Lagos Artificiais
33 Trinta e três
Notas iniciais
Nikita
Carla sentia um aperto no peito, um filme passar por sua cabeça. Será que a hora da verdade havia chagado?
— Vocês estão juntos?
— Não, claro que não, Carla. Só fiquei lá por falta de opção.
— Vocês conversaram?
— Não temos nada para conversar.
— Nikita? Claro que tem! Muita coisa aconteceu desde quando se separaram, ou você esqueceu?
— Ah, Carla – Ela expirou. — Até parece que não o conhece, o Michael não é um cara para se “conversar”.
Carla bufou, precisava contar.
— Nikita, sei que você o ama, e
— Não Carla. Pare! — Ela interrompe a amiga. Já estava em frangalhos e ouvir aquilo dela só pioraria sua situação.
— Nikita sim, você o ama, e em todos esses anos você nunca o esqueceu. E eu sei também que tem raiva dele, e tem sofrido muito por ele ter te deixado. Precisa saber a verdade. Eu tenho que te contar.
— De que está falando? — Nikita questiona a amiga.
— Nikita, me perdoe um dia se puder, mas tive que fazer isso e guardar esse segredo … sei que não era justo nem para você, nem para o Michael e princialmente para Mia e o Ben o que vocês passaram, sem um saber o lado do outro.
— Carla, não estou te entendendo, do que está falando?
Ela respirou fundo, passou a mãos em seus cabelos, estava pronta para contar.
— Na noite anterior a súbita partida de Michael, ele apareceu na minha casa, me pedindo ajuda.
— Ajuda? — Nikita estava mais confusa ainda.
— Sim. Ele me pediu para que o ajudasse a te manter afastada dele.
— Por quê?
— Ai Nikita … — suspirou e continuou. — Ele me mostrou uma pasta com fotos e um relatório sobre vocês. Volker estava desconfiado que você o traia, e colocou um detetive para descobrir com quem estava dormindo.
— O que?
— Sim, e graças a Deus, o Michael descobriu, justamente quando vocês ficaram aquele final de semana na cabana.
Nikita ouvia quase incrédula.
— Michael foi atrás do detetive, e só Deus sabe o que ele fez para o homem não contar a verdade para o seu contratante. Bem, resumindo, ele achou melhor terminar tudo com você e ir embora, e por sua segurança tive que concordar.
— Carla, por que nunca me contou?
— Nikita, me perdoe, essa foi a coisa mais difícil que tive que fazer, esconder a verdade, mas você corria perigo, e eu concordei. Imagina como eu fiquei, depois quando você apareceu na minha casa? Não imaginava que você estivesse grávida, e por sua segurança, achei que seria melhor, você conhece o Volker melhor do que eu, e sabe do que ele é capaz. Tinha medo que acabasse sei lá, indo atrás dele e só Deus sabe o que poderia ter acontecido … então tomei a difícil decisão, queimei a pasta e todo seu conteúdo e guardei segredo ... me perdoe Nikita, por favor.
Nikita começou a chorar.
— Me perdoe por fazer isso com você, amiga … — Pediu, mais uma vez.
— Não se preocupe Carla, — fez uma pausa — no seu lugar eu teria que fazer o mesmo. Obrigada por ter me contado, estou tão aliviada agora.
— O que vai fazer agora? Contar para ele? Ou ir embora sem dizer nada?
— Não sei … na verdade ele sabe, Michael me questionou e eu neguei, mas mesmo agora … tenho medo do que ele possa fazer e que tipo de merda possa dar. Já que estou tão perto de ter liberdade, principalmente para as crianças. Tenho que pensar no bem-estar delas, em primeiro lugar. Apesar de já estar corroída por dentro, de não poder contar a verdade pra eles. ... E o pior você não sabe.
— Não? O que é?
— Carla, eles se adoram, meu coração dói só de vê-los juntos, morro de ciúmes, é um amor lindo. Eles tem uma cumplicidade e um carinho, ficam tão alegres quando estão juntos. Eu nunca vi o Michael assim, parece tão feliz quando está com eles, parece que nasceu pra ser pai. — Secou as lágrimas que rolavam com a mão.
— Ai amiga, todos esses anos eu não sofri só por você. Sofri também pelo Michael. Ver seus filhos sorrir doía meu coração porque pensava em tudo o que ele perdeu, fez tudo isso por amor, abrir mão de você sem saber que abriu mão dos filhos também, para te manter segura. … Nikita, estou feliz por saber. Michael é o pai que seus filhos merecem. E ele também merece aquelas pestinhas lindas e perfeitas, assim como você as merece, é a melhor mãe que eu conheço. Tudo o que vocês merecem é a verdade e a felicidade, mas com tantas coisas eu nem sei o que te dizer.
— Eu entendo …
— Nikita é melhor eu ir, seus documentos estão aqui, com o dinheiro.
— Obrigada.
— Eu vou sentir tanta falta de vocês, tenha cuidado.
— Eu terei cuidado. E tmabém vou morrer de saudades ... E Carla? Você e Birkoff estão bem?
— Sim, ele é um amor, e tem cuidado de mim. A única coisa boa que tem me dado forças esses dias … e não vou desistir dele.
— Fico feliz em saber disso. Não se preocupe conosco Carla, assim que der, dou um jeito de vocês saberem que estamos bem, ok?!
— Sim. Me manda nem que seja um postal de um lugar lindo ... — as duas choravam. — Queria poder te abraçar, mas enfim, eu vou sair, dê um tempo antes de ir embora, estão me seguindo, tenha muito , muito cuidado. Só saia quando tiver certeza que está segura.
As duas se despediram.
…
Carla, secou seu rosto e se recompôs. Ao passar pela porta da igreja, estava distraída procurando seus óculos e esbarrou em alguém.
— Desculpe. — Quando levantou os olhos e viu quem era, seu coração falhou uma batida. — Volker? Está me seguindo?
— Não sabia que você é religiosa?
— E você é?
— Uma igreja seria o último lugar que pensei te encontrar.
— Você não tem ideia de como confessar nossos pecados é libertador, Volker. Deveria experimentar, com tanta sujeira que tem nas mãos, te faria dormir melhor a noite.
Ele bufou.
Carla colocou os óculos escuros e seguiu em direção ao seu carro.
Volker ficou mais alguns instantes ali, mas depois resolveu ir embora também, mas com a sensação que estava deixando algo passar.
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