Notas iniciais
Para construir a barreira que separou uma nação em dois, precisou de apenas uma noite. Para levantar uma parede de tijolos isolando os dois lados, precisou de poucos dias. Para impedir a população de se deslocar em seu próprio país, precisou usar violência. Para derrubá-la, precisaram de 28 anos... Em homenagem a todos que participaram deste momento.

12, agosto, 1961.

O silêncio foi quebrado quando a escada rangeu sob os passos apressados das duas crianças. A sala de estar parecia sombria, com o imenso tapete cobrindo o chão, as pinturas na parede e a estante de livros em um canto. A única iluminação era a lareira de pedra, que deixava parte do cômodo às escuras.

No centro, uma mulher sentada na cadeira de balanço encarando o fogo. As crianças se aproximaram da mãe, que não parecia reparar nelas. Seus olhos refletiam as chamas, olhando para algo além delas. A mais nova, franzindo a testa, falou, em tom sério:

— Heinz!

As duas garotas observaram atentamente a reação da mãe, que não passou de um suspiro. A menção ao nome do marido ainda fazia a dor no coração intensificar, mas que começava a ficar suportável. Essa era a maneira das pequenas confirmarem se ela continuava de luto. A mulher olhou para as duas carinhas inocentes.

— Eileen, pequena Gretel, querem ouvir uma história?

As duas menearam a cabeça em concordância e imediatamente sentaram aos pés da cadeira de balanço. Tinham poucos anos de diferença, mas Gretel conseguia ser bem menor do que a irmã. Enquanto Eileen puxara o pai na aparência, loira e com olhos cor de mel, a pequena era parecidíssima com a mãe, o cabelo castanho claro caindo como uma cascata sob os ombros. A menina deu um longo bocejo, fazendo esforço para ficar com os olhinhos abertos.

A mãe então começou a contar uma história. Era algo que acontecia com regularidade nos dias mais frios do ano, quando as temperaturas desciam abaixo do zero e as ruas eram tomadas pela neve. Diferente daquela época — apesar das noites continuarem frias.

O entretenimento preferido da filha mais velha era passar os dias no aconchego da casa e preparar pratos com a ajuda da mãe. Seu favorito era a Torta da Eileen, apelido dado em homenagem à própria. Para os de fora, chamava Apfelstrudel, ou simplesmente strudel de maçã.

Com a pequena Gretel, os programas eram fora de casa. Ir ao lago Wannsee era, de longe, seu passeio preferido, principalmente nos meses frios, quando as águas congelavam. Ela estava aprendendo a patinar no gelo com a ajuda da mãe.

Os contos dos Brüder Grimm, a mulher sabia de cor e salteado. Contava fazendo expressões e gestos com as mãos. Sua voz era baixa, para que as garotas pudessem pegar no sono.

Não ficou nem um pouco surpresa quando, antes mesmo de terminar a história, as pequenas adormeceram. Em outros tempos, o pai as levaria para o quarto. Por mais silencioso que fosse, no momento em que a colocava debaixo das cobertas, ouvia um gemido.

— Águaaa...

A mãe, precavida, sempre subia com um copo de água nas mãos. Os pais nunca souberam explicar a incrível sede de Eileen no período da noite. Ou seu sono leve.

Agora, bastava apenas o rangido das escadas, quando a mãe subia para o quarto depois de apagar a lareira. Eileen acordava a irmã e iam para suas camas. Sem água.

No entanto, naquela noite, as escadas não rangeram.

A mãe olhou para as garotas com os rostos serenos, completamente apagadas. Com movimentos vagarosos, levantou da cadeira e arrastou os pés até o hall de entrada, afastando-se do calor e da luz que a lareira proporcionava.

Lentamente, como se estivesse indecisa, vestiu o longo casaco de lã preta, pendurado no cabideiro, e calçou os sapatos. Com o canto dos olhos, observou as duas figuras imóveis, suas silhuetas contornadas pela luz do fogo.

Sabia que, se pensasse melhor, adiaria mais um pouco aquele encontro. Mas e se fosse tarde de mais? Ela nunca se perdoaria se não pudesse visitá-la uma última vez...

Girou a maçaneta e saiu para a rua.

***

Assim que passou pela soleira da porta, foi tomada pelas lembranças do lugar onde crescera. A afeição dos pais pela casa era tanta que não moviam nada do lugar. Todos os objetos estavam onde sempre ficaram.

Entretanto, a mulher notou, a aparência geral era de abandono. Passara pelo jardim da frente, antes o xodó da mãe, onde o mato e as ervas daninhas se acumulavam. Esbarrou a mão em um dos móveis da entrada e lá ficou a marca de poeira. O cheiro, uma mistura de mofo e queijo rançoso, impregnava o ar.

À medida que foi adentrando, seu estado de desânimo a tomou por completo. Na sala, estacou. Mirou a mãe que estava deitada sobre uma cama improvisada no meio do cômodo. A visão deixou-a sem palavras. Até então, recusava admitir a certeza que, naquele momento, estava diante de seus olhos.

A mãe estava morrendo.

O olhar da mulher concentrou-se no rosto pálido da mãe. No mesmo instante, ouviu um barulho estridente como vidro sendo quebrado. Da porta que dava para a cozinha, saiu a figura de um homem alto e magro, com barba e cabelos cinzas.

— Ah, é só você, Amélie — murmurou o homem, com voz cansada.

Ela sabia que em algum momento da vida teria que voltar a falar com Rudolph, por mais difícil que fosse. Contudo, ainda não fora capaz de perdoá-lo pelos erros cometidos no passado.

Amélie ignorou por completo a presença de Rudolph, tratando de se sentar na poltrona ao lado da mãe. Tocou sua testa. Quente. Febre, sem sombra de dúvidas, era o motivo por ela estar naquele estado dormente. Por mais que quisesse, não tinha forças para carregá-la pelas escadas até seu quarto.

Amélie tirou os cabelos castanhos que pendiam na testa da mãe. Seus últimos meses de vida não tinham sido os melhores e era triste para a filha perceber que não havia contribuído positivamente.

Despediu-se dela, fazendo uma prece em voz baixa. Ficou algum tempo olhando para seu rosto, com as lembranças junto à mãe em seus pensamentos. Desejou que ela despertasse. Viva e sem dor.

No entanto, as horas passaram e nada aconteceu. Sentindo que seu momento de despedida acabara, passou as mãos pelo rosto e falou de modo inseguro:

— Tenho que ir...

— Não. Fique, só por esta noite. — Rudolph colocou a garrafa vazia que segurava em cima de um dos móveis.

Ela titubeou. Seu coração estava dividido. Aquele poderia ser seu último momento com a mãe ainda respirando, mesmo que não lúcida. Com suas pequenas ela teria o resto da vida. Não as tinha levado, justamente, para que não vissem a avó naquele estado.

Afinal, decidiu. Colocou uma das mãos sobre as dela, já grosseiras de tantos anos trabalhando, enquanto apoiava o queixo com a outra. Não percebeu que a voz da mãe, conversando com ela, vinha de sua própria cabeça. Depois de algum tempo, adormeceu com o som reconfortante.

Pareceu se passar um instante, quando a noite virou dia.

Acordou com a garganta seca. Por instinto, pousou as mãos sobre a testa da mãe. Fria. Sentiu seu próprio coração disparar. Ela sabia que algum dia iria acontecer. Afinal, a morte é a única certeza que temos na vida. Mas, mesmo assim, aceitá-la não era nem um pouco fácil.

Já passara por aquela situação antes, perder uma pessoa tão próxima e querida. Dias e mais dias em luto, despedaçada por dentro. Mas, afinal, toda aquela angústia não a levara a lugar algum, nem havia trazido seu marido de volta. E ela não queria passar por aquilo de novo.

De todas as coisas que Amélie desejava naquele momento, a de poder voltar para casa e ver suas filhas foi a que fez com que se levantasse da cadeira. Passou por Rudolph, sentado com uma garrafa parcialmente vazia ainda entre os dedos e olheiras proeminentes sob os olhos. Porém, nem isso ela reparou.

O vento frio pinicava seu rosto, enquanto o sol se escondia por detrás das nuvens, naquele dia nublado. A rua parecia deserta, algo incomum para àquela hora do dia. Também ignorou o fato. Nada daquilo importava. Dentro de pouco, estaria na companhia de suas pequenas.

Inesperadamente, ao virar a esquina, deparou-se com uma barreira que nunca tinha visto antes, nem mesmo na noite anterior. Seus olhos se arregalaram quando tocou a barricada, percebendo que não se tratava de uma ilusão. Teve a certeza quando esbarrou no arame farpado da cerca e viu o sangue escapando por um furo na pele. Cobriu com a manga da blusa.

Algo estava acontecendo.

Começou a correr pela calçada, procurando contornar o obstáculo. Entretanto, logo descobriu que ele continuava muito além, desviando de casas e atravessando ruas. E ela teria continuado procurando um meio de transpor se não tivesse sido abordada por um soldado.

— Senhor, por favor, minhas filhas estão do outro lado... — falou de modo apressado, atropelando as palavras. — Deve haver algum engano, eu preciso atravessar!

O soldado começou a gesticular com as mãos, dando a entender que era para ela se afastar da barricada. Tinha o semblante impaciente e falou qualquer coisa, de modo ríspido, em uma língua distinta do alemão, o que a surpreendeu profundamente.

Só então, naquele instante, Amélie notou as várias exclamações naquela língua estranha e se virou. De imediato, levou a mão na boca, reprimindo um grito.

A poucos metros, na calçada, entre vários homens de farda, havia um rapaz alemão com o rosto ensanguentado. Os soldados discutiam entre si, decidindo o que fazer. Uma distração. Ninguém prestando atenção nela. Aquela seria a hora perfeita para tentar atravessar a barreira.

Porém, não conseguiu desviar os olhos da cena. Lembrou-se da guerra, terrível e injusta. O pior dos seus pesadelos.

De súbito, tudo mudou em uma incrível rapidez. Pessoas corriam pelas ruas. Um dos soldados sacou a arma. O rapaz abaixou a cabeça, com os olhos fechados e, da boca aberta, uma oração. Amélie não conseguia se mover, não conseguia respirar.

Sua cabeça zuniu quando ouviu o som de tiros.

Acordando de seu devaneio, correu o mais rápido que pôde na direção contrária. Os gritos foram sumindo enquanto se afastava. A cena não deixava sua mente. Só queria fugir, ir para bem longe. E sua única opção era a que menos desejava naquela hora.

Bateu a porta atrás de si e, não querendo encontrar Rudolph, subiu as escadas para seu antigo quarto. Estava, como imaginava, igual ao que se lembrava da juventude. Uma cama de solteiro arrumada, armários vazios por dentro e uma janela com cortinas amarelas. Olhou por ela, através do vidro. A paisagem, ao contrário, estava sim mudada. O mundo lá fora não era o mesmo como antes.

Dava para ver o contorno da barreira, estendendo-se até onde a vista podia alcançar. Em alguns pontos, trabalhadores faziam seu serviço e substituíam as cercas de arame e barricadas por paredes feitas de tijolos. Curiosos paravam para acompanhar com os olhos, mas a maioria evitou sair de casa naquele dia.

Amélie pensou em toda a sua vida do outro lado. Sentiu-se vazia, como se uma parte sua ainda estivesse lá, com Eileen e a pequena Gretel. O que elas estariam fazendo naquele momento? Com certeza já acordadas e conscientes do sumiço da mãe.

O pior de tudo era que elas não saberiam o motivo.

As imagens vieram rápidas, como uma chuva de verão. As crianças com os rosto serenos, dormindo em segurança. A mãe saindo, sem dizer para onde. Ela podia sentir a dor de suas meninas ao descobrirem que ela não voltaria.

Olhou novamente pela janela. Definitivamente não queria ter que acordar todos os dias e encarar o único obstáculo que a separava de sua felicidade.

Fechou a cortina e o quarto escureceu.

***

Pareceu se passar uma eternidade, quando o primeiro mês chegou ao fim.

Em muitos pontos, cortando a cidade de Berlim, dois muros paralelos foram erguidos. Entre eles, uma terra que não era de ninguém.

Para impedir que os dois lados estivessem conectados, linhas telefônicas foram cortadas e trajetos de ônibus e bondes alterados. A cidade, como também o país, estava agora dividida, física e politicamente.

Na parte Oriental, muitas pessoas discordavam do regime imposto, o comunismo, e tentavam passar ilegalmente para a parte Ocidental, capitalista. A repressão por parte do governo comunista era forte. Incontáveis vidas se perderam, sendo poucos os que realmente lograram atravessar.

Enquanto isso, a morte da esposa havia afetado duramente Rudolph. Parecia sempre com o olhar perdido, conversando sozinho com frequência, lamentando pessoas queridas que havia perdido ao longo da vida e relembrando cenas de guerra. Amélie não suportava ficar ao seu lado nesses momentos.

Ela também sofria, muito. Porém preferia colocar as mágoas para fora através dos registros. Quando se sentia solitária, escrevia em papéis de carta que antes pertenciam à mãe, convencendo a si mesma que estava tendo uma conversa com suas meninas.

Mesmo assim, o silêncio, não poder conversar com alguém, tornou-se desesperador. Portanto, ela estava determinada a se reconciliar com o pai, ou ao menos tentar.

Encontrou-o na sala de estar, com a cicatriz exposta, uma das eternas marcas da guerra, e a expressão vazia de sempre. Amélie imaginava se, quando estivera em luto, essa não era a imagem que as garotas viam. Apesar de também estarem infelizes, suas pequenas tiveram que ser fortes e consolar a mãe, não o contrário. Ela não se lembrava de tê-las visto chorar, nem uma vez sequer.

Entretanto, agora não era o momento de voltar a ser aquela mulher, despedaçada pela morte. Para distrair-se de suas preocupações, gastara um bom tempo cuidando da aparência da casa; limpando os móveis, passando pano no chão, dando adeus à poeira e ao mofo. Não tinha escolha a não ser usar as roupas da mãe e, os poucos pertences que ela possuía, tomara para si. Em todas as tarefas que executava, a imagem da mãe estava presente, como em um sonho. Desde a hora que acordava até quando fazia chá e ia para a cama.

Sentou-se de frente para o pai e observou como parecia debilitado. Muito diferente do homem forte que fora para o exército, defender o país. Ele havia deixado tudo em segundo plano, inclusive a família, por algo pelo qual achava importante lutar. Mesmo sendo nova na época, ela nunca esqueceu a dor do abandono. E, quando pensava que era assim que suas meninas deviam estar se sentindo, ficava com o coração na mão.

Mesmo que o pai não parecesse prestar atenção, Amélie começou a narrar sua história. Talvez, ela pensava, se ouvisse sobre a realidade, ele acordaria de seu devaneio. Notou que, falando em voz alta, sua antiga vida parecia um paraíso.

Algumas vezes, sentiu um profundo aperto no coração por causa da saudade. Outras, quase sorriu lembrando-se das travessuras da pequena Gretel. Ou como quando a doce voz de Eileen, cantando no coral da igreja, dava razões de sobra para ficar orgulhosa. De todas aquelas recordações, observou, agia como uma mãe muito protetora. Depois dos tempos de guerra, estava mais do que certa em temer pela segurança de suas pequenas.

Afinal, partilhar suas memórias com Rudolph aos poucos virou rotina. Quando começou a achar que ele se recuperaria, devido a seus esforços, algo completamente inesperado aconteceu.

Ele não estava sentado no sofá da sala como sempre. Em seu lugar, uma carta marcada por sua letra apressada. Um desabafo de tudo o que não tivera coragem de falar todos aqueles anos.

“Você me fez perceber. Não existe ninguém pelo qual vale a pena lutar, além dos quais partilhamos o sangue”.

Quando terminou de ler, para ela estava mais do que claro. O pai pretendia atravessar a fronteira.

Além do próprio muro, encontraria muitas dificuldades pelo caminho. Não importaria a hora que tentasse atravessá-lo, pois mesmo de noite o terreno era iluminado como se o próprio sol tivesse emprestado sua luz. Tabuleiros com pinos de aço e minas terrestres eram só algumas das coisas com as quais ele precisaria se preocupar. E, como se não bastasse, cachorros e soldados patrulhavam a área constantemente.

O nome de Faixa da Morte não fora dado por acaso.

Amélie não soube o que sentir ao perceber que o pai não voltaria.

As escadas rangeram sob seus passos apressados quando subiu em direção ao quarto. Com as mãos trêmulas, afastou as cortinas e abriu o vidro, deixando que o ar gelado invadisse o cômodo, o vento açoitando sua pele exposta. Apertou os olhos, enquanto agarrava com as mãos o peitoril e se inclinava para frente.

Então, com todas as forças, gritou pelo pai. Gritou mais, incluindo Eileen e a pequena Gretel. Entretanto, não houve resposta. Ela estava totalmente só.

Abriu os olhos para constatar a certeza: o muro ainda estava lá, impedindo-a de voltar para casa. Era como um grande cadeado.

O silêncio se abateu sobre o quarto. E assim ficou por muito, muito tempo.

***

Naquele ano e nos que se seguiram, o inverno foi extremamente rigoroso. Em outros tempos, Amélie estaria celebrando com família; preparando a Torta da Eileen, patinando no gelo e contando histórias em frente à lareira. Os sentimentos de felicidade e segurança nunca estiveram tão distantes, para ela e o resto da parte Oriental.

Como antes, muitas pessoas tentaram atravessar a fronteira e perderam suas vidas. O inverno era erroneamente culpado pelas várias mortes, servindo como subterfúgio para o governo, que não desejava que a informação se espalhasse.

Passaram-se anos sem que ela percebesse.

Seria o vigésimo oitavo inverno de Amélie longe das filhas. Todos aqueles anos de solidão foram terríveis para sua saúde. Seu corpo enfraquecera e, na maior parte do tempo, permanecia deitada. Algumas vezes, lembrava-se de escrever suas cartas e reconhecia que, bem no fundo, ainda tinha esperanças. Mal sabia que sua espera estava prestes a acabar.

Aconteceu em uma noite gélida e melancólica, não muito diferente das outras. A não ser por um importante detalhe.

Aquele foi o dia que a Cortina de Ferro caiu.

9, novembro, 1989.

Algo estava acontecendo.

Amélie nunca havia visto tantas pessoas reunidas em um só lugar. Parecia que a cidade inteira estava presente! A infelicidade e a pobreza, que tantas vezes presenciara na parte Oriental, haviam desaparecido em meio à multidão. Agora via pessoas comemorando, com a bandeira da Alemanha — preta, vermelha e amarela — entre as mãos, e bebendo nos bares em volta.

Pela primeira vez na vida, Amélie se aproximou sem receio do Muro de Berlim. O que antes era uma barreira praticamente intransponível dera lugar às manifestações artísticas. Em algumas partes da cidade, o muro já começava a ceder com a ajuda dos cidadãos. Amélie não sabia, mas o que estava testemunhando era o fim de uma guerra, tão fria quanto o próprio inverno.

Em determinado instante, pensou ter visto, entre as pessoas, uma criança igualzinha à Eileen. Aproximou-se da pequena, sem conseguir acreditar no que seus olhos mostravam. Não podia ser tão nova assim, depois de todos aqueles anos. Ela estava certa quanto a isso quando enxergou as pessoas perto da garotinha. E o mundo pareceu congelar naquela cena.

Amélie sentiu uma pontada no coração ao perceber o tempo que perdera longe das filhas. Por Deus, como tinham amadurecido! Ela sempre fantasiava que estaria lá quando as duas se tornassem adultas, quando casassem e tivessem filhos, seus netos. Doía, mais do que tudo, saber que estivera presa no outro lado, enquanto tudo acontecia.

Ambas as irmãs imediatamente reconheceram a mãe que, apesar da magreza em excesso, contava com o mesmo aspecto de que se recordavam. Passou uma fração de segundo até que as duas transpusessem o espaço que as separavam da mãe e a abraçassem. Amélie ficou sem palavras, com os olhos marejados, sem poder acreditar que estava revendo suas filhas depois de todos aqueles anos. Apertou mais as mãos em volta das duas, sentindo o calor daquele contato. Agora, não conseguia se imaginar um só passo distante das suas pequenas, que não eram mais tão pequenas assim.

Finalmente, ela poderia abraçá-las. Poderia dizer que as amava. Poderia sentar em frente à lareira nos dias mais frios do ano e contar uma história; não qualquer uma, mas a de sua vida na parte Oriental, registrada nos papéis de carta.

E, entre lágrimas e sorrisos, Amélie entendeu — no fundo, sempre soube — pelo que, realmente, valia a pena viver.

Notas finais
2014. Há 25 anos o Muro de Berlim foi derrubado. Algumas partes ainda estão de pé, sem a finalidade inicial, e sim uma lembrança de uma parte sombria da história, que não deve ser esquecida pelas gerações futuras. Entretanto, não é preciso ir muito longe para notar que ainda existem "muros" levantados, nem sempre feitos de tijolos. Espero que você, assim como eu, tenha um novo olhar sobre o tema e gostado da leitura. Até uma próxima história! ;) → [Extras] Para mais informações, curiosidades e cenas deletadas, leia aqui: bit.ly/1rC1DkA
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