Notas iniciais
Desculpem-me por não ter postado ontem. Não tive tempo suficiente. Sabem como é, colégio. Espero que gostem e boa leitura.

Naquele mesmo dia que descobri que Varis era LaLaan, ficou um clima um pouco estranho durante todo o resto da noite.

– Você não vai pra casa? – Indaguei, imaginando que ela deveria estar sentindo falta de casa.

– Não tenho casa.

– Como é? – Fiquei surpreendido por sua resposta.

– Eu não tenho casa, Jean.

– Então como você...?

– Eu dormia aqui perto da sua casa. Em forma de corvo, claro. Em uma árvore ou poste.

– Ah... – Dei uma pausa – Bem, então... Você pode morar aqui se quiser, eu acho. Desde que esteja em forma de corvo. Não sei o que meu pai pensaria se te visse em forma humana aqui.

– É sério? – Perguntou, tentando soar surpresa.

– Sim.

Ela ficou em silêncio. Sorriu de leve em forma de agradecimento, eu suponho. Quanta modéstia.

Ficamos em um silêncio sepulcral por vários minutos, encarando o chão. Eu, pelo menos, não tinha muita coragem de olhar para ela. Eu me sentia até mesmo um pouco envergonhado, por nunca ter me aproximado de uma garota dessa forma. Mas LaLaan olhava para mim, mesmo que pelo canto do olho. Por algum motivo, eu sabia disso.

– Jean – Quebrou o silêncio – Eu gostaria que você continuasse a me chamar de Varis. Pelo menos quando eu estiver na forma de corvo.

– Ah, tudo bem. – Olhei para ela e dei um breve sorriso torto, apesar de ter me perguntado por alguns segundos o porquê desse pedido. “Talvez ela tenha gostado do nome”, pensei.

Depois daquilo, ela voltou para a sua forma de corvo e voou até a cabeceira da cama, fechando os olhos depois de alguns minutos, adormecendo. Apesar de ter apagado a luz do quarto e me acomodado na cama, demorei um pouco mais do que o costume para cair no sono. Eu ainda tinha que processar todas as coisas que vi e passei a saber. Precisava pensar sobre isso e tirar minhas próprias conclusões. Será que fiz bem em ter escolhido ficar com LaLaan? Apesar de não conhecer Aylla, ela parecia preocupada. As horas se passavam, e eu continuava ali, pensando. Só consegui adormecer depois de muito tempo.

No dia seguinte, La... Ops. Varis Já havia acordado, mas não saía de seu lugar. Talvez ela estivesse esperando-me despertar. Sentei na cama, esfregando o rosto. Olhei para Varis.

– Hei. – Saudei, sonolento. – Bom dia.

Varis tentou fazer um gesto com a cabeça. Entre bocejos, direcionei-me à porta do quarto, dando uma rápida olhada para o relógio. 12h30, não vou tomar café da manhã hoje. Abri a porta, a caminho do banheiro. Tomei banho, escovei os dentes e me arrumei, pretendendo sair. Eu estava com uma vontade inexplicável de almoçar fora.

Do banheiro, voltei ao meu quarto, abrindo a porta pela metade.

– Ei – Olhei para Varis, que estava olhando para a janela. – Quer almoçar fora?

Varis voou e atravessou a janela, aterrissando no chão da rua. Olhei pela janela. Ela havia voltado a ser LaLaan. Assentiu, com expressão neutra.

Desci apressadamente, só dando bom dia para Jerome e logo falando que ia almoçar. Sem esperar uma resposta, abri a porta e fui em direção à rua, andando até parar ao lado de LaLaan.

– Você não tem outra roupa não? – Perguntei, fazendo uma careta.

– É a única que sou autorizada a usar. – Ela me encarou – Por quê? Isso lhe incomoda?

– Não, não. – Não entendi muito bem a primeira frase, mas não perguntei nada. Eu já deveria estar a irritando de tantas perguntas que eu fazia. – Vamos.

Durante todo o almoço eu me segurava para não fazer perguntas. Mas, enquanto ela estava acabando serenamente seu simples prato de feijão, arroz e carne, não consegui me conter:

– E essas asas? Por que você e Aylla as tem?

Ela parou o garfo no meio do caminho para me olhar. Abaixou o garfo, fazendo uma expressão de como se eu tivesse perguntado algo muito grave. Me arrependi de ter feito aquela pergunta.

– Elas são essenciais para nós. – Colocou o garfo sobre o prato – Necessárias para nossas vocações. Todavia, não somos as únicas.

– Que tipo de vocação?

Ela demorou. Parecia que estava pensando se deveria ou não responder. Já havia até desistido de fitá-la e esperar uma resposta, quando ela finalmente resolveu responder:

– Anjo guardião.

Num impulso, voltei o olhar para ela, surpreso.

– Anjo guardião? Aqueles seres mitológicos do cristianismo?

– De fato, Jean – ela parecia desanimada – Mas não funciona do jeito que vocês acham. Prefiro deixar esse quesito em sigilo.

– Entendi. Então você é... Minha “anja da guarda”?

– Sim. – Cruzou os talheres – Por isso eu sei de tudo sobre você: Eu venho lhe acompanhando desde o dia de seu nascimento.

– Como eu nunca notei isso?

– Nunca notam a nossa presença. – Deu um sorriso melancólico – Você foi um caso raro. Nós somos meio que invisíveis para a maioria dos nossos protegidos.

– E quanto a Aylla?

– Faça o que quiser quanto a ela, mas o meu conselho é: Não confie nessa anja. Ela é perigosa.

– Por que ela te persegue tanto?

LaLaan nada disse. Se ela está falando a verdade, eu não sei, mas verdade ou não LaLaan continuava um tipo muito misterioso e um tanto estranho.

Pus o dinheiro na mesa. Ela, ao mesmo tempo, pôs também. Nos entreolhamos.

– Eu pago. – Protestei.

– Não. – Empurrou o dinheiro. – Eu devo pagar.

– Você não deve nada, LaLaan.

Tivemos uma breve discussão sobre quem pagaria ou não. Até finalmente um de nós ceder:

– Tudo bem, mas da próxima vez serei eu que vou pagar. – Falei. LaLaan pode ser uma das pessoas mais calmas que já conheci, mas ela era bem persistente.

Com uma expressão ironicamente vitoriosa estampada em seu semblante, ela empurrou o seu dinheiro. Recolhi o meu e o guardei na carteira, contrariado.

A cada dia, eu e LaLaan estávamos cada vez mais próximos. Passei a notar a beleza da minha “anja guardiã”, o que eventualmente me fez sentir meio atraído por ela. Apesar de ser estranha e misteriosa, LaLaan era uma boa pessoa. Eu sabia disso. Eu me sentia bem perto dela, mesmo com sua expressão irônica usada na maioria das vezes e sua ausência de demonstrações de afeto.

Passei a deixar de duvidar da escolha que fiz naquele dia. Ficar com LaLaan foi uma das melhores coisas que já decidi em toda a minha vida.