a raiva que ela não conseguia transmitir em palavras.
— Você quer que eu te denuncie por furto?
— Por pegar um pedaço de papel? Você está me ameaçando com isso?
— Não é um pedaço de papel, é uma ideia, e ela é minha.
— E como você pode provar para outras pessoas que ela é sua? – Estávamos apenas nós dois, paralisados sobre a plataforma de espera com uma proteção solar, as pessoas se amontoavam distantes dali, apenas um senhor fumava seu cigarro em nossa esquerda esperando o tempo passar, eu sabia que ela iria usar suas últimas cartadas, e era nesse momento que garantiria minha vitória.
— A letra é minha.
— Letra? Mas 99% daquilo contém números, e números não possuem uma caligrafia, ou seja, não há como provar que aquilo é seu, não contendo uma assinatura e nem nada que prove que foi feito por você, mesmo que eu não tenha essa folha, se tivesse, hipoteticamente, você não poderia fazer nada, mesmo indo até a polícia, advogados, promotores, o que for, ao menos que você mande um hitman da sua organização atrás de mim. – Eu sorri de canto ignorando os olhos fervorosos da garota que queriam me rasgar ao meio, eu no fundo tinha mesmo medo de tudo isso envolver algo mais profundo do que eu imaginava que poderia lidar.
— Você tem até hoje às 19:00 para me enviar. O recado foi dado. – Ela saiu caminhando sem olhar para trás, eu não imaginava que ela fosse apelar para uma retirada estratégica como um felino fugindo de algo que não pode vencer.
— E se eu não enviar?
— O recado foi dado, Gilberto. – Fiquei observando Diana sumir com a multidão, a qualquer momento eu poderia sofrer um acidente e cair duro no chão, meu apartamento seria revirado e ninguém se lembraria de um professor bastardo de física sem mulher, sem filhos e sem família por perto. Mas meu ideal era maior do que todas essas coisas. Ver aquele velho fumando me deixou com vontade de uma tragada, antes de pegar o ônibus para o campus, comprei um maço de cigarro e comecei a perceber que não me lembrara de nada do que havia acontecido ontem à noite.
11:50 AM
Antes de ir até a faculdade, fui até um restaurante japonês que estou acostumado, a ressaca não me deixava ter muita fome, no entanto, acabei comendo um prato que deu quase sessenta reais, tudo bem que a comida japonesa normalmente era cara, mas a ansiedade era um fator que lutava contra a ressaca e me deixava com o apetite aberto, ansioso por conta de uma paranoia, eu ria de mim mesmo ao perceber que Diana era bem mais infantil do que eu exigindo um pedaço de papel que eu havia roubado, não me senti mal por usar esse termo deliberadamente em meu interior, era isso que eu havia feito, mas assim como Robin Hood, era por um bem maior, ou eu queria acreditar que sim. Talvez eu só estivesse inventando uma desculpa para ter aquilo, mas quando pensei em Diana conversando com o homem de terno, eu sabia que no fundo eu tinha fundamento para minha inquietude.
Depois de tomar um bom café expresso, um brinde daquele rodízio caro que me deixara com estômago pesado, fui até o banco retirar dinheiro, nunca se sabia quando eu teria que fugir pro Chile ou algum país da américa do sul que me desse condição de vida, eu estava me sentindo uma pessoa deplorável por ter essas eram precauções reais, e não fruto de um senso de defesa aguçado, eu vivia baseado na convicção de que a lei de Murphy tomava conta do nosso universo, em especial do nosso mundo, afinal, humanos tendem a problematizar e criar brechas para o azar em quase todos os aspectos viris de sua natureza. Por que eu sentia que alguém estava me perseguindo? Era por que de fato alguém estava, ou porque essa era mais uma das sementes de minha paranoia? Eu fui graduado nos Estados Unidos, passei em primeiro em um concurso com mais de dois mil candidatos na cidade mais populosa do país, nunca havia tirado menos de 9 na universidade, independente da matéria, aquele oito de termodinâmica não podia ser considerado pois o professor me odiava, maldito gordão carente que descontava suas frustações nos alunos, ele quase me fez odiar a física, mas foi dele que tive conhecimento da lei de murhy, e por conta disso, eu havia me salvado em vários momentos da minha vida em que um poço sem fundo poderia ter me sugado. Saí do banco e olhei para todos os arredores, andei por cerca de cinco quarteirões até perder essa sensação noir de que havia alguém nas sombras, o centro estava movimentado e mal dava para eu andar, mesmo se alguém estivesse em minha cola não saberia quem era, mas com tantas pessoas direcionando seus olhares para todos os cantos, como ter certeza disso? Diana havia vencido no jogo psicológico, estava envergonhado.
12:41 PM
Chegando no Campus, senti como se o ambiente daquele local silencioso estivesse mais frio do que o comum, eu estava doente? Não de uma doença fisiológica, talvez Diana estivesse certa e eu errado, não havia homem de terno do governo, globalistas, só havia uma mente perturbada de um homem solitário que gostava de romances policiais com um toque de ficção.
Eu pretendia dar aulas extra curriculares para cinco de meus estudantes que haviam ido mal na prova de Física Quântica, justo a matéria que considero explicar melhor e me dedicar com todo coração, não me sinto bem ao saber que alguns não se empenharam o suficiente pra tirar no mínimo seis, ou então eles realmente achavam isso um saco, mas conhecendo-os, sabia que amavam física e que eu havia pegado pesado na formulação das questões, portanto dedicaria meu tempo todo desse sábado apenas para compensar esse meu erro.
— Boa tarde seu Gilberto, tem café lá na sala já, a Selma disse que não podia vir hoje pois sua filha está passando mal. – O homem de terno que me cumprimentou era José, o porteiro de meia idade que tomava conta da recepção do campus, ele lia um livro da Agatha Christie tranquilamente antes que eu desse as caras, ele tentou disfarçar quando cheguei, mas não via mal algum em aproveitar o seu tempo ‘livre’ dessa forma, ele era uma pessoa de boa índole e que todos ali dentro gostavam, seus cabelos mesclados com tons cinzas e negros dava um charme único a ele, tanto que apesar dos quase 50 anos, as garotinhas do curso o admiravam, enquanto eu com 30 não recebo olhares nem de vendedoras de rua.
— E o que aconteceu com a filha dela?
— Diz que foi da pressão, a menina tem uns problemas aí, não sei ao certo, mas ela arrumou sua sala ontem de noite, deixou tudo pronto.
— Espero que esteja tudo bem, tem alguém aí já? – Perguntei ao recepcionista enquanto lamentava pela filha de Selma, a faxineira e ‘doméstica’ do lugar, ela sempre era uma boa companhia para conversas casuais e me dar conselhos que só uma vó, que não tenho, poderia dar.
— O Alex e aquela menina que foi transferida estão aí já. – Me despedi de José e cheguei na sala em que eu pretendia passar a tarde com aqueles estudantes, Alex e Silvana se encontravam na mesma, este primeiro, um garoto magrelo com cabelos longos e barba rala, uma aparência no rosto que não combinada nada com seu físico raquítico, se ele não se vestisse bem, todos iam confundi-lo com um morador de rua, e ao contrário de Alex, Silvana era uma garota vaidosa de longos cabelos negros e a pele rosada e bem cuidada, o perfume que ela usava se destacava facilmente na sala, ficava fácil saber quando ela estava por lá apenas por isso, seus vívidos olhos negros ressaltavam sua beleza única, pena que ela ainda tem apenas 18 anos de idade, imagino como será sua beleza caso ela a mantenha até os trinta.
— Gil, trouxe pão de queijo? – Perguntou Alex quando me viu entrar na sala e fechar a porta, ele estava mexendo no seu celular enquanto Silvana escrevia algo em uma folha de papel.
— Eu estava esperando que vocês trouxessem algo pra comer, já que eu vou me dar o trabalho de ensinar.
— Qual é, você é o professor aqui.
— Sim mas eu nunca tirei 4 na minha vida na faculdade. – Apesar daqueles serem meus melhores alunos, eles ainda haviam ido muito mal na prova, eu ainda pensava que a culpa era minha, por mais estranho que tudo aquilo fosse, talvez por confiança demais, eles nem tenham estudado, pois não vejo outro motivo para os melhores alunos irem mal.
— Essa doeu hein. – Silvana fitou Alex rindo de canto do mesmo com seus olhos penetrantes, o garoto ficava sem jeito olhando pra ela, acho que todos se rendiam àquela beleza sublime e voz doce que a menina possuía.
— Vocês andaram mexendo ali na prateleira? – Antes de me sentar, algo havia chamado minha atenção, eu olhei para uma pequena prateleira de livros que ficara no canto daquela sala do lado da mesa na frente da lousa, haviam pelo menos quinze livros lá, alguns apostilas didáticas de física, e outros clássicos ‘As Crônicas Marcianas’ e ‘Uma Odisséia no Espaço’, livros que por sinal eu havia pagado caro e tinha um forte apelo emocional para com eles, mantinha ali no campus pois confiava em meus alunos, mas ao perceber que ‘Encontro com Rama’, do meu escrito favorito Arthur C Clarke não estava por lá, senti um calafrio tomar conta da minha espinha, olhei para os dois sentados na minha frente mas eles pareciam não saber do que eu estava falando.
— Tem algo faltando? – Silvana começou a olhar para a prateleira tentando ver qual livro faltava ali.
— É o Encontro com Rama? Realmente desde que cheguei aqui e bati o olho na prateleira não o vi, pensei que você tinha levado pra casa. – Alex, depois de encarar a prateleira, voltou a mexer em seu celular despreocupado, mas para mim a situação não era cômoda assim, esse livro era uma versão de 1970, um dos meus itens que posso considerar preciosos, mas acreditava na índole e na sinceridade dos meus alunos, afinal, eu apenas havia escolhido dar essa aula gratuita extra curricular pra eles porque eram pessoas boas e que realmente se interessavam por física, e já emprestei vários livros desses da prateleiras pra todos eles, não tem porque um deles ter pego ou algo do tipo.
— A Selma deve ter achado que era da biblioteca e levou até lá, estou quase certo disso, ela sempre faz dessas. – Me irritei por um instante ao pensar que a empregada podia ter cometido esse engano, eu devia avisá-la e mostra-la todos os livros daquela prateleira, que pertencem única e exclusivamente a ela.
— Finalmente, pensei que iria morrer na rua, vim com essas blusas achando que faria frio, mas não tem como prevermos o tempo né? – A aluna que havia entrado na sala era Luana, uma garota de 24 anos extrovertida e com a aparência de uma mulher normal do século vinte um, cabelos ondulados e louros, corpo um pouco cheio mas não deixava de ser atraente, seu sorriso contagiava todos os alunos, diria que ela era o fator ânimo das aulas.
Os outros alunos que havia ‘convocado’ finalmente apareceram também, Anderson, o mais velho da turma, tinha quase seus 32 anos e seus cabelos começavam a cair na frente de sua cabeça, seu físico era o de alguém que gostava de beber depois das 18:00 em um happy hour, era um rapaz agradável e que se dava bem com todo mundo, apesar de ser fechado para algumas coisas. A última aluna a entrar na sala foi Maria Clara, uma das minhas ‘prediletas’ do curso pelo fato de sempre me perguntar sobre as coisas, ela se interessava por tudo que não conhecia, diria que grandes gênios nascem assim, e isso que ela havia completado 19 anos a poucos dias, mesmo assim, ela tinha uma atitude bem madura, seus cabelos curtos em chanel da cor amarronzada faziam ela ter um ar de importância a mais, apesar de parecer estar sempre pensativa e melancólica, diria que esse é o preço de quem vive atrelado em pensamentos e em busca de conhecimento.
— Bom, já que estamos todos aqui, alguém trouxe o baralho? – Alex vivia fazendo piadinhas, mas confesso que naquele estado de ansiedade que eu estava, um bom poker cairia bem, mas não podia descumprir com meu tratado, a física sempre vencia no final.
— Gilberto, você não trouxe aquela apresentação de slides chatas né? – Anderson começou a me olhar torto prevendo que aquela poderia ser uma tarde tediosa com slides repetitivos, mas felizmente eu não tinha mais disposição para fazer esse tipo de coisa.
— Fique tranquilo que você vai sentir muito sono quando eu começar a detalhar a Constante de Planck, aliás, Maria, está tudo bem? – Ao olhar para o rosto da menina, percebia que seus olhos percorriam aquela sala a todo instante, uma ansiedade tomava conta do seu ser que naturalmente já parecia um tanto animoso, ela se voltou para mim e quase gaguejando, me respondeu;
— Só estou nervosa com umas coisas da minha casa, desculpe se transpareci isso.
— Problemas todos temos, não se preocupe com isso, apenas fiquei preocupado. – Maria sorriu para mim, eu era um professor e obviamente já havia me deparado com meus alunos tristes, ansiosos ou mesmo nervosos, era natural do ser humano e nem todos os dias eles podiam estar focados e com a estima elevada, mas Maria nunca antes tinha demonstrada tal atitude de preocupação, talvez fosse algum problema de saúde envolvendo sua família, mas eu não tinha coragem de perguntar, não naquele momento meio aos outros alunos.
15:58 PM
O tempo passou rápido como uma flecha que percorre até chegar o seu alvo, depois de explicar quase vinte páginas do livro, já eram quase 16:00, Alex estava irritado reclamando que precisava comer algo, Luana parou para atender seu celular umas duas vezes, o que me deixou bem irritado pois esse é uma das coisas que mais odeio quando estou explicando, mas com os pedidos sinceros de desculpa da garota com sua voz sincera... Não tinha como eu não relevar.
— Nessa pausa agora tenho uma missão para vocês. – Eu pigarreei e olhei para todos os alunos que já se preparavam para irem até a lanchonete ou fumarem no pátio. – Quem conseguir encontrar o Encontro com Rama, vai ganhar um ponto a mais na média, e isso é sério. Acho que a Selma colocou na biblioteca mas sabe-se lá em que lugar. – Minhas palavras foram como combustível para aqueles alunos que, antes possuíam aparência abatida, agora pareciam renovados e prontos para caçarem leões famintos.
— Tá zoando né? Vale dar jogo de corpo nos outros pra ir na frente? – Alex disse isso enquanto Silvana o fitava zangada.
— Não pense que por ser mulher eu sou fraca. – Disse a garota se aproximando da porta procurando uma brecha.
— Devo dizer que quem usar de força ou outros truques e eu ficar sabendo, vai ser desqualificado e vai é perder um ponto na média.
— Então quer dizer que podemos trapacear e você não ficar sabendo que tudo bem? – Anderson sorriu e todos ali também acharam graça, mas queria realmente encontrar essa merda de livro. Como se fosse um juiz de futebol assoprando seu apito no começo do jogo, liberei aqueles jovens e me sentei em minha cadeira enquanto tirava uma barra de cereal do bolso, mas percebi que Maria ainda estava na sala, será que ela não se interessa por um ponto na média? Quando olhei para seus olhos me encarando, vi que ela realmente não estava normal.
— Gil, bom, desculpe se pareci distraída nas explicações, mas você já sentiu que tem alguém te perseguindo? – Não deixei de me arrepiar ouvindo essas palavras. A mesma sensação que eu sentira o dia todo, que achava que era paranoia e fruto da minha loucura momentânea, ao ouvir aquilo comecei a me sentir uma pessoa lúcida novamente.
— Eu sinto isso sempre, é parte da ansiedade, você só precisa relaxar a mente. – O que eu havia dito não condizia com o que eu sentira, claro que eu queria dizer que sentia isso e que realmente havia alguém me seguindo, mas por quais motivos seguiriam ela? Por ser minha aluna?
— Sim, deve ser isso...Vou tentar não pensar muito então, aliás, o seu livro estava junto das apostilas ali no amarinho. – Maria estendeu suas mãos e nelas estavam o livro que eu culpava Selma por tirar do lugar, quando na verdade, eu quem havia feito isso.
— Eu havia colocado ali? – Olhei para umas mesinhas de madeira no canto da sala, junto delas havia um armarinho cheio de apostilas, a maioria antigas e que não serviam mais para nada, eu tentei me lembrar quando havia colocado esse livro lá, mas nesse momento, comecei a sentir fortes dores de cabeça, parece que havia um prego tentando entrar em meu cérebro com fortes marteladas, eu coloquei uma das mãos em minha nuca e não consegui disfarçar a sensação de dor, ao ver isso Maria se preocupou, eu disse que precisava apenas ir ao banheiro tomar um analgésico, eu realmente não beberia nunca mais na minha vida!
Chegando no banheiro, depois de lavar meu rosto, ouvi alguém dando a descarga, olhei para um dos compartimentos ali e vi que um homem com sapatos marrons escuro estava lá, só podia ser José, visto que Alex e Anderson não usavam sapatos, e não havia mais ninguém naquele Campus no dia de hoje. Ao sair do banheiro, passei até a recepção e para minha surpresa, vi José falando no celular lá, quando ele me viu, imediatamente desligou bem envergonhado.
— Desculpe senhor, eu precisava atender, era uma ligação urgente. – Eu não estava bravo nem nada, estava era pensando quem era no banheiro.
— O que você faz aqui nos fins de semana não vem ao caso, pode até jogar aí no seu computador que não ligo, mas me diga, alguém entrou aqui José?
— Como é? Entrou agora?
— Sim, desde que entrei na sala, alguém além dos meus alunos entrou aqui?
— Não senhor, ninguém entrou.
— Oras, mas acabo de ver alguém no banheiro!
— Senhor, eu juro que usei meu celular por um minuto mas não deixei de olhar para a porta, eu saberia se alguém tivesse entrado, o senhor foi o único que foi ao banheiro. – Intrigado, eu fui ao banheiro novamente mas não vi ninguém por lá. Será que foi impressão e mais uma de minhas paranoias envolvendo Diana? Poderia ser isso, mas também poderia ser real. Antes de formular alguma teoria, ouvi um forte estrondo vindo da biblioteca, com certeza Alex havia deixado cair uma pilha de livros como sempre fazia, eu subi até lá, e antes de chegar na segunda parte da escada, pegando o terceiro e último andar aquele prédio, havia algo lá que não me fazia crer que fosse real.
— O que porra foi esse barulho? – Anderson saiu da biblioteca e olhou na mesma direção em que eu estava olhando. Meus olhos pareciam saltar, meu corpo começou a tremer instintivamente, meu estômago se embrulhou na hora ao ver o corpo de Maria jogado no chão com seu pescoço virado de lado, aparentemente quebrado, seus olhos abertos já diziam que ela estava morta, o sangue escorrendo por sua nuca também, foi nesse momento que comecei a pensar que minhas paranoias podiam estar se concretizando.
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