L'appel du vide
1 Capítulo 1 - O chamado do Vazio
É hora do rush, o sinal abre. Os faróis dos carros iluminam seu rosto rapidamente, ferindo seus olhos em meio a fumaça dos escapamentos e o barulho dos motores; diversos motores frenéticos carregando pessoas apressadas de volta para suas casas, ou para longe delas, quem sabe.
Sopra uma brisa suave, quase fria, e você pensa em dar um passo a frente, apenas um e se deixar cair no meio da confusão de luzes e escapacamentos. Basta apenas um passo, um mísero movimento e então a dor, o alívio, a escuridão.
“Meu deus, meu deus, que frágeis nos fizestes e que fácil é morrer”*
Basta apenas ouvir este impulso tão antigo quanto a própria humanidade, este anjo mal que nos seduz para uma escuridão que não deriva da maldade, mas da ausência... E não há anjo bom que nos valha nesta hora, nenhum santo de plantão ou deus onisciente que nos acuda e nos faça vencer a nós mesmos. Há apenas o impulso e o pensamento que nos embala:
“quão frágil nós somos”
Esta carne e osso que nos protege não é nenhuma armadura, ao contrário: arranham-se e se partem como um nada, basta apenas a força certa e nós escorregamos irremediavelmente e de nada nos vale a medicina se não como uma vã tentativa de dizer a morte “venha mais tarde, tenha paciência”. Que importa se há entes queridos a nossa espera ou um jantar quente que não poderá ser comido? Este impulso a tudo ignora e arrebata, é como o canto da sereia e, quão fácil seria fechar os olhos e dar este passo? Há garantias de que será rápido, horrível e misericordiosamente rápido, sem tempo para arrependimentos, uma palavra, uma carta de despedida.
“Venha” e parece que a sereia canta por horas a fio e nós nos debatemos dentro de nós mesmos, sem dar o fatídico passo para frente, sem dar o redentor passo para trás, sem esboçar qualquer expressão.
E o som dos motores diminuem, os faróis param e é dado o sinal aos pedestres de que é seguro atravessas, nenhum mal irá se suceder agora, nenhum. A voz da sereia some como se nunca houvesse existido e o seu corpo dá então o tão desejado passo andiante, mas desta vez não há perigo, não há carro, ônibus ou caminhão para levar-te ao vazio, há apenas a luz que te diz para prosseguir como um animal amestrado e a sereia, o impulso, jaz tão silente como se nunca tivesse existido.
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