Notas iniciais
Primeiramente, gostaria de esclarecer que esta história foi um grande desafio sugerido por um amigo. E gostaria de agradecer o mesmo: Você me mostrou que somos capazes de tudo!

Não estou pronto para escolher. Não estou pronto para assinar aqui ou marcar um "X" ali. Nós dois sabemos onde isso vai parar, onde vamos ter que nos separar. Não podemos fazer nada além disso. Você é a minha salvação, minha chance, meu eu. E como posso deixá-lo? Como posso dizer, balbuciar que vou embora? Ajude-me, Deus. Ajude-me agora, por favor. Não aguentarei vê-lo entrar nesse maldito ônibus, não aguentarei escutar de sua sinuosa e linda boca adeus. Partirei ao meio; metade a ti, metade a mim. Mas não há opções, uma escolha deve ser feita. Temos, meu amor, tão pouco tempo. Então, segure firme em mão e vamos viajar ao começo. Saiba o que estou passando, saiba a verdade.

Lembra de como o encontrei naquela maldita fila do banco?

"Que horas são?" disseste, sem ao menos esconder o relógio em seu pulso.

“Pouco mais das 14:44” respondi, e completando a frase, acrescentei: “Esse relógio é de enfeite?”

Não preciso dizer o que veio a seguir. Rimos por alguns minutos, mas não nos apresentamos. Edilson. O nome que jamais esquecerei. O nome que me foi dito após três encontros. Você adorava fazer esse tipo de suspense. Sabíamos onde morávamos, tínhamos nossos números, exceto os nomes. Tudo foi tão hilário, até clichê.

“Seria possível alguém como você gostar de mim?” sussurrava em silêncio. “Não, nunca”.

Não faço ideia onde nós nos perdemos, mas eu estava errado. Quando se trata de amor tudo é possível. Na verdade, quando se trata de todo ou qualquer sentimento, as leis mundanas não são cabíveis a tais.

Primeiro beijo veio a ser em uma maca.

Em uma noite de nossos matinais, porém sem compromissos encontros, decidimos ir a um restaurante com a comida mais exótica da cidade: Caldo de Turro. Gastronomicamente falando, é uma iguaria servida na Amazônia, onde seu principal ingrediente é um molusco de cabeça dura e corpo gelatinoso. Resultado: você era alérgico. Todo o estabelecimento parou para socorrê-lo. Um homem de 24 anos ficara da cor de pimenta enquanto o seu acompanhante (No caso, eu) surtava ao relento. Seu rosto inchou de uma maneira descomunal, urticárias surgiam por todo corpo, seus olhos começaram a lacrimejar, estava preste a ter um choque anafilático. Demos entrada na Emergência do Hospital Santa Maria tão rápido recordo de pouquíssimos detalhes: Uma mulher de, mais ou menos 40 anos, cujo nome Juliete carregava acima do peito, perguntando quem era o parente mais próximo. Coloquei todos meus dados sem nem ao menos pensar. Você não estava conseguindo falar, e lá, deitado na maca, me beijou. Milhares de borboletas dançavam em meu estômago, minhas mãos tremiam e a visão ficou turva. Aquela foi a primeira das suscetíveis vezes que me sentir infinito.

Ao longo das semanas que vieram, estávamos namorando. Em alguns meses, morando juntos. Você era a minha alma gêmea, e ninguém tiraria isso de mim. Eu morria por você se fosse necessário. Morreria sem ao menos duvidar de tal ato, Edilson. E por que diabos alguém teria esse nome? Bem, sabemos a resposta, mas é melhor não contarmos. Deixa para outra história. Não ria do meu nome! Fique ciente que Adriano é melhor do que qualquer 'son' por aí.

Mas ainda não estou pronto, droga. Somos família, somos um.Você e eu em “As Aventuras dos Desventurados”.“Edilson e Adrilson part. 2, o Retorno”.Ríamos por horas com essesnomes fictícios de filmes chulos. Filmes dos quais gêneros ação e comédia uniam-se formando um espetacular show. Poderíamos ter dado certo na indústria cinematografia, Dilson. Imagina nós dois, diretores. Você nas cenas de luta e eu arquitetando nossa fuga. Seríamos imbatíveis, seríamos perfeitos. Às vezes, esqueço que já somos. Não precisávamos dizer nada um ao outro. Éramos ligados por um laço de ouro. E quer saber de uma coisa? Estou pronto. Já assinei os papeis, estou no pré-operatório. Desculpe.

Tínhamos brigado um dia antes da sua viagem. Você disse que queria visitar a sua família a só, mas por que eu não poderia ir?

“É a trabalho, Drico” você insistia.

Se eu soubesse que era mentira, se soubesse que tudo não passava de uma surpresa para o nosso aniversário de casados. Talvez não estivéssemos aqui. Você estaria a salvo. Todavia, uma hora após sua saída, meu celular tocou três vezes. Não pude acreditar quando ouvir aquela voz:

“Olá, Adriano Fermino? Quem fala é a correspondente do Hospital Santa Maria, Juliete, gostaria de lhe informa, com pesar, que Edilson Silva acabara de dar entrada na Emergência. Sofrera um acidente de moto. O senhor é o único contado que temos dele. Poderia comparecer o mais rápido possível?”

Tudo o que consegui reunir foi um “Ok, estou a caminho”.

Estava perplexo. Sabia o que tinha acontecido, mas acreditar era demais para mim. Um buraco abrira sobre meus pés e eu despencava ao centro da terra. Foi assim que me senti quando cheguei a UTI. Você estava em uma cirurgia. Eles estavam tentando salvar suas pernas, pelo menos os restos dela.

Você ficou 18 horas interruptas na mesa de cirurgia. Os médicos conseguiram salvá-lo, mas o preço a ser pago foi muito caro: O caminhão que chocara com você tinha amputado sua perna direita. Os múltiplos ferimentos por todo seu corpo sugeriam no mínimo 2 anos de fisioterapia intensiva até que pudesse levantar da cama. Não seria o mesmo. Não mais poderia praticar seu esporte, nunca mais usaria um quimono, seu sonho de participar das Olímpiadas de 2016 virou pó. Para qualquer pessoa isso era um choque, mas para um atleta, para você, significava o fim. Estava fardado a viver com uma prótese por minha causa. E o pior ainda por vim. Nos dias decorrentes a cirurgia complicações foram tomando formas. Desenvolvera uma peculiar resistência a antibióticos o que forçou uso extremos de medicamentos sobrecarregando seus rins. O quadro apenas piorava. Você não acordava. Estava em coma e não tinha expectativa de melhora. Agora fazia hemodiálise em busca do funcionamento dos rins. O que de funcional não teve nada. Você iria morrer. E eu não poderia viver com a culpa de ter matado a minha alma gêmea.

Você não pegará esse maldito ônibus, não deixarei partir. Um tubo é pressionado contra meu rosto. Já na sala de cirurgia, pediram-me educadamente que conte do 0 até onde conseguir. Em breve não estarei consciente. Aceno com a cabeça em concordância, e começo mentalmente.

0 — Nossas brigas por besteira. Noites passadas em claro para ver quem cedia primeiro. Mensagens ambíguas, sério, você sempre as faziam mais rápidos e difíceis do que as minhas.

1 – Sair VS. Fica em casa aos sábados decido pelo Xadrez (Pelo menos, eu sempre ganhava!) Manhãs sendo banhadas pelos seus lábios sussurrando, enquanto beijava-me, que não viveria sem mim. Seus lindos olhos da cor do mar. Um estranho jeito de umedecer os lábios.

2 — Sr.Rubens, médico do qual participou na sua cirurgia e assiste a minha, afirmou que você precisaria de um transplante de rim. Fiquei alegre, seria apenas um rim. Engano o meu. Você tinha perdido os seus dois rins. Desmoronei. Qual era a chance de um paciente em sua condição de receber um rim? Qual era? Nenhuma. A solução foi dar-lhe tempo.

3 — Queixo-me apenas da luz sobre meu rosto. É muito forte. Mas aos poucos o brilho vai diminuindo. Algo me diz que o sedativo é o culpado. Restam poucos segundos.

4 – Você acordará em breve, mas talvez não entenda o que aconteceu. Quero que saiba que, antes de mais nada: sinto muito. Nada disso deveria ter acontecido se eu tivesse confiado em você nada disso teria acontecido. Estraguei sua vida. Destruí seu sonho, meu amor. Mas não se preocupe. Escrevi todos os dias para você. Inicialmente, este era o presente que você receberia. Faço deles um grande pedido de perdão que continuarei a entregar-lhes ao longo de um tempo. Você adorará, tenho certeza.

5 – Quando a minha cirurgia estiver no final, acontecerá um acidente e morrerei. Não se preocupe, consegui arrumar tempo suficiente para você viver. Não estarei dando apenas um, mas dois rins a você. Espero que possa me perdoar por tudo. Eu sabia que você era a minha pessoa desde o primeiro momento que tivemos juntos. Sempre quis fazer você feliz, sempre amarei. Perdoe-me, mais uma vez, por tudo que lhe causei. Queria doar meu coração para você, sabe. Minha responsabilidade seria distribuir o seu sangue por todo corpo, sem citar que viveria em seu peito, sempre pulsando. Mas será dois rins. Inútil, quem sabe? Não, não é. Serão estes dois que salvará sua vida. Terás uma parte de mim dentro de ti, literalmente.

6 — Dizem que um homem, em sua boa forma, suporta contar até 6. Mas quero que seja ciente da coisa mais importante:

7.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!