LaLaan - A Dança Dos Corvos

6 Capítulo 5 - Aniversário


Eu corria. Corria como nunca havia corrido antes. Alguma coisa estava atrás de mim, eu podia sentir, embora tudo que eu via em frente eram paredes brancas e olhos fechados por toda parte. Eu estava em um corredor reto, interminável. A medida que eu corria, as paredes brancas atrás de mim eram rapidamente corrompidas com um preto umbral. Eu não podia errar o caminho. Eu tinha que sair dali.

Não foi nenhuma surpresa: Logo minhas pernas começaram a ficar cansadas e doloridas. Eu não conseguia mais continuar. Caí de joelhos naquele temível corredor, logo sendo engolido pela escuridão. Eu olhava para frente e já não via nada; as paredes brancas foram todas corrompidas. Eu não conseguia ver absolutamente nada. Tentei me levantar, começando a dar passos hesitantes. De repente, os olhos antes cerrados abriram-se: A íris de todos os olhos eram de um amarelo vivo. Levei um susto na hora, mas, por um lado, aqueles olhos me confortavam. Era como se eu não me sentisse sozinho naquele corredor. Contraditoriamente, pelo outro lado, eram medonhos. Eles pareciam os olhos de uma pessoa com expressão neutra. Todos eles estavam voltados para mim, acompanhando cada passo hesitante que eu dava. Estavam por toda parte.

– Jean – Uma doce voz me chamava – Me escut-

A voz foi interrompida por um grito feminino.

– Não! Je... – Todos os olhos voltaram a cerrar, deixando-me na escuridão mais uma vez.

Caí de joelhos, com vontade de chorar. Eu só queria sair dali. Era desesperador estar em um lugar no qual você não consegue ver absolutamente nada.

– Jean. – Era a voz de LaLaan – Acorde.

Abri os olhos, assustado. Aquilo tudo fora um sonho, apesar de ter sido tão amedrontamente real. Sentei-me na cama, esfregando os olhos e soltando um suspiro. Viro o rosto para cima e me deparo com LaLaan em sua forma humana segurando uma pequena caixa embrulhada para presente.

– O que é isso? – Indaguei, confuso.

– Isso é o seu presente.

– Hã? Por quê? – Estava meio lesado, confesso. O sonho não saía da minha cabeça, além de que eu ainda estava sonolento.

– Jean – Ela fez uma cara séria – É seu aniversário.

Demorei alguns segundos para processar, até que finalmente consigo notar. Um mês se passara rapidamente. Setembro, de fato, passou voando. Era dia Primeiro de Outubro... Meu aniversário.

– Ah! – Eu parecia um aluno que havia acabado de entender a matéria de Física – É mesmo! Nossa! – Soei surpreso, tentando disfarçar ao máximo minha angústia por causa daquele sonho. – Obrigado, LaLaan. – Ela estendeu um pouco mais o braço e peguei a pequena caixa.

– Aconteceu alguma coisa? – Ela indagou enquanto eu desembrulhava o presente. Dei uma rápida olhada para ela, que apesar de ter perguntado não parecia nem um pouco preocupada. Pelo menos era o que sua expressão deixava a entender.

– Não. – Respondi, notando um sorriso irônico surgindo em seu rosto. Ignorando, logo voltei a atenção para o presente. Era uma caixa preta. Não hesitei em a abrir. No interior da caixa estava um cordão de corrente médio com um pequeno pingente de corvo. Nada feminino, ainda bem. LaLaan tinha bom gosto para presentes.

– Não é um cordão qualquer – Ela começou, enquanto eu o colocava no pescoço. – Eu mesma mandei fazê-lo. Quando você apertá-lo um chamado será mandado para mim, caso eu não estiver por perto.

– Que interessante. – Olhei para o pingente, fascinado – Onde você mandou fazer isso? No céu? – Brinquei, dando uma leve risada.

Ela fez uma cara bem séria, claramente não gostando da brincadeira. Tratei logo de parar o riso.

– Desculpe. – Me senti na obrigação de me desculpar.

Ela assentiu com a cabeça, continuando séria.

– Não gosta de quando eu falo sobre o céu? – Indaguei, curioso.

– Não é que eu não goste. – Foi só o que ela disse.

De repente, ouço alguém batendo na porta do meu quarto.

– Jean? – Era meu pai.

– Rápido, se esconda! – Sussurrei para LaLaan, que fez uma cara debochada e continuou aonde estava. – LaLaan! – Sussurrei de novo, agoniado.

– Confie em mim. – Ela sentou na minha cama. – Abra a porta para Jerome.

– Mas...

– Jean! – Jerome aumentou o tom de voz.

Nervoso, abri a porta. Cheguei até a tremer um pouco quando meu pai passou os olhos pelo quarto.

– Estava falando sozinho? – Ele perguntou. Arregalei os olhos, surpreso. Ele não viu LaLaan?

– N...Não. – Gaguejei.

– De qualquer forma, vamos descer. Chegou algo para você. – Ele virou as costas, direcionando-se para a escada.

Olhei rapidamente para LaLaan com um olhar confuso. Ela apenas deu seu típico sorriso irônico e nos seguiu.

Descendo as escadas, notei um embrulho consideravelmente grande em cima da mesa. Fiquei curioso, direcionando-me diretamente a ele. No embrulho, havia uma carta colada nele.

“De: Aylla.

Para: Jean Argonia Barone.”

Não consegui esconder minha expressão de surpresa. Tampouco LaLaan.

Abri o envelope, que continha um papel com palavras escritas à mão. Uma letra bonita e totalmente legível.

“ Oi, Jean.

Espero que goste do presente. Vi que já faz um tempo que você o queria, então venho juntando dinheiro para comprá-lo e lhe entregar hoje. Queria ter te dado esse presente pessoalmente, mas infelizmente não foi possível... Talvez dê para imaginar o porquê.

Enfim, divirta-se.”

Eu estava bem curioso quanto ao presente. Será que era...? Não, não pode ser. É muito caro, ela não pode ter comprado aquilo pra mim.

Guardei a carta e rasguei o embrulho de presente. Não, sem chance. Era a caixa de um PlayStation 3 com a caixa do PlayStation Move ao lado, com os jogos Call Of Duty: Black Ops 2 e Marvel vs Capcom 3. Fiquei ali, fitando as caixas, boquiaberto.

– Nossa. Essa tal de Aylla deve gostar mesmo de você, – Jerome observou.

A expressão de LaLaan estava cada vez mais séria. Ela, definitivamente, não estava gostando nem um pouco daquilo.

Mas é claro que eu adorei o presente.

Recebi um abraço caloroso do meu pai, desejando tudo de bom pra mim e falando que minha mãe ligaria mais tarde para me desejar os parabéns. Sorri, logo pegando as caixas e subindo as escadas, não demorando muito para instalar o console na televisão. Eu estava quase pulando de felicidade. O presente da Aylla realmente me fizera esquecer do sonho. LaLaan, é claro, continuou com a mesma expressão insatisfeita.

– Vamos, LaLaan – Olhei para ela – É só um presente.

– É. – Repuxou o lábio.

– Nós vamos jogar juntos. – Falei, pegando os dois controles.

– Não sei jogar.

– Isso não é problema – Sorri. – Eu te ensino.

Ela demorou um pouco para responder.

– Está bem, eu acho. – Ela sucumbiu, fingindo uma expressão contrariada.

Satisfeito com sua resposta, a chamei para sentar do meu lado e passamos o resto do dia jogando.

Mas eu também queria ver Aylla para poder agradecê-la. De repente, Aylla não era uma anja tão má assim. Eu só teria que tentar fazer com que LaLaan não soubesse disso.