Notas iniciais
Suspeita de que algo está errado. Seria imaginação? Seria realidade?

Tarde calma. Rua tranquila e quase sem movimento. Apenas cinco pessoas haviam entrado na loja naquela tarde. E já estava no meio da tarde. Embora estivesse frio, não havia vento. E as folhas das árvores pareciam lânguidas em seus movimentos. Tudo nesse dia parecia devagar.

Distraído com a lista de novos preços que precisavam ser atualizados no sistema da farmácia, não percebi quando um rapaz de uns vinte e poucos anos entrou. O avistei enquanto ele olhava a prateleira dos produtos de higiene. Ofereci ajuda, que ele recusou. Continuei meu trabalho olhando vez ou outra para o sujeito até que ele foi embora sem comprar nada.

Atendi uns poucos clientes mais, no restante da tarde. E resolvi fechar as portas pontualmente às dezoito horas, pois com certeza, não haveria ninguém para atender depois desse horário. Todos estariam em casa desfrutando do conforto de seus lares. Vendo seus programas prediletos na televisão ou navegando na internet.

Quando estava ajeitando a tranca da porta me pareceu avistar o mesmo rapaz que mais cedo havia estado na farmácia, mas não tive certeza. Após trancar tudo encaminhei-me para o carro. Pretendia passar no mercado para comprar alguns itens que estavam faltando na minha geladeira.

Após chegar em casa cuidei de alimentar meu cachorro e sentei-me para ver as notícias. Após uns poucos minutos fiquei entediado e escolhi um filme, pois não pretendia dormir muito cedo. Fred, meu cachorro, encostou seu focinho em meus joelhos e placidamente ficou ao meu lado. Uma hora e meia depois desligava o aparelho e rumava para cozinha para fazer um sanduíche. Fred olhou para porta como que me convidando para uma volta. A ideia era boa. Eu também precisava me mexer e exercitar minhas pernas.

Andamos durante uns quarenta minutos. E novamente tive a sensação de ter visto o rapaz que estivera na loja no meio da tarde. Achei que estava imaginando coisas. Ou melhor, estava trabalhando demais. Andamos mais uns minutos e quando Fred me olhou pensativo entendi que nosso passeio acabara.

E para findar um dia sem nada de diferente, nada como um banho demorado. Fui para cama me sentindo leve e adormeci quase que instantaneamente.

Acordei com os primeiros raios do sol entrando pela janela. Pulei da cama logo para evitar a preguiça. Pretendia correr um pouco antes de ir para o trabalho. Deixei Fred com o porteiro depois de andar com ele um pouco e fui fazer minha corrida. Havia poucas pessoas no parque naquele momento. Ainda era muito cedo e com certeza a maioria ainda estava dormindo ou saindo da cama naquela hora.

Percorri a trilha forçando a corrida no final dela. Era bom ter aquele espaço perto de casa. Fiz alguns alongamentos antes de voltar para casa. Fred me esperava ansioso no portão do prédio, abanando seu rabo. Ele era uma mistura de pastor suíço com labrador. Era branco levemente amarelado nas costas como se estivesse sujo. Estava comigo há dois anos e com certeza era meu melhor amigo e companheiro.

Subi pelas escadas pensando em terminar dessa forma meu exercício. Procurei ser breve no meu banho e comi sem pressa olhando o noticiário da manhã. A previsão do tempo previa um dia mais quente com pancada de chuva no seu final. Resolvi levar o Fred e deixa-lo no pet para passar o dia com outros cães e um banho. Estaria limpo para o fim de semana.

Ao contrário do dia anterior, a loja pareceu ficar cheia a manhã toda. Muitos queriam analgésicos, xaropes e antigripais. Os chás, também saíram em grande quantidade. Era o efeito dos primeiros dias de frio.

Após o almoço, a funcionária que ficava no caixa, pediu para sair mais cedo. Não vi motivo para negar o pedido. Com certeza haveria pouco movimento no final da tarde mesmo. Comecei a organizar tudo para atender os clientes sozinho, quando ela saísse. Lá pelas catorze horas, dois rapazes entraram na farmácia. Reconheci que um deles era o rapaz do dia anterior. Estava com um boné enfiado na cabeça de tal forma que lhe escondia os olhos e pouco mostrava de seu rosto. Estava com a mesma blusa cinza e calça jeans do dia anterior. Prestei atenção e novamente ofereci ajuda, que prontamente foi recusada. Olharam mais alguns produtos e saíram conversando.

Fiquei envolvido com alguns clientes, mas por duas vezes pensei ter visto os dois rapazes do outro lado da rua observando o movimento da loja. Essa era uma sensação que me incomodava. As notícias de assaltos dos últimos dias, passou-me pela cabeça. E lembrei que estaria sozinho no final do expediente. Um arrepio me percorreu a espinha , mas disse a minha mente que tudo não passava de minha imaginação fértil trabalhando demais.

Paula despediu-se lá pelas cinco e fiquei sozinho. Atendi vários clientes distraindo-me sem perceber o tempo passar ou quem entrava pela porta da farmácia. Quando atendi o que imaginei ser o último e calculando que devia ser hora de ir pra casa procurei com os olhos o relógio atrás de mim, quando virei-me vi aquela figura estranha na minha frente. Minha respiração ficou em suspense quando baixei os olhos para as suas mãos.

Notas finais
Quem era? O que havia em suas mãos?