La vie nocturne
1 Prólogo
Notas iniciais
Anthony largou sua vítima, que caiu com um baque surdo no chão. Sentia-se saciado, mas incomodado, de alguma forma. Olhou-se no espelho da sala de estar daquela jovem (que, com sorte, seria encontrada e socorrida pelo marido assim que este chegasse do bar). Com os olhos arregalados, lentamente voltando ao azul celeste, a palidez incomum e o cabelo negro despenteado, ele parecia bem mais novo do que realmente era. Mas os lábios manchados de vermelho contavam outra história.
Sentia-se tão cansado que chegava a ser ridículo, principalmente quando as únicas coisas que fazia eram se alimentar e limpar a própria sujeira (ocasionalmente, de algum de seus “amigos” também). Sua vida eterna se estendia à sua frente como uma longa e interminável existência inútil...
Ele riu de si mesmo. Sempre achava engraçado quando ficava depressivo daquele jeito. Imaginou alguém escutando seus pensamentos melancólicos e essa pessoa imaginária riu dele também.
Olhou para a moça deitada no tapete. Não lembrava o nome dela. Esperava que ela não se lembrasse dele mais tarde também. Pingou um pouco do próprio sangue nos lábios abertos dela e observou as pequenas feridas em seu pescoço se fecharem. Então pegou o casaco atrás da porta e saiu, encerrando sua caçada naquela noite.
Ou era o que pensava. Enquanto andava pela rua, sentindo o vento gelado no rosto limpar sua mente, se lembrou que dia era. Crianças corriam fantasiadas de bruxas, fantasmas, zumbis. Universitários passavam com seus copos de plástico, falando alto e rindo mais alto ainda, distantes da sobriedade. Halloween. O melhor feriado para ser um vampiro.
–Tony! – ouviu o grito entusiasmado de Victor enquanto ele se aproximava com duas garotas, uma em cada braço. Ambas vestidas de enfermeiras. Ambas velhas demais para Victor, que aparentava ter apenas dezesseis anos. – O que está fazendo aqui? Pensei que estaria na festa.
–Festa...? – Anthony já estava sonolento. Queria que aquela noite acabasse.
–De Halloween! – Como se não fosse óbvio. – Perto do cemitério! Daquela escola, esqueci o nome. Muitas presas deliciosas lá – ele piscou, e as garotas deram risinhos. Anthony percebeu que ele estava “fantasiado” de vampiro. Só que seus caninos eram bem reais, assim como os olhos totalmente negros.
Anthony abriu a boca para dizer que não, que ia para casa, mas pensou melhor. Sempre fazia isso. Sempre deixava passar ocasiões como essa, em que as chances de um banquete eram de quase cem por cento. E a sede nunca passava, de qualquer forma. Podia perder algumas horas numa festa qualquer.
–Tudo bem – suspirou. Só esperava não encontrar Caçadores por lá. – Até mais, Victor.
–Boa caçada – ele sorriu e as garotas riram novamente. Previsível. Eles foram na direção oposta, rindo e bebendo como todos os outros.
Então Anthony desligou seu lado melancólico e se dirigiu para a festa. Ele era outra pessoa quando caçava. Era como os vampiros eram retratados atualmente. Encantador, intenso. Precisava ser. Pensar nas suas angústias não o ajudava a conseguir sangue.
Se suas vítimas o vissem como realmente era, sentiriam pena dele.
Ou ririam. Era difícil saber.
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