Lacrimosa
4 O vilarejo perdido
Notas iniciais
“Venha e deite aqui na minha cama, sente e tome um pouco de vinho. Eu vou tentar não te fazer chorar. E se estivesse na minha mente, você me entenderia.
Você iria me entender.
Porque me senti sozinho, por que eu me privei de amar.
E você se tornou minha droga favorita.”
Meliodas deixou aquele quarto assim que proferiu aquelas palavras frias e sem sentido. As lágrimas ainda corriam pelo meu rosto e molhava o travesseiro que apertava contra meu peito tentando afastar todos os pensamentos sobre o que havia acabado de acontecer, mas aquelas palavras não saiam da minha mente.
“– Desculpe Elizabeth. A última coisa que eu quero no mundo é te perder.”
Apoiei-me na cabeceira da cama e me levantei. Ainda sentia meu corpo estremecer pelo seu toque, entretanto, por mais que isso machuque meu coração, eu já sabia que aconteceria. Agora tinha certeza do que se passava em sua mente.
Já estava prestes a deixar o quarto quando Hawk abriu a porta desesperado. Ele olhou para os lados e parou quando me viu encostada na parede perto da janela.
– Elizabeth-chan, você está bem?
– Ah – disse surpresa — Hawk-chan...
– Ele fez alguma coisa com você?! – perguntou o porquinho naquele mesmo tom zangado que usava sempre quando Meliodas aprontava alguma travessura comigo. – Aquele desgraçado.
– Está tudo bem, Meliodas-sama não fez nada. – forcei um sorriso, mas Hawk arregalou seus olhos redondos e brilhantes por um momento.
– O que são essas marcas em seu pescoço?
– Marcas?
– S-sim, não me diga que...
Corri até o espelho pendurado na parede e corei quando vi marcas levemente avermelhadas.
– Hawk-chan, é que... – meus olhos voltaram a marejar ao lembrar-me do que havia acontecido, então engoli em seco e deixei aquilo de lado.
– Se você diz que ele não fez nada, então tudo bem – Hawk olhou desconfiado, mas deu meia volta e caminhou novamente até a porta, ameaçando se retirar. – De toda forma, estamos chegando ao Vilarejo. Mas aquela criança idiota simplesmente correu na frente sem falar nada.
– Meliodas saiu novamente? – o perguntei entristecida. Uma sensação nada boa percorreu por todo meu corpo.
– Sim. Gowther me pediu para que viesse dar um recado a você. Por causa da idiotice daquele garoto, você terá de procura-lo, enquanto Ban e ele vá cumprir a missão nesta terra o mais rápido possível. – Hawk suspirou – desculpe por isso Elizabeth, você não devia ter este trabalho todo por causa daquele idiota.
Então Gowther sabia realmente o que estava acontecendo.
Calcei meus sapatos e fui em direção às escadas que levavam até o salão principal do bar, Hawk me olhou sem entender, mas acabou me seguindo.
O cheiro habitual e delicioso das refeições de Ban percorria pelo ar. King estava vermelho de irritação e gritava com o Ban por algum motivo, mas aquela cena era tão comum que nem me surpreendeu. Olhei para o canto escuro no bar e Gowther ainda continuava lá. Respirei fundo e fui até ele, tomando a liberdade de me sentar ao seu lado.
Gowther fechou seu livro e me olhou com sua expressão de sempre.
– Se você for agora, ainda dá tempo de para-lo.
Ele organizou a pilha de livros ao lado da mesa.
– Não – o respondi. Olhei para a janela a frente e vi as árvores passando lentamente a cada passo em que dávamos. – Eu sinto que não poderei fazer nada por ele neste momento.
– Isso tem alguma influência com o que o capitão acaba de fazer com você?
Sua pergunta me fez recordar das palavras de Meliodas antes de se retirar do quarto.
– Então o senhor realmente sabe sobre o Meliodas-sama, não é mesmo? Podia ter me dito o que estava acontecendo com ele.
– Não prefere saber por si só?
– Ele não dirá uma palavra sobre isso.
Gowther suspirou e voltou a olhar para frente.
– Ele não está muito longe daqui – disse apontando para um campo aberto dentre as árvores. – Ontem, quando havia saído na madrugada, o vi indo para aquela direção. Posso apostar que ele estará lá se for agora.
– Por que está ignorando o que estou dizendo? – perguntei aflita.
– Porque você não está raciocinando neste momento. – Gowther voltou a me encarar. – Escute, isso é um caso mais complicado do que apenas questões sentimentais. Não pode agir pelo o que está sentindo neste momento. O capitão está fora de si, às memórias de uma vida passada estão atormentando-o tão profundamente que ele não tem conseguido disfarçar.
Ele estava certo. Era como Meliodas havia dito mais cedo.
“- Gowther nunca está errado, afinal, ele pode ver o coração das pessoas.”
– Obrigada por isso, Gowther-sama. – o agradeci dando-lhe um abraço apertado. Pude ver suas sobrancelhas erguidas de surpresa. – Sabe... O senhor não é uma pessoa desnutrida de emoções como disse mais cedo, aposto que o seu coração ainda baterá forte por alguém.
Ele virou o rosto e eu o soltei do abraço, pude ouvi-lo suspirar pesadamente naquele momento.
– Não acho que isso venha a acontecer, mas sei que é muito sábia para uma princesa que viveu anos de sua vida presa detrás dos muros do reino. Acho que este é o efeito colateral da paixão.
Deixei uma risada abafada escapar com seu comentário, o que realmente me fez corar levemente e recuperar as forças que havia perdido. Afinal, se eu estava sofrendo com aquela situação, imagine como ele se sentia com isso.
– Pedirei para o King ir com você – Gowther interrompeu meus pensamentos.
– King-sama? – perguntei confusa.
O mesmo, que antes estava brigando com o Ban, voltou sua atenção a nós quando ouviu seu nome ser pronunciado.
– Por que ele?
– Inicialmente indicaria a Diane, mas ela chamaria muito a atenção, e é melhor você o segui-lo de forma discreta, acho que o melhor para isso é o King. – Gowther empurrou seus óculos que escorregava cada vez que olhava para baixo. – Eu iria com você, mas não acho que deixar King e Ban cumprir a missão sozinha venha dar em algo bem executado e discreto, sabe como eles são.
– Entendo, agradeço por sua intensão. – olhei para King brevemente, que retribuiu com um olhar confuso. Minha intimidade com ele era menor do que a com Gowther, mas acho que isso não vinha ao caso no momento.
~
O Boar Hat acabara de hospeda-se ao alto de um morro como sempre fazia. O pequeno vilarejo em que nos encontrávamos naquele momento era nomeado de forma sombria e triste: O vilarejo perdido.
Ouvi boatos de alguns clientes de nosso bar que este lugar havia se tornado “esquecido” pelo reino de Liones quando Danafor fora completamente devastado. O mesmo era um lugar agradável de morar, onde vários camponeses e agricultores abusavam de sua enorme extensão para plantio, na qual era o meio mais viável de manter as economias do povoado, porém, como era uma terra sem rei, por ser dividido igualmente por Liones e Danafor, mantinham como líder o padre que comandava a Catedral no centro de comercialização. Os boatos que ouvi iam mais além, mas apenas uma coisa chamava a atenção neste vilarejo que hoje estava tão devastado e vazio quanto a Cidade dos mortos: O vilarejo perdido era conhecido como o lugar sagrado em que os humanos podiam se comunicar com o clã das Deusas através de algumas seitas religiosas.
Ban e Gowther seguiram para o centro do vilarejo onde se encontrava a Catedral, sinceramente eu não sabia a que viemos buscar em um lugar como este. Diane subiu as montanhas a pedido do Gowther, e King estava ao meu lado, abraçado ao seu Chastiefol e expressando um olhar entristecido, me sentia mal por tê-lo feito acompanha-me nesta busca que nem mesmo sabia se daria certo.
– King-sama? – o chamei. Ele piscou brevemente varias vezes antes de olhar-me, parecia disperso em seus pensamentos.
– A-ah, algum problema princesa? – disse, curvando a cabeça levemente para o lado.
– Bem, eu lamento por te fazer me acompanhar.
– Oh, você não deve se desculpar por isso, é uma honra ajuda-la.
O respondi com um sorriso tímido, mas sabia pelo seu olhar que não era ali que queria estar. Ele não tirava os olhos de uma certa direção, por entre as montanhas.
Assim que descemos o pequeno morro em que Boar Hat havia se hospedado, fomos em direção a uma floresta densa. As árvores muitas vezes ocultava o caminho com seus troncos longos e grossos, a neblina do anoitecer começara a aparecer, mas nada disso era maior que a preocupação que estalava no peito. Aquela floresta era diferente do resto do vilarejo, enquanto o mesmo mantinha aquela aparência morta e vazia, a floresta ainda estava vivida de mais para a ocasião, e podia jurar sentir olhares por entre as árvores, o que me causava certos arrepios. Olhei para King que flutuava em seu Chastiefol, estava tão assustado quanto eu.
Como dito pelo próprio Gowther, não demorou muito para a quantidade de árvores começarem a diminuir e o enorme campo ser visto, porém a neblina continuava mais densa do que antes. King desceu de seu Chastiefol por um momento e caminhou para mais próximo.
– Ei, King-sama. – chamei sua atenção ao avistar um objeto estranho logo à frente. – O que é aquilo?
– Está difícil de ver. – ele respondeu, e imediatamente usou sua lança para afastar um pouco da neblina que nos atrapalhava.
Um som medonho soou de seus lábios quando a neblina se dispensou.
O que víamos era realmente assustador. Mas mesmo assim, foi como se aquilo esclarecesse tudo.
– Sabe King-sama... Agora eu o entendo.
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