Acordei com o corvo em cima de mim. Estranhei o fato dele não ter ido embora. Cheguei a guiá-lo até a janela com ele no braço, mas o mesmo continuou imóvel, sem demonstrar interesse algum em ir embora.

– Você é um carinha bem estranho – Falei como se o corvo entendesse a minha língua. Ao proferir a palavra “estranho”, me lembrei de LaLaan. Será que eu devo procurá-la de novo? O fato de LaLaan ter sumido daquele jeito é bem suspeito. E eu ainda precisava de respostas. Ah, se eu ao menos soubesse aonde ela morava!

Todos os dias eu procurava por LaLaan, sem sucesso. Não havia nenhum vestígio, nem sequer uma aparição dela. O corvo continuou comigo, apenas sumindo algumas vezes ao dia, suponho que seja para comer, afinal eu não faço a mínima idéia de que eles se alimentam. Não sabia que corvos eram seres tão inteligentes. Meu fascínio pelo mesmo crescia diariamente, já criando afeto pelo corvo. Até pus um nome nele: Varis, que significa Corvo em finlandês. Meu pai ainda não sabia da existência do corvo, espero que continue não sabendo.

Procurei LaLaan por uma semana, religiosamente. Todos os dias eu rodava a cidade e ia para a cachoeira à noite. Nada. Aquilo, por algum motivo, me deixou um pouco triste. Eu queria vê-la mais uma vez. Eu queria que ela tirasse essas malditas dúvidas que estavam me matando.

No início da semana posterior da que eu passei procurando por ela, eu estava deitado na cama brincando com Varis. Não fazia idéia da hora; apenas sabia que era de noite. Varis começou a grasnar e bater as asas repentinamente para a janela, o que me deixou meio assustado, pois ele nunca foi de fazer isso. Sentei na cama e acompanhei o olhar dele, que parou em uma coruja branca de olhos amarelos na janela, imóvel, encarando-me. Varis recuou, ficando mais quieto e posicionando-se ao meu lado. A coruja entrou no meu quarto, e em um piscar de olhos a ave branca não estava mais lá, e sim a garota de cabelos brancos e olhos amarelos: Aylla.

Dei um pulo para trás, caindo da cama. Me recompus rapidamente, afastando-me ao máximo da mesma.

– O que você está fazendo aqui? – Franzi a testa, alerta. Varis voou e pousou em meu ombro esquerdo.

– Fique calmo, Jean. – Ela se deu a liberdade de sentar em minha cama – Não sou eu que sou sua adversária.

– O que você quis dizer com isso? – Indaguei, mantendo-me alerta e imóvel.

– Eu vim aqui te alertar algo. – Ajeitou-se na cama, logo voltando a me fitar. – Você precisa deixar este corvo. – Moveu o olhar para Varis, com uma expressão provocante, o que fez Varis dar um leve grasnido.

– Por que eu faria isso?

– Porque ela é uma ameaça.

– “Ela”...? – Arregalei os olhos.

– Ah, você não sabia? Bem que eu estranhei o fato de você estar em busca dela por uma semana inteira...

– Você está falando de... LaLaan? – Olhei para Varis, que me olhou logo depois.

– De fato. Assim como eu posso me transformar em uma coruja, LaLaan também pode se transformar em um corvo. – Virou o olhar para Varis... Ou LaLaan. – Você é mesmo covarde, anja negra.

O corvo saiu do meu ombro, e novamente em um piscar de olhos foi substituído por LaLaan, o que me fez arregalar os olhos mais ainda. Isso tudo é muito confuso, muito irreal pra mim. Não dá pra acreditar em pessoas que se transformam em aves; apesar de esta ser a realidade que eu estava vendo com meus próprios olhos. Recuei um passo, incrédulo.

– O que estou te alertando – Aylla não perdeu tempo – é que LaLaan é uma grande ameaça para você. Ela não é uma aliada, Jean.

– Jean... – LaLaan me olhou. Agora eu conseguia ver, ver nos olhos dela, uma grande quantia de tristeza e desesperança, por mais que ela tentasse esconder isso em um semblante vazio.

Eu olhava para as duas, indeciso. Eu realmente não sabia em quem confiar, mas eu de fato havia criado um afeto por LaLaan que havia ficado forte. Eu gostava de LaLaan, ela já fazia parte do meu cotidiano, mesmo que em forma de corvo. Eu nunca havia convivido com Aylla.

– Não. – Afirmei, olhando para Aylla, sério. – Eu não vou me desfazer de LaLaan.

Ambas pareciam surpresas.

– Jean – Aylla insistiu – me escute, por favor. Você vai se arrepender de ter escolhido ela.

– Eu não vou me desfazer de LaLaan. – Repeti, aumentando o tom de voz, um pouco nervoso.

Um silêncio sepulcral predominou no meu quarto por alguns segundos.

– Muito bem – Aylla quebrou o silêncio, levantando-se da cama – Como você desejar. – Virou para o lado oposto, criando asas nas costas e saindo pela janela.

Suspirei, sentando na minha cama. LaLaan nada disse.

– Então quer dizer que Varis, na verdade, era você...

– Me desculpe, Jean. – Olhou para o lado. – Achei que assim seria mais fácil de me aproximar a você...

Levantei da cama e andei até ela. – Está tudo bem, LaLaan. – A abracei, o que a deixou surpresa. – Eu queria te ver de novo.

– J...Je... – Proferiu as iniciais do meu nome, extremamente surpresa. Parecia meio feliz, embora não tivesse retribuído o abraço.

Logo depois a soltei, me perguntando o porquê de eu ter feito aquilo.

Notas finais
Obrigada por ler, espero que tenha gostado.