Notas iniciais
FINALMENTE! Com a graça do Senhor finalmente saiu!!!!!!!!!! Olha... Foi complicado esse capitulo, e também foi o maior que eu já escrevi até agora.
Por favor não me matem T.T
Fiquei sem inspiração, sem ideia, sem criatividade, toda hora algo me interrompia, mas SAIU o/
Por favor, não me joguem pedradas por esse cap ter ficado com umas partes muito melosas, e horriveis -.- (Sou horrivel pra criar romance -.-)
Mal posso esperar pelos seus comentários sobre essas partes Bianca ¬¬
Enfim, finalmente, depois de todo esse tempo, aproveitem o/
(Em compensação eu fiz uma capa nova o/, não sei no que isso compensa, mas beleza u.u)

No capitulo anterior...


Madame Marie recebe uma rara carta das Madames de outras Irmandades. Podendo levar uma Lady para acompanha-la ela chama sua filha, Paola.

Victória e Christofer se encontram na igreja onde eles conversaram tranquilamente, até que quando Victória tem que ir embora ele decide confessar o que ele sente por ela, mas a garota foge, sem ao menos terminar de ouvir que ele estava dizendo.


Capitulo X


Madame Marie abriu aquela porta rústica, que rangia cada vez mais que se abria. Ao abri-la, se deparou em uma sala antiga, como a masmorra de um castelo, uma sala oval, com paredes de tijolos cinzentos, cobertas por cortinas vermelhas escuras. Mantendo o ar medieval, o cômodo era iluminado por um grande e simples lustre de madeira, repleto por velas, que já mostravam as ceras derretidas. O únicos móvel que a ocupavam era uma mesa redonda, que ocupava quase todo o cômodo, rodeada por cinco poltronas de cor vermelho-sangue. Era irônico aquela sala ser tão rústica enquanto havia uma belíssima ante câmara anterior a ela.

Sem perder tempo com cerimônias, Marie, acompanhada por Paola, seguiu até a única poltrona vazia.

– Está atrasada, Van de Hout. – informou uma mulher de cabelos loiros, presos a um coque trançado, deixando as mexas da frente soltas, que iam até acima do ombro.

– Não, as senhoras que chegaram cedo. – retrucou Marie, ajeitando-se em sua poltrona. – Então... Vamos começar logo com isso. – ela iniciou, entrelaçando os dedos das mãos sobre a mesa.


***


Enquanto isso, na mansão da Irmandade Francesa, Victória já havia chegado há algum tempo, e se trancou no quarto, sem dar explicação e sem falar com ninguém.

– Victória, o jantar está pronto. – chamou Collet do lado de fora do quarto, batendo três vezes na porta.

– Não estou com fome. – ela murmurou do lado de dentro.

– Tem certeza? – Collet estranhou. – Estão servindo seu prato preferido hoje. – ela insistiu.

– É melhor desistir. – sugeriu alguém se aproximando, Collet se virou e viu que era Marietta. – Ela está trancada ai desde a hora que chegou.

– Sério? – Collet estranhou mais ainda. – Mas por quê?

– Não sei, ela não disse nada...

Enquanto isso, lá dentro, Victória estava encolhida em sua cama, não havia trocado de roupa, nem soltado o cabelo, apenas havia se jogado na cama e permanecido lá. Sua mente estava cheia e seu coração confuso. Não queria ter fugido, mas também sabia que não deveria ter ficado. Era contra as regras, ela sabia disso, sabia muito bem disso. Não queria sentir o sentimento que estava sentindo por ele, e também, por mais que doesse pensar aquilo, queria que Christofer também não sentisse.


***


De volta a Reunião


– Certamente, já que estamos todas aqui, devíamos começar logo com isso. – impôs a Madame de cabelos loiros que falou com Madame Marie anteriormente. Aquela era Catherine Delafield, líder da Irmandade Americana. Ela possuía um ar autoritário e impetuoso, vestindo trajes militares ligeiramente masculino, de alta patente, e uma bengala sobe medida de ouro e madeira escurecida, mostrando ter uma personalidade forte e não ser uma mulher delicada e fácil de lidar.

– Para que a pressa, Madame Delafield? – perguntou a Madame Rosalie, da Irmandade Britânica, parecendo sarcástica. – Não é sempre que nos reunimos, devemos aproveitar o maximo de tempo juntas. – ela sugeriu debochando, sabia muito bem que as lideres não tinham uma relação amigável, os assuntos entre elas eram somente políticos.

– Oras! Deixe de falar asneiras, Madame Beauford! – resmungou a líder da Irmandade Alemã. Seu nome era Gertrudes Straub, uma mulher já idosa, a mais velha de todas as mulheres ali presente, de atitude rabugenta e ranzinza. Todas achavam que Madame Straub já devia ter se aposentado há muito tempo e deixado uma de suas Ladies em seu lugar, mas ela se recusava a abandonar seu posto até o dia de sua morte.

– Por mais que eu odeie admitir, Madame Straub tem razão. – concordou Catherine, parecendo não querer dizer aquelas palavras.

– Não me lembro de ter pedido seu apoio, líder da pequenina Irmandade Americana. – retrucou Gertrudes cínica, ofendendo a irmandade daquela Madame.

A Irmandade Americana era a mais recente entre as cinco, tinha apenas um século de formação. Madame Straubs também era muito nacionalista, e não suportava a nação Americana.

– O que você disse, velha? – resmungou Catherine, tentando reagir à ofensa.

Sem que percebessem, as duas líderes já discutiam entre si. Infelizmente, Madame Delafield era tão patriótica quanto a Madame Straubs, e defendia o nome de sua nação a qualquer custo.

Já havia se passado dez minutos e as duas continuavam o alvoroço, mas somente as duas. Madame Beauford assistia a briga com um sorriso bobo na cara, como se aquilo fosse um entretenimento divertido para ela, enquanto Marie já não aguentava mais aquelas duas. Sua postura já mostrava extrema impaciência, com a cabeça baixa e apertando o cenho da testa com os dedos.

– Eu odeio política. – murmurou Marie resmungando disfarçadamente, mas Paola ouviu e tentou ao maximo segurar a risada.

A líder da Irmandade Russa, Madame Anastásia Romanov, permaneceu sem dizer uma única palavra até agora. Ela se mantinha serena e sossegada, enquanto apreciava um cigarro em sua cigarrilha, parecia nem ligar para aquela situação. Anastásia era linda, a mais bela de todas as lideres, até mesmo de Rosalie, que era a líder mais jovem. A líder Russa tinha cabelos harmonicamente ondulados de um ruivo escurecido, com uma franja reta lisa cobrindo a testa. Sua pele extremamente branca combinava perfeitamente com seu batom vermelho que havia passado. Embora a temperatura naquela sala fosse regular, Anastásia usava um casaco de pele legitimo, de mangas compridas, lembrando muito bem a terras gélidas da Rússia.

As Ladies que acompanhavam suas lideres, incluído Paola, permaneciam em silencio, como a Madame Romanov, afinal, elas não tinha autoridade ou audácia para interferir.

De repente, Paola, que não disse nada desde o momento que entrou, sentiu alguém puxar a ponta de seu vestido. Quando olhou para baixo, viu ao seu lado uma garotinha, de aparentemente 7 anos, de vestes de empregada e cabelos de corte chanel loiro, em pé ao seu lado.

– O que foi, garotinha? – ela perguntou educadamente para a garotinha de rosto inocente, que a olhava fixamente segurando a ponta do vestido de Paola.

– Nada. – a garotinha respondeu, negando com a cabeça, mas mesmo assim não tirava os olhos de Paola e não a largava, o que a estava deixando intrigada.

– Rebecca, come back here, sweetheart. – Madame Beauford chamou discretamente, utilizando sua língua local, pela garotinha que correu rapidamente para os braços dela. – Desculpe pelo incomodo. – ela pediu amavelmente para Paola, que apenas assentiu educadamente com a cabeça.

Enquanto isso, Marie já estava começando a perder a paciência completamente com discussão entre as Madames.

– Já chega! – exclamou Marie, já sem paciência, mas sem perder completamente a compostura, fazendo as lideres recomporem a calma. – Eu só estou aqui por uma razão: descobrir o porquê de sermos chamadas aqui com tanta urgência, nada mais. Então gostaria de terminar logo com isso.

– Madame Van de Hout tem razão. – depois de tudo aquilo, Madame Dalefield concordou. – Então, quem nos envio o chamado afinal de contas?

Todas se entreolharam, esperando alguém se revelar.

– Hu, hu, hu... – riu Rosalie com aquela risada sombria e maléfica que a marcava. – Fui eu. – ela se revelou.

Todas estranharam, não esperavam que aquilo fosse uma coisa que a Madame Beauford faria, não parecia de seu feitio tratar de desse tipo de assunto. Mas uma coisa todas elas desconfiavam: Rosalie, por mais que parecesse irresponsável, não as reuniria se não fosse algo crucial.


***


Christofer chegou à mansão de sua família entristecido, não somente pela situação amorosa que passava no momento, mas também pela situação frustrante que teria que passar agora ao chegar em casa. Ao entrar pela porta principal, que dava ao hall da mansão, uma empregada o recebeu, como o de costume.

– Boa noite, messiê Christofer. Chegou bem na hora, o jantar já está sendo servido. Seus pais lhe aguardam na sala de jantar.

– Tudo bem, já estou indo para lá. – ele afirmou desmotivado. Não queria estar ali, não nesse momento, não com ele lhe esperando.

Na sala de jantar, a comprida mesa de carvalho, coberta por uma toalha branca, estava vasta de comida, que daria para alimentar uma família de dez pessoas, mas na mesa só se encontrava três pessoas. Em uma das pontas estava Madeleine Hardy, mãe de Christofer, que se localizava no meio, enquanto na outra ponta estava um homem de cabelos penteados para trás, castanho claro, como os de Christofer, mas que começavam a ficar grisalhos, vestindo uma farda militar verde escura, de alta patente. Aquele era Thomas Hardy, pai de Christofer.

O jantar começou e permaneceu em silencio, nenhum dos três pronunciou uma palavra desde quando Christofer chegara.

Christofer mal tocava na comida, mas comia um pouco para evitar perguntas que não queria responder, porém sua tentativa foi em vão.

– Qual o problema Christofer? Parece abatido. – perguntou sua mãe.

– Não é nada, não se preocupe. – ele respondeu voltando seus olhos para ela e forçando um sorriso.

– Christofer... – chamou seu pai, com os olhos voltados para seu prato, aproveitando que o silencio havia sido quebrado. – Quando você pretende voltar para a Inglaterra? – ele perguntou, agora voltando seus olhos para o filho.

– Voltar? Por que voltaria? Essa é a minha casa. – ele retrucou, tentando o maximo possível não parecer desrespeitoso. Aquele homem, no qual ele deveria chamar de pai, era a ultima pessoa que ele gostaria de ver e ouvir.

– Christofer, por favor. – pediu sua mãe calmamente, percebendo que ele poderia se exaltar.

Ele se recompôs, e o silencio voltou a pairar aquele cômodo, mas não durou por muito tempo.

– Por quanto tempo você continuará a fazer o que quer garoto? – Thomas perguntou sério, enquanto direcionava a taça de vinho para sua boca.

– Fazer o que quer? Quem é você pra me dizer isso? – Christofer perguntou irônico, começando a enfurecer.

– Christofer! – repreendeu sua mãe, mas não adiantou.

Ele se levantou, não aguentando ficar mais um segundo naquele lugar com ele.

Passando por seu pai para poder sair, Thomas segurou seu pulso à força, tentando impedi-lo, mas Christofer nem ao menos olhou para ele.

– Quando você irá desistir de tentar me transformar igual a você? – murmurou Christofer alterado, e seu pai apenas o encarou ainda mais sério. Ele sacudiu seu braço e se soltou, conseguindo finalmente sair daquela sala.

Madeleine não reagiu, apenas suspirou. Chegava a ser perturbador pensar em como uma cena como aquela era comum entre aqueles dois.

Do lado de fora daquele cômodo, Christofer tentava voltar ao normal, mas não conseguia, ele sentia a vontade de socar algo ou até mesmo alguém. Não suportava ele, desacreditava que aquele era realmente seu pai.

Ele respirou fundo, passando as mãos no rosto, conseguindo se estabilizar pelo menos um pouco.

Depois um tempo sem saber o que fazer ele decidiu sair novamente, para espairecer. Pegou seu casaco e foi em direção à porta principal.

– Aonde vai, messiê Christofer? – perguntou uma das empregadas que passava pelo hall.

– Tomar um pouco de ar. – ele respondeu saindo no mesmo instante.

A noite já estava bem escura, e Christofer andava sem rumo pela estrada que dava em direção a cidade, então um desejo lhe veio em mente: ele queria vê-la, mesmo que ela não quisesse vê-lo, ele queria ver novamente a doce garota de olhos avermelhados, pelo menos mais uma vez.


***


O tempo passou, e Victória continuava trancada em seu quarto, mas agora estava sentada sobre a cama, segurando em seu colo o origami de uma rosa que havia ganhado. De repente alguém bateu em sua porta, mas ela ignorou, provavelmente era Collet novamente.

– Vic, eu trouxe a janta pra você, já que não quis descer. Que tal comer um pouco? – ofereceu gentilmente Collet do lado de fora, segurando uma bandeja de prata com um prato contendo uma omelete de verduras, acompanhado por uma taça de vinho.

– Ainda não estou com fome. – respondeu Victória desanimada dentro do quarto.

– Tem certeza? Eu te disse que é seu prato preferido. – ela insistia, mas não obteve sucesso, porque dessa vez Victória nem respondeu.

Nesse instante, Marietta passava pelo corredor novamente, indo em direção ao seu quarto e viu Collet ainda tentando falar com Victória.

– Ela ainda não quer sair? – ela perguntou e Collet respondeu apenas balançando a cabeça negativamente.

Marietta suspirou impaciente. Estava realmente preocupada com a amiga, queria ajuda-la a resolver o que quer se seja que esteja acontecendo com ela, mas não aguentava mais toda essa teimosia que ela estava agora. Então sem mais nem menos Marietta abriu a porta do quarto com tudo, fazendo até mesmo Victória se assustar.

– Você pode até querer ficar isolada do mundo agora, mas esse quarto também é meu. – queixou Marietta, indo até a cama que lhe pertencia, com uma expressão parecendo estar um pouco mais nervosa do que o normal.

– Então... Acho que vou para outro lugar... – aceitou Victória se levantando, indo em direção à saída, mas então Collet apareceu entre a porta, impedindo sua saída.

– Eu acho que não. – impediu Collet com um sorriso doce e sarcástico no rosto.

– Você não vai sair daqui até nos contar o que aconteceu. – obrigou Marietta se sentando em sua cama de braços e pernas cruzadas.

– N-Não aconteceu nada... – Victória tentava negar, mas seu olhar cabisbaixo dizia tudo.

– Acha mesmo que vamos acreditar? Anda! Desembucha! – pressionava Marietta.

Victória voltou seus olhos para ela e para Collet, e vendo que não havia escapatória, sentou-se em sua cama novamente.

– Tudo bem... – ela aceitou, e assim que teve coregem começou a contar tudo.

Depois de alguns minutos, ela termina de desabafar o que havia acontecido com ela no fim naquela tarde. Marietta não reagiu, apenas analisou os fatos, já Collet ficou de olhos brilhando e até mesmo boquiaberta.

– Então foi isso que aconteceu? – confirmou Marietta, e Victória apenas concordou com um aceno de cabeça. Marietta apenas suspirou aliviada por alguma razão. – Aiai... Pensei que fosse algo mais sério.

– Vamos Marietta, seja mais gentil. – pediu Collet ainda em frente à porta. Certamente, Marietta não era a pessoa mais sensível nem romântica daquele lugar.

– Ta, ta... – Marietta deu de ombros.

Collet foi até Victória e se agachou em sua frente, tornando o ar mais acolhedor.

– Victória... Por que você fugiu dele?

– Porque... – ela tentava encontrar as palavras. – Porque é errado. – ela respondeu.

– É errado alguém gostar de outra pessoa? – Collet perguntou.

– Para nós é...

– Ora! Que besteira! – comentou Marietta estabanada se levantando da cama. – Mesmo sendo quem nós somos, nós podemos sim gostar de alguém! Mas que coisa!

– É que... – Victória tentava dizer algo, mas não achava as palavras ou a maneira que deveria falar. – Tem alguma coisa, que eu sinto dentro de mim, diz que isso é errado, que eu devo ficar longe dele.

– Talvez seja medo. – comentou Collet. – Medo de mentir para ele, ou para nós, ou de envolvê-lo no nosso trabalho.

– Pode ser... – concordou Victória, mas ela sentia que não era isso. Era uma sensação diferente, como um aviso dentro dela.

De repente alguém dá dois toques na porta. Collet se levanta e vai até ela para verificar o que era. Ao abrir a porta viu que era uma das colegas da mansão, uma garota de cabelo castanho curto ondulado, pele alva e olhos verdes escuros.

– Ah, olá Charlotte. – cumprimentou Collet. – Qual o problema?

– Ah, não é nada. É que está rodando uma noticia de que um comerciante chinês de fogos de artifícios está na cidade e ele fará uma demonstração na praça central. Parece ser legal. Talvez vocês queiram ir. – informou amigavelmente a garota chamada Charlotte.

– Obrigada por avisar Charlotte. – agradeceu Collet e depois se despediu da garota da porta.

– Por que não vamos lá? – sugeriu Marietta.

– É, parece interessante. – aceitou Collet.

– Eu não sei... – Victória tentou regeitar a oferta.

– Vamos, vai ser legal. Vai ser bom pra você aliviar a cabeça. – sugeriu Marietta novamente.

Victória, sabendo que negar não iria adiantar, aceitou o convite, mesmo com nenhuma vontade de sair nesse momento.


***


Na reunião, todas estavam intrigadas com o motivo de Rosalie tê-las chamadas com tanta urgência.

– E qual foi esse motivo? – perguntou Madame Straub com o temperamento mais calmo do que o normal.

– Eu tive uma visão. – ela confessou. Todas sabiam que as habilidades da Madame Beauford envolviam a vidência, e todas sabia também que as visões de Rosalie eram muito raras, mas quando elas apareciam, mostravam algo grandioso.

– E o que você viu? – perguntou Marie.

– Uma Tempestade, um Anjo e uma Árvore. – ela respondeu pausadamente em enigmas.

– Poderia explicar melhor? – pediu Marie novamente, tão confusa quanto às outras.

– Uma tempestade envolvendo cinco grandes nações... – ela disse voltando os olhos para as Madames presentes, e depois continuou. – E aquela que adquirir o anjo vencerá a tempestade.

– Com “tempestade”, você quis dizer... – perguntava Madame Marie aflita, já imaginando a resposta.

– Uma guerra. – confirmou Catherine sem se alterar.

Um clima tenso e pesado se formou entre as cinco. Todas eram patrióticas e defendiam seu país mais que tudo, além do mais, uma guerra poderia causar um desequilíbrio entre as Irmandades, algumas poderiam ser destruídas, outras poderiam crescer muito mais, tudo dependia da nação perdedora e a nação vencedora.

– Você não mencionou o que a árvore tem haver com isso. – comentou Madame Straub.

– O Anjo e a Árvore estão ligados, mas não sei qual é a relação dos dois. – disse Rosalie.

– E o que é o anjo? Uma pessoa? Uma arma? – perguntou Marie.

– Não tenho certeza ao certo... – respondeu Rosalie incerta.

– Esperem! – interrompeu Catherine. – Rosalie disse que cinco nações estão envolvidas, quer dizer que a Inglaterra também está envolvida. Ela pode muito estar escondendo informações para favorecer seu país. – ela acusou desconfiada.

Catherine tinha razão, aquilo podia ser verdade. Todas olharam para Rosalie com desconfiança, mas ela não se importou, já imaginava que aquilo ocorresse.

– Não, não. – ela negava tranquilamente, abanando a mão direita negativamente – Minhas visões são limitadas, esqueceu? As únicas informações que eu obtive foram essas. Eu juro.

O silencio e desconfianças rondaram aquela sala. Todas pensavam nas informações obtidas, mas estavam em duvida se deveriam confiar em Rosalie.

– Então... O que vamos fazer? – perguntou Rosalie, com o seu sorriso debochado e sádico no rosto, como se aquilo fosse apenas um pequeno jogo para ela.

– Bem... Acho que não temos outra escolha a não ser nos prepararmos. – propôs Catherine cruzando os braços.

– Calma, Madame Delafield. – antecipou Marie. – Ainda não sabemos quando e nem o porquê da guerra começar. Devemos analisar todas as informações primeiro antes de tomarmos uma atitude.

– Tem razão, sinto muito. – pediu Catherine. – A America já teve tantos altos e baixos que já um costume meu se preparar para esse tipo de coisa. – ela comentou.

– Humpf, como esperado de uma nação tão brusca como essa. – bufou Gertrudes debochando, insistindo em provocar a Madame.

Catherine a encarou irritada, mas não retrucou de volta, não queria que aquela briga fútil entre as duas voltasse novamente.

– Senhoras, por favor. – pedia Marie antecipada, tentando evitar outro confronto das duas. – Temos um assunto sério a discutir, vamos deixar as rivalidades de lado no momento.

– Hum... A senhora está muito autoritária pro meu gosto para uma Irmandade que decaiu tanto nos últimos 18 anos. – blasfemou Gertrudes, agora provocando a Madame Marie. – Bem, o que se pode esperar de uma líder que quebrou a regra mais básica da Irmandade.

– O que você disse? – rosnou Marie rangendo os dentes. Era uma audácia muito grande de Gertrudes tocar naquele assunto.

– Do que a senhora está falando? – intrometeu Catherine. Dentre as cinco, ela era única que não sabia do que Gertrudes falava.

– Oras, não sabe Madame Delafield? – indagou Gertrudes retórica. – Há 18 anos, Madame Van de Hout quebrou a regra mais básica de toda Ladies’s Brotherhood: teve um filho. Todas sabem que quando uma Lady engravida ela deve deixar a Irmandade, mas Van de Hout estava no topo da lista para ser a futura Madame, então ela se recusou a sair da Irmandade. Então a líder anterior propôs que Van de Hout poderia ficar e suceder seu lugar somente se o futuro filho dela fosse uma garota. Muitas Ladies ficaram indignadas e inconformadas com aquilo, e então deixaram a Irmandade. Parece que mais da metade das Ladies deixaram a mansão da Irmandade Francesa, o que fez o poder dessa Irmandade decair muito.

Marie estava irritada já com aquilo, ela cerrava os punhos sobre a mesa enquanto deixava sua cabeça baixa. Ela odiava lembrar aquela história, odiava lembrar daquelas que ela considerava suas amigas e que a deixaram sozinha, e além disso, odiava ainda mais ouvir aquela história ser tão mal contada.

– Creio que seja essa a história, não é mesmo, Van de Hout? – perguntou Gertrudes sarcástica e com um sorriso maléfico no rosto, ela sentia prazer ao provocar as pessoas e as deixarem desconfortáveis. De repente, Gertrudes moveu seu olhar para Paola, que sentiu um frio na espinha na hora. – Então é essa? A bastarda?

Na hora, Marie ergueu o rosto novamente, mostrando um olhar raivoso que era muito raro ver nela.

– Senhoras. – interrompeu a líder da Irmandade Russa, Madame Anastásia Romanov, se pronunciando pela primeira vez depois de todo aquele tempo. Todas as outras Madames falavam o francês perfeitamente sem nenhum sotaque, mas Anastásia mantinha o sotaque russo pela língua. – Creio eu que temos assuntos mais importantes para tratar no momento. – antes de continuar, ela tragou novamente seu cigarro soltando uma fumaça que deslizou pelo ar. – Mas antes de continuarmos, devo pedir para que ordenem para que suas acompanhantes se retirem, afinal, esse assunto é mais crucial do que imaginávamos.

Percebendo a razão nas palavras da líder Russa, elas pediram para que suas Ladies se retirassem e esperassem na antecâmara anterior a aquela sala.

– Então, o que senhora tem em mente, Madame Romanov? – perguntou Rosalie.

– Imagino que todas aqui estejam pensando em varias maneiras de se preparar para essa suposta guerra. – deduziu Anastásia serena enquanto explicava e todas a escutavam atentamente. – Porém, em vez disso, deveríamos pensar em maneiras de evitar a guerra.

– O que quer dizer com isso? – perguntou Marie ouvindo atentamente a ideia de Anastásia.

– Eu já conheci alguns videntes durante minha vida, e pude entender como suas visões funcionam. – antes de continuar, ela tragou mais uma vez o cigarro e soltou a fumaça, mas estranhamente essa fumaça saiu no formato de um pequeno cavalo de fumaça branca, cavalgando na frente da Madame em círculos. – Uma visão é como uma corrente, sempre reta e sendo puxada para seu curso... – explicando, o cavalo começou a cavalgar passando por cada Madame, algumas não ligava, outras se incomodaram, tentando afasta-lo de perto delas. – Mas ao ser quebrada a corrente perde sua função sem poder seguir seu curso até o final. – ela termina, no momento que o cavalo volta para ela e se desfaz. Uma demonstração linda e muito real, como o esperado da Madame Romanov, a rainha da ilusão.

– Então só precisamos achar o fator que iniciará a guerra e o impedi-lo antes que seja tarde. – deduziu Catherine.

– O problema será saber o que é esse fator. – comentou Marie.

– Bem, temos contatos e amizades com muitas pessoas importantes, podemos “mexer os pauzinhos” para obter as informações. – informou Rosalie.

– Madame Beauford tem razão, além do mais, quero evitar que meu país se envolva nesse conflito, vou fazer o maximo para que ele não participe. – afirmou Anastásia.

– Quanta tolice! – exaltou de repente Gertrudes, batendo com tudo a mão sobre a mesa, chamando a atenção de todas ali presentes, que se assustaram com a atitude repentina da Madame. – Por acaso estão com medo?! Não veem a oportunidade que isso pode nos dar?!

Todas ficaram em silencio por um tempo, não responderam as perguntas súbitas de Gertrudes, até que Rosalie se manifestou.

– Hm... A senhora parecesse muito interessada na guerra, Madame Straub, até agora não ouvi à senhora mencionar nada contra ela. Por qual motivo será? – Rosalie afirmou persuasiva, com desconfiança sobre as atitudes de Gertrudes.

– Creio que além de Madame Strub, todas tenham uma opinião diferente do que se deva fazer. – deduziu Anastásia. – Então, senhoras, qual será o veredito?

O silencio se manifestou novamente, junto com a troca de olhares constantes de desconfiança, qualquer escolha feita por uma pode levar a um destino diferente para todas.


***


As cinco Ladies aguardavam a reunião do lado de fora, cada uma enfrente em a uma das pilastras que sustentavam as paredes e o teto da antecâmara.

– Ei, você. Paola, não é? – uma Lady de cabelos negros, de um preto azulado, preso a um coque frouxo ao topo da cabeça, chamou Paola usando um ligeiro tom arrogante nada agradável.

Aquela Lady, que se aproximava vagarosamente de Paola, era alta e mais velha, de aproximadamente 20 anos, possuía um corpo esbelto e belíssimo, pele alva e leves sardas sobre as maçãs do rosto. Mas o que lhe chamava mais a atenção eram seus olhos, o da direita dourado e o da esquerda verde, uma bela e estranha heterôcromia.

– Sim, e você seria? – Paola perguntou educadamente, ignorando a leve arrogância da moça. Na verdade, ela estava pensando como aquele Lady sabia seu nome.

– Sou Blanca. Blanca Kutner, acompanhante da Madame Straub. – ela respondeu, mantendo o mesmo tom. Pelo visto o gênio forte era comum na Irmandade Alemã.

– Como posso ajuda-la, Blanca?

– Eu? Nada de mais. Só queria dizer que não gosto de você. – ela respondeu tão cínica quanto o sorriso que ela esboçou no momento.

– Bem, sinto muito por isso. – Paola ignorou novamente, mantendo o tom educado. Ela não era do tipo que se rebaixava ou se irritava por comentários ralés de outros.

– Não vai perguntar por quê?

– Não pergunto coisas que não me interessam.

– Hm... Até que você é bem ousada, para uma bastarda.

Paola começou a se irritar, estava começando a detestar aquela palavra, mas ela permaneceu indiferente, não demonstrou como aqueles insultos a irritavam.

– Humpf, quanta besteira. – bufou uma Lady ao lado, enquanto ajeitava sutilmente seu óculos no rosto. Ela possuía um comprido cabelo loiro platinado, preso em duas tranças caídas sobre os ombros. Seu óculos de armação arredondada escondia um belo par de olhos verdes escuros. Em seu braço esquerdo ela segurava um peculiar livro grosso, de capa de couro escurecido e de paginas envelhecidas.

– Fique quieta ai, branquela. – retrucou Blanca se virando para ela. – Não está vendo que estou pondo essa bastarda no seu lugar?

– Se acha que ficar se vangloriando toda pomposa é colocar alguém no lugar, então, por favor, continue. – retrucou a albina de maneira mais sofisticada. Sua áurea respeitosa e bem-educada lembrava muito Paola, mas a garota parecia muito mais séria e orgulhosa do que Paola era.

– Você é tão ousada como essa daqui. – analisou Blanca se referindo a Paola, e parecia que aquele seu tom arrogante nunca saia – Qual é seu nome?

– Chiska Frummer. Sou a acompanhante da Madame Romanov. – ela se apresentou mantendo o tom soberbo e sofisticado.

– Por que está do lado desta bastarda, Chiska? – perguntou Blanca analítica.

– Não estou do lado de ninguém. Somente acho que seus métodos de analise estão muito vagos. – concluiu Chiska.

– Muito vagos... não é... – Blanca murmurava pensativa, até que pensou algo, soltando um sorriso medonho. – Ladies aqui presentes! – ela chamou a atenção de todas, que se mantiveram as mesmas, mas ouvindo claramente o que Blanca dizia. – Me respondam, por favor, qual seriam suas posições na classificação? – ela perguntou do nada e esperou que alguém se manifestasse primeiro.

– No que isso é relevante? – perguntou Chiska incerta dos motivos daquela pergunta.

– Oras, acredito que todas aqui presentes sejam as melhores de suas Irmandades e que estejam no topo da classificação, então se essa tal de Paola também esteja no topo eu a deixo em paz. – ela explicou. – Tudo bem? – ela voltou seus olhos para Paola com um olhar perigoso e suspeito.

– Aiai... Quanta besteira. – bufou a albina indiferente. – Eu sou a Segunda. – ela informou ajeitando seus óculos novamente.

– Terceira. – respondeu também indiferente uma Lady encostada em uma das pilastras, continuando quieta em seu canto. Aquela era a acompanhante da Madame Delafield.

Ela era uma morena nativa americana, de 13 anos, de cabelos pretos lisos presos a uma grossa trança caída sobre o ombro esquerdo e uma franja reta sobre a testa. Seu corpo era pequeno e magro, sem nenhuma curva, coberto um vestido curto totalmente preto, mas com um pequeno babado branco sobre o busto. O que lhe chamava mais a atenção era a cicatriz vertical sobre as pálpebras do olho esquerdo.

A garotinha loira de nome Rebecca, acompanhante da Madame Beauford, não disse nada, apenas ergueu a mão mostrando o numero dois com os dedos.

Paola percebeu o que Blanca queria fazer, e se sentia encurralada por todas aquelas ali presentes. Todas ali eram as melhores de suas Irmandades, e Paola estava apenas sexto lugar na classificação, uma posição muito baixa comparada a elas. Mas o que mais a lhe intrigava era como Blanca sabia que a classificação dela era mais baixa em relação às outras.

– E você Paola? Qual a sua posição? – pressionava Blanca sagaz e sádica.

– Eu sou Sexta. – ela respondeu, mesmo se sentido insegura, ela respondeu sem hesitar e sem medo.

Blanca cuspiu uma risada e logo em seguido soltou uma gargalhada.

– Viram só? Que patética, você é apenas uma garotinha mimada da mamãe. Acha mesmo que sua Madame te escolheria se você não fosse filha dela? – zombou Blanca entre os risos.

Paola estava irritada e humilhada, queria revidar as provocações daquela Lady, mas ela não queria se rebaixar a aquele nível, não foi criada para ser assim.

– Hm... – murmurou Chiska. — Você perguntou a classificação de todas nós, mas ainda não revelou a sua posição, Lady Blanca. – ela indagou.

– Tem razão. – Blanca concordou, controlando e parando sua risada. – Eu sou a Primeira. – ela revelou toda pomposa, colocando a mão sobre o peito.

Sim, diante de Paola havia uma Lady tão poderosa quanto Victória, ou até mesmo mais poderosa ainda.

Paola respirou fundo, pensou exatamente nas palavras que queria dizer, não se importando com a posição da garota a sua frente, tinha que revidar da maneira mais sutil que deveria dizer.

– Você pode ser a Primeira mais forte de sua Irmandade, e as outras aqui também podem ser mais poderosas do que eu, mas de qualquer forma eu ainda sou uma Lady, uma Lady como qualquer outra. – ela respondeu firme, sem errar uma palavra e mostrando seu ar de líder que sempre teve.

Blanca não disse nada, apenas se aproximou mais de Paola, apoiando sua mão na parede atrás de Paola e a encarou com um olhar frio e medonho, de gelar a espinha de qualquer um, totalmente diferente de como ela estava antes.

– Cala a boca, vadia. – ela disse friamente, realmente diferente de antes, fazendo a testa de Paola suar frio de medo. – Acha mesmo que ainda é uma de nós? Você pode agir como uma de nós, pensar como uma de nós, mas você nunca será uma de nós. Sabe por quê? Você nunca sofreu como nós sofremos, como todas nós sofremos, sem exceção de nenhuma. Toda sua vida, você cresceu ao lado de sua mamãe, sem sofrimento, sem dor, sem angustia. Acha que só porque você teve treinamento e aprendeu alguns truques você se tornou uma Lady? Você não sabe nada do que é ser uma Lady, não sabe nada do que é ser um lixo abandonado pela sociedade e depois recolhido por aquelas que viram que você tem potencial para algo maior. Sabe o que você é? Você é somente uma bastarda mimada da mamãe. – Blanca se afastou, deixando Paola lá petrificada de aflição.

Paola já sabia que aquilo era verdade, que não havia sofrido como as outras antes, mas ouvir aquilo tão diretamente e tão intimidador foi muito perturbador. Agora ela entendia porque Blanca a provocava tanto.

– Bem... – começou Blanca de costas para Paola, voltando ao jeito cínico e arrogante de antes. – Se acha que ainda é um Lady como nós, então lute comigo. – ela sugeriu se virando novamente.

– E-Eu não quero lutar, não tenho motivos para lutar com você. – Paola negou, no mesmo instante. Mesmo com todas essas provocações, Paola não tinha um motivo sério para lutar com ela.

– Vamos... Eu insisto. – Blanca, com um sorriso sádico estampado no rosto, estalou os dedos da mão direita e de repente a lâmina escondida na manga direita do braço de Paola se revelou.

Paola se assustou, ela não se lembrava de ter flexionado o pulso para a lâmina sair. Aquilo com certeza havia sido obra daquela Lady. Mas mesmo assim Paola ainda não se mexeu, ainda não queria lutar.

– Não vai se mexer? – perguntou Blanca cínica. – Então, eu faço isso por você. – com o sorriso sádico do rosto, ela estalou os dedos novamente, e de repente Paola avançou em Blanca, mas sem que ela quisesse, seu corpo apenas se mexeu sozinho.

Ela parou em frente de Blanca, com o braço com a lâmina esticado apenas alguns centímetros longe do pescoço de Blanca. Paola estava em choque, ela não queria fazer isso, ela não sabia por seu corpo se mexeu daquele jeito, ela queria afastar sua lâmina do pescoço daquela garota, mas seu corpo simplesmente não a obedecia.

– Qual o problema? Você está com raiva de mim, não está? – perguntava Blanca sem medo, como se sua vida não estivesse em jogo.

– Você está louca?! Pare com isso! – gritou Paola subitamente, ainda tentando afastar a lamina do pescoço de Blanca.

Ela simplesmente sorriu e estalou os dedos novamente. Paola podia controlar seu corpo novamente, e até mesmo sentiu seu corpo mais leve, suspirando aliviada.

– Eu ainda não acabei. — de repente Blanca sorriu maleficamente e a lamina de Paola foi parar em seu próprio pescoço, parando milímetros antes de cortar a jugular, fazendo um levíssimo corte escorrer pela lamina.

Ela tentava de todas as maneiras afastar sua mão se seu próprio pescoço, mas não conseguia nem com todo o esforço do mundo. E Blanca apenas ria, vendo o desespero de Paola tentando se salvar. As outras Ladies observavam de longe aquilo, sem ao menos fazer nada.

– Vamos, você não é uma Lady como nós? Vamos! Reaja! Antes que acabe isso de uma vez por você! – Blanca zombava ao ver o transtorno da garota. Ela se preparava para estalar os dedos novamente e acabar com aquela “suposta” Lady a sua frente.

Paola, ainda tentando lutar contra si mesma, fechou os olhos e esperou pelo pior. Mas repentinamente, sem nem ao menos alguém ter notado, a Lady nativa americana surgiu do nada na frente de Blanca, segurando seu pulso, antes que ela estalasse os dedos novamente.

– Pare com isso. – ordenou seriamente a garota, segurando com força o pulso de Blanca, quase cravando as unhas na carne dela.

Blanca a encarou preparando para revidar, mas então ouviu a porta da sala da reunião se abrir, e sabia que não seria bom as Madames verem aquela cena agora.

– Que seja! – ela bufou, soltando bruscamente seu pulso e indo para seu lugar, libertando Paola de seu controle.

Ela caiu de joelhos aliviada, era como se um peso enorme saísse de dentro de seu corpo agora.

– Tome. – a garota morena lhe entregou um lenço branco, para que ela limpasse o leve corte do pescoço. – Não será bom se sua Madame te ver com esse corte.

– Por quê... Você me ajudou? – ela perguntou ainda levemente aflita, passando o lenço sobre o corte.

– Não me entenda errado. – a garota apenas se virou, deixando claro que elas não viraram amigas nem nada, indo para seu lugar. – Eu apenas não gosto que as pessoas julguem os outros pela sua origem. – ela respondeu, e Paola pode notar garota passar a mão sobre a cicatriz de seu olho esquerdo.

Ela se levantou e se ajeitou antes que as Madames chegassem, jogando as mexas de seu cabelo para frente para esconder o corte.

As Madames finalmente saíram do corredor e chegaram até a antecâmara. Três delas foram direto para a escada que levava até a saída e se foram, enquanto Marie e Anastásia conversavam. Paola estava longe e não podia ouvir o que discutiam, mas pode escutar Madame Marie concordar com algo no final. Madame Romanov foi embora primeiro, acompanhada por sua Lady.

– Vamos indo, Paola. – ela chamou, e Paola no mesmo instante a acompanhou.

A duas subiram a longa escada em silencio, e Paola realmente não queria conversar, ela estava com aquela situação toda entre ela e as Ladies ainda na cabeça.

– Paola. – Marie a chamou antes que elas atravessassem a saída.

– Sim?

– Tudo que aconteceu aqui é confidencial, você não deve mencionar nada que houve aqui, estamos entendidas? – ela ordenou seriamente.

– S-Sim, Madame. — Paola aceitou sem hesitar, afinal nunca havia visto a Madame tão séria.

– Ótimo, agora vamos indo. – as duas finalmente deixaram aquele lugar, que afligiram as duas no mesmo momento, mas em situações diferentes.


***


Marietta, Collet e Victória chegaram até a cidade, mais precisamente na praça central. Ela estava lotada, parecia que a noticia havia passado pela cidade inteira. Uma demonstração de fogos de artifícios não parece nada de mais, mas para uma pequena e pacata cidade do interior aquilo era um dos raros entretenimentos.

O comerciante chinês conversava com o prefeito em frente a sua carroça no centro da praça, enquanto as três se enfiavam no meio da multidão, procurando um bom lugar para ver o espetáculo.

– Collet! Mary! Vic! – uma voz feminina as chamou, e ao olhar para o lado viram distante Lolita acenando. Ao lado dela estava messiê Anthony que também acenava, porém mais discretamente.

– Oi Lolita, veio sozinha? – Collet perguntou.

– Sim, tentei chamar Pepita, mas ela já estava dormindo. – ela respondeu.

– Entendo. – ela afirmou. – Olá messiê Anthony, há quanto tempo.

– Tem razão, já faz um bom tempo. – ele respondeu amigavelmente.

– As garotas da Irmandade sentem sua falta. – comentou Marietta entrando no meio da conversa.

Todos eles conversavam entre si, porem Victória não participou da conversa, estava desanimada de mais para isso. “Queria estar em casa...” ela murmurou em seus pensamentos, mas ao ter esse pensamente ela sentiu algo estranho em seu corpo e em sua mente, algo que nunca havia sentido antes, como se aquelas palavras que havia pensado não fizessem sentido, como se algo estivesse errado. “Casa?...” de repente, uma pontada muito forte surge em sua cabeça, seguido de um flash de memória em sua mente. No flash havia uma pequena janela de grades, uma janela muito pequena para uma pessoa passar, refletindo uma luz muito forte por ela, então uma pequena mão de uma criança se estica para a janela, como se tentasse se libertar. De repente o flash muda para outro, agora só havia uma claridade branca, mas havia algo ao fundo da imensidão branca, uma imagem borrada, algo que parecia uma árvore distorcida.

Os flashes de memórias param, mas a cabeça de Victória ainda doía imensamente. Ela correu para fora da multidão, tentando fugir da dor.

– Victória! Aonde você vai?! – chamou Marietta vendo a amiga sair correndo, mas foi em vão.

Victória já estava longe da multidão e também longe da praça. Ela parou no meio de uma pequena ponte encurvada que havia no meio da cidade, se apoiando em sua mureta. As dores de cabeça diminuíram, mas ainda a incomodavam. Ela estava tentando pensar no que foi aquilo que havia acontecido agora.

– Victória... – alguém murmurou seu nome, e ao olhar o outro lado da ponte, viu que esse alguém era Christofer.

– Christofer... – ela também murmura seu nome espantada, não esperava vê-lo hoje, nem mesmo agora, ainda não sabia como reagir ao se reencontrar com ele novamente.

Ele tentou se aproximar, mas percebeu que a cada passo que ele dava ela recuava para trás.

– Espera, não fuja de novo... – ele pede gentilmente. – Eu só quero conversar.

Ouvindo sua voz, ela decide tomar coragem para ficar, ela deveria pelo menos ouvir o que ele tinha que dizer. Ele se aproximava vagarosamente dela, como se fosse se aproximar de um animal indefeso que fugiria de qualquer reação diferente que ele tivesse.

– Me desculpe. – ele pede ao se aproximar o suficiente, ligeiramente melancólico.

– Mas pelo o quê? – ela pergunta estranhando seu pedido, achava que ela que deveria pedir desculpas.

– Por tudo. Se eu fiz algo que não gostou, me desculpe. – ele pediu novamente.

Ela hesitou em responder por alguns segundos, mas então pensou do que deveria dizer também.

– Então me desculpe também. – ela também pediu. – Eu não deveria ter corrido daquele jeito sem dizer nada.

Ele passou sua mão atrás da cabeça, parecendo pensativo e desconfortável. Ele se virou de frente para mureta da ponte, apoiando seus braços cruzados sobre ela. Victória fez o mesmo, voltando a ficar como estava antes. Eles permaneceram em silencio por um bom tempo, olhando para o nada a sua frente, somente agora haviam notado a enorme lua acima deles que refletia seu brilho sobre as águas do rio que corria de baixo da ponte onde os dois se encontravam.

Antes que percebessem, a apresentação de fogos de artifícios havia começado. Os primeiros a serem lançados eram da cor vermelha, o que lembrava muito o dia do Festival de Outono.

– Não quer ir para a praça ver melhor? – Christofer perguntou ao notar a garota ficar na ponta dos pés para poder enxergar melhor.

– Não, aqui está bom. – ela respondeu sem tirar a atenção e os olhos daqueles brilhos no céu negro.

Christofer não tirou os olhos dela, nem por um segundo. Achava tão lindo aquele sorriso puro e aquele brilho inocente naqueles olhos avermelhados que nem os fogos de artifícios lhe interessavam, mas estava lhe incomodando ver a garota se esforçar tanto na ponta dos pés para ver algo que ela estava gostando tanto, até que então ele teve uma ideia.

– Venha comigo. – ele segurou seu pulso e a puxou para fora da ponte.

Eles andavam rápidos, quase correndo, passando por varias ruas e vielas. Victória não questionou e continuou a acompanha-lo, mesmo intrigada com o que ele estava planejando. Eles chegaram até a delegacia e Christofer a abriu usando uma de suas chaves. Os dois entraram foram direto para uma escada logo à frente, na qual começaram a subir.

– Tem certeza que podemos entrar aqui? – Victória perguntou preocupada, subindo as escadas com ele a guiando na frente.

– Claro, não tem problema. – ele confirmou.

Depois de três lances de escada, eles finalmente chegaram ao final: um terraço. Victória ainda não havia entendido porque os dois estavam ali. A apresentação havia parado por um momento, deixando aquele telhado totalmente escuro, até que os fogos voltaram a ser disparados, e explodiam bem acima da delegacia, deixando cair uma chuva de prata sobre os dois. Christofer havia percebido aonde os fogos caiam, e achou que Victória iria gostar, e ele estava certo.

Victória voltar a se hipnotizar com aquele show de luzes, belo e encantador. Ela até mesmo esticava uma de suas mãos para cima, como se tentasse agarrar aquelas luzes.

– Tão bonito... – ela murmurou. – Obrigada. – ela virou seus olhos e seu sorriso para Christofer, agradecendo.

– Victória... – ele começou. – Posso perguntar uma coisa? – ele perguntou sereno.

Victória apenas concordou com um aceno de cabeça, já temendo o tipo de pergunta.

– Se... Eu dissesse que eu me apaixonei por você... O quê você faria?

De novo aquela sensação, aquela sensação de como se algo a puxasse para afastar dele, mas ela se esforçou para não suceder a aquela sensação e fincou seus pés no chão.

– Eu... – sua garganta formou um nó. – Eu não sei...

– E se eu disse que eu não iria desistir?... Que correria atrás de você todas as vezes que você fugisse?... O que você faria? – ele insistiu, não desistiria tão fácil dela.

– Eu... – ela implorava para aquela sensação ir embora, aquilo não podia ser normal, ela sentia seus pés quererem se mover, mas ela não fraquejou facilmente, ela sabia o que queria dizer e sensação nenhuma iria lhe impedir. – Eu... Acho que um dia você iria me alcançar... – ela sorriu. – Talvez até agora mesmo...

Ele sorriu de volta, tão aliviado e realizado. De todas que ele poderia ter, era aquela que ele queria, era aquela que o encantava, e tinha certeza que era aquela que o faria feliz e que ele faria o mesmo por ela.

No meio daquela chuva de prata, Christofer segurou o rosto corado de Victória carinhosamente e juntou seus lábios nos dela. Victória retribui, sem mais medo, pareceu que aquele momento fez com que a sensação de fuga fosse embora, fazendo Victória fazer o que ela desejava: ficar com ele.


***


Naquele mesmo momento, uma criatura de túnica negra, oculta nas sombras da noite em uma das maiores torres da cidade, observava distante o casal, sem nem ao menos uma alma viva a notar, nem mesmo com todas aquelas luzes iluminando o céu naquele momento. Aquela era a mesma criatura que aparecera e matara o irmão de Leonard Pierce, que havia sequestrado Marietta.

– Eu tentei te avisar... – dizia a voz feminina da criatura oculta. Mesmo que aquilo fosse um alerta, a criatura soava indiferente. – Para você se afastar dele...


Notas finais
Eaiiii? Odiaram? Detestaram? Ficou horrivel? Gostaram? Amaram? Ficou complicado? Falem qualquer coisa, eu sou forte u.u