Lampejo de realidade
1 Capítulo 1
Eu acordei com o barulho da chuva ricocheteando a janela da sala, eu havia apagado no sofá. Pensei ter sentido o cheiro de waffles de chocolate e quase chamei por ela, tendo a impressão que havia visto seu vulto passar para a cozinha. Mas acho que havia sonhado, pois logo a realidade me atingiu violentamente e lembrei de que nunca mais veria minha mãe. Ela estava morta.
Queria voltar a dormir, esquecer toda aquela dor. A melhor coisa que poderia me acontecer agora seria morrer. Mas eu não me mataria, até porque eu não teria essa coragem ou essa covardia, dependendo do ponto de vista.
Resolvi levantar, caminhar para o chuveiro, despir-me e tomar uma ducha bem quente — aliás, me admirei que ainda tivesse água quente. Minha pele parecia que ia derreter debaixo daquela água escaldante, deixando-a rosada. Mamãe gostava de tomar banhos quentes também, herdei essa mania dela. Tudo em mim me lembrava ela, pois era praticamente uma cópia do seu eu mais jovem.
Ouvi alguns grunhidos da janela do banheiro, mas não me importei. Que fossem todos para o inferno, embora não pudesse pensar num lugar pior do que este aqui.
Fui me arrastando para o quarto da mãe com toda moleza possível e me deparei com o vidro quebrado da janela. O vento e a chuva esvoaçavam a cortina para dentro do quarto. Congelei. Como alguém poderia ter estilhaçado o vidro? Eu havia pregado tábuas nas janelas daquele cômodo.
O pior de tudo era o silêncio, nunca tinha escutado um silêncio parecido desde que tudo começou. Mas sabia que não duraria muito. Um minuto depois, o ruído de cacos de vidro sendo esmagados ecoou do lado de fora e, no momento seguinte, metade de uma mão necrosada apareceu no batente da janela. Os grunhidos começaram em seguida e em questão de segundos uma multidão de mortos-vivos mergulhou para dentro do quarto. Deixei cair a toalha ainda úmida que me envolvia e rapidamente corri para fora do quarto, trancando-a pelo lado de fora. Não havia para onde fugir, se saísse de casa morreria de certeza. Me tranquei em meu quarto ao lado. Sem pensar muito, vasculhei a caixa de remédios da mamãe embaixo da cama e tomei uma cartela de comprimidos do medicamento mais forte. Esperei enquanto escutava os arranhões na porta e o barulho agonizante de zumbis famintos. Era uma questão de tempo até eles arrancarem de vez a frágil porta que nos separava. Ao menos os remédios já estavam fazendo efeito e eu me sentia sonolenta.
Quando notei que a porta saía do lugar, meu corpo entorpecido já estava quase me fazendo apagar. Esperava morrer antes que eles me alcançassem.
A porta fora arremessada para frente e meus visitantes invadiram meu quarto sem pedir permissão. Senti a primeira mordida quando meus olhos fecharam.
Despertei de súbito, caindo do sofá de encontro ao chão gélido.
— Hey, está tudo bem? — minha mãe veio da cozinha, cheirando waffles.
Suspirei aliviada de ter acordado e comecei a chorar.
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