Notas iniciais
Pra quem lê, desculpe a demora. Eu gostaria muito que vocês comentassem mais, me sinto sem inspiração às vezes.

Foi um dia cansativo, o dia que Rodrigo morreu. Começou com gritos, mas eu abafei todos eles, como se estivesse debaixo d’água. Depois, as lágrimas. Mas eu não quis chorar. Sentia que se começasse, eu nunca pararia. Annie chorou, Catarina e Ricardo e Katy choraram. Acho que não conhecemos a expressão “parecia que alguém tinha morrido” até que alguém realmente morre, e a notícia nos atinge como uma bala.

Depois, muita movimentação. Pessoas entrando e saindo da casa de Annie, a maioria sendo paramédicos e policiais. Alguns vizinhos intrometidos, mas com boas intenções. Dave apareceu lá um pouco mais tarde, e quando soube do que tinha acontecido, apesar de não ter se abalado tanto, ficou para ajudar no que fosse possível. Eu até mesmo me esqueci de perguntar a ele sobre noite passada. Summer e Erick foram os últimos a saber, eu e Annie estávamos muito abaladas pra ligar mais cedo.

E depois de muito tempo, o silêncio.

Parecia que o tempo tinha parado. Eu mesma não conseguia me mover. Não restava fazer absolutamente mais nada, e foi o que eu fiz, o que todos fizeram. Lá pras nove da noite, o corpo de Rodrigo estava começando a ser preparado para seu funeral e enterro no dia seguinte. E eu não conseguia entender, muito menos aceitar. Pois menos de vinte e quatro horas antes ele estava bem aqui, sorrindo, contando sobre uma música ou filme novo, e agora ele não estava em nenhum lugar que eu pudesse alcançar.

As especulações eram de que alguém tinha invadido a casa de madrugada para roubar alguma coisa, mas Rodrigo acordou e o ladrão teve que matá-lo. Pronto. Acontece todos os dias. Qualquer coisa mais extraordinária que isso não seria aceita por ninguém. Só restava a perícia encontrar pistas que levassem até o tal ladrão e tentar encontrar o culpado. Isso levaria bem mais tempo.

Deitada no colchão ao lado da cama de Annie naquela noite, eu não conseguia dormir. Não sabendo que no dia seguinte eu teria que escolher uma roupa preta. Todas as pessoas que eu conhecia também. E que teria um motivo para isso. E o motivo.

O motivo que eu não podia compartilhar com ninguém.

Olhei para cima. Summer dormia ao lado de Annie na cama de casal. Como eu poderia dormir sabendo que as pessoas que eu amava não estavam seguras? Eu mesma não estava.

Fechei meus olhos, tentando limpar a mente, procurando uma solução impossível para um problema impossível.

Angel?

Abri os olhos rapidamente, e a voz se perdeu. Eu não tinha imaginado aquilo. Respirando com cuidado, voltei a me concentrar. Foi bem mais difícil. Joguei os cobertores de lado e, na ponta dos pés, saí do quarto de Annie. Desci as escadas, e hesitei na porta dos fundos. Ir lá fora seria perigoso.

Anthony?

Afundei no chão, chamando mentalmente seu nome. Talvez ele fosse a única pessoa que pudesse me ajudar. E se tinha me marcado... Bom, devia ter um bom motivo para isso. Abraçando meus joelhos na cozinha silenciosa, abaixei a cabeça e me permiti ficar realmente triste. As lágrimas vieram depressa. Acho que o mais trágico numa tragédia é a impotência. A percepção de que você não pode fazer nada para mudar o que aconteceu. E será que eu poderia ter feito algo? Eu nem mesmo sabia quem tinha feito isso com Rodrigo. Minhas apostas estavam em Rose, mas ela não era a única vampira no mundo. Era só... Tão frustrante.

–Angel.

Pulei de susto. A voz não estava na minha cabeça. Demorei um segundo, mas pareceu um século, para reconhecê-la. Então levantei e olhei ao redor.

–Aqui fora – ele disse.

Abri a porta com pressa, o coração aos pulos, e Anthony estava lá. Parecia tão perdido quanto eu. Um pouco confuso, talvez.

–Você... – eu comecei, mas minha voz estava esganiçada demais pelo choro. Era meio humilhante.

–Ouvi – ele assentiu. – Venha aqui pra fora.

Eu não devia confiar nele. Ele se alimentava de sangue humano e já tinha quitado sua dívida comigo. Mesmo assim, dei um passo na sua direção, saindo da proteção da casa de Annie, e parei por um segundo na sua frente. Ele não reagiu, então relaxei. Fui me sentar no banco de mármore que tinha no jardim. Anthony me seguiu.

A noite era mais fria que o normal. Talvez porque ele estivesse lá, ou porque Rodrigo não estava. Eu não tinha pensado em descer com um casaco, então cruzei meus braços, tentando me aquecer na minha blusa fina de pijama. Anthony usava uma jaqueta de couro. Bem clichê, eu pensei. Ele se sentou ao meu lado.

–Vai me dizer por que me chamou? – perguntou.

–Vai me dizer quem é Rose? – rebati, de repente com raiva. Não sabia por quê. Acho que não gostava da proximidade dele, eu podia sentir o calor que emanava do seu corpo. Pensei que vampiros deveriam ser frios. Quis me afastar dele, apesar de estar mais aquecida ao seu lado.

Ele desviou os olhos, com raiva também.

–Você primeiro – sussurrou.

Suspirei. Esperei um momento para me acalmar. Imaginei que ele pouco se importaria com Rodrigo estar morto.

–Annie tem um primo... – comecei, mas minha voz falhou. – Ele... Morreu. Hoje de manhã, encontraram o corpo dele... E ele tinha feridas no pescoço...

–Trágico. – Anthony me interrompeu. Estava inexpressivo. Eu fiquei furiosa, com um nó na garganta, e segurei as lágrimas.

–Você devia ir embora. – Levantei, e comecei a voltar para dentro da casa, mas ele apareceu na minha frente com tanta rapidez que eu ofeguei de susto.

–Desculpe se a morte não me surpreende mais – ele agora falava com tristeza, mas cansado. – Você acha que um vampiro o matou? Acha que eu o matei?

Arregalei os olhos. Eu realmente não tinha pensado em culpá-lo.

–Um vampiro, sim. Você... – eu recuei um passo, notando o quanto ele estava perto, e voltei a cruzar os braços. – Não sei. Você me diria se tivesse o matado?

Ele teve que pensar um pouco.

–Não sei. – Admitiu.

Respirei fundo. Dei as costas a ele e olhei para cima, para as estrelas. Bom, se houvesse alguma. O céu estava carregado de nuvens arroxeadas. Poderia chover a qualquer momento. Fechei os olhos, desejando a chuva. Meu rosto estava quente.

–Eu não o matei, Angel. – Ele sussurrou atrás de mim.

–Por que você se importaria? – sussurrei de volta. – Pelo que eu sei, você poderia ter me matado ontem. E só não o fez porque tinha uma dívida comigo. Você poderia ter matado Rodrigo, mas então, por que mentir? Mentir implicaria dizer que você se importa também. E dizer que não o matou... Se for verdade, bom, nesse caso você também se importaria. – Eu estava pensando em voz alta. Quando abri os olhos, ele estava novamente na minha frente, mas dessa vez não me assustei.

–Se importar com o quê? – seus olhos me analisavam.

–Isso não é óbvio? Comigo. Eu acho. – Dei de ombros.

Ele sorriu, sarcástico.

–Acha que me importo com você? – Anthony zombava da ideia, mas não me convencia.

–Isso, ou você realmente não tem mais o que fazer.

Ele apenas me encarou por um tempo indeterminado, pensativo. Sustentei seu olhar. Uma fraca chuva começou a cair, e ficou bem mais frio, mas continuei lá até meus dentes começarem a bater.

–Pode ser sua vez agora? – perguntei tremendo, voltando para o banco.

–Você poderia me convidar para entrar. Está mais quente lá dentro.

Soltei uma risada, balançando a cabeça, e abracei meus joelhos.

–Ah, claro. Seria muito conveniente pra você, não seria? Poder entrar e sair a hora que quisesse na casa de Annie – apertei os olhos para ele. – Negativo. Agora pare de enrolar. Me conte sobre Rose.

Anthony suspirou e veio se sentar ao meu lado novamente. Antes que eu pudesse impedi-lo, ele tirou a jaqueta e a colocou ao redor dos meus ombros. Eu pensei em tirá-la, mas achei que ele ficaria ofendido. E afinal, eu estava mais aquecida.

–Rose... – ele começou, e sorriu sem humor. – Ela me transformou em vampiro. Eu poderia contar uma longa história sobre como nos conhecemos, mas acho que você já teve sua cota de estresse por hoje.

–Não importa – pressionei. – Ela tentou me matar, Anthony. Ela pode... Ter matado Rodrigo – engoli em seco. Meus olhos voltaram a se encher de lágrimas, como se já não estivessem inchados o bastante. – Meu Deus, ela pode ter sido convidada para a casa de Annie. Como... Eu não posso lidar com isso, como eu posso lidar com isso?

Percebi que eu lentamente entrava em pânico. Olhei para dentro de casa, de repente muito apavorada, temendo que Rose estivesse lá em cima agora mesmo matando mais alguém. Então senti algo tocando minhas mãos e me assustei, mas era Anthony. Ele apertava meus dedos frios.

–Ela não está aqui agora – me assegurou. – Enquanto eu estiver aqui, ela não vai aparecer.

–Por quê? – não soltei suas mãos, mas bem que eu queria, para limpar as lágrimas que transbordavam. Eu me sentia muito patética, e perdida. – Me conte tudo que eu preciso saber.

Ele assentiu, e olhou para baixo. Notei que ele observava a cicatriz no meu pulso. Seu polegar percorreu os dois pontos onde seus dentes haviam estado noite passada. Senti um calafrio.

–Vou mostrar a você – sussurrou. – Feche os olhos.

Senti uma pontada de medo, mas também de ansiedade. Fechei os olhos.

A cena se projetou como um filme na minha cabeça. A casa de Annie, o jardim, tudo sumiu e de repente eu estava num baile. Não havia outra forma de descrever aquilo. Homens de cartola e roupas antiquadas, fumando charutos e conversando ruidosamente com amigos, meninas jovens usando vestidos exagerados, penteados elaborados, leques de renda abanando um ou outro rosto entediado. Música clássica, um piano alegre, mas elegante. Tudo isso no salão do que parecia ser uma mansão, com uma longa e larga escadaria no meio, com corrimão dourado, e um lustre que quase cegava de tão brilhante e enorme. As pessoas iam de um lado para o outro, fosse dançando ou conversando, e eu me senti tonta no meio daquele caos festivo. Era como um sonho, onde eu era outra pessoa. E, naquele sonho, eu era Anthony. Como se estivesse dentro da mente dele, vendo o que ele via. Sentindo o que ele sentiu naquela noite.

A grande mansão de Hawes estava consideravelmente lotada. Mas, por ser tão imensa, ainda havia espaço para uma pessoa sã descansar a cabeça dos barulhos perturbadores que um bando de adultos bêbados podia fazer.

Anthony Harrison caminhava furtivamente entre as pessoas, procurando um espaço daqueles. Seus olhos ardiam de cansaço. Mas não importa onde procurasse, sempre havia um ou dois casais trocando o maldito beijo de boa noite. Por Deus, ele pensava. Aquela não deveria ser uma festa de gala? Um lugar para falarem baixo e dançarem uma calma valsa?

Respondendo aos seus pensamentos, seu pai surgiu do meio de outros homens importantes, e pousou o braço em seus ombros. Benjamin Harrison era assustador quando visto de longe, com uma cicatriz de briga que atravessava o lado esquerdo do rosto, mas que ele exibia com orgulho. Anthony o fitou com seus olhos azuis e por um momento sentiu ternura pelo homem.

–E então, Tony? Arranjou companhia na volta para casa?

A ternura foi imediatamente embora.

–Minha acompanhante está elegantemente atrasada... Pai... — Anthony ajeitou a frente do seu terno branco, que tinha ficado amassado pelo peso do pai.

–Ah, sim! A Srta. Strout. Grande menina, aquela. Pena que seu relógio esteja com defeito.

Anthony o ignorou. Ficou levemente interessado no que um grupo de rapazes da sua idade estava sussurrando. Ao se aproximar, tentando esquecer Benjamin, que continuava tagarelando ao seu lado, ele percebeu sobre o que os sussurros se tratavam.

–... E dizem que só ataca à noite... – disse Peter Burling, extremamente loiro e de olhos verdes arregalados.

–Como se o sol o machucasse! – completou o Sr. Levithan, o mais velho do grupo, que também já tinha tomado sua dose de bebidas, mas parecia muito sério no que afirmava. – Já foram quatro casos apenas este mês, e com os mesmos sintomas... Perda de sangue, sonhos estranhos, desaparecimentos, e então...

–Então? – Anthony intrometeu-se. Levithan, ao invés de ser reservado e mudar de assunto, respondeu com um tom ameaçador:

–Morte. Uma morte rápida e inexplicável.

Por alguma razão, o coração de Anthony acelerou. Ele já havia ouvido falar do monstro que assombrava as noites de Londres, é claro. Todos já ouviram, viram ou pelo menos sentiram a criatura. Anthony não gostava de admitir nem para si mesmo, mas ele a sentira. Como se pudesse tocá-la.

–Rapazes, vamos falar de outra coisa! – Benjamin exclamou exasperado. – Um novo ano se inicia, e não quero saber de demônio nenhum assombrando essa festa!

Se ele soubesse...

Anthony virou a cabeça bruscamente para o lado. Podia jurar ter ouvido...

–Meu filho, não é Srta. Strout entrando no salão?

Sua atenção foi desviada para as portas do aposento. Lucienne Strout abençoava a todos com sua presença, em seu vestido branco e cheio de rendas recatadas, mas que ainda deixava um homem imaginando coisas. Aquela menina era um espetáculo. Cabelos cor de mel, e olhos que mais pareciam vastos campos de grama muito verde, iluminada pelo sol. Como ainda era seu acompanhante, Anthony caminhou calmamente até ela e lhe fez uma educada mesura.

–Srta. Strout – sussurrou. – Está adorável esta noite.

Os olhos dela brilharam.

–Oh, obrigada... Sr. Harrison. – Ela levantou a barra da saia e se curvou gentilmente. – Espero não estar muito atrasada.

Lucie e Anthony se conheciam desde pequenos. Seus pais costumavam passar longas noites jogando baralho, enquanto os dois desenhavam, ou jogavam xadrez ou, em alguns casos, desenhavam o xadrez. A menina tinha fortes sentimentos por ele, mas era ingênua demais para ser correspondida. Na verdade, Anthony não acreditava plenamente que alguma jovem dos arredores fosse suficientemente excêntrica para ele e seus pensamentos incomuns.

–Elegantemente atrasada – ele repetiu para Lucienne e lhe ofereceu o braço para caminharem juntos pelo salão. Apesar de ingênua, ela podia ser uma grande amiga para ele. – Como está seu pai?

–Ele melhorou um pouco. – Ela abaixou o rosto. – Mas não o suficiente para vir.

–Entendo...

–E seu aniversário? Ganhou muitos presentes? – Lucie balançou a cabeça. – Ainda não acredito que você não fez nenhuma comemoração.

–Foi normal. – Anthony deu de ombros. – Não sei qual a necessidade de um baile para uma data normal. Vou estar aqui no ano que vem, afinal. E no ano seguinte também.

–Mas não será assim para sempre – ela o lembrou suavemente.

Os dois foram interrompidos pelo barulho constante, que agora ficava mais alto. Alguém que estava por perto os informou que faltavam quinze segundos para meia-noite. Anthony soltou um suspiro entediado, e Lucie riu de sua expressão.

Dez.

Um frio arrebatador fez Anthony tremer.

Nove.

Lucie o olhou timidamente, como se esperasse que, à meia-noite, ele fosse ousado o bastante para beijá-la.

Oito.

Outro arrepio o percorreu, e, quase inconscientemente, Anthony olhou ao redor. Seu pai acenava do outro lado do salão, com um sorriso embriagado, e tinha os braços em volta de uma mulher com metade da sua idade, que parecia ainda mais bêbada que ele.

Sete.

Mesmo morrendo de vergonha, Lucie procurou pelos dedos de Anthony e os segurou.

Seis.

É como se ela soubesse que algo fora do comum fosse acontecer.

Cinco.

Peter Burling e o grupo de jovens assustados com o monstro passaram por eles.

Quatro.

Anthony subitamente se lembrou das palavras deles. Só ataca à noite, eles disseram. E houveram muitas mortes...

Três.

Novamente, ele sentiu a criatura com um frio na espinha. Sabendo exatamente onde procurar, ele olhou para cima.

Dois.

Ele fitou os olhos cinza da mulher que parecia um fantasma, com as mãos pousadas na sacada de mármore da escada.

Ela sorriu para Anthony.

Um.

Antes que todos pudessem gritar, todas as luzes se apagaram, e a escuridão e o frio os envolveram como um cobertor. A primeira coisa que Anthony sentiu foram os dedos frios de Lucie sendo afastados dos seus, para então desaparecerem completamente.

–Lucienne? – ele perguntou confuso.

Não obteve resposta, além dos gritos das pessoas ao redor e um ou dois empurrões. Impossível, ele pensou. Ela estava aqui agora mesmo.

Sobrepondo-se à confusão que tinha se instalado na mansão, um grito feminino chamou a atenção de todos. O salão caiu em um silêncio mortal enquanto eles lentamente percebiam que o grito era realmente desesperado, apavorado, e não brincalhão como os anteriores.

–Lucie! – foi Anthony quem quebrou o silêncio. No instante seguinte, alguém acendeu uma vela. Um clarão no alto da escada fez todos os convidados olharem para a pessoa segurando uma vela branca bem em baixo do rosto, criando uma iluminação bizarra para sua expressão. Era Levithan. Lentamente, alguns criados foram tomando juízo e acendendo o resto das velas.

Todos se olhavam confusos, mas não havia sinal da menina que havia gritado. Um sussurro coletivo começou a encher o ouvido de Anthony, até que foi se tornando mais alto, e ele quis sair para procurar sua acompanhante e rezar para que o grito fosse fruto de sua imaginação, mas Levithan não deixou que ele desse um passo.

–Foi o demônio! – ele gritou acima das conversas paralelas. – Ele atacou novamente, e dessa vez dentro da casa do nosso querido George Hawes!

Anthony podia ver as duas figuras mencionadas na sacada, onde há apenas segundos estava aquela estranha mulher pálida. Levithan tinha um braço esticado para o alto, segurando a vela para chamar a atenção dos ouvintes, e o outro braço puxava um George Hawes extremamente bêbado e cambaleante. As conversas foram lentamente cessando.

–Não podemos deixá-lo atacar novamente. Quem sabe o que ele fez à pobre menina! – Levithan continuou. Anthony sentiu o coração gelar ao pensar em Lucie, com seu pai doente em casa, e sua mãe há muito tempo morta. Será que teria o mesmo triste destino que a mãe?

Deus, Anthony, ele pensou enquanto balançava a cabeça para afastar o pensamento. Mas Levithan estava cismado, e não o deixava pensar com clareza.

–Eu sugiro acabarmos com isso de uma vez, aqui e agora!

Ao seu lado, George parecia realmente irritado pelo braço insistente ao seu redor.

–Quem sabe o que poderá acontecer amanhã? – sussurros estimularam o falatório de Levithan, e ele exibiu um sorriso doentio. – Ou quem poderá ser atacado? Seu filho, sua esposa? Esta noite perdemos uma menina; amanhã quem sabe?

Anthony piscou, em choque.

Esta noite perdemos uma menina.

–Meu amigo George, o que me diz? – Levithan se voltou para o lado. — Devemos contra-atacar este monstro que está ameaçando nossa sociedade? Permite que usemos seus convidados para acabar com esse demônio?

–Solte-me, Stephen. – George resmungou se livrando do braço de Levithan. Seu rosto estava vermelho. – Eu digo: parem com essa tolice! A menina gritou porque tem medo do escuro; e ninguém aqui vai procurar por demônios de livros que não existem. Agora, de volta à festa!

Como se só precisassem dessa ordem, os convidados voltaram ao estado natural de agitação. A banda voltou a tocar, os garçons voltaram a levar bandejas de um lado para o outro. Anthony não acreditava em seus olhos. Não aprovava o exagero de Levithan; mas eles iam mesmo ignorar o grito e o desaparecimento? Aliás, será que alguém além dele havia percebido que Lucie havia sumido?

É claro que não. A resposta estava bem ali, na sua frente. Alegria despreocupada, palavras vulgares ditas sem pensar, cheiro de álcool e perfumes caros que o fazia querer vomitar. Indignado com sua própria espécie, Anthony voltou-se para a porta, para tentar encontrar um pouco de paz ou, quem sabe, Lucienne.

Mas quando estava prestes a sair para a noite, seu pai o puxou pela gola do terno.

–Já vai embora? – perguntou estranhamente sério.

–Só ia tomar um pouco de ar. – Sua voz estava rouca, também meio tensa.

–Quero que vá para casa, garoto. – Benjamin havia escolhido logo aquele momento para ficar sóbrio. – Ouviu o que Levithan disse. O monstro está atacando.

Anthony sentiu vontade de sacudir o pai pelos ombros.

–Eu sei! – disse meio exasperado e então sentiu o choque dando lugar ao pânico. – Ele pegou Lucienne.

Benjamin arregalou os olhos e deixou cair o copo de uísque que trazia na mão. Ninguém se importou. Ele pensou por um momento antes de balançar a cabeça.

–Ela era uma garota tão boa... – lamentou.

–Pare de falar assim.

–Tínhamos planos para vocês dois, eu e o pai dela... Ah, pobre Theodore... Sozinho naquela mansão, e ainda doente!

–Pai! – Anthony o pegou pela lapela do casaco. Era mais alto que o pai por favoráveis dez centímetros, e o olhava de cima como se pudesse estrangulá-lo. – Ainda podemos salvá-la! Se eu apenas soubesse onde...

–Anthony Charles Harrison, ouça o que vou falar. – Apesar da altura, Benjamin pareceu muito ameaçador. – Você vai para casa, vai trancar as portas e acender todas as velas, e vai ficar lá até de manhã. Entendeu?

Anthony mordeu a língua para não dar uma resposta malcriada para o pai, mas sentiu seu rosto ficar quente de raiva. Odiava que mandassem nele. Assentiu reprimindo as palavras e virou-se para a porta com o resto de dignidade que tinha.

A cena saiu de foco e de repente eu estava no jardim da casa de Annie novamente. Anthony me olhava com uma expressão estranha, e eu estava prestes a perguntar porque tinha interrompido a história quando ele tapou minha boca.

–Eu não estava aqui – sussurrou quase baixo demais para eu entender, e simplesmente desapareceu. Atordoada, senti um calafrio, percebendo que ele tinha levado a jaqueta também. Um segundo depois, Annie passou pela porta aberta da cozinha.

–O que você está fazendo aqui? – perguntou. Sua voz estava rouca e os olhos inchados. – Sabe o susto que me deu quando acordei e você não estava lá?

–Desculpe... – levantei do banco, ainda desorientada, olhando ao redor. – Eu não conseguia dormir. E não queria ficar deitada.

Ela suspirou e veio se sentar ao meu lado, me puxando para o banco de novo.

–Não consigo parar de pensar em como tudo vai mudar agora – sussurrou.

–Eu sei. – Não sabia o que mais dizer. Havia passado o dia inteiro sem saber o que dizer. Eu não sabia lidar com a tristeza das pessoas, muito menos numa situação como essa. – Vai ficar tudo bem, Annie.

Ela me olhou como se eu fosse louca, e até riu, mesmo sem humor.

–Sério? – e balançou a cabeça.

–É a única certeza que eu posso dar. – Dei de ombros. – Não agora, talvez nem em um ano, mas alguma hora vai passar. Quer dizer, a dor nunca vai embora, mas ela vai se tornar uma lembrança de que existiu alguém importante na sua vida, e essa pessoa foi embora. Vai se tornar suportável. Vai ficar tudo bem.

Annie continuou me encarando, dessa vez muito séria. Pareceu ter lembrado que meus pais haviam morrido pela primeira vez desde aquela manhã. Eu não me sentia tão triste por causa deles, não mais, mas mesmo assim ela me abraçou, e foi como se eles tivessem morrido ontem. Meu choro foi uma coisa ridícula de se ver, mas ela já o conhecia. Queria tanto que Rodrigo estivesse ali que chegava a doer.

Por fim, ela me soltou e disse para entrarmos. Eu disse que ficaria ali mais um tempinho, ainda não estava com sono. Na verdade, queria ver se Anthony ainda estava por perto. Ela me disse para não demorar, que era perigoso. E eu pensei “você não sabe o quanto”.

Um minuto depois de ela ter entrado, Anthony saiu da escuridão das árvores.

–Você estava aí esse tempo todo? – perguntei envergonhada. Ele assentiu e olhou para baixo.

–Sinto muito pelos seus pais – sussurrou. Senti meu rosto esquentar. Ele estava lendo meus pensamentos esse tempo todo?

–Está tudo bem. – Mas não estava. Eu não gostava nada da sensação que tinha quando ele ficava assim. Quase como se eu pudesse esquecer que ele tinha tentado me matar. – Mas não mude de assunto. Termine de me mostrar.

–Hoje não – ele me olhou. – Está perto de amanhecer. E eu ainda não me alimentei.

Senti uma pontada de medo, e depois, para minha própria surpresa, ansiedade. Tentei esconder isso dos meus pensamentos o máximo que conseguia. Eu queria que ele bebesse meu sangue de novo? Eu estava completamente louca? Por que meu coração batia tão rápido?

Os pensamentos dele pareciam estar indo na mesma direção dos meus.

–Você por acaso está me influenciando para me fazer querer que você beba meu sangue de novo? – perguntei com raiva.

Ele sorriu um pouco.

–Na verdade, não.

Meu coração deu outro salto. Queria que ele não fosse tão bonito. Ou então, queria ser mais racional. Queria não estar pensando todas aquelas coisas enquanto ele lia minha mente e seu sorriso ia aumentando.

–Não vou beber seu sangue hoje. – Decidiu. – Você já está vulnerável demais. Vá dormir.

–Você nunca mais vai beber meu sangue – afirmei, cruzando os braços. – E não estou vulnerável.

Então ele subitamente estava a poucos centímetros de mim, nossos narizes quase se tocando, e eu arfei e dei um passo para trás, mas ele me segurou. Seus olhos me prenderam. Ele se aproximou ainda mais, e por um segundo sufocante seus lábios quase tocaram os meus. Eu não conseguia respirar. Então eles passaram para meu pescoço, subindo para minha orelha. Fechei os olhos, sentindo sua respiração na minha pele.

–Vulnerável – ele sussurrou. – Eu poderia ter feito o que quisesse com você agora.

Ah, como essa ideia parecia maravilhosa para mim. Mas me forcei a dar um passo para trás, me afastar das suas mãos, encará-lo com raiva enquanto ele abria aquele sorriso vitorioso, virar de costas e voltar para casa, batendo a porta da cozinha atrás de mim. Decidi que o odiava. Odiava que ele me tivesse feito esquecer, por poucos minutos, que Rodrigo havia morrido. Odiava que ele conhecesse a mulher que queria me matar. Odiava que ele houvesse bebido meu sangue e agora tivesse livre acesso à minha mente. Odiava perceber que não havia tido nenhum sinal de dor de cabeça a noite inteira.

Odiava odiar não saber quando ia vê-lo de novo.