Ladrões de Coroas Interativa
10 Lobos, Bruxa e dívida
Notas iniciais
Dagna Elizabeth Barbiero
Vale da Guerra/
Reino menor Vitae/ Norte
09h e 12m
Dagna caminhava apressada pelos cômodos tirando poeira da mobília, brincando com Bae, organizando as roupas recém-lavadas novamente no armário ordenadas por cor, conferindo se cada frasco estava no local devido na prateleira, se as folhas que estavam fervendo na caçarola já tinham derretido, e o mais importante, se a garota havia demonstrado algum progresso.
A bruxa não sabia nada a respeito da paciente, mas estava decidida e focada na causa. Day era persistente e curiosa, além de ter uma intuição do que poderia estar acontecendo, mas antes havia decidido recorrer aos curandeiros. Era uma forma de descartar qualquer doença que assolava os cantos do Império.
O tempo passava depressa enquanto ela mantinha-se atarefada, vez ou outra trocava as ataduras das costas da garota que estava deitada na cama de hospede, os cortes nas costas eram irregulares, traçavam duas linhas na diagonal igual na visão, à pequena garota tinha uma aparência deplorável e os machucados e inchaços ficavam mais evidentes com a recuperação. No dia que ela havia sido carregada pelos soldados do capitão Wieser estava imunda o que acabou cobrindo as feridas, mas agora era possível ver cada trincado na pele.
Bae miou aos pés da dona se esfregando como se a bruxa fosse um encosto. O animal era mal acostumado e adorava chamar atenção. Dagna o ignorou dessa vez, ela já havia o alimentado, precisava descobrir algo e achava que alguns escritos poderiam ajuda-la.
Na prateleira organizada por ordem alfabética estavam os volumes de listagens de doenças e infecções que ela havia adquirido anos antes, na segunda repartição tinha sete tomos de plantas e suas propriedades, mas o que a bruxa queria estava na ultima repartição, um expeço livro de página de couro sobre Espécies e suas subclasses.
Enquanto se acomodava na cadeira ela pensou na carta que havia enviado dias antes para o reino menor Elementar. Fazia semanas que a garota estava desacordada na cama e a curandeira sabia que alguns feitiços poderiam deixar humanos nesse estado. Mas também poderia ser uma característica de alguma espécie.
Sua busca a principio foi por seres aquáticos, ela havia cogitado que o tempo fora da água poderia ter deixado a garota inconsciente.
Depois de mais páginas Day pensou que a garota havia sido congelada por dentro por algum membro da comunidade do gelo, mas a possibilidade foi descartada imediatamente, a temperatura corporal deveria ter caído, mas não era o caso.
— O que você acha que é? Seu gatinho gorduchinho da mamãe. — A dona perguntou com a voz fina imitando uma criança estridente.
O animal apenas pulou no colo da bruxa e se aconchegou encostando a cabeça na barriga da dona, ele era realmente uma bola de pelo redondo. Horas se passaram, velas foram derretidas, mas nada de se encontrar uma resposta para o que havia acontecido com a garota.
Perto do entardecer a bruxa preparou uma sopa de legumes sem macarrão nem carne, porque detestava ambos. A casa foi dominada pelo aroma de comida fazendo o estomago de Bae vibrar em alerta, mas Dagna se concentrou em empurrar a comida na boca da paciente desacordada. Às vezes sentia vontade de chutar aqueles soldados que haviam trazido a garota para si.
Tudo estava dentro do habitual, nenhuma resposta, nenhum livro ajudava, a garota continuava desacordada, Bae era o mesmo gato manhoso, a casa cheirava a ervas e a recente sopa preparada, a ordem reinava, nenhum incomodo, sem barulhos, mas então uma batida ressoou pela casa seguida de outra, logo após um palavrão.
— Quem está ai? —Outra batida desenfreada.
Dagna pegou um punhado de pó do sono, ele era mais fino que areia e manchava como as cinzas da fogueira. Logo depois ela escutou um chute na porta e um pedido de socorro. A bruxa manteve-se calma enquanto se preparava.
— O que deseja? Não trabalho a noite. — Dagna disse calmamente escutando um palavrão em resposta seguido de um rosnado horrendo e um grito de terror. — O que se passa do lado de fora.
— Digamos que estou quase sendo devorada por uma matilha de lobos. — A voz demonstrava o pavor porém era irônica. Dagna continuou estática considerando os prós e contra. Outro rosnado seguido pelo som de um baque na porta e mais uma onda de palavras horrorosas que nem mesmo monstros costumava usar foram proferidas.
— Qual é o seu nome? — Perguntou a bruxa tranquila como sempre, ela não poderia se arriscar, e se fosse uma armadilha, os vampiros poderiam estar por trás disso, ou talvez tivesse algo relacionado à garota misteriosa.
Pensando nisso Dagna olhou para a porta trancada, em cima da mesma havia uma armadilha acionada, caso alguém arrombasse a porta, seria derramado sobre a pessoa gosma do pântano, um liquido viscoso que colava rápido ao entrar em contato com a pele impedindo movimentos rápidos ou bruscos.
— Isso não é relevante. — Esbravejou. — Se demorar muito vai ter que limpar minhas tripas pelo seu quintal.
Do lado de fora a garota loira atravessava a espada em um lobo gigante de pelo chocolate como a lama, o olho do animal se arregalou antes de morrer. Outros da mesma espécie a cercavam contra a porta da casa mostrando os caninos enquanto babavam furiosamente.
— Eu considero nomes importantes. — Bae miou escondendo dentro de um cesto na qual a bruxa recolhia as plantas. O som de aço se chocando contra garras fez o pelo do animal se arrepiar.
—Ellah, a porcaria do meu nome é Ellah. — As palavras foram gritos quando um uivo de dor cortou os céus seguidos por rosnados ferozes. — E estou disposta a pagar uma boa quantia se salvar a minha bunda hoje sua humana medrosa.
Dagna não se enfureceu, pelo contrario, sentiu-se confortável ao saber que a pessoa do lado de fora não sabia que ela era bruxa. Essa situação poderia ser facilmente explorada.
—Por favor. —Ellah se humilhou. A mercenária odiava implorar, mas estava em completa desvantagem, não poderia matar uma matilha inteira e os poderes estavam quase esgotado. — Por favor.
Do lado de fora a mercenária se lançou contra um segundo lobo que decidiu sair da posição. Mas os músculos estavam rígidos e outros animais se aproximaram deixando em posição perigosa.
Ela começou a cantar com uma voz melosa, mas só conseguiu parar dois dos muitos animais, os poderes estavam se esgotando e fazia tempo que ela não entrava em contato com a água.
— Eu preciso do seu favor. — Desta vez Ellah pediu desesperada, os braços tremiam quando atravessou uma das laminas no coração do terceiro lobo que ousava lhe atacar, mas ela havia percebido o plano deles. Queriam cansa-la, fazê-la sentir o pânico, o desespero antes de estripa-la com aquelas garras e dentes pontiagudos.
— Eu não faço favores. — Foi à resposta da Dagna, ela já havia se complicado o suficiente com a garota desacordada para tentar bancar a caridosa mais uma vez pondo em risco a sua segurança e a de Bae.
— Eu sou mercenária, costumo fazer bons negócios, posso fazer qualquer serviço pra você se salvar minha pele. — O aço da espada da mercenária riscou na parede quando um lobo se jogou contra ela.
— Qualquer coisa? — Dagna perguntou com um sorriso no lábio cogitando o que tinha em mãos.
— Qualquer coisa. — A mercenária respondeu valorizando mais a vida.
Dagna abriu a porta desarmando a armadilha, eram mais de quarenta lobos em seu quintal. Alguns haviam pisoteado suas flores que ela tanto amava. A mercenária tinha a aparência jovem, mas estava coberta de terra e sangue, a mesma havia matado quatro dos membros da matilha.
— Entre. — Foi tudo que a bruxa disse antes de lançar o pó do sono nos lobos. Os que estavam atrás não foram atingidos, mas se bateram contra o escudo que Dagna havia projetado sobre a casa.
A surpresa nos olhos da mercenária foi como o mel para a bruxa.
— Você tem uma divida com uma bruxa. — Dagna disse fechando a porta atrás de si. — É bom fazer o que eu exigir.
— E quanto aos lobos? — Ellah gaguejou.
—Eles não são loucos de permanecer na minha propriedade.
{...}
Ellah tomou um banho na ducha, depois vestiu um roupão de algodão emprestado por Day. Ela tinha alguns arranhados no corpo resultado das unhas de um dos lobos. No momento se alimentava da sopa de legumes.
— Uma carne de galinha cairia bem. — A mercenária comentou engolindo mais uma colherada da sopa.
— A sua ficaria ainda melhor. — A bruxa sorriu de uma forma horripilante enquanto Bae se enrolava novamente no seu colo. — Mas creio que não esteja a fim de servir de alimento.
— Já entendi, antissocial. — Ellah levantou as duas mãos de uma forma dramática fingindo rendição. — mas e ai, qual é o seu preço?
Dagna se levantou da cadeira e foi até o livro que estava lendo durante a tarde a procura de respostas para o que poderia ter acontecido com a garota que permanecia desacordada. Ela não sabia o que exigir, poderia precisar de muitas coisas, mas deveria escolher com sabedoria.
— Apenas coma e depois vá dormir, discutimos sobre minhas exigências amanhã. — As voz da bruxa não era gentil, aquilo havia sido uma ordem e Ellah não era louca de discordar.
— Me sinto em um covil de cobras. Ou melhor, na casa da bruxa. — Ela fez uma pausa despertando um olhar intrigado de Day. — Oh espere, eu estou na casa da bruxa.
— E será envenenada em breve se não permanecer calada. — Dagna subiu a escadaria, ela havia enfeitiçado a porta do quarto onde a garota misteriosa estava para manter a nova devedora longe do local. Porém o feitiço era fraco se comparado com os realizados pelas bruxas vermelhas, no entanto seria o bastante para repelir uma mercenária.
Depois de comer Ellah se aconchegou em um pequeno cômodo junto com caixotes e um colchão improvisado no chão feito de algodão e palha. A mercenária não fez objeção. Após ficar só, ela finalmente sentou sobre o piso e acendeu uma vela que estava guardada em sua mochila.
Muitas coisas haviam acontecido desde o dia em que havia saído do bar onde Lucinda trabalhava com a carcaça do lobo. Sobre as mãos ela tinha um mapa.
8 dias atrás
Ellah estava com a trouxa de roupa no ombro para esconder a carcaça do lobo, havia sido difícil encontrar um membro da matilha solitário, mas depois de muito caçar nas florestas havia encontrado o animal e o matado com duas facadas no olho e uma no coração. O seu cliente queria o couro para um novo cobertor e o sangue para um tipo de feitiço que não interessava a ela. O que faziam com a mercadoria não era da sua conta desde que pagassem.
A família da sereia não era normal, primeiro por preferirem habitar na terra ao invés do mar, depois por sua linhagem ser praticamente toda composta de mercenários e caçadores, estava no sangue, dizia Ellah todas as vezes que matava um novo animal por dinheiro. Mas essas atividades implicavam um enfraquecimento.
Para uma sereia permanecer com domínio completo dos poderes ela precisava estar constantemente vinculada à água, mas tinha época que ela ficava três a quatro dias longe de rios, sem mencionar que a magia ficava mais forte no centro do oceano próximo a Atlântida, capital do reino aquático.
Depois de entregar a carcaça do lobo para o cliente e receber o saco com quarenta ent de cobre e um ent de prata ela se dirigiu para o centro da cidade da prata onde ocorria o treinamento dos novos cavaleiros.
O som do aço era algo familiar na cabeça da mercenária que assistia uma disputa de cavaleiros recém nomeados. Ambos os homens eram jovens, bonitos, mas ela não os olhava por aspectos físicos, gostava de ver os passos errados conforme duelavam, sentia o sangue ferver na pele cada vez que a espada cortava o vento. Eles eram péssimos se comparados com os adagas negras, mas atendiam ao padrão requerido pelo general Kanh.
—Na comunidade dos viajantes você aprenderá que nada disso importa. — Noah Palmer disse encostando a mão coberta pela luva de couro na cerca de eucalipto. — As lutas são quase irrelevantes.
— Creio que não seja irrelevante quando eu precisar me defender. —Ellah respondeu entre os dentes percebendo que um dos cavaleiros estava com a guarda aberta, poderia facilmente receber uma cotovelada no queixo.
Noah era o irmão mais velho de Lucinda, dono do bar onde a amiga de Ellah trabalhava. O parentesco entre Lucinda e ele foi o que aproximou a mercenária do homem, mas logo ele se mostrou relevante para os objetivos de Ellah.
A mercenária tinha o habito de investigar a vida de todos próximos a si, não por desconfiança, mas por precaução, era o seu jeito de demonstrar cuidado e carinho, mas Noah a surpreendeu quando a pegou revirando suas coisas. Ele era diferente dos demais, esperto, calculista, pacifico e forte. Ela compreendeu que ele era muito mais do que aparentava.
— Tem certeza que deseja isso para sua vida? — Noah quis saber pela milésima vez. Raramente alguém se alistava para a comunidade dos viajantes, primeiro por ninguém saber a existência, e segundo por serem extremamente criteriosos. — Não é todo dia que tem pessoas querendo encarar os ladrões.
— Você os enfrenta diariamente. — Ellah contrapões encarando o irmão de Lucinda com atenção redobrada.
— Eu fui escolhido, é diferente. — Noah pensou no dia em que estava em sua propriedade cuidando do empreendimento quando uma garota de cabelo preto e pele escura adentrou no estabelecimento segurando um bastão reluzente e sorrindo. Ela demorou um mês para o convencer a se compadecer da causa e aceitar a proposta.
Ellah diferente de todos, não havia sido constatada como hábil para as funções, ninguém lhe ofereceu o cargo. Ela apenas investigou acontecimentos suspeitos, roubos de selos, joias, relíquias e logo em seguida visitas de pessoas com bastões na costa.
Foi complicado relacionar os fatos, afinal, tudo parecia uma brincadeira. Porém no início do ano houve um incidente nas minas, ela estava à procura de um freguês, tinha que receber o pagamento, mas quando chegou ao local o homem que deveria quitar a dívida estava morto, e ao seu lado um homem completamente de preto segurava um punhal ensanguentado.
— Esta joia não pertence a ele. — Foram as palavras do assassino. Era um cordão de diamante herdado de geração, Ellah sabia sobre ele porque seria o seu pagamento, a troca do cordão de diamante por veneno de lobisomem.
— Não mesmo, pois pertence a mim. — A mercenária desembainhou uma espada, ela deu apenas três golpes, mas todos foram facilmente desviados, o assassino era rápido como o vento.
— Sua tola, deveria ter se retirado. — O assassino que era um membro dos ladrões havia dito. —Você deverá morrer.
—Eu só quero a joia. — Ellah pediu. O ladrão sorriu. Naquele instante a mercenária sabia que morreria, não por ser fraca, mas por a coisa ser infinitamente superior a si. Mas então Noah, irmão de Lucinda apareceu com as vestes prateadas igual as estrelas.
—Devolva a joia para ela. — Noah pediu retirando o bastão das costas. — E diga a Mizael para parar de roubar relíquias de família. Está ficando difícil cobrir a existência de vocês. E ponham fim nessa carnificina.
—Esse bastão não faz de você o senhor dos anjos, você está sabendo, não é mesmo? — O ladrão zombou, mas Noah se girou rápido, como se houvesse se tele transportado, mas foi apenas velocidade surreal. Ele encostou o bastão no ladrão que começou a se dissolver como água evaporando.
—Eu não sou o senhor dos anjos, mas servo dele. — Respondeu o viajante calmamente.
Depois do ocorrido Noah foi obrigado a explicar o que era exatamente os viajantes. Desde então Ellah se interessou mais pela causa e começou pesquisar.
Em um pequeno acervo de uma feira coberta na cidade da prata ela comprou um pequeno livrinho de contos infantis que diziam “Os viajantes são uma legião de guerreiros orientados pelo poderoso arcanjo do senhor dos anjos”. No mesmo livro contava para as crianças que eles tinha a capacidade de se tele transportar e salvavam almas necessitadas.
Pagando uma ocultista ela descobriu que eles eram rivais das trevas e combatiam a escuridão. O que na verdade era pura mentira para tirar dinheiro da mercenária.
As informações só melhoraram quando ela procurou registos de atividades envolvendo os ladrões, em poucos casos haviam boatos de pessoas com bastões se tele transportando ou brilhando como estrelas.
Ela tinha outras informação ainda mais relevantes, que preferia esconder para não cair em mãos erradas.
Mas fato era que existiam, eram reais assim como os ladrões, apenas mais raros.
Um dos cavaleiros foi finalmente derrotado tirando a mercenária do transe. Noah a encarava pensativo.
—Para entrar na comunidade precisa se mostrar digna. — A voz do viajante foi apaziguadora. — Você precisa cumprir três funções.
Ellah chegou mais perto para escutar coma atenção.
—Deverá encontrar um anjo, montar um dragão e matar um demônio. — Ele falou como se fizesse todo o sentido. — Assim que estiver montada no dragão, com o anjo nos braços e com o demônio morto me chame.
—Eu não entendi. — Ela foi sincera.
— É a única forma de ingressar na comunidade. — O viajante encostou a ponta do bastão nas costas de Ellah criando uma frase em uma língua desconhecida.
— Comece no vale da Guerra, um dos itens está lá. — Noah avisou-lhe e partiu.
{...}
Agora
Ellah estava com o mapa na mão, se encontrava no Vale da Guerra como Noah tinha recomendado, só não contava que a matilha de lobo a rastreasse para cobrar o assassinato do outro membro que ela havia matado para vender o couro e o sangue.
Tudo tinha saído do controle, ela achava que o mais provável de se cumprir no Vale da Guerra era matar o demônio, mesmo não sabendo o que seria, afinal isso nem existia. Mas agora devia um favor para uma bruxa.
Tudo isso para adentrar em uma comunidade para cumprir uma promessa.
{...}
Dagna acordou mais sedo que o habitual, fez um café, regou o jardim, alimentou Bae, trocou as ataduras da garota misteriosa, ingeriu no organismo da paciente mais uma dose do chá de alcaçuz que agia como anti-inflamatório, tudo antes da mercenária acordar.
Quando ambas se encontraram naquela manhã Dagna fez um sinal para Ellah se sentar.
— Eu sei o que você fará para quitar a divida. — A voz da bruxa parecia áspera porém empolgada.
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