Lado a Lado
5 Capítulo 5
Notas iniciais
— Emma –
Esta completando exatos 27 dias que estou dormindo aqui nessa praça e sei que amanhã terei de procurar outro lugar para ‘viver’ ou melhor, sobreviver. É minha lei, bem não só minha. Há um limite para ficarmos em certos lugares, é a lei para quem mora nas ruas. E depois que vi Regina, bom agora eu sei o nome dela eu quis vê-la mais uma vez. Eu ia todos os dias no mesmo lugar e ficava horas por ali na esperança de ela voltar. Até ensaie algo caso ela aparecesse e estivesse triste de novo, queria tanto arrancar um sorriso daquela morena com olhos tão tristes.
Entretanto ela não apareceu mais, e logo me conformei que não a veria mais, mesmo que em meu coração eu desejasse isso com todas as forças, mas aprendi cedo que na vida não basta sonhar ou desejar para as coisas acontecerem. Sabia que se eu fosse eu jamais a veria de novo, mas como já se passou sete dias do meu limite em ficar nos lugares decido que hoje seria meu último dia de apresentação aqui.
E por incrível que pareça eu quis, eu desejei que eu a encontrasse lá de novo. Se eu acreditasse em algo supremo, extraordinário, magia ou que quer as pessoas crédulas acreditam eu pediria com a pouca fé que tenho para encontrar com ela. Havia algo nela que despertava meu lado adormecido. Não. Diria que meu lado desconhecido, melhor colocar assim.
Arrumei-me um pouco desanimada sabendo que no fim do dia estaria partindo. Cheguei à praça e fiz todas as coisas como de costume malabarismos, cambalhotas, mágica e até rodopiei com um aro improvisado de bambolê. E quando eu menos espero vejo a visão mais linda que meus olhos já tiveram o prazer em ver. Aquela linda morena mordendo um cachorro quente com tanta vontade e na mesma hora caindo um pouco de molho em sua roupa, isso me fez rir, pois assim como ela eu sou muito desastrada para comer. Vi ela revirar os olhos e fazer um bico fofo e buscar uns guardanapos para se limpar. Fiquei tão concentrada nela que nem vi que ela estava me encarando também com uma cara de desafio, imediatamente desviei o olhar e se não estivesse com toda essa tinta branca tenho certeza que meu rosto estaria completamente vermelho.
Meu coração quase explodiu em ver ela se levantar e sentar um pouco mais próximo a mim. Ela ficou me assistindo e sorrindo com as coisas que eu fazia. Eu estava adorando aquela atenção dela, ao mesmo tempo em que ficava completamente sem graça. Depois de ter ganhado um pouco para passar o dia de hoje, decido fazer uma pausa e me sento ao lado dela. Ela tem um cheiro incrivelmente bom. Seu corpo quando se mexe, ou mesmo quando o vento toca seus cabelos fazendo transcender dela um aroma maravilhoso que quase me transporta aos céus.
Em algum momento ela começou a falar comigo e eu simplesmente não conseguia responder. Sei que devo estar parecendo uma idiota, mas eu só queria ficar olhando para ela. Sua voz era linda, seu rosto, seu jeito de sentar, se vestir. Parecia até que eu estava sonhando. Ela então ficou de uma forma despojada, dobrou seus joelhos em cima do banco e colocou a revista em cima de suas pernas. Aproveitei para saber o que ela gosta de ler e decidi tomar coragem e dizer algo. Eu precisava arriscar e eu prometi que se eu a encontrasse novamente eu falaria com ela então respirei fundo e ensaio o que dizer a ela algumas vezes, até que decido comentar sobre o que ela estava lendo.
Quando finalmente tomei coragem para falar ela soltou um idiota e me assustei achando que eu tinha falado algo que ela não gostou. Mas, ao contrário do que pensei que ela fara, que era me mandar sair de perto dela e dizer coisas humilhantes como geralmente escuto, ela foi gentil e se desculpou. Nisso começamos a conversar e ela parecia ser tão leve conversando ainda sentia uma tristeza em seu olha, porém não da forma que eu a tinha encontrado. Quando ela me perguntou minha história eu gelei da cabeça aso pés. Como dizer, ah então eu moro nas ruas e geralmente as pessoas jogam coisas em cima de mim quando estou me apresentando.
Consegui inverter a situação perguntando sobre a história dela, além de eu estar louca para saber quem era Regina Mills. Mas, como estava bom de mais para ser verdade, ela precisava ir embora. Mas combinamos de nos ver amanhã, e eu mal posso esperar por isso. Ela me perguntou se eu estaria aqui amanhã, tive vontade de rir, e ao mesmo que pensei o quão perigoso era eu continuar por aquela área se o pessoal da família me pega ali, seria um estrago bonito. Entretanto eu mal podia me aguentar em ansiedade antes mesmo de ela ir embora que concordei de me encontrar com ela aqui amanhã e eu mal posso esperar por isso.
–Lado A Lado –
A noite enfim passou e o dia chegou e eu estava muito animada para encontrar com Regina. Então decidi que não iria trabalhar. Peguei minhas coisas coloquei dentro de uma mochila e fui ao único lugar para pessoas como conseguem tomar um banho por pouco dinheiro. Nessas pensões pouco frequentadas. Geralmente não tem água aquecida, é o que alega os donos, mas sabemos que eles economizam para os clientes com mais atributos. E assim eu fiz achei uma pensão e por incrível que pareça o proprietário do lugar era uma mulher o que é muito bom; pois os donos sempre dão um jeito de nos espiar tomar banho com buracos estratégicos que fazem nos banheiros já para essas ocasiões. A dona da pensão foi muito educada comigo e cobrou um dinheiro bem aa baixo do que costumo pagar e isso me deixou feliz pois assim eu conseguiria comprar algo decente para comer. Obviamente a água estava gelada, mas ela não impôs limite de tempo então aproveitei o máximo que pude no banho. A velha senhora ainda me deu uns sabonetes, shampoo e uma amostra grátis de uma colônia e eu fiquei feliz em imaginar chegando a cheirando bem para Regina. Tomei meu banho conversei um pouco com a senhora e ajudei-a em algumas tarefas, ela é muito solitária e esta doente. Minha ajuda a deixou imensamente feliz e ela me fez a proposta se eu sempre a ajudasse com algumas tarefas ela me deixaria tomar banho ali. Ela me disse que só não poderia me dar um quarto para dormir, pois todos os quartos estavam ocupados e eu disse que nem teria problema algum e que a ajudaria com o maior prazer.
Após ter ajudado com as tarefas, me despedi dela prometendo voltar no outro dia e fui para praça para me encontrar com a morena, eu sei que estou indo bem antes do nosso horário combinado, mas não queria perder nenhum minuto. Enquanto esperava por Regina fiquei lendo um livro a espera da morena. Eu li um clássico que eu já tinha lido algumas vezes, era um livro de um autor português, o mais conhecido de Portugal, Fernando pessoa.
“Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!”
Repeti esse trecho mais uma vez em voz alta e fechei meus olhos, pensando naquele trecho.
“Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar”.
Escuto uma voz rouca atrás de mim e sinto meu corpo inteiro se arrepiar. Abro meus olhos e é impossível não abri um enorme sorriso ao ver Regina atrás de mim. Assim que ela me olha ela arregala os olhos e fica me encarando, não sei bem quantos minutos ficamos assim, então decido quebrar o silêncio.
— Presságio – Digo – Adoro Fernando Pessoa.
— Eu.. Eu também – Diz ela gaguejando e realmente não entendo o porquê dela estar daquele jeito.
— Você está bem? – Decido perguntar, já que ela esta me assustando me olhando daquele jeito.
— Não – Ela diz – Sim – Diz ela meio atrapalhada e eu fico confusa – Quer dizer, sim. Eu estou bem.
— Okay – Eu apenas digo isso e aponto para ela se sentar ao meu lado e ela fica uns minutos ainda me olhando, mas logo ela se senta.
— Então resolveu seu problema? – Pergunto gentilmente a ela.
— Sim. Era só meu irmão que chegou a cidade e queria me ver – Ela me diz colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha e agora é minha vez de ficar paralisada olhando fixamente para ela. Ela estava tão linda com uma blusa preta por baixo de uma camisa xadrez vermelha que estava apenas com uns dois botões fechados, de calça jeans e tênis. – Fazia uns bons meses que eu não o via e tive que ir correndo para vê-lo. Sabe como são irmãos né, quando estão juntos só brigam e quando separados não querem desgrudar – ela diz sorrindo e eu só consigo dar um sorriso de lado, afinal não faço ideia de como é ter um irmão. Então decido mudar de assunto.
— Está com fome?
— Pra falar a verdade eu tomei uma vitamina de mamão com maçã antes de sair de casa – Diz ela com uma carinha de culpada – Mas, acho que estou com fome novamente.
— Então vamos... – Antes eu completasse a frase ela me diz
— Eu acho que estou com vontade daquele cachorro quente, que comi ontem – Diz ela passando a língua pelos lábios e revirando os olhos e acabo sorrindo com o jeito dela – Estava delicioso – Ela diz e abre os olhos e me encontra rindo dela – O que foi?
— Acho que notei que estava delicioso – Digo a ela sorrindo, pelo fato dela estar comendo e se sujando toda de molho de mostarda.
— Emma! – Ela exclama fingindo estar brava e me dá um tapinha de leve no braço com uma carinha de indignada. E não consigo segurar uma gargalhada com a atitude dela e ela acaba gargalhando também.
Então levantamos e vamos caminhando calmamente até o carrinho de cachorro quente e ela parecia uma criança com os olhinhos brilhando olhando para o lanche que o senhor fazia para outros clientes.
— Vê se não vai bar nos lanche dos outros – sussurro a ela e ela me olha indignada outra vez.
— Esta achando o quê? Que eu passo fome, senhorita Swan? – Ela me pergunta isso e engulo em seco na mesma hora e paro de sorrir. E ela vendo minha cara começa a gargalhar – Eu estou brincando – Diz ela quase sem fôlego – você tinha que ver sua cara agora – Ela diz ainda rindo e tento sorrir para disfarçar. Obviamente ela pensou que parei de ri por um motivo completamente oposto da verdade. E ela só parou de sorrir quando o senhor disse que era nossa vez de pedir e ela foi toda empolgada fazer o pedido dela.
Depois de estar com nossos pedidos em mãos e eu insistir em pagar o pedido dela e ela relutar um pouco mas acabar cedendo quando eu disse que iria esfriar se ela não comesse logo com isso aproveitei para pagar o senhor que me olhou meio estranho por saber que eu morava na ruas, mas mesmo assim insistir para pagar para Regina. A gente deu alguns passos e Regina novamente estava lambuzada de mostarda, só que dessa vez no rosto eu sorri vendo aquilo e voltei para pegar uns guardanapos e me aproximei bem perto dela e pedi licença para limpar a mostarda de seu rosto e como ela não disse nem sim e nem não eu considerei que poderia.
Então assim eu fiz, limpei o lindo rosto dela. Ela tinha traços delicado e forte e uma cicatriz no lábio superior onde fiquei alguns segundo admirando, quando estava perdida admirando seu rosto ela me tira de meu transe.
— É a primeira vez que te vejo sem estar com tinta no rosto – Ela diz e eu me toco que é verdade era a primeira vez que me via como eu realmente sou e isso me deixa apreensiva um pouco. Ela então leva uma mão até meu rosto de forma delicada, como se estivesse o descobrindo e sussurra olhando fixamente em meus olhos – Você é tão bonita! Parece uma princesa, sei lá... – Ela diz meio pensativa e me sinto completamente envergonhada com o elogio dela. Não a primeira vez que ouço isso, mas a forma como ela disse fez meu coração quase saltar pela boca de tanto que ele pulsava – Me desculpe – Ela diz ao perceber meu jeito sem graça – Não quis intimida-la.
— Não se preocupe – Digo limpando a garganta e tentando mudar o foco daquela conversa que estava me deixando um pouco confusa – E então já posso saber sua história?
— Claro! – Diz ela. E fico me perguntando se ela conta sua vida a toda loira desconhecida que ela conhece em uma praça e como se ela adivinhasse o que estou pensando ela completa – Mas direi coisas bobas, afinal ainda não nos conhecemos. – Ela diz e eu concordo.
—Lado A Lado –
Após isso fomos andar pelo parque. Andamos quase o lugar inteiro, fomos perto do lago que tinha ali com alguns patinhos nadando tranquilamente por ali. Ela ficou alegre em jogar um pedaço de pão a um pombo quando voltamos a andar e a alegria dela era tão leve. Ela via beleza nas coisas simples e isso é o lado mais bonito que enxergo nas pessoas. Enquanto andávamos por ai conversávamos sobre diversos assuntos e discutimos sobre outros. Regina assim como eu adora ler, e falamos sobre vários escritores e sobre vários pontos de vista sobre coisa da vida, do universo e seus mistérios. Ela era tão inteligente.
Descobri que ela morava há uns 30 minutos dali e que era uma jornalista. Não resisti e perguntei se ela tinha filhos ou mesmo marido. Ela me contou que não que tinha recém saído de um relacionamento com um tal de Robin e ela me contou toda a história deles e tive que me segurar com a raiva que percorreu meu corpo naquele momento, como um cara é capaz de ser tão babaca como ele. Eu nem sei como ele é, mas pelo jeito que ela contou fico me perguntando como alguém como ela, tão leve e delicada poderia se envolver com um canalha como ele.
Nisso passamos uma tarde maravilhosa e mal vimos as horas passarem e só nos tocamos quando o celular dela tocou. Era o irmão dela querendo saber onde ela estava, já que eles tinham marcado de se encontrarem. Então ela infelizmente teve que ir embora, mas prometeu voltar no outro dia e eu quase tive um treco de felicidade e topei na mesma hora em me encontrar novamente com ela.
Ficamos um tempo nos olhando acredito que ela como eu estava procurando um jeito de se despedir. Então ela veio até mim e deu um abraço, que eu logo retribuo. Acho que nunca tive um abraço desses na vida. Não sei quanto tempo ficamos abraçadas assim aproveitei e cheirei seus cabelos, guardando todo seu cheiro na memória. Então fomos nos afastando aos poucos, ela me deu beijo demorado na bochecha e enfim saiu de meus braço, me deixando com uma sensação de vazio.
— Obrigada pela tarde Emma – Ela me diz com um sorriso sereno e uma voz doce.
— Eu que agradeço – Retribui e ela abriu um sorriso também.
— Até amanhã – Ela disse dando um passo para trás, mas ainda olhando para mim – Amanhã sou quem paga nossa comida – Ela diz e já penso em retrucar e ela me corta antes disso – E não aceito não como resposta – Eu nego com a cabeça com o jeito mandão dela e acabo concordando.
— Tchau – Ela diz de novo. Eu aceno minhas mãos para ela sorrindo, ela repete meu gesto, me olha mais um pouco e enfim vai embora. E eu fico olhando ela ir embora até ela sumir de vista e enfim vou para a pensão pegar minha mochila que a dona havia me deixado guardar lá e vou o caminho todo relembrando todo o dia em minha cabeça e desejando que amanhã chegue logo.
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