Lapis Lazuli

1 Capítulo Único


Um ranger de dentes, nas profundezas da floresta timidamente banhada pela luz da lua. Recuou um pouco, ainda mostrando as presas para a criatura em sua frente. Os outros dois — um de cada lado — faziam o mesmo, embora o medo que emanavam era infinitamente superior ao de seu líder.

O líder uivou, e os outros dois entenderam que era hora de recuar. Adentraram na floresta, correndo o máximo que podiam enquanto o lobo com uma cicatriz branca no olho esquerdo olhava no fundo dos olhos da criatura, os dentes à mostra. À sua frente os corpos de tantos outros da matilha, com os pêlos brancos manchados de vermelho.

E foi isso, a lua timidamente iluminava o banquete de sangue na, antes calma, floresta.

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O pequeno saiu de sua toca, atraído pelo cheiro forte de comida. Diante do texugo, os restos de vários lobos, cercados por uma quantidade anormal de sangue. Sentiu seu corpo congelar, algo não estava certo naquela cena. Ele sabia que nenhum predador faria algo assim. Ao menos, não um que caça para comer. Um pouco receoso, ele se aproximou de um dos cadáveres, que fora comido pela metade. A carne estava quente, como se o sangue ainda corresse pelas veias daquele animal.

Recuou. Tentou, ao menos. Seu corpo, normalmente ágil, não se moveria um milímetro. Sentiu os olhares predadores em suas costas, e instintivamente virou a cabeça naquela direção. Nada. Ou ao menos, nada que seus olhos podiam ver, ainda sentia que alguma coisa estava ali. Tinha de estar, afinal, de que outro modo a atmosfera do lugar teria se tornado tão densa e mortal?

Olhou novamente ao seu redor, procurando o caçador. Nada. E a atmosfera estava ficando ainda mais densa, chegando a um nível quase físico. Talvez por isso os olhos do, geralmente corajoso, texugo demonstravam todo o medo que estava sentindo.

— GUHRRRRR! — O som, não tão distante, pareceu quebrar a magia que prendia o texugo, que prontamente deslizou para sua toca, cavando ainda mais rápido do que costumava.

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O grito do urso foi sumindo à medida que caia. Seus olhos tão pesados que não conseguiria abrir nem ao menos um pouco. A pelagem um pouco acinzentada agora tinha uma cor que não pertencia a ela — o vermelho impregnava os pêlos do pobre urso aos poucos. Sentia sua vida se esvaindo aos poucos, enquanto se esforçava para levantar, resistir de algum modo àquela atmosfera que tentava tomar cada uma de suas veias. Desistiu. Sabia que era inútil, e o melhor a fazer no momento seria pensar.

As imagens surgiram em sua mente, como se a natureza estivesse conspirando contra o grande mamífero. Sangue misturado com uma leve fragrância das profundezas do oceano, fora aquele o cheiro que fizera o urso levantar e saciar sua curiosidade. O ar parecia mais e mais impregnado com ódio a cada passo que dava. Não se espantaria se chegasse a um nível em que pudesse tocar o ódio. E foi o que aconteceu, no momento seguinte ele estava caindo, desesperado, no chão.

Sentiu a respiração de alguém, perto de sua orelha. Era tão fria que poderia congelar o mundo inteiro, se assim o desejasse. Depois veio aquela risada, tão inocente que poderia levar qualquer um à loucura.

— Não tem graça assim — uma voz feminina e infantil, que o urso pensou já ter ouvido em algum lugar antes. Tentou se lembrar, forçar a memória. Nada. — Boa noite — como se por mágica, a consciência do urso obscureceu lentamente, até que ele não sentia mais nada.

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Os olhos avermelhados observavam discretamente o urso, que parecia dormir tranqüilamente. Riu um pouco da situação, então foi embora. Sabia que não podia ficar muito tempo ali, ou sabe-se lá o que poderia acontecer. Os pêlos castanho-avermelhados brilhavam com o sol, enquanto a ágil raposa corria de volta para um de seus esconderijos. Precisava se preparar para aquela noite.

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Era noite quando o pequeno saiu de sua toca. A atmosfera do lugar parecia ainda mais pesada do que pela manhã. Seguiu o cheiro do sangue até uma clareira banhada pela luz azul-pálida da lua cheia. Escorado no tronco de uma sequóia estava o urso-pardo, com a pelagem que misturava cinza e vermelho — e um leve toque de azul, graças à lua. Os olhos dele se abriram lentamente ao perceber a aproximação do texugo, que parou naquele instante e passou a observar o urso.

— Está vindo de novo — o urso disse, olhando ao longe na floresta, onde se podia ver, com algum esforço, a neblina espessa se propagando pelas árvores.

O texugo olhou naquela direção. O mesmo sentimento daquela manhã, percorrendo cada uma de suas veias. Sentiu o corpo congelar, então recuou um pouco, instintivamente. Olhou para o urso, que se esforçava para se levantar.

— O que é aquilo? — O texugo perguntou, o urso deu um sorriso discreto.

— O oceano — os olhares do pequeno se fixaram no urso, sem entender. Sabia muito bem que aquilo não era o oceano. — O oceano da morte — o maior disse, uma expressão mais séria no rosto. — É melhor sair daqui, aquela coisa vai engolir o que estiver em seu caminho. Tem uma caverna ao norte, provavelmente estará mais seguro lá.

O pequeno pensou em ignorar o urso e cavar sua saída dali, mas mudou de idéia ao ver que o oceano se aproximava rapidamente. Além disso, estava certo de que aquela coisa penetraria o túnel atrás de sua vítima.

Começou a correr na direção que o urso indicara. Não que confiasse tanto assim no grande mamífero, mas no momento ele era mais confiável do que o oceano que se aproximava e fazia seu sangue congelar só em pensar.

Quando finalmente chegou à caverna, estava exausto. Precisava descansar um pouco antes de começar a cavar, mas estava um pouco mais calmo agora, não sentia mais aquela atmosfera carregada de ódio. Parou, e foi então que sentiu algo que não deveria. Olhou para trás, instintivamente, enquanto agüentava a dor. Os olhos vermelhos da raposa brilhavam em uma fraca luz azulada, talvez refletindo os cristais que se formavam na caverna, enquanto ela encarava o texugo com um sorriso tão inocente que parecia irreal — e talvez fosse. Uma de suas patas — mais avermelhada do que o normal — atravessava o corpo do texugo, perto do coração.

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— Então é isso — o urso riu quando o oceano passou por ele. — Eu deveria ter percebido antes. Aquela caverna... não deve ser muito segura agora. Mesmo assim...

Começou a arrastar seu corpo na direção da caverna. Ainda não estava completamente recuperado, e sua condição parecia ainda pior depois de ter experimentado o oceano. Mas não podia dizer que era de todo uma sensação ruim, nunca imaginou que tanto conhecimento pudesse estar contido ali. E era por isso que ele precisava ver aquela coisa com seus próprios olhos, já que pela manhã ele não conseguira.

A primeira coisa que seus olhos perceberam ao chegar à caverna, no entanto, é que mesmo com a lua tão brilhante daquela noite, os cristais não pareciam refletir sua luz. O lugar estava estranhamente escuro. Ao chegar mais perto pôde entender o que estava acontecendo, na verdade, sua mente apenas resolveu aceitar o fato de que ele não veria a criatura naquela noite também.

Afinal, com exceção do cadáver e todo o sangue espalhado pela caverna, não havia mais ninguém ali. A última coisa que o urso pôde ver antes de perder a consciência foi aquele brilho vermelho e o sorriso tão inocente que parecia irreal.

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Banhado pela luz pálida da lua, tudo o que o oceano lápis-lazúli refletia naquele momento era ódio. O cheiro de enxofre no ar, que sufocava todas as coisas vivas ao redor. O texugo ainda podia ver seu olho direito brilhando naquele azul opaco. O sorriso em seu rosto concentrava todo o caos do mundo. Mas ele não se importava mais.

Virou-se, olhando para a lua por um instante, então saiu. A caçada naquela noite estava apenas começando.

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