Lamb of God
4 Capítulo 4 - Destino
Não consegui dormir aquela noite. Peter Rumancek tinha entrado em minha mente de um jeito quase parasita, me fazendo revirar suas palavras em minha mente várias e várias vezes. Me deitei na cama do hotel e encarei o teto por longas horas, talvez a noite toda, não sei dizer. Só lembro de quando o despertador me tirou de meus pensamentos obsessivos sobre Roman e Peter. Me levantei devagar, sentando na beirada da cama, passando as mãos no rosto, sentindo todo o cansaço do dia anterior. Realmente, aquela cidade não era normal. Algo nela sugava suas energias e principalmente sua sanidade. E em poucas horas eu já estava infectava por Hemlock Grove.
Fui para o chuveiro, deixando a água fria escorrer por meu corpo, na tentativa de manter-me alerta durante mais um dia, dessa vez na presença do recém conhecido Rumancek. Não demorei muito para me trocar e descer o elevador do hotel, esperando no lobby principal pelo moreno. Minha perna esquerda movia-se sozinha devido ao nervosismo. Sentia que algo estava para acontecer, só esperava que Peter não tivesse nada a ver com aqueles assassinatos, senão eu seria mais uma vítima para a conta. Mas depois que o tal animal selvagem foi morto, os assassinatos cessaram. Então, provavelmente Rumancek não tinha ligação com toda a chacina do ano anterior.
Levanto o olhar para a porta principal do hotel, e ali vejo o rapaz parado, como se me esperasse. Dei um sorriso rápido a ele, logo me levantando e indo em sua direção.
— Bom dia, Nova York. — Ele sorriu, dando alguns tapinhas no topo de minha cabeça.
— Bom dia. Pode me dizer para onde vamos, por favor? — Perguntei com um olhar preocupado. Ele ainda era um estranho no fim das contas.
— Ah, claro. Onde eu 'tô com a cabeça, né? Vamos até a casa da Destiny. Você logo vai entender tudo. E relaxa, não sou nenhum maníaco, não quero te fazer mal. — Peter levantou as mãos, como em rendição, tentando provar sua inocência a mim.
Eu não sabia em quem confiar. Estava sozinha naquela cidade, sem apoio nenhum. E por mais que Peter não tivesse a aparência de alguém confiável, eu me sentia sem escolha. Pelo menos na companhia do rapaz, eu não me sentia tão sozinha e perdida naquele lugar esquecido por Deus. Dei de ombros e resolvi seguir Peter sem dizer uma palavra. Andamos alguns quarteirões até chegarmos a uma pequena porta que parecia ser de uma vidente ou algo assim. Não pude evitar de franzir o cenho em curiosidade àquilo. O que estava acontecendo, afinal?
Entramos, e Peter parecia estar acostumado com o local. Chamava por Destiny, enquanto eu observava a pequena casa com vários enfeites exotéricos e um cheiro forte de incenso que tomava conta de minhas narinas. O local era... Interessante, para dizer o mínimo. Será que Peter queria que eu me consultasse com algum tipo de vidente? Mas que porra era aquela?! Era só o que me faltava, depois do dia anterior. Sempre fui muito cética, e para mim, tudo aquilo não passava de um show.
— Peter... O que estamos fazendo aqui? Quem é Destiny? — Perguntei ao rapaz, segurando seu ombro para que o mesmo me olhasse e percebesse minha expressão de confusão.
— Eu sou Destiny, como vai? — Uma mulher alta, esbelta e de cabelos longos e ruivos se revelou por trás das cortinas de miçangas, com uma expressão séria na face. — Peter! — A ruiva abraçou o rapaz com força, dando-lhe vários beijos na face.
— Oi, D. Essa é Irina — Peter me apresentou e eu apenas acenei com a cabeça, dando um sorriso sem graça a mulher. — Eu acho que ela tem a marca. — O rapaz sussurrou algo a ruiva que não pude compreender com clareza.
— Nem fodendo. — Destiny olhou para mim com os olhos brilhantes e arregalados, logo aproximando-se de mim e pegando minha mão direita, como se fizesse ali mesmo uma leitura de minhas linhas. — Peter... Onde você a encontrou?
A pergunta de Destiny me fez segurar minha mão perto de meus seios, ainda confusa e agora com uma sensação de medo da qual não sentia anteriormente. Me afastei de ambos, ficando o mais próximo possível da porta. Caso algo acontecesse, podia fazer meu caminho para fora com facilidade.
— No bar. Estava sozinha e se aproximou de mim. É uma jornalista de Nova York e entrevistou Roman. Você já deve imaginar que não foi uma das melhores experiências da vida dela. — Peter jogou-se em um dos sofás, soltando um riso baixo com sua última fala.
— Aquele cretino. — Destiny torceu os lábios, antes de morder rapidamente o lábio inferior — Pobrezinha, deve ter ficado traumatizada com aquele sanguessuga. — A ruiva aproximou-se de mim, colocando ambas as mãos em meu rosto, fazendo meu coração parar por um minuto.
Eu ainda não entendia nada do que acontecia ali, mas meus instintos me falavam que ambos não eram uma ameaça contra mim. Me permiti relaxar os ombros ao toque de Destiny, ainda olhando-a com certa curiosidade.
— É... Não é uma das pessoas mais agradáveis que já conheci. — Ri nervosamente, enquanto via Destiny afastando-se, sentando-se no braço do mesmo sofá de Peter. — Mas... Podem me dizer o porquê eu estou aqui? Eu estou realmente confusa com tudo isso.
— Claro, se você não surtar. — Peter disse com um sorriso sádico nos lábios, antes de começar a rir.
— Para com isso! Vai assustá-la! — Destiny pegou uma almofada e jogou no rapaz, que continuava a rir. — Bem, Irina. Acho que você já ouviu falar sobre criaturas sobrenaturais, certo? — A ruiva me perguntava, olhando no fundo dos meus olhos.
— Você diz... Vampiros, lobisomens, fadas...? — Perguntava confusa. Que tipo de pergunta era aquela, afinal de contas?
— Bem... Sim. — Ela deu de ombros, concordando comigo. — E você acredita que essas criaturas existem? — Ela questionou, observando-me com o canto dos olhos.
— Não, claro que não! Isso são histórias para crianças. — Respondi soltando um riso nervoso. Aquilo era mais estranho do que eu imaginava e estava me deixando desconfortável. Uma energia quase que sufocante me rodeava.
— Fascinante. — Destiny franziu o cenho, apoiando o queixo em uma das mãos, ainda me encarando. — Como pode ter o sangue de bruxa e não acreditar na existência delas ou de outras criaturas místicas?
Meu sorriso dissolveu-se em uma linha reta. Sangue de bruxa? Aquelas pessoas estavam de gozação comigo? Ou me achavam idiota o suficiente para me fazer acreditar naquilo de uma hora para outra.
— Peraí, O quê?! Sangue de bruxa? O que vocês têm na cabeça?! Eu não sou daqui mas não sou idiota pra cair num golpe desses. Se quisessem dinheiro, era só pedir, não vir com esse papo furado de criaturas sobrenaturais e o caralho! — Meu tom de voz aumentou e eu senti meu sangue ferver. Eu era nova-iorquina, e esses charlatões eram mais comuns do que vocês podem imaginar.
Peter levantou-se rapidamente, me pedindo calma com ambas as mãos. Destiny apenas suspirou, colocando uma das mãos na testa, em desaprovação em minhas palavras, provavelmente. Eu estava com as costas coladas na porta de entrada, sentindo meu coração batendo mais forte que o normal. O que eu tinha na cabeça para confiar em um rapaz que acabara de conhecer? Deus, eu era tão idiota.
— Irina, espera! — Peter disse, aproximando-se de mim devagar. — E se eu te provar que essas criaturas existem? Você acreditaria na Destiny?
— Peter, não! É a lua errada, você vai acabar se matando! — Destiny o alertou, com uma expressão de raiva que apenas crescia.
O moreno pediu calma a ruiva, como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Eu me mantinha paralisada, me perguntando internamente como ele poderia me provar a existência de alguma criatura sobrenatural.
— Bem... Claro. Porque não? — Meu tom de deboche era transparente demais. Era óbvio que ele não me convenceria do contrário.
— Ela é tão cética, credo. Me avisa quando terminar seu show. — A ruiva se retirou da sala, me deixando sozinha com Peter na sala.
O rapaz fechou as cortinas, deixando apenas uma pequena fresta de sol adentrar o ambiente. Tirou a camisa e abriu os botões das calças jeans surradas. Franzi o cenho em um desespero claro.
— O que... O que você vai fazer?! — Perguntei, tentando me espremer contra a porta de entrada.
— Te dar a prova que você precisa. — Ele respondeu, cuspindo em ambas as palmas das mãos e passando-as em seus cabelos.
Peter fechou os olhos por um momento, respirando fundo e logo soltando um gemido de dor, contorcendo-se por alguns minutos. Coloquei ambas as mãos na frente dos seios, sentindo cada batida forte que meu coração dava. Peter caiu de quatro no chão, colocando ambas as mãos nos olhos que sangravam sem parar. Logo consegui ver seu glóbulos saltarem e quando o rapaz olhou para minha direção, seus olhos eram amarelados, como o de um lobo. Com as próprias unhas, arrancava a pele de seu rosto que sangrava e os gemidos de dor aumentavam a cada pedaço de pele que caía no chão da sala.
Eu estava hipnotizada, ou paralisada pela situação que estava presenciando. Meus olhos marejavam e minha boca estava aberta, tentando buscar ainda mais ar para meus pulmões falhos. As mãos de Peter agora eram como grandes patas cinzentas de um lobo. E suas costas eram peludas, conforme sua pele era dilacerada. Logo, seu rosto também era destruído por um focinho negro e dentes afiados de um lobo que rosnava para mim. A pele do rapaz e o sangue que tomava conta do lugar me faziam ficar nauseada. Eu só queria que aquilo acabasse.
— Para! Por favor, para com isso! — Escorreguei pela porta, até sentar-me no chão, gritando e chorando com os olhos fechados e cobrindo meus ouvidos. Só queria tirar aquela cena de minha mente.
Não demorou muito para os rosnados cessarem e os gemidos de Peter serem ouvidos novamente. Me atrevi a abrir os olhos devagar para observar o que se passava, e agora só via o rapaz deitado no chão da sala, completamente nu e molhado, provavelmente por suor. Engatinhei até a direção de Peter, ignorando o fato de todo o sangue ainda tomar conta do chão. O moreno gemia de dor e tinha alguns espasmos involuntários, ainda de olhos fechados.
— Peter...? — Minha voz falhou em chamá-lo, mas sabia que tinha escutado.
— Você acredita agora? — Ele olhou para mim de canto, arfando e completamente sem forças.
Eu novamente me encontrava paralisada, sem reação. Apenas acenei com a cabeça, deixando as lágrimas teimosas escorrerem, até se tornarem um choro alto, como de uma criança assustada. Realmente, havia muito mais em Hemlock Grove do que eu podia imaginar.
Fale com o autor