Landra
4 Um novo começo
Leudrius foi enviado a Terra para estudar e compreender as contradições humanas. Arion é um mundo evoluído, mas também passou por um período crítico quando sua civilização quase se autodestruiu. Por isso, seus cientistas têm tanto interesse na Terra. Pelas suas similaridades históricas... A espécie dominante, os arons, também travou muitas guerras seguidas de períodos de uma frágil paz e evolução intelectual e espiritual. Períodos de escassez de recursos e fome, seguidos de grandes evoluções científicas. Hoje, seu povo vive em harmonia com as outras formas de vida do planeta, e evita a todo custo o contato com civilizações alienígenas beligerantes. Hoje eles lideram uma federação de planetas dedicados em proteger mundos que ainda não se deram conta de que não estão sós na galáxia. A primeira diretriz para os intelectuais e cientistas é a não interferência nos planetas em desenvolvimento. Leudrius foi um seguidor fiel das normas estabelecidas por Arion para o primeiro contato e proteção de outras culturas. Apesar de não ter se lembrado delas quando se apaixonou por Joana! Leudrius concluiu que a humanidade em breve seria oficialmente apresentada a grande variedade de formas de vida não-terrestres que coabitam a galáxia. Muitos entusiastas da ufologia já estavam bem perto da verdade, apesar dos interesses escusos de algumas autoridades em manter o segredo e criar teorias falsas para confundir... Por outro lado, alguns líderes terrestres já entendiam a importância de se ter como aliados e aprender com estes visitantes de outros mundos. A Terra já atingiu um ponto crucial em seu desenvolvimento... Suas próximas escolhas poderão significar o início da extinção ou o próximo passo para a evolução da espécie humana...
Julie conversou com Laura que ainda estava em seu estado naturalmente de euforia, mas não teve coragem pra contar toda a verdade porque nem mesmo ela tinha assimilado tanta informação. No fundo, Julie sabia que Laura já conhecia a verdade.
As quatro horas da manhã Julie já estava pronta para partir com seu pai! Um misto de curiosidade e apreensão tomou conta dela. Leudrius novamente tentou tranquilizar a filha como pôde e solicitou o transporte. A viagem durou apenas alguns segundos e o que Julie viu foram apenas lampejos de luzes coloridas e a sensação de flutuação até que sentiu de novo o chão sob os seus pés. A visão de uma nave alienígena, pela primeira vez deixou Julie em êxtase. A nave Lamarus era considerada a mais bem equipada entre todas da frota arioniana. As paredes tinham uma cor leitosa e quase não refletiam luz. A iluminação era suave e os consoles incrivelmente organizados, mostravam telas onde informações em símbolos vinha em ondas. Leudrius segurou a mão da filha com carinho a apresentou todo orgulhoso aos seus colegas que também estavam visivelmente surpresos. Julie não entendia uma só palavra, mas imaginava o que eles estavam conversando. Leudrius perguntou se estava tudo bem e logo após a levou para uma sala com iluminação mais intensa, com camas, equipamentos estranhos e pessoas que andavam apressadamente de um lado para outro segurando o que pareciam ser pads. Uma mulher se aproximou com uma espécie de seringa e falou algo a Leudrius que, com toda a paciência, traduziu a informação para a filha:
— Landra, esta enfermeira vai implantar um tradutor universal em você. Não vai doer muito!
— Tem um probleminha, pai... O senhor se esqueceu que eu tenho uma pele mais dura que couro de jacaré? Uma agulhinha não vai entrar fácil aí!
— Vamos ter que primeiro abrir caminho com um bisturi de plasma...
— Vocês estão me assustando pra valer... Antes que Julie terminasse a frase, a mulher colocou o aparelho atrás de orelha direita de Julie que gritou um termo bem ofensivo. Antes que a dor começasse a ceder, a mulher voltou com um novo equipamento e introduziu um pequeno mecanismo pela a abertura na pele da jovem.
— Aaaai. Isso não é jeito de se tratar uma visita! Puxa vida... não tinha nem uma lidocaína pra passar, não?!
Em segundos Julie começou a entender as palavras dos alienígenas...
— Leudrius, sua filha é mesmo muito espirituosa e também muito bonita! Você é um homem bem aventurado...
_ Acho que o trecozinho não foi ajustado direito! Eu ouvi mesmo as palavras “espirituosa” e “bem aventurado”?
— Ninguém é perfeito! Você já se acostuma...
Neste mesmo instante, entra um jovem sorridente e quase dá um abraço em Julie!
— Calma aí, Lucei... Ela é minha filha... Contenha seu entusiasmo “científico”! Eu a trouxe apenas para fazer alguns exames!
— Não vou aceitar ser tratada como um ratinho de laboratório... Segura tua onda, cara pálida!
— Me perdoem. Não tive a intenção de deixá-los assustados! Minha cara Julie, você é fruto da incrível capacidade de inovação da natureza. Por isso, quando um grupo de animais começa a ter problemas genéticos por cruzamentos consanguíneos, a introdução de novos indivíduos pode ser muito benéfica!
— Mas que eu saiba, a humanidade ainda tem uma excelente variedade genética. Mutações extremas como as minhas são muito raras! Não ofenda a humanidade...
— Mas elas ocorrem, e muitos outros casos como o seu serão descobertos nos próximos anos. Infelizmente, algumas mutações não são benéficas nem para o indivíduo e nem para a sociedade. Só nos últimos 100 anos terrestres, chegaram a Terra cerca de quinze espécies humanoides geneticamente compatíveis com os humanos. Tenho certeza que você nunca se sentirá sozinha, minha cara!
— Não sei se rio ou se choro. Fico me lembrando das aulas de história sobre a época das grandes navegações... A história não acabou muito bem!
— Me desculpe amigos, mas devemos iniciar os exames o quanto antes! Precisaremos de amostras de tecidos e fluidos, mapa de ondas cerebrais... Lucei desconversou!
— Pai!...
— Não se preocupe, vou ficar de olho nele, filha!
Julie entrou numa câmara com micro-gravidade e se sentiu flutuando. Após a sensação de vertigem inicial, ela voltou a se sentir confortável. Seu pai não a deixou nem por um minuto e acompanhava cada movimento dos auxiliares. Dr. Lucei ativou vários tipos de scanners e todo o corpo da jovem foi mapeado e dados foram enviados diretamente ao computador central da enfermaria. Uma imagem em 3 dimensões do ADN de Julie surgiu logo acima do console do médico aron.
— Leudrius, veja que coisa incrível... Você está vendo este trecho nesta cadeia? Nunca vi nada igual em nossos bancos de dados gênicos. Que proteína exótica isto deve codificar?
— Minha menina é um milagre... Disse com perplexidade...
— Tem mais amigo. Olhe este trecho aqui? Este eu conheço! Enfermeira Lita, traga o detector de aura por favor!
— Conhece? Do que se trata?
— Por acaso, você já observou algum fenômeno nas mãos da criança?
— Não, nunca! Meu Deus, como pode ser possível algo assim?!
A enfermeira chega trazendo um pequeno aparelho que o médico aponta para a moça na câmara. A tela mostra então a emanação de energia do corpo de Julie como vários comprimentos de onda luminosos. Nas mãos, a intensidade era bem maior, especialmente nos dedos.
— Em nosso sistema, na lua de Artamus, existe uma criatura que consegue acumular, em células especiais em seus membros superiores, uma grande quantidade energia que ela usa para caçar suas presas. Aqui na Terra, o Poraquê possui células que geram eletricidade. Já ouvi relatos de morte entre pescadores das regiões ribeirinhas do Rio Amazonas. A energia que Julie pode gerar não é elétrica... É muito mais letal! Estou pasmo...
— Isto pode prejudicar minha menina de alguma forma?
— Não, se conseguirmos conter e redirecionar a energia... Apesar de ainda ser de baixa intensidade, esta radiação poderia prejudicar outras pessoas próximas a ela, a longo prazo... Eu recomendaria que estas pessoas passassem por exames para detecção de envenenamento radioativo. Já a própria Julie não mostra nenhum sinal de dano celular por radiação.
— Isto será feito imediatamente... Mas antes, explique “Redirecionar a energia”. Você não está pensando, que em algum momento, minha filha irá usar esta habilidade como uma arma?!
— Doutor Leudrius, por favor, seja razoável! Em algum momento de sua vida, Julie precisará se defender!
— Ela é uma mulher treinada em várias técnicas de auto-defesa. Nunca seria capaz de matar!
Apesar de não poder ouvir tudo que o médico e seu pai discutiam, as expressões em seus rostos a deixou muito preocupada. Os detectores de sinais vitais já acusavam o aumento da adrenalina e da frequência cardíaca.
— Doutor, eu quero saber qual o motivo de toda esta confusão... Vocês querem me assustar? O que eu tenho?
O estresse causou uma inesperada crise de tosse em Julie.
— Julie, você está emitindo uma radiação perigosamente alta! Até conseguirmos controlar isso, sinto não poder tirá-la daí! Não se preocupe... Nós vamos resolver o problema antes que você sinta vontade de fazer um lanchinho...
— Como é que é? Pai, o que este cara tá falando? Eu vou ficar presa nesta coisa pra sempre?
Um sinal alerta foi acionado e uma voz robótica ecoou por toda a nave: “Alerta, níveis de radiação ômega a 20% e aumentando. Origem: Enfermaria. Preparar para evacuar o setor para descontaminação.”
— Acionar escudo na câmara de micro-gravidade, agora! Gritou Lucei.
— Quer dizer que Julie é a fonte da radiação Ômega?! Faça alguma coisa pela minha filha, Lucei. Pra começar, desligue todos os scanners!!!! Landra, olhe para mim... Respire bem devagar, minha filha! Lembra quando você me disse que, quando ficava nervosa, começava a tossir? Você não vai querer isso agora, não é?!
— Lembro, claro... O que isso tem a ver com tudo isso?
— Suspeito que além da tosse, sua vinda ao espaço possa ter ativado um fenômeno radioativo em seu corpo. Com certeza, a emissão de raios Ômega também seja um dos aspectos de sua genética... Apenas, tente relaxar... O Criador, com certeza te entregou estes dons por saber que você seria capaz de controlá-los. Então confie Nele e em você mesma.
— Respirar devagar... As aulas de Yoga finalmente podem ser úteis... Que Deus me ajude!
“Níveis radioativos em declínio... Evacuação cancelada... Todos os tripulantes expostos à radiação Ômega deverão se encaminhar à câmara de descontaminação...” O computador da nave informou.
Após todos os protocolos de segurança terem sido ativados, Julie pôde sair da câmara de micro-gravidade e o Dr. Lucei, colocou braceletes em seus pulsos. Os aparelhos continham sensores de níveis radioativos e microhyposprays com enzimas inibidoras capazes de controlar pulsos elétricos anormais de Julie.
— Dr. Lucei, isso não foi nada legal! Quando eu me recuperar do choque, o senhor terá que me explicar direitinho o que aconteceu comigo hoje... E, a propósito: Que bijuteria mais brega!!! Não tinha nada menos anos 70?!
— Sinto muito, querida. Não estou a par da moda entre os jovens de seu convívio... Mas posso lhe garantir que e dispositivos em seus braços lhe ajudarão a controlar estes pulsos energéticos no futuro. Elas são feitas de uma liga de chumbo e varcerium. As substâncias neles poderão ser injetadas sempre que você quiser parar a radiação. Vou apresentá-la a uma especialista em bioenergia. Ela vai ensiná-la a aproveitar este dom da melhor maneira possível.
— Ainda não acredito que este... Poder todo está dentro de mim! Pai, o senhor vai ficar aí, só olhando? Também ficou com medo de mim? Exceto o Dr. Lucei, parece que a nave toda começou a me evitar!
— Nunca tive e, com certeza, nunca terei motivos para isso... Estou apenas meditando sobre as implicações do conhecimento que adquirimos hoje! Lucei, transporte-a para casa logo que Landra se sentir melhor. Leudrius disse enquanto abraçava a filha.
— É... Estou ansiosa pra tomar um longo banho e comer uma barra de chocolate amargo inteirinha... Aqui na Lamarus tem chocolate?
— Chocolate, a iguaria mais famosa da Terra... Curioso, nenhum outro visitante terrestre havia feito este pedido antes... Infelizmente ainda não tivemos a oportunidade de programar o computador para sintetizar esta substância tão exótica! Sinto muito...
Menos de uma hora depois, Julie já estava em casa. Mas não quis falar com ninguém e nem ouvir o receptor das frequências de rádio da polícia. Sua família sentiu que Julie estava enfrentando conflitos internos muito mais graves que os que ela havia encarado em sua tumultuada adolescência e preferiu não fazer perguntas. Leudrius e Lucei ainda estavam se preparando para apresentar seus relatórios aos oficiais no comando da nave.
— Isto foi inesperado... Disse o cientista médico tentando controlar o clima de tensão que começava a se espalhava além das paredes da enfermaria... _ Leudrius, eu entendo sua preocupação, mas entenda minha posição! Se eu não colocasse os dispositivos de controle em Julie, haveria o risco de a radiação prejudicar saúde de pessoas inocentes na Terra.
— O transporte, os scanners e a micro-gravidade provavelmente foram os responsáveis por este surto energético. As enzimas endógenas responsáveis por controlar o surto foram desativadas! Os braceletes foram sintetizados para controlar esta radiação... Uma solução provisória. Julie terá que aprender a controlar o poder. Talvez o estresse também tenha contribuído para piorar a situação!
— Para você é fácil falar! Não foi sua filha que passou por este trauma terrível por ter sido a causa de uma quase tragédia... Como vou explicar os braceletes para o pessoal lá de casa? Estou aceitando sugestões...
— Como eu havia dito, esta é uma solução provisória. Temos que aprimorar seu controle sobre este dom e o aparelho permitirá que ela o use de forma controlada! A Tenente Tilany é uma telepata treinada e especialista em seres que produzem energia letal. Talvez ela possa ajudar a focar a energia.
—E se ela escolher não usar este dom?
— Você já pensou no quanto isto pode ser útil?! Tenho certeza que logo ela será capaz de direcioná-la para onde quiser... Pense nas possibilidades!
— Eu penso na possibilidade de pessoas se ferirem gravemente. Eu não quero isso para ninguém!
— Seria apenas para a defesa! Sabemos que teremos companhia de mutantes e híbridos não tão bem intencionados quanto ela... Talvez eles já estejam agindo! Estamos oferecendo a chance para Julie evoluir para se tornar até uma possível promotora de equilíbrio.
— Promotora de equilíbrio? Não vou permitir que você coloque sobre as costas de minha filha, esta carga absurda de responsabilidade. Ela terá uma vida feliz com seus dons, como sempre foi: Ajudando pessoas quando surgirem as oportunidades, mas sem pirotecnia, sem exposição desnecessária... Esta não é minha Landra...
Dias depois, a telepata Tilany começou o treinamento para que Julie aprendesse a dominar suas emoções e impulsos. Durante os meses de treinamento, elas se tornaram grandes amigas e Julie já podia direcionar raios ômega para atingir alvos com margem de erro próxima de zero. Mas para Julie, esta não era sua principal conquista. Ela se orgulhava do fato dos sensores radioativos não terem se movido quando esteve sob a supervisão do Dr. Lucei. Outros seres dotados de talentos especiais se uniram a Julie espontaneamente na nave Lamarus, e todos eram aconselhados e treinados respeitando suas individualidades.
Até mesmo o cardiano Kertron pedia permissão para assistir as sessões de calistenia. Simulações com variados graus de dificuldade, inclusive situações de guerra eram repetidas até a exaustão. Julie não se sentia mais tão insegura. Sua fé no Criador e em si mesma estavam mais fortes que nunca, e apesar do extremo cansaço físico e mental, ela se sentia feliz. Sua mãe, que decidira se mudar em definitivo para os EUA, estava radiante com a serenidade que sua filha transbordava. Ela sabia que Julie estava passando por um duro processo de aprendizado apesar de não ter conhecimento sobre como e onde isso estava acontecendo. A confiança que sempre teve em Deus, Julie e Leudrius a tranquilizava.
Laura era a única que não estava tão feliz. Julie sempre a ouvia quando a amiga precisava, mesmo assim, a moça começou a se sentir um pouco isolada.
— Pessoal, vou dar uma volta depois do jantar! Preciso colocar algumas ideias em ordem.
— Claro meu anjo! Eu sou sua mãe e imagino tudo que você deve estar passando... Seu pai deve ter despejado tudo em sua cabeça de uma vez só, se eu o conheço bem! A Laura deve estar se coçando para perguntar pra onde seu pai a levou e o que descobriram. Mas em nome da amizade, ela vai se conter... Não é, Laura?!
— Dona Joana, a Julie é forte! Este furacão de autoconhecimento não vai afetá-la assim tão fácil, não é irmã?! E conversar é saudável. Ajuda a desabafar! Estarei a sua disposição, amiga!...
— Tá bom, gente! Mas eu sei que mereço um belo banho de chuveiro e uma refeição caseira. Tava morrendo de saudade da torta de frango da Tia Bete... Só depois eu conto o que aconteceu na nave!
Laura arregalou os olhos e quase gritou...
— Nave??? Você foi para uma nave espacial??? Você tá brincando, né?!
— Laura, vê se segura um pouco sua “curiosidade científica”! Este tipo de coisa não deve ser espalhada no vento!
— Fica tranquila que não vou dar entrevista nenhuma para o Jornal! Eu já desconfiava que tudo isso só podia ser coisa de alienígenas. Por mais radical que seja uma mutação, sua condição é muito mais extrema...
Os vizinhos que iniciavam suas rotinas, estranharam aquela reunião familiar no gramado ao lado. Cumprimentavam com um sorriso e eram retribuídos com sorriso amarelos e desconfiados! Discretamente, eles entraram em casa e a Tia Bete saiu para fazer compras.
Leudrius deu um longo abraço em sua ex-mulher, e pediu que ela ficasse com Julie e partiu. Joana sabia Julie precisaria dela mais que nunca. Ela se sentia mais vulnerável agora que conhecia sua origem. Surgiriam ainda muitos questionamentos: Continuar a ser uma vigilante, ajudar pessoas em perigo, agir nas sombras ou disfarçada, ou simplesmente fingir que não pode fazer a diferença? E se pessoas mal intencionadas descobrirem sobre ela? Ela começava a se sentir indigna...
—Deus tem um plano para minha vida! Apesar de não saber o que Ele realmente pretende... Eu sou cheia de falhas. Sou desajeitada... Não sei se saberei o momento certo para agir ou para ficar em casa?
Joana esperava que este dia chegasse e já tinha em sua mente as palavras que diria a filha quando chegasse o momento da decisão:
— Julie, não pense você que seus maiores dons são estes... super-poderes!
— Super-poderes... Engraçado! Acho que vou ter que aceitar este nome pra minhas esquisitices!
— Seus maiores poderes são: a capacidade de amar, sua compaixão, seu senso de responsabilidade e sua humildade! Deus distribui dons a seus filhos com sabedoria... Ele nunca erra! Confie nele... Quando ele permite a provação ele também dá a capacidade de superá-los! Você é muito jovem, apenas está começando a vida. Sei que você enfrentará problemas, mas superará a todos! E a cada superação você se sentirá mais forte, mais segura e mais consciente do que Deus espera que você faça. Eu tenho certeza que Ele nunca a deixará sem respostas!
Laura se emociona com as palavras de Joana:
— Tia Joana, caiu um cisco enorme no meu olho... Não pense que estou chorando... Não é isso!!!
As três se abraçaram e depois riram como crianças.
Julie sentiu uma paz que a muito não sentia. Consciente de sua imperfeição, da completa dependência de Deus e do amor de sua família, já não sentia o peso do mundo em suas costas. Ela relatou tudo o que passou na nave a mãe e sua melhor amiga... Falou sobre os testes, as descobertas, as reações de seu pai super protetor e todas as suas impressões! Laura tentava amenizar seu deslumbre para não constranger a amiga. Julie estava feliz! Mas a tranquilidade durou pouco.
Leudrius ainda a bordo da nave, recebeu um alerta vindo de aliados na Terra que interceptaram um pedido de socorro originada na Cordilheira dos Andes. Uma avalanche deixou 20 esquiadores presos em uma base. O mau tempo impedia que equipes de resgate chegassem até eles. Alguns estão feridos! Os arons não podiam ajudar transportando-os para a nave então, Leudrius chamou Julie pelo comunicador:
— Landra, acho que temos a oportunidade de ajudar novamente!
— Como assim pai? O senhor vai me mandar para uma missão sozinha?
— Você não estará sozinha! Vinte pessoas estão presas na Cordilheira dos Andes. Posso transportar você e o Kertron para lá. Alguns esquiadores precisam de socorro imediato!
— Tenho certeza que os socorristas locais dão conta do recado! Eles não vão precisar de nossa ajuda...
— Filha, ninguém conseguiu chegar até o local até agora! A pessoa no rádio parecia bem desesperada...
— Pai, o senhor já imaginou qual vai ser a reação deles quando virem o Kertron? Estaremos fazendo uma exposição alienígena para uma grande plateia!
— Eu sei filha! Mas não temos outra opção... Estou passando as coordenadas para transporte. Fique tranquila! Daremos um jeito!
Julie após vestir o traje especialmente feito para ela, se dirigiu para as coordenadas. Era um local de pouco movimento e os sensores da nave não detectaram nenhuma pessoa por perto. Então, o transporte foi acionado e em segundos, Julie estava com os pés sobre uma grossa camada de neve fofa. Logo em seguida, Kertron surgiu a poucos metros dela. Ele estava coberto por uma capa que disfarçava seus contornos apesar de não ser o suficiente para impedir que os homens se assustassem com aquela visão. Julie e o cardiano viram o que parecia ser o telhado de um chalé que estava quase totalmente encoberto por neve, e começaram a cavar. O Kertron usava suas enormes patas e calda para retirar toneladas de neve. Quando encontraram uma pequena janela. Julie bateu na janela e ouviu gritos.
— Estamos aquí... Gracias a dios!
Julie se certificou de que não haveriam mais deslizamentos e abriu a janela. O esquiador a agradeceu e procurou pelo resto da equipe. Mas se impressionou quando não viu mais ninguém entrar! Em espanhol, o homem espantado disse:
— A senhorita está sozinha? Como pode? Tenho cinco homens feridos aqui, dois em estado grave! Como vamos conseguir sair daqui a tempo de salvá-los?!
— Logo todos vão estar longe deste freezer. Calma!
Os homens começaram a preparar os feridos para evacuação sem saber exatamente como seria feito o resgate. Julie ajudou a levá-los para fora e viu uma cesta própria para resgate em altura. Ela seria capaz de levar duas pessoas por vez.
— Nossa! O pessoal pensou em tudo...
O líder da equipe de esqui olhou para cima e não viu nada que se parecesse com um helicóptero e ficou confuso.
— A senhorita pode me explicar como vamos levar estes homens para baixo?
— Senhor, por favor, não fique assustado. Eu trouxe ajuda.
O que os homens viram logo em seguida os fizeram tremer:
— Santa madre de dios! Mas o quê que é isso?!
As asas de Kertron ainda estavam ocultas embaixo da capa e os homens pensaram se tratar de uma espécie de urso monstruoso.
— Não se preocupem amigos, ele é do bem!
Os d ois feridos mais graves foram colocados na cesta e cabos a prenderam na cela do grande alienígena. Julie e Kertron receberam uma mensagem dizendo que uma equipe de resgate formada por arons e humanos já estava aguardando a chegada dos esquiadores na cidade mais próxima. Quando Kertron finalmente revelou suas asas o que se ouviu foram mais gritos de surpresa e medo!
— Dios de los cielos! Se trata de um ángel o um demonio?
— Nem uma coisa nem outra, amigo! Eu também ainda não me acostumei ao Kertron. Por favor, não digam nada a ninguém. Kertron é um visitante.
Apesar do choque os homens concordaram sinalizando com a cabeça.
Kertron levantou voo e uma nuvem de partículas de neve quase encobriu sua visão por completo. Após dez voos de ida e volta, todos as vítimas do acidente chegaram até a equipe de resgate que prestavam os primeiros socorros incluindo um hypospray com um inibidor de formação de memória recente!
Leudrius recebera todo o relatório da equipe em terra e ficou orgulhoso de sua filha!
Julie resolveu que já era hora de pedir a primeira carona ao seu amigo alado e dispensou o teletransporte! Julie se acomodou na cela e segurou firme. O vento gelado no rosto e a rápida subida quase a deixaram sem fôlego mas, logo depois veio uma enorme sensação de liberdade. Eles voaram por sobre as nuvens e apesar do ar rarefeito ela podia respirar. O colar especial em seu pescoço mais uma vez se revelou muito eficiente. Quando a adrenalina estava em seu nível máximo, Julie gritava: _ Isto é bom demais!!!!Uhuuuu. Olhe meu amigo, como meu mundo é lindo!
Kertron soltava um grunhido suave a cada vez que Julie apontava marcos históricos como templos e outras grandes construções humanas e as maravilhas da natureza. Seguindo as sugestões dos arons, seguiram por rotas não cobertas por radares e tomaram cuidado para evitar cruzar com aviões. Algumas vezes, Kertron dava voos rasantes e Julie quase podia tocar a água do mar, outras vezes, acompanhavam o voo de aves em migração. Foram quase 8 horas de voo ininterrupto, mas parecia que tinham se passado poucos minutos.
Julie chegou em casa ao final da noite e sua mãe ainda a aguardava.
— Filha, por que demorou tanto? Algum problema com o transporte da nave?
— Mãe, me perdoe por não ter ligado... Eu achei melhor dispensar o transporte hoje! Kertron e eu resolvemos que deveríamos nos conhecer melhor! Nada melhor que voar e trocar ideias...
— Você voou com o Kertron? Você perdeu o juízo? E se alguém visse vocês? A esta hora já devem estar postando fotos na internet!!!
— Não vimos ninguém nos olhando. E mesmo que alguém nos visse e tirasse fotos, pouca gente iria acreditar mesmo... Montagens são fáceis de fazer!!!
— A culpa é de seu pai e aqueles colegas dele que te deixaram com excesso de confiança!
Julie apenas deu um abraço em sua mãe e foi para seu quarto.
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