Labradorite
1 Epilogo.
Notas iniciais
Laurien pegou uma labradorite e jogou-a no lago, fazendo com que ela quicasse algumas vezes. Ele sorriu, seu rosto reluzindo com o sorriso que marcava seu rosto e modificava a estrutura seria que ele sempre tinha na expressão. Era uma das coisas que eu mais achava bonito nele, o sorriso. Seus dentes não eram perfeitamente alinhados ou totalmente brancos, mas quando ele sorria, toda a sua expressão se modificava, e qualquer um podia enxergar a felicidade – ou o que quer que ele quisesse transmitir– se espalhando pelos seus músculos do rosto. Era um lindo pequeno milagre, daqueles que meu pai me falava que presenciávamos todos os dias sem nem perceber.
– Com essa eu passo na frente de você com um pulo. – Mencionou virando a cabeça para mim e deixando claro que não tinha esquecido do dia em que a minha pedra quicou cinco vezes na água, no dia que eu o enchi o saco até o amanhecer sobre como eu tinha feito aquilo.
Estreitei meus olhos bicolores para ele e tomei dianteira sem nenhuma palavra. Precisava mantê-lo sobre rédea curta, ou o seu ego seria meu castigo até que eu conseguisse superá-lo de novo. Olhei minha labradorite. Era uma pedra bonita, na verdade. Apesar de Laurien não concordar comigo, eu achava sua coloração –as famosas manchas de óleo – peculiarmente adorável. Daria uma bela jóia, mas a labradorite não era mais valorizada, considerando que ela era encontrada aos montes em todos os lugares.
Suspirei e joguei a pedra, quase me agachando e fazendo-a quicar uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes. Era um novo recorde.
– Com isso eu passo na frente de mim mesma com dois pulos. – Joguei meu cabelo dourado sobre o ombro, mas ele somente riu.
Se sentou na ponta do deque, com suas longas pernas quase tocando a água do lago negro. Era alto, o Laurien. Era alto e inegavelmente bonito, com sua pele bronzeada e seus lindos olhos azuis cristal. Seu corpo era coberto por músculos enxutos –por causa do seu trabalho– e seu rosto marcado pela seriedade era marcado também pela clavícula marcada, que o deixava além de másculo, elegante, apesar das roupas simples.
Éramos diferentes ele e eu. Mesmo eu tendo a mesma origem campestre, meu corpo era longo e esbelto. Refinado. Minha pele branca era quase comparada ao meu cabelo longo e dourado, tão dourado quanto o ouro cobiçado por essas terras. Minhas feições eram delicadas e pequenas, não deixando vestígios da origem camponesa e meus olhos bicolores– um azul e um verde – não deixava que eu passasse despercebida em nenhum lugar que eu fosse. Eu odiava essa aparência. Tudo que eu queria era ser normal. É claro, essa peculiaridade tinha um lado bom: se eu não fosse uma das rejeitadas eu nunca teria conhecido Laurien, mas mesmo assim... Seria bom se nós fossemos apenas camponeses comuns, nós dois.
Ele percebeu que eu o observava e sorriu para mim, segredando novamente aquele Pequeno Milagre. Eu retribuí o sorriso, pensando se o meu próprio sorriso parecia um milagre para ele também.
Nós ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas apreciando a visão do sol se pondo na beirada do Lago denominado Mellts, da Li abule, uma pequena aldeia dos campos do reino de Salim.
–Nós precisamos ir, Nel – disse em um suspiro triste. Sim nós precisávamos ir. Já era quase final do por do sol, afinal.
– Sim, nós precisamos. – Eu compartilhei com ele um momento de tristeza. Tristeza por deixar esse lugar, tristeza por deixar esse momento tão bom e tão calmo para voltar a vida cotidiana. Quem sabe amanhã nós voltemos a repeti-lo, cogitei comigo mesma.
Ele me ajudou a levantar e depois caminhou para colocar o saco de carvão nas costas novamente. Ele nunca deixava que eu o ajudasse com aquilo. O pai adotivo era ferreiro e o treinava para ser também, mas como ele não era o seu filho de sangue– e o lembrava daquilo constantemente– ele era mais u servo na casa do que um filho propriamente dito. Eu tinha pedido que ele saísse de lá e viesse morar conosco mais de uma vez (suas habilidades de pintura quase se comparavam as do meu pai), mas ele tinha recusado todas as vezes , dizendo que aquilo era seu fardo e não meu e do meu pai.
Eu não precisava trabalhar, meu pai me dava tudo que eu pedisse ou precisasse, mas eu fazia questão de ajudar Margô, uma senhora que vendia bugigangas cidade perto da nossa aldeia, a vender as jóias no centro e conseguir meu próprio dinheiro.
– Soube o que aconteceu em Gallungor? – Laurien começou falando do nosso reino vizinho, Gallundor, do qual a situação não era muito amigável durante algum tempo.
–Outro marquês reclamou que nosso reino o enviou ostras estragadas? – Tentei ser otimista.
– Outro príncipe desapareceu perto da fronteira. – Ele disse carrancudo, enquanto desviava de um galho que escapava para dentro da trilha.
Eu prendi a respiração, sabendo o que aquilo significaria para nós. Laurien concordou para nada em particular, suspirando alto.
– Não sei até quanto tempo nós ainda estaremos em paz, Nelriel. –Disse com verdadeira preocupação iluminando seus olhos, sua postura e sua voz.
Parei de andar e toquei o seu braço, pedindo que ele olhasse para mim, num gesto sem palavras. Ele se virou para mim automaticamente com seu rosto sem nenhum vestígio do Pequeno Milagre que estava tão marcado no seu rosto antes.
Olhei para ele. Realmente olhei, tentando transmitir afeto e confiança, antes de falar:
– Nós vamos ficar bem. –Coloquei toda a minha coragem na minha voz, tentando tranqüilizá-lo. – Nós vamos dar um jeito de ficar bem.Nós vamos. –Repeti, afirmando minhas palavras e ainda olhando-o para seus lindos olhos azuis, tão azuis, fazendo uma pergunta silenciosa. Você acredita em mim?
– Sim. – A resposta veio depois de um segundo, ele absorvendo a minha coragem e transformando-a na dele também. –Nós vamos ficar bem.
E eu acreditava nisso. Realmente acreditava.
Nós voltamos a caminhar agora em silencio, minha mão ainda sobre seu braço, num toque leve, suave. Ainda com coragem.
A floresta estava tão silenciosa quanto nós. O vento balançava as folhas e galhos, mas o barulho se esvaia dos meus ouvidos que ainda estavam entupidos pelo temor. Não medo, isso não, mas pela antecipação das coisas que aconteceriam quando a guerra começasse. E ela ia começar, se o príncipe continuasse desaparecido.
Tão perdida como eu estava, mal percebi quando Laurien parou e deixou o saco de carvão de lado, colocando seu braço na minha frente e me puxando para de trás dele.
– O que foi? –Sussurrei, me agarrando a sua camisa folgada.
–shiiiii.... – Ele gentilmente me puxou ainda mais para trás. – Quem está ai!? Apareça!
Ele gritou mais um pouco para o nada, pedindo que aparecesse, então, depois de alguns momentos veio. Cambaleando, com as roupas rasgadas e sujo de sangue, uma figura pequena e desengonçada tropeçou sobre os próprios pés e caiu, exatamente na nossa frente.
E quando nos aproximamos para ver quem era, o reconhecemos: Era o Príncipe de Gallundor, Leonan Dallian.
Notas finais
É, amigos, vida de pobre não é fácil não.
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