Lado a Lado
35 Um chá quente e uma boa conversa
Notas iniciais
Naquela mesma noite, Regina fez o que havia prometido a Emma. Elas não iam mais trazer o assunto Mary Margaret quando estivessem a sós, aqueles momentos seriam só delas. E mesmo ainda se recusando a darem alguns amassos com Mary estando hospedada em sua casa, Mills ainda se permitia estar sempre próxima a Emma. Elas serem dormiam abraçadinhas na cama da morena. E depois de anos toda saudade, angústia e frustração guardada parecia ter transbordado Swan não conseguia entender o porquê de não ser compreendida por sua mãe... Ela simplesmente desabou nos braços de Regina, em choro sufocante e ao tempo que a alivia tudo. O motivo era apenas um, ela estava em segurança nos braços da mulher que amava, e em seu estado emocional era de importante estar com quem a queria bem. Emma não estava sozinha, não mais. Regina não disse uma palavra sequer, ela apenas deixou que Emma chorasse e abraçou o mais forte que pode. Em seu coração ela sabia que era aquilo que a namorada precisava: o seu amor e nada mais. Quando Emma finalmente adormeceu, a morena passou a observá-la durante o sono, agora tão serena e algo lhe veio a sua cabeça... Emma durante do tempo sempre fazia de tudo, para que Regina tivesse o melhor da vida, talvez fosse à hora dela fazer o mesmo, ou ao menos tentar. Ainda sem ter ideia de que horas eram Mills ajeitou Emma da melhor forma na cama, e se levantou o mais suave que pode para não acordá-la e deixou o quarto e foi em direção à cozinha. O que não esperava era encontrar alguém inesperado por lá. Parada na soleira da porta da cozinha, Regina se questionava em como agir... Por mais que não quisesse se intrometer nos assuntos de Emma e sua mãe, ela via que não tinha muita saída. Para ter uma conversa séria com sua sogra, ela teria se intrometer e talvez o momento estivesse agora diante dela e Regina não deixaria passar.
— Não deveria ter se levantado da cama, Sra. Nolan. — Mills disse assim que adentrou a cozinha. Mary Margaret levou a mão ao peito demonstrando que havia se assustado. Ela se sentiu constrangida sentia-se como uma criança que havia se pega no flagra por estar fazendo algo errado.
— Eu me sinto bem Senhorita Mills, não foi esforço descer as escadas. Desculpe-me por invadir sua cozinha, mas eu só queria beber um chá. — Mary respondeu tentando se explicar.
— Não precisa se desculpar Sra. Nolan, enquanto estiver aqui, eu quero que se sinta em casa. — Regina foi tentando dissipar o clima tenso, enquanto mexia na pia pegando algumas coisas. — E pode deixar o Senhorita de lado, me chame apenas de Regina. Agora se sente aqui, que eu mesmo vou preparar um chá. A mulher mais velha pareceu um tanto menos tensa, e olhou para Regina com olhar mais brando. E deixou ser levado até o banco próximo ao balcão e se sentou.
— Tudo, Regina... — Mary disse baixinho.
— Chá de camomila ou erva doce? — A morena perguntou a ela.
— Camomila, por favor, é o preferido de nossa família. Emma tinha muitos problemas para dormir e tanto fazer para ela virou um hábito lá em casa. — Ela comentou com Regina.
— Eu descobri isso há algum tempo, e mesmo já habituada a tomar chá toda noite, apenas inclui um sabor a mais a lista de compras. — Regina contou a Mary. — Desde então Emma tem dormido melhor, e tem sido mais produtiva durante o dia.
— Parece que as coisas não mudaram muito, mesmo ela longe de casa. — Mary comentou com tom de voz saudoso.
— Acho que não, mas Sra. Nolan...
— Se estamos deixando as formalidades de lado, acho que pode me chamar pelo meu nome, Regina.
— Ok, Mary Margaret então. Já que estamos deixando a formalidade de lado, eu quero lhe propor algo. Curiosa e menos tensa, Mary pareceu mais disposta a ouvir Regina.
— Bom já estamos nos tratando sem formalidades, e vamos a tomar um chá. Eu acho que não há mal algum em lhe ouvir.
— Fico feliz que esteja aberta a finalmente há escutar o que tenho a lhe dizer. Pelo pouco que ouvi, vi e Emma me contou, sei que tiveram problemas no passado. Então antes de começarmos essa conversa, eu quero que saiba dos assuntos que quero debater aqui, pois sei que a maioria deles é tabu para você. Então quero que deixe a intolerância de lado e possamos debater e conversar uma ouvindo a outra sem gritos e ou ofensas. — Regina dizia de forma calma usando sua melhor habilidade, a persuasão. — Eu conheço um pouco da sua história, sei que foi que foi criada por uma família extremamente religiosa, e que sempre julgou e lhe ensinou que todas as coisas diferentes eram pecado. E antes de tudo que quero que saiba que respeito sua religião e crença, e de verdade quero ouvir o que tem a dizer, mas sem usar a religião como justificativa. Quero que seja racional, quero ouvir seu ponto de vista como ser humano. Eu não julgá-la, mas com toda certeza irei rebater tudo que tiver a me dizer baseado na minha experiência de vida e ideias. Da mesma que você terá todo o direito o mesmo direito de rebater tudo o que eu disser aqui. E creio que podemos ter essa conversa tranquilamente sem sermos interrompidas, já que estão todos no décimo sono.
Mary Margaret sentiu sua cabeça dar nós. Uma conversa franca entre ela e companheira de sua filha, poderia mesmo acontecer? Ela estava confusa, mas curiosa para ouvir tudo que Regina tinha a dizer. Assim como tinha grande curiosidade de saber onde tudo aquilo iria chegar. Então sem dizer nada, ela apenas balançou a cabeça em concordância.
— Bem, agradeço seu voto de confiança.
Regina não sabia como prosseguir com aquela conversa, afinal estava diante de uma mulher preconceituosa e com valores completamente diferentes dos seus. Mas já tinha chegado há um ponto que todos aquelas diferenças e assuntos pendentes não podiam ser deixados de lado, debater e se ouvirem era completamente necessário para que pudessem ter uma convivência saudável, e também pelo bem estar de Emma.
— Eu sei que Emma sofreu bastante durante a infância e boa parte de sua adolescência, sei também que ela abriu mão de muitos de seus sonhos e vontades tudo para lhe agradar... E isso a fez infeliz por muito tempo, infelicidade que ela guardou para si mesma e apenas lhe fez sofrer calada. E por isso eu acredito que nunca poderei perdoá-la, mas também sei que você ama sua filha, pois vejo isso em seu olhar... É amor, amor ao qual conheço bem, e sei como é. Afinal também sou mãe também. Eu sei que se importa o bastante e se esforça dentro das suas possibilidades tenta me suportar e ao mesmo tempo tenta saber mais sobre a vida de sua filha mesmo que seja de modo discreto. Eu entendo também, que pensamentos tão antigos e cultivados por grande parte das famílias, principalmente por pais e líderes familiares são difíceis de lidar quando os filhos se mostram diferente do que eles esperam, mas ainda a culpo por diversas coisas que Emma ainda carrega. Sei que não justifica ou muda a culpa, mas é algo que precisa ser levado seriamente em consideração. Afinal as mudanças não podem acontecer de uma hora para outra, mas você Mary também precisa estar disposta a ouvir e abrir um pouco seu pensamento, porque infelizmente nesse meio tempo está perdendo um tempo precioso ao lado de sua filha, apenas porque não consegue ponderar as coisas e reajustar suas crenças e pensamentos. Então eu fico me perguntando... Será que não sente nem um pouco de falta da Emma? Não sente falta de fazer parte da vida de sua filha?
Mary Margaret olhou para Regina com um olhar diferente, e ficou apenas em silêncio. O mundo parecia ter parado por longos segundos, Regina pode ouvir a respiração profunda da mulher mais velha. Mary levou as mãos ao rosto, ela parecia querer se esconder, mas não conseguiu. O que veio depois foi apenas um pranto silencioso. Mills se levantou e pós ao lado da sogra, ela lhe passou as mãos vagarosamente por suas costas suavemente, enquanto lhe dava apoio para que ela pudesse desabafar.
— Você não entende Regina, essa não é a minha Emma, a minha pequena! Ela deveria ter cursado pedagogia como eu, iria ser uma ótima professora, se casaria com um bom homem e teria filhos, como toda mulher faz. Você não pode culpar por querer isso para minha filha, pois não é isso que todos os pais sonham para seus filhos? Diga-me, você também é mãe, e sabe como os filhos sofrem se não se encaixam no que é considerado normal por todos. — Mary disse entre soluços.
— Mary é por ser mãe que não consigo pensar assim, antes de tudo eu quero que meus filhos sejam felizes com suas escolhas. Eu não quero ser a pessoa que os prende ou pressiona, para não deixar que tomem suas próprias decisões só porque as pessoas julgam como errado. — Explicou Regina.
— Mas eu só não quero que Emma sofra com o preconceito! Se ela estivesse nos padrões normais, tudo seria mais simples.
— Você está certa, se Emma estivesse em relacionamento hetero, ela não sofreria com esse preconceito retrógrado que ainda está enraizado e que pouco se debatem hoje em dia. Mas esses padrões seriam convenientes apenas para você e não para ela, certo?
— Como assim?
— Emma poderia fazer tudo que as pessoas julgam como normal. Ela poderia muito bem ter seguido os planos com Killian, se casado e talvez seguir a carreira que agradasse a você. Eles iriam gerar filhos biológicos. E ela iria fazer tudo isso somente para agradar uma parcela da sociedade que não aceita que os padrões ainda que diferentes sejam normais, afinal todos nós somos diferentes uns dos outros. Mas todos preferem acreditar cegamente, que pessoa não possa agir diferente do resto da sociedade. Mas é o que todos precisam entender é que viver como as pessoas querem, não significa estar bem com aquilo. Uma vida baseada em mentiras, não é uma vida e apenas gera conflitos internos que fará a pessoa se sentir péssima simplesmente por não entender porque não é feliz sendo igual a todos os outros. Então Mary, me diga como alguém pode ser feliz dessa forma?
— Mais ao menos ela voltaria a ser a minha menina.
— Mas Emma jamais deixou de ser a sua menina Mary.
— Então me esclareça Regina, porque ela vive me evitando, me deixa sem notícias e quase nunca me deixa participar de sua vida.
— Você deveria se perguntar quem a deixou primeiro Mary Margaret? Quem a forçou a agir dessa forma? — Mills respondeu a sogra com outra pergunta e outra.
E aquelas perguntas foram como um soco no estômago da pedagoga, e ela simplesmente não conseguiu responder. Ela apenas abaixou o olhar e seus olhos voltaram a lacrimejar, já Regina resolveu não dizer nada, apenas deu a ela o tempo necessário para que Mary pudesse processar tudo. Era a primeira vez que Mary apenas escutava, e tudo sem questionar ou usar argumentos cristãos e as coisas pareciam começar a caminhar para algo melhor.
— Sabe Mary, Emma é a pessoa mais incrível que eu já conheci em minha vida, ela é carinhosa, criativa e dona do sorriso mais lindo que pude ver. Ela consegue ser suave nas coisas mais difíceis, e ainda ser romântica com os gestos mais inusitados e lhe dar forças nos piores momentos. Com Emma eu aprendi a jamais desistir. — Regina dizia com sorriso enorme nos lábios. — Ela tem uma mania engraçada se sempre perder as coisas, mesmo estando na cada dela. — A velha senhora Nolan sorriu, pois aquela mania era mesmo de Emma. — E ela odeia óculos, só usa escondido de todos mesmo sabendo que precisa dele durante todo o dia.
— Ela sempre odiou óculos. — Mary se lembrou.
— Então me diga se ainda reconhece nos pequenos detalhes, o que isso mudou em sua filha? — Regina continuou usando seus melhores argumentos. — Porque a forma que Emma ama, não muda quem ela sempre foi. Ela é um conjunto de qualidades, e uma coisa não exclui a outra. Ela ainda é a sua menina, a mesma persistente e amorosa de sempre. Às vezes meio boba demais e orgulhosa em alguns momentos. Em outros momentos é responsável e brincalhona. Mas ainda é mesma Emma. E você a conhece melhor que ninguém, afinal é a mãe dela. Então acha mesmo que Emma desistiria de quem ela é somente para agradar a todos... Ou ela lutaria com unha e dentes? E veja bem o foco aqui, não é apenas a sexualidade dela, eu posso afirmar com convicção que Emma é assim em qualquer ponto de sua vida.
— Eu sei, porque eu a ensinei a ser assim. — Mary disse entre as lágrimas. — Eu a ensinei a jamais abaixar a cabeça para ninguém, e mesmo que tudo pareça impossível ela jamais deveria desistir daquilo que acredita. E mesmo que fosse difícil, ela “nunca deveria desistir no primeiro tombo”, pois no final toda luta valeria a pena.
A frase que tantas vezes Regina escutará de Emma, agora a morena sabia de onde tinha vindo.
— Se você a ensinou a ser assim, então porque a julga agora? Pois tudo que ela tem feito é defender aquilo que ela acredita.
— Porque isso é pecado! — Mary se exaltou, mas uma vez usando a religião como argumento. — Regina eu concordo com todos os argumentos que está usando, são todos extremamente válidos, mas isso não muda o fato de que Emma ainda está vivendo em pecado aos olhos de Deus. Hoje as coisas estão ao contrário, ninguém tem respeitado mais as leis sagradas de Deus, existem gays que querem até casar na igreja.
— Bem, eu concordo com você nesse ponto, afinal crença é algo delicado.
A mãe de Emma por um momento se espantou, pois a companheira de sua filha estava concordando com o que ela tinha afirmado. Regina a olhou, e ao ver a expressão da mulher mais velha, não conseguiu achar aquilo um tanto engraçado.
— Eu quero que entenda Mary, eu respeito todas as crenças e credos. Eu conheço boa parte delas e sei respeitar todas as tradições e costumes. Sei também que o casamento hétero faz parte dessas religiões, por conta de todas suas regras e crenças. E tentar exigir mudanças dessas regras e costumes é errado e não passa de mero capricho. Deus é amor, mas também é respeito. Todos nós temos o direito de escolher nossos caminhos, mas existem costumes que devem ser respeitados. E ainda existem outras formas de celebrar uma união, que não seja de forma religiosa. Existe casamento civil e algumas religiões que realizam atos simbólicos, que são opções que não ferem a crença de ninguém. Mas infelizmente ainda existem extremismos em diversos lugares, mesmo que não representam a maioria. O que muda nisso tudo, é que as pessoas com esse tipo de comportamento são sempre as que ganham destaque, pois a mídia sensacionalista adora esse tipo de coisa, porque assusta e vende rápido. Mas temos que colocar em pauta que se Emma está vivendo mesmo em pecado, como você afirma somente Deus pode julgá-la quando for o momento, e isso não dá direito algum de outro ser humano tão pecador como ela usar os ensinamentos de Deus para julgá-la quando for conveniente para ele, ou porque o seu comportamento o incomoda.
— É eu tenho que confessar que não esperava ouvir algo assim... De alguém... Como você... Digo... — Mary gagueja tentando achar uma palavra que não fosse lésbica.
— Alguém lésbica, é o que está tendo dizer?
Mary apenas balançou a cabeça em concordância.
— Embora eu não goste de rótulos, eu sou apenas uma pessoa que ama livremente. Um dia amei intensamente um homem, e hoje estou apaixonada por uma mulher Mary, é simples.
— Mas ainda é pecado, está na bíblia! — Mary respirou fundo, tentando achar forças para continuar a falar. — Eu sei que o mundo não mais o mesmo, não sou tão antiquada como acha, mas eu fui ensinada que algumas coisas não devem mudar porque, vai contra a moral e a fé. Eu quero que entenda o meu lado Regina, eu cresci, e vivi com essas regras. Sofri muitos castigos, até estar dentro da conduta moral que é correta. É a forma que aprendi a ver o mundo, e não consigo mudar minha fé, pois aprendi que a ter temor a Deus e a fazer o que é certo perante os olhos dele. E quando falo de temor, não é de medo de um castigo, mas sim medo de me perder dele essa é a diferença que muitos não entendem. E dizem ser besteira, mas para mim não é. Essa é a forma que aprendi a lidar com a vida! E se não for assim, eu não conseguiria viver de outra forma.
— Mary eu não estou dizendo que você não deva viver conforme sua religião, ou que isso seja errado. E caso alguém afirmasse isso eu mesma estaria ao seu lado a defendendo piamente. Simplesmente porque acredito que todos têm o direito de viver sua fé e acreditar em Deus a sua maneira, desde que não machuque a ninguém. — Mills afirmou enfaticamente, e depois deu um longo suspiro antes de continuar. — Ninguém deve ser privado de viver suas crenças Mary, assim como as pessoas que querem amar outras pessoas também querem ter esse direito. O direito de poder viver esse sentimento tão forte e bonito chamado amor, mas sem qualquer temor. Pois até onde eu conheço da religião cristã, esse também é um dos princípios de Deus, ser amoroso, ter compaixão, ter misericórdia e acolher ao próximo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Foi o que Jesus disse, mas é o que muito poucos seguem. Porque o que eu tenho visto na televisão, na rua e no mundo é o contrário disso tudo, as pessoas têm erguido armas e usado de violência para pregar de forma cega àquilo que Deus afirmou, e isso para mim não amor é apenas retrocesso. Hoje até mesmo as palavras viram armas, que magoam e espalham coisas repugnantes. Os olhos apenas condenam e não procuram conhecer o que existe por trás de cada história. O que quero que você também entenda, é que os ditos cidadãos de bem que senta ao seu lado todo domingo na igreja e reza o pai nosso também tem pecados que você desconhece. Muitos traem suas esposas, outros a agridem suas namoradas, são corruptos, metem ou fazem coisas piores. Então apenas me explique, porque amar alguém de uma forma diferente poderia ser algo tão repugnante porque merecesse ser castigado? Se amar é algo tão lindo, tão puro, se o amor pode transformar coisas ruins em boas? A forma como tratamos o próximo é que deveria fazer diferença, porque o respeito é que deveria vir acima de todas as outras coisas.
Mary queria conseguir dizer algo, mas novamente sua nora a tinha deixado sem resposta. Era estarrecedor para a pedagoga, Regina não tinha usado um discurso incoerente e muito menos palavras de baixo calão, elas tinham tido um conversa franca com pontos e argumentos válidos para ambos os lados, mas o lado de Regina era o que fazia mais sentido. E mesmo indo contra seus valores Mary conseguia admitir isso, era como se Regina dissesse, é assim e pronto, não tem o que questionar.
— Você sempre foi assim... Digo muito boa com as palavras.
— Eu trabalhei com livros a minha vida toda, deve ser isso, mas se quer saber se Emma é a primeira mulher por quem me interessei. A resposta é sim, ela foi a minha primeira e espero que seja a última.
— Oh quer dizer então que minha filha, lhe colocou nesse caminho?
— Oh, não ninguém me colocou nesse caminho, as coisas apenas aconteceram de uma forma natural. Eu fui criada por uma família tradicional Mary, eles sempre me ensinaram a respeitar a todos e jamais sofri nenhuma influência do meio LGBT. Eu me casei e segui todos os moldes da sociedade, amei meu marido e ele me deu os meus maiores bens, os meus filhos. Mas, posso afirmar com convicção que ninguém jamais me fez me sentir o que sua filha faz. E acredite eu entrei em negação e eu tentei de todas as formas afastá-la da minha vida, mas quanto mais a afastava, mas eu sabia que precisava dela ao meu lado. Quando ela não desistiu de mim, quando eu mesmo já tinha desistido eu entendi que amava demais. Então eu preferi brigar com o mundo a desistir do meu amor por ela. — Regina disse tudo com tanta paixão e devoção que seu olhar simplesmente brilhava ao falar de seu amor por Emma. — Eu ainda acredito Mary no olhar que faz o coração disparar, no companheirismo, acredito que todas as brigas idiotas são contornadas quando o amor é maior e verdadeiro. Acredito que amor é confiança, apoio. Eu acredito nesse sentimento porque é o que sinto por Emma, e é o que ela tem demonstrado por mim todos os dias. Quando nos beijamos pela primeira vez, eu quis fugir e mandar Emma para longe, pois eu sabia que jamais conseguiria viver sem ela. O amor não deve nos completar, porque todos já somos completos. O amor de verdade tem nos transbordar de sentimentos bons, porque isso que Emma faz comigo. E quando eu compreendi isso me senti a pessoa mais feliz do mundo. – Mills suspirou e seu sorriso não se continha mais. — E eu não mudaria nada do que vivemos, lutaria por ela mil vezes e enfrentaria quem fosse preciso, para que meu destino fosse sempre terminar nos braços de Emma.
Mary olhava para Regina perplexa e um tanto surpresa, ela nunca tinha visto alguém defender sua filha com tanta convicção e paixão e amor.
— É definitivamente contra esse discurso apaixonado eu jamais poderei argumentar. O que amor que demonstra por minha filha é admirável Regina, mas ainda esse relacionamento ainda tem consequências. Vocês jamais poderão ter uma família normal.
— O que quer dizer com isso?
— Digo sobre filhos, jamais poderão ter filhos biológicos vindo de ambas.
Por um único e mísero instante Regina se sentiu abalada, pelas palavras ditas por sua sogra. Mas quando se lembrou de Emma junto a seus filhos, nada lhe pareceu impossível.
— Se ainda não percebeu, Emma já mãe e uma mãe maravilhosa por sinal. Meus filhos a amam e respeitam tanto quanto a mim, no demais existem muitas outras possibilidades. Podemos adotar ou fazer uma inseminação.
— Não tem medo de que seus filhos sofram bullying por terem duas mães?
— Se eu lhe disse que não tenho, estarei mentindo. E ainda lhe digo que já passamos por situações desagradáveis, mas nossos filhos têm todo nosso apoio e ensinamento para lidar com essas pessoas. E modéstia parte, eles têm se saído muito bem. Já o Bullying existe de diversas formas, qualquer criança que seja diferente dos padrões está sujeita a isso. Porque aquele que agride e ofende tem tantos problemas, quanto quem está sendo insultado. Então não será minha culpa ou de Emma, mais sim dos pais que educam essas crianças. Nossos filhos e os demais que possamos ter saberão sempre lidar com esse tipo de situação, pois receberam sempre amor, carinho e suporte em casa. E acredite que se Emma e eu descobrimos que nossos filhos estão passando por algo assim, seja feito por algum adulto ou criança eles que preparem, pois enfrentaram duas mães muito furiosas.
O discurso de Regina mais uma vez silenciou Mary, e ainda bebendo seu chá ela parecia estar processando tudo aquilo.
— Tudo o que eu tenho desejado Mary, é que as pessoas possam se tratar como igual. Já existe tanta violência, guerra, fome e coisas tão ruins no mundo. Se talvez os lados extremistas não agissem de uma forma violenta e pensassem que está apenas ferindo o seu semelhante, as coisas não seriam tão ruins como são. E assim ninguém iria ter medo de sair na rua e apanhar, apenas porque existe. E lhe digo mais uma vez, será que formas diferentes de amar ferem tanto o outro assim, será que o amor pode ser tão ruim só porque se diferente dos demais. E se as pessoas apenas amam de forma bela e saudável, porque condená-las?
— Eu não consigo responder a todas as suas perguntas Regina, mas eu consigo lhe entender, de verdade eu entendo. Só que uma parte de mim, ainda acredita que essa forma de viver é errada.
— Isso é um grande passo, e eu fico feliz de ouvi-la dizer isso. E claro que não esperava que mudasse de ideia com apenas uma conversa, por mais longa que ela tenha sido. Mas só de me entender já me deixa feliz, porque tudo é processo, apenas queria lhe pedir respeito. Respeito por Emma, por mim e por minha família. E que se agarrasse ao pensamento que ela é sua filha, ela ainda é a sua menina nada mudou. Ela apenas cresceu. Mesmo que você não concorde, apenas respeite as decisões que ela tomou, se fizer isso será um grande passo. Afinal é como um ditado que diz: “antes tarde do que nunca”, apenas não deixe que seja tarde demais.
Regina sabia que não poderia mudar os valores de sua sogra ou faria concordar com forma que viviam, mas se conseguisse que Mary Margaret apenas respeitasse Emma, já era um bom começo. Afinal respeito é base para qualquer convivência saudável, e se Mary o fizesse, a convivência de todos mudaria completamente.
— Você gosta de cozinhar? — Mary mudou de assunto rapidamente.
— Sim, é uma das minhas coisas favoritas.
— Então se prepare irei lhe ensinar o prato favorito de Emma.
Regina apenas deu um sorriso e se deixou ser guiada pelas instruções de Mary, enquanto a mesma começava a cantarolar uma canção suave.
"his little light of mine,
I'm going to let it shine.
This little light of mine,
I'm going to let it shine.
This little light of mine,
I'm going to let it shine,
Every day, every day,
Every day, every day,"
Mills reconheceu a letra, e a acompanhou, a madrugada seria interessante. As desavenças tinham ficado de lado, só restava o amor em comum por Emma e gosto por cozinhar.
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