Lacrimosa
9 Mensageiro das Deusas
Notas iniciais
“Naquele dia distante, parti para uma viagem
Em busca do sonho, e não para fugir
Se enxergasse amanhã, não estaria suspirando
Como um barco contra a correnteza
Agora siga em frente”
Aquele homem misterioso me intrigou, era como se seu olhar revelasse anos de solidão, e eles brilhavam satisfeitos apenas por estarmos diante dele.
King se aproximou o quanto antes, pude ver a atenção ser tomada por aquela cena, como se ele pudesse ver algo por trás daqueles olhos.
– Yusuke-san! – Gritou Diane balançando suas mãos ao alto. – eu consegui o que me pediu.
– Oh, obrigado por sua ajuda, Diane. – disse o sacerdote com um sorriso aconchegado.
– Diane, nós temos que voltar. – proferiu King em um tom cauteloso. – Em breve deixaremos o vilarejo.
– Não tenha pressa pequena fada. – Yusuke interrompeu King, que não pensou duas vezes antes de virar-se perplexo para aquele homem. – Vocês devem estar cansados e famintos da escalada, porque não ficam aqui durante o dia e voltam na manhã seguinte?
– Eu tenho assuntos a resolver aqui – o tom de King era ameaçador, ele não parecia ter gostado daquele homem, e o sacerdote havia percebido isso – portanto não podemos ficar durante tanto tempo.
– Ora, não precisa ficar nervoso. – Yusuke levantou suas mãos juntamente como se quisesse demonstrar algum sinal de inocência.
– Você é o único humano que vi nesta vila. – minha afirmação soava mais como uma pergunta, mas não podia desconsiderar aquela observação.
– Você está errada, linda princesa.
Aquilo me surpreendeu. Como ele podia saber de minha hierarquia apenas com o olhar?
– Ele não é humano, Elizabeth – respondeu King.
– C-como?
Yusuke sorriu.
– Eu sou um Seishin, mensageiro dos deuses.
Me senti deslocada, não sabia o que dizer naquele momento e muito menos como agir, aquilo soava como algo tão distante.
O sacerdote me olhou, porém, desta vez parecia avaliar minha alma, e um suspiro surpreso fora ecoado de seus lábios pálidos como se tivesse visto algo em mim.
– Não posso aceitar sua oferta – Disse King, desta vez ele parecia mais calmo – mas eu tenho um pedido a fazer. – e então ele entreolhou Diane e eu, já sabia o que planejava, porém Diane apenas tombou a cabeça curiosa.
– Por favor, entre. – ele o reverenciou e apontou para a entrada do templo, King apenas se moveu rapidamente para dentro daquela construção, e a enorme porta de madeira fora fechado.
– Sou apenas eu, ou mais alguém não entendeu nada do que aconteceu? – perguntou Hawk com um olhar confuso.
– Também não entendi – Diane se abaixou com cuidado e sentou-se na escadaria do templo. – O que King veio fazer aqui realmente?
– V-viemos buscar você – respondi a pergunta de Diane. Eu era a única que sabia do objetivo de King, mas não podia contar aquilo, principalmente para ela.
– Mas quais assuntos ele veio tratar com o Yusuke-san? – Diane acolheu suas pernas e apoiou a cabeça cansada.
Eu apenas fiquei em silêncio, sabia que aquela pergunta fora jogada ao ar, Diane não esperava uma resposta.
~
Havia passado algumas horas e King ainda permanecia no templo. Diane já estava inquieta e Hawk-chan apenas saboreava as maçãs que a gigante havia trago. Até que ela se levantou eufórica e o chão tremeu.
– Ah, não aguento mais esperar!
– Acalme-se, Diane-sama. – Me levantei juntamente tentando conter a ansiedade da garota, mas logo a porta do enorme templo se abriu, e King saiu com uma expressão assustada e o rosto pálido.
Corri até ele preocupada, chamei várias vezes por seu nome, porém ele parecia fora de si, e pude ver entre seus dedos um pequeno objeto brilhante.
Depois de alguns minutos King parecia voltar ao normal, e seus lábios pálidos e secos tomaram a coloração rosada de antes, então pude suspirar tranquila.
– Vamos! – Foi a primeira coisa que King disse antes de me puxar pela mão em direção a escadaria do templo, eu nada pude questionar, e ao olhar para trás vi Yusuke nos observando entre as frechas da porta, seus olhos sinistro me fez arrepiar, e seus lábios se abriram em um sorriso macabro, ele parecia se tornar um monstro horrível, mas não tive tempo para confirmar.
Diane olhou confusa, mas logo nos seguiram, seus passos pesados fizeram as pétalas da cerejeira dispensar-se, e ao descer a escadaria do tempo uma luz envolveu aquele final de tarde.
Finalmente pude olhar para trás, e aquela luz ao alto do templo parecia algo surreal, mas em uma questão de segundos tudo parou. O vento, as nuvens, as árvores, o cantar dos pássaros.
O templo havia desaparecido.
– Mas... Como? – balbuciou Diane confusa, ela esfregou os olhos como se tudo aquilo fosse uma miragem.
– Tá brincando né? – Hawk respirava com dificuldade, a descida rápida o fez cansar.
Eu olhei para King em busca de resposta, ele ainda segurava minha mão, e seus dedos pareciam gelados. Os seus cabelos castanhos ocultavam os olhos desamparados juntamente com sua respiração ofegante. Mas no fim pude ver um sorriso se formar quando apertou o objeto brilhante em seu punho.
Aquilo me fez perceber que ele havia conseguido.
– Vamos voltar – ele sorriu, mas quando abriu seus olhos novamente pude ver que ele ainda estava assustado, e me olhava como se tivesse descoberto algo grandioso sobre mim.
– King, o que foi isso? – Diane perguntou preocupada, ela ainda não havia entendido o porquê do templo desaparecer.
– Seishin são espíritos ancestrais do clã das deusas, eles estão sempre se locomovendo, algo que acontece de séculos em séculos. – explicou King.
– Isso responde aquela questão sobre a lenda do templo. – observou Hawk – Mas não tinha com o que se preocupar! Se algo acontecesse, eu, o poderoso Hawk, iria salvar Elizabeth!
Ver aquilo me fez sorrir, então apenas me agachei até o Hawk e o acariciei.
– Obrigada Hawk-chan.
Diane olhou desconfiada.
– Hmm – ela cantarolou e voltou a caminhar à frente. – Então vamos indo, capitão deve estar preocupado!
Suas palavras me fizeram estremecer. Diane não sabia da verdade, e eu não poderia contar a ela algo tão terrível.
Senti-me como uma pecadora.
~
Quando chegamos ao Boar Hat uma enorme pressão caiu sobre nós. Ban parecia realmente furioso pela demora, já Gowther continuava com sua expressão indiferente como sempre.
Deixei que King explicasse os acontecimentos e subi até o quarto, e lá Meliodas descansava profundamente. Era a primeira vez desde que começamos a dormir no mesmo quarto que ele não estava amarrado, e vê-lo em um sono tão profundo me fez ver o quão cansativo era dormir daquela forma.
Troquei-me de roupa rapidamente e sentei na cama. Aquela pequena missão havia me cansado, e eu pouco tinha recuperado de meu resfriado, talvez naquela noite eu pudesse realmente descansar.
Ou era o que havia pensado até sentir Meliodas me puxar. Ele me fez deitar ao seu lado sem dizer uma palavra, e assim ficou durante alguns minutos, apenas me olhando, o que foi suficiente para fazer-me corar.
– Está bem? – ele perguntou, sua voz parecia sonolenta, aquilo era um pouco engraçado.
– Sim – sorri – eu estou bem.
– Ainda bem. – ele retribuiu meu sorriso, e naquele momento quis me esconder debaixo dos lençóis de tão envergonhada que sentia.
– Como foi a missão? – perguntei tentando disfarçar os batimentos rápidos do meu coração.
– Conseguimos as runas, Gowther passou a noite estudando sobre elas. Eu não me importo com isso, apenas quero leva-la até um lugar seguro para que possa cumprir a promessa que fiz com o povo de Danafor.
– Entendo – esfreguei os olhos sonolenta – fico feliz que tenha conseguido.
Ele voltou a me olhar com um sorriso fofo em seus lábios, acho que nunca deixaria de ficar envergonhada com isso.
– Meliodas-sama – o chamei, mas na verdade era outro ato que me fazia corar – O-o que está fazendo?
Seu sorriso se tornou malicioso, e suas mãos pequenas e ágeis ainda apertavam meus seios, aquilo já havia se tornado algo constrangedor, pois antes não conseguia ver a malicia em seu toque, mas tudo havia se tornado claro como a água ultimamente.
E aquilo me deixava inquieta.
– Eu não me esqueci de você, seu pervertido! – gritou Hawk ao apontar na porta, e em questão de minutos Meliodas já estava envolvido nas típicas cordas. – Francamente, é só eu tirar os olhos por uns minutos e você já esta fazendo isso. Desculpe a demora Elizabeth.
– Obrigada, Hawk-chan. – disse antes que o pequeno porco saísse pela porta do quarto.
– Eu realmente tenho fetiche quando estou amarrado, mas ainda prefiro ver você assim. – Meliodas sussurrou, seu rosto estava levemente corado, mas o típico sorriso pervertido ainda permanecia em seus lábios.
Não pude deixar de rir alto com aquilo.
– Boa noite, Meliodas-sama.
– Ei, ei, Elizabeth! – chamou ele, erguendo as sobrancelhas.
Não pude respondê-lo a tempo antes de sentir seus lábios sobre os meus. O mesmo beijo que havia recebido antes de partir em minha missão, aquilo me fez desatar os pensamentos angustiantes, e apenas o som de nossa respiração e do palpitar de meu coração era ouvido.
Eu me senti em paz por um momento.
– Boa noite – ele disse, e logo em seguida caiu em um sono profundo novamente, não pude deixar de rir daquilo. Meliodas estava tão cansado mas mesmo assim acordou apenas para perguntar se estava bem, e pensar no quão gentil era me fez feliz.
Só que no fundo uma preocupação não sumia de mim.
“-Como vou contar a Diane-sama sobre nós?”
~
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