Notas iniciais
Oi, pessoinhas, espero que gostem dessa one porque eu escrevi ela com o maior cuidado e amor. Escrevi enquanto escutava La Vie En Rose cantada por Reneé Dominique em um replay infinito e a música me inspirou para criar o clima da narração, por isso esse é o título :3

A primeira vez que eu ouvi a voz de Yoongi, eu tinha apenas seis anos.

Repare que eu não falei que conheci Yoongi com seis anos, porque eu não o conheci com essa idade. Eu apenas ouvi a sua voz.

Naquela época eu ainda era um garoto e cheguei a me assustar quando uma melodia soou em minha mente. Meu coração só faltou pular para fora do peito quando eu olhei para os lados e não soube de onde vinha o tal som.

Eu olhei pela casa inteira e fui até mesmo ao quarto da minha mãe para ver se ela assistia algo na sua televisão. Mas, qual não foi a minha surpresa quando eu a vi dormindo e percebi que não havia nada ligado?

Assustado, mas curioso como a boa criança que eu era, procurei pela casa inteira de onde vinha o tal som que parecia ficar cada vez mais alto na minha cabeça. Eu estava tão desesperado para encontrar a fonte do barulho que cheguei até a olhar no quarto da bagunça — um quarto onde a minha mãe jogava coisas que já não queria mais, mas que também não tinha coragem de jogar no lixo, pois sempre foi muito acumuladora.

Entrei lá atrás do rádio velho que a minha avó havia nos dado e no qual costumávamos ouvir música. No entanto, quando eu o tive em mãos, percebi que o barulho na minha cabeça também não vinha dele. E, sem ter mais nenhuma ideia de qual poderia ser a origem da música, eu apenas me sentei no chão do quarto, em meio ao amontoado de coisas velhas.

Foi quando um som especialmente alto acertou em cheio a minha cabeça e eu coloquei as mãos sobre os ouvidos, como se isso pudesse diminuir o volume do que eu escutava. O som irritante de teclas de um piano sendo apertadas com forças soava e parecia ecoar dentro de mim.

"Aperte com menos força, Yoongi. Música clássica é algo delicado", a voz em minha cabeça murmurou, claramente irônica, como se imitasse a voz de alguém mais velho, mas depois falou normal, em uma voz claramente infantil: "Não suporto esse professor de piano idiota."

Quase soltei um grito por estar ouvindo claramente a voz de alguém, quando não havia pessoa nenhuma ao meu redor. Eu estava sozinho dentro de um quarto velho, e essa voz não podia ser real.

Minha mente de seis anos começou a fantasiar de que talvez a minha casa estivesse assombrada por fantasmas e isso me fez colocar a mão sobre o meu peito, medroso.

Respirei fundo quando o som do piano recomeçou e o barulho das teclas sendo apertadas com fúria tomou conta de mim mais uma vez, fazendo a minha cabeça latejar um pouco.

Tentei cobrir os meus ouvidos, mas com o tempo eu percebi que isso era inútil: a voz de um garoto continuava soando enquanto este tocava em seu piano com raiva.

Neste mesmo dia eu fui correndo até a minha mãe e a contei tudo que havia acabado de acontecer de maneira apressada, com medo de ter um fantasma em nossa casa.

— Calma, filho, não precisa ficar assustado. — Ela sorriu para mim, pegando-me em seu colo. — Eu estava esperando quando iria ter essa conversa com você, mas não sabia que seria tão cedo.

A olhei confuso, e ela continuou a falar, fazendo um carinho leve em meus fios de cabelo um pouco compridos, retirando-os dos meus olhos.

— Você sabe que neste mundo existem almas gêmeas, certo? — ela perguntou e eu assenti com a cabeça. Já havia escutado algo do tipo na escola ou visto em filmes. — Pois então, você sabe que cada pessoa tem o seu par, feito especialmente para ela antes mesmo de nascer, não é? Algumas pessoas demoram para achar esse par, outros acham cedo demais, e alguns simplesmente não o acham, vivendo como se ele não existisse.

Meus olhos se arregalaram e eu prestava atenção em cada detalhe do que ela falava, curioso demais para sequer piscar os olhos.

— Todos temos uma ligação com a nossa alma gêmea, com o nosso amor. E isso pode acontecer das mais diversas formas. — Ela fez uma pausa antes de me inquerir: — Você se lembra de como aconteceu comigo e com o seu pai?

Neguei com a cabeça.

— Seu pai sempre teve o sonho de explorar o espaço, de ser astronauta. — A mulher sorriu e eu me ajeitei em seu colo, para poder a observar melhor enquanto ela falava. — Um dia, quando eu tinha uns dezoito anos, começaram a surgir marcas na minha pele, como tatuagens. Eu fiquei tão assustada. Mas aí meus pais me explicaram que isso era por causa da minha alma gêmea. O seu pai.

A minha boca se abriu em surpresa.

— Mas, mãe — eu indaguei, interrompendo-a, e meus olhos estavam tão arregalados que ela riu do meu desespero para saber mais —, então o desenho das constelações nas suas costas surgiu por causa do papai?

Ela assentiu com a cabeça.

— Exatamente. E as flores que surgiram nos braços dele foram porque eu sempre quis ter a minha própria floricultura. Foram esses sinais que nos ajudaram a perceber que somos o amor um do outro. Coisas parecidas acontecem para todo mundo. Nós sempre enviamos algum sinal para a pessoa que está conectada conosco, para que um dia possamos encontrar a nossa alma gêmea. E foi isso que aconteceu com você, quando ouviu essa voz.

Eu estava tão surpreso com o que estava ouvindo que não saía palavra nenhuma da minha boca escancarada.

— Fecha a boca, bebê. — Ela brincou, apertando as minhas bochechas, fazendo-me ficar emburrado.

— Não sou bebê, Já tenho seis anos, mamãe — resmunguei, provocando risos nela.

— Tá certo então, garotinho. — Ela piscou com o olho para mim.

Foi quando eu lembrei da melodia que escutei no piano e do garotinho raivoso.

— Então esse garoto que eu ouvi na minha cabeça, ele é a minha alma gêmea? — perguntei curioso. Minha mãe confirmou. — Mas como? Ele é um garoto igual a mim, mãe. Eu não deveria ser como o papai que se apaixonou por você?

Minha mãe me olhou séria, como eu nunca tinha visto até então.

— Preste atenção no que eu vou te dizer agora, querido — falou. — Muitas pessoas vão tentar te convencer de que o amor só pode acontecer de uma determinada forma, mas não existe padrão. Nunca deixe ninguém dizer que o seu amor é menor ou não existe, só porque você ama um garoto. Nunca duvide do que sente.

Ela falou tão séria que eu apenas assenti com a cabeça, absorvendo as suas palavras.

— Mas, mãe, você falou que os sinais da sua alma gêmea só surgiram quando você tinha dezoito anos — mencionei com dúvida. — Por que comigo já aconteceu?

Ela sorriu.

— Eu não sei, meu amor. Talvez porque você ame demais.

Depois disso eu apenas sorri, satisfeito com a explicação, e senti que saber disso foi o suficiente, ao menos por enquanto. Eu ainda era muito menino para entender a dimensão do que havia acabado de me acontecer.

Com o passar dos anos, a voz dele — na época eu ainda não tinha certeza do nome do meu amor — foi se tornando cada vez mais presente na minha cabeça.

Eu descobri que não conseguia escutar o garoto raivoso vinte e quatro horas por dia, mas apenas quando este estava tocando algum instrumento musical, o que, à medida que nós dois fomos crescendo, tornou-se algo rotineiro. Ele amava praticar, apesar de odiar o seu professor de música.

O garoto desconhecido tocava em seu piano ao menos uma vez por dia, todo dia, e eu me pegava já esperando esse momento sempre que eu chegava do colégio. Eu ia até o jardim da minha mãe, o qual ela cuidava com o maior amor do mundo e era repleto de rosas vermelhas — a minha flor preferida nesse mundo —, e ficava as admirando para só fechar os olhos quando a nova melodia dele surgisse em minha cabeça. Era uma rotina da qual meu coração de menino gostava bastante.

Minha alma gêmea sempre foi muito talentosa. As melodias que ele produzia tinham tanto dele: era delicado, mas ao mesmo tempo firme. Assim como uma rosa, que é bonita, mas possui os seus espinhos para se defender.

E toda vez que ele inventava de aprender uma música nova eu já podia prever os seus resmungos quando errava alguma nota. Isso me fazia colocar as mãos sobre a boca e rir baixinho de seu jeito emburrado, mesmo que ele raramente errasse, pois praticava muito.

Ele costumava falar enquanto tocava e isso me permitiu conhecer muito de seus sentimentos e angústias, apesar de não saber coisas simples, como a sua cor favorita.

Não saber quem o meu amor era sempre me deixou abatido.

— Mãe, será que ele me escuta assim como eu o escuto? — perguntei alguns anos depois, já com treze anos de idade. — Porque eu sinto como se ele ao menos soubesse da minha existência — murmurei triste.

Minha mãe abriu os seus braços e eu corri em sua direção, abraçando-a.

— Não se preocupa com isso, bebê — ela falou e eu estava me sentindo tão triste que nem me importei com a maneira como ela se referiu a mim. Eu só queria um abraço para me sentir menos sozinho.

— Será que um dia eu vou encontrar ele? — indaguei, com a voz baixinha. — Talvez eu seja como aquelas pessoas que nunca vão conhecer a alma gêmea.

Nesse dia a minha mãe me abraçou forte e disse que eu não devia me preocupar com isso estando tão novo, que certamente eu iria o encontrar, assim como ela encontrou o meu pai.

Só que eu estava tão triste que não consegui me confortar totalmente com as suas palavras.

Nesse dia, quando me deitei em minha cama, eu me surpreendi ao ouvir uma melodia calma tomar conta dos meus pensamentos. Isso porque minha alma gêmea nunca tocava em seu piano pela noite, pois — pelo que eu entendi das suas reclamações constantes em minha cabeça — a sua família não gostava do barulho.

Mas justo essa noite, na qual eu estava tão mal, ele não se importou com isso e tocou. Tal acontecimento me confortou profundamente, mesmo que ele não fizesse a menor ideia de que eu o estivesse escutando enquanto ele cantava em voz baixa alguma composição, a qual eu senti como se fosse um presente para mim.

No outro dia eu acordei me sentindo tremendamente inspirado. E foi a primeira vez que eu senti vontade de escrever algo para ele, para o meu amor.

Sentei em minha mesa e peguei um pedaço de papel qualquer. As palavras foram aparecendo sem que eu precisasse pensar muito e, quando eu vi, já tinha boa parte da folha de meu caderno preenchida com declarações.

Eu sorria bobo para o que havia acabado de escrever.

Minutos mais tarde, a voz dele surgiu acompanhada do costumeiro som das teclas do seu piano. Só que o que eu o escutei recitar me deixou de olhos arregalados, tamanha foi a minha surpresa.

"Era uma vez uma bela rosa

Rosa tão vermelha que só poderia ser amor

Amor que eu nunca senti, mas pelo qual eu sou apaixonado

Ele tem um sorriso tão discreto que eu nunca o vi

Tão meu, tão seu, mas não nosso

Acelerado e irreal, intenso

Tudo o que eu queria era ver o seu rosto

Mas eu o sinto

E eu o escuto

Não importa se nunca te vi"

Meu coração acelerou dentro do meu peito ao ouvi-lo dizer tais palavras. Meu coração se acelerou porque minha alma gêmea havia recitado o que eu havia acabado de escrever pensando nele.

E foi nesse dia que eu descobri: meu amor consegue ler o que eu escrevo assim como eu o escuto tocando. Essas são as nossas marcas um no outro, os sinais para que nós possamos nos conhecer, assim como aconteceu com os meus pais um dia.

No outro dia, assim que eu acordei, eu abri o meu caderninho de notas, onde eu costumo escrever besteiras, e tomei coragem para tentar me comunicar com ele.

"Oi, meu nome é Jimin. Você consegue ler isso?", escrevi.

Silêncio.

Eu já estava quase achando que havia sido tudo apenas fruto da minha imaginação fértil na noite passada quando me lembrei de um detalhe. Eu só o escuto quando ele está tocando piano, mas será que ele sabe disso?

E se ele estivesse tentando falar comigo enquanto faz outra coisa e por isso eu não o ouço?

Passados alguns minutos, eu senti todo o sangue do meu corpo correr para as extremidades de tão ansioso que eu fiquei quando comecei a escutar uma música nos meus pensamentos.

"Você está tocando piano agora?", escrevi no momento em que escutei a sequência de notas.

Foi só desencostar a caneta do papel que o som em minha cabeça parou abruptamente. Perguntei-me se ele estava lendo o que eu escrevi e se foi por isso que parou de tocar.

"Eu consigo te escutar enquanto você toca piano." Continuei a colocar meus pensamentos no papel, inseguro se estava funcionando ou não.

Eu já estava quase desistindo quando a música recomeçou e eu escutei a voz dele, a qual vinha engrossando cada vez mais à medida que a puberdade o atingia.

"Jimin?", escutei e o meu coração só faltou parar. Parou ainda mais quando ele continuou a falar: "Você pode me escutar?"

Fechei os olhos com força. Ele sabe o meu nome. Eu não... acredito nisso.

Abri a boca, surpreso, e peguei o pedaço de papel mais uma vez. A minha mão estava tremendo enquanto eu escrevia com a caneta ali, mas eu me esforcei para deixar a minha caligrafia minimamente legível.

"Você consegue ler o que eu escrevo?", perguntei.

"Eu acho que eu fiz a pergunta antes de você, Jimin", ele falou, mas eu percebi que a sua voz tinha um leve tom ansioso, e não chateado, como se ele reclamasse por eu não ter respondido a sua indagação e ter feito outra pergunta por cima.

"Eu o escuto tocar piano desde que tenho seis anos", confessei. "Como você sabe o meu nome?"

"Eu também leio o que você escreve faz anos, Jimin. Desde a primeira vez, quando você ainda estava aprendendo a escrever o seu nome."

Saber disso deixou o meu coração aquecido. Então eu nunca estive sozinho como imaginava. Eu o escuto e ele... ele me lê.

"Você se assustou quando isso aconteceu pela primeira vez?", escrevi curioso e escutei a melodia do piano cessar mais uma vez, o que indicava que ele estava lendo a minha pergunta.

Não demorou muito e o som da música voltou.

"Demais." Escutei a sua gargalhada e acabei sorrindo, contagiado com o som da sua risada ecoando em minha cabeça. Ele continuou a explicar: "Imagina só, na época eu era só uma criança e do nada começaram a aparecer diversas palavras na minha mão. Eu fiquei muito assustado."

"Então o que eu escrevo aparece no seu corpo?", indaguei chocado.

"Exatamente", ele me respondeu, o que me fez arregalar os olhos enquanto ele falava, "mas não se preocupe, as palavras sempre desaparecem assim que eu durmo."

"Isso é muito... louco."

"Realmente. Mas eu até gosto de ler o que você escreve. Só não gosto quando você está em véspera de prova porque meu corpo fica repleto dos resumos que você faz de história."

Sua voz soou divertida, mas eu arregalei os olhos, surpreso com a informação.

"Meu Deus, isso deve ser terrível."

"Terrível deve ter sido me ouvir tocar piano quando eu ainda estava aprendendo", ele murmurou, provocando uma risadinha em mim.

"Você sempre foi muito talentoso. Nunca foi um problema para mim, a não ser nos dias que você estava com raiva do seu professor de piano e descontava isso tocando agressivamente. Já tive dor de cabeça por isso no início", confessei.

"Sério?", ele perguntou. "Eu não sabia que havia alguém me escutando. Sinto muito por isso."

"Não sinta, eu sempre amei escutar você."

Antes que eu percebesse, já havia escrito isso, e agora era tarde demais para retirar as minhas palavras. A mensagem já estava gravada na pele do meu amor, pelo menos até que ele fosse dormir.

A resposta não demorou a vir.

"E eu sempre amei ler o que você escreve. Vai ser um grande escritor no futuro, Jimin."

Senti as minhas bochechas corarem com o elogio.

"Eu ainda não sei o seu nome. Isso não é justo."

"Min Yoongi", ele falou.

Min Yoongi. Gravei esse nome na memória.

O tempo foi passando e continuamos a nos falar todos os dias. Descobri que Yoongi é quatro anos mais velho do que eu, o que fez com que ele pedisse para eu chamá-lo de hyung. De início, isso me deixou constrangido, mas eu estava feliz por finalmente poder falar com o meu amor, ainda que nenhum dos dois tivesse tocado na questão de sermos a alma gêmea um do outro até então.

"Jimin, onde você mora?", ele me perguntou algum tempo depois de termos começado a nos falar diretamente.

Nessa época eu ainda tinha treze anos e ele dezoito — Yoongi havia acabado de fazer aniversário, o que o rendia alguns meses sendo cinco anos mais velho que eu, até que chegasse o meu aniversário.

Conversávamos sempre e ele era a pessoa que provavelmente mais sabia sobre mim nesse mundo inteiro. Só que cada vez mais nós dois sentíamos a necessidade por mais, era como se esse contato não fosse o suficiente.

"Em Busan, hyung", escrevi e fiquei alguns segundos esperando para que a voz de Yoongi soasse em minha cabeça.

"Droga. Isso é longe de onde eu moro."Escutei a sua voz frustrada e me surpreendi.

Então ele quer me ver tanto quanto eu quero o ver?

Saber disso me fez sorrir mesmo com a notícia de que provavelmente isso não vai acontecer, já que, assim como ele mesmo me disse momentos depois, ele mora em Daegu, o que é distante o suficiente para criar uma barreira entre nós.

Nunca me senti tão frustrado quanto nesse dia por ser menor de idade. Queria ter dinheiro para ir até onde ele mora e vê-lo. Ou então que o contrário fosse possível, mas Yoongi ainda dependia dos seus pais financeiramente, mesmo sendo mais velho alguns anos.

Se bem que, ao pensar bem, teve sim um dia que eu me senti mais frustrado do que esse. Foi pouco depois do meu aniversário de catorze anos. Yoongi tinha dezoito e eu havia acabado de fazer catorze, e isso tem um certo peso.

Pode parecer besteira, mas houve um momento em que a nossa diferença de idade me deixou verdadeiramente triste.

Eu já estava indo dormir quando escutei o som do piano de Yoongi, despertando-me.

"Gostou dessa música?"Ouvi a sua voz.

Eu já estava indo pegar o meu caderno para poder respondê-lo quando ele continuou a falar e eu percebi que não era comigo que ele conversava, e sim com outro garoto que ele chamou de Hoseok.

Senti meu coração se despedaçar com a maneira como Yoongi parecia animado ao falar e tocar piano para o outro, ao contrário de como era comigo, já que eu simplesmente não podia vê-lo enquanto ele fazia tais coisas. Eu nem mesmo sabia como era a sua aparência.

Nessa noite eu dormi de tanto chorar, com inveja de Hoseok.

"Com quem você estava ontem?", escrevi no meu caderno, no dia seguinte.

Fiquei sem resposta de imediato e Yoongi só me respondeu horas mais tarde.

"Ah, você estava ouvindo... Por um momento eu havia esquecido", ele murmurou e eu pude perceber que a sua voz soava envergonhada, quase como se ele tivesse sido pego fazendo algo errado. "Eu estava falando com o meu namorado ontem."

Namorado. A palavra ecoou em minha cabeça e eu senti o meu coração começar a doer desesperadamente.

É claro que ele tem um namorado. Ele já tem dezoito anos. Isso não deveria me surpreender.

"Jiminie, você está me ouvindo?"Escutei a sua voz preocupada, mas não tive forças para pegar o meu caderno e respondê-lo.

Eu apenas queria chorar e ficar sozinho. E o pior é que eu nem sei porque fiquei tão surpreso com essa constatação. Não é como se um jovem cheio de experiência como Yoongi fosse querer um pirralho como eu. Ele já estava prestes a entrar na faculdade, e eu nem no ensino médio estava.

Mas porque será que me doeu tanto saber que ele tem um namorado?

Acabei lembrando das palavras da minha mãe sobre as pessoas que não encontram a sua alma gêmea e senti uma dor enorme no peito. Talvez eu esteja destinado a não encontrá-lo. E pensar nisso dói, dói muito.

Depois disso, parei de respondê-lo. Não escrevia mais nada em meu caderno dirigido a si.

A princípio, Yoongi até tentou falar comigo, mas, vendo como eu o ignorava, ele apenas passou a tocar piano em silêncio, sem me direcionar a palavra. Mentalmente eu agradeci por ele ter parado de falar comigo.

Só Deus sabe o quanto eu sofri ouvindo a melodia de suas músicas todas as noites.

Os anos foram passando e Yoongi se tornou professor de música. Eu descobri isso porque o escutava dando orientações para uma garotinha sobre como tocar piano.

Eu tentava ignorar o barulho em minha cabeça durante o dia e, com o tempo, percebi que passei a lidar melhor com isso.

Só que, a cada ano que passava, parecia que a voz dele ia se tornando mais distante na minha cabeça e, por mais que isso me deixasse aliviado, também me desesperava. Se a voz dele desaparecesse, não haveria mais nada que nos ligasse, e só de pensar nessa possibilidade eu ficava cabisbaixo.

E, sem entender porque a marca da minha alma gêmea estava desaparecendo em mim, eu segui a vida.

No meu aniversário de vinte e três anos eu já era um escritor relativamente bem-sucedido. Já havia escrito dois livros de sucesso e conseguia me manter com o dinheiro dos exemplares vendidos. Pergunto-me se Yoongi os leu ou se o que eu escrevo não aparece mais em si. Provavelmente a segunda opção, já que agora eu raramente escuto a sua voz. A minha marca deve estar sumindo nele também, tanto quanto a sua vem se apagando em mim.

Estamos sumindo da vida um do outro, aos poucos, como uma facada que não estanca e que te mata de hemorragia lentamente, fazendo o seu corpo agonizar enquanto dura.

O fato de termos nos distanciado me deixava triste, porque eu nunca o esqueci.

Com o meu amadurecimento eu percebi que Yoongi não era apenas apenas a minha alma gêmea, mas que conversando com ele ao longo da minha adolescência, e o conhecendo desde criança além de acompanhar a sua vida silenciosamente, eu acabei me apaixonando por ele. E hoje eu o amo de longe, mesmo que ele esteja com aquele namorado, ou até mesmo se estiver com outra pessoa.

No fundo, não importa com quem ele esteja, eu só quero o ver feliz.

Por que você não passa a virada do ano na minha casa? — Escutei a voz do meu amigo, Taehyung, pelo telefone.

Ele foi uma das pessoas que eu conheci na época do colégio, ainda em Busan, e que me ajudou em muito nos momentos em que eu estava me sentindo triste pela minha alma gêmea. Quando eu me mudei para Seul para trabalhar como escritor, anos mais tarde, ainda mantivemos o contato.

— Não sei. Não quero atrapalhar — murmurei sem graça. — Sua família não vai estar aí?

Deixa de besteira, chim. — Escutei a sua voz repreensiva e sorri. — Você é meu melhor amigo, pode vir e ficar quantos dias quiser.

— Tá certo. Eu vou então — falei e pude ter a certeza de que ele ficou feliz apenas pelo gritinho animado que deu do outro lado da ligação.

Te vejo daqui a alguns dias.

Despedi-me de Taehyung, já meio contagiado com a sua animação, e comuniquei a minha família que iria voltar para a minha cidade natal para passar as festas de fim de ano. Minha mãe ficou tão feliz que eu tive a certeza de que tomei a decisão certa ao aceitar o convite de Taehyung.

Assim que cheguei em Busan, permiti-me sorrir por finalmente estar lá após tanto tempo. Nem mesmo a dor de cabeça assim que cheguei em minha antiga casa e vi o jardim repleto de rosas da minha mãe — onde eu ficava quando criança para ouvir Yoongi tocar — foi capaz de acabar com a minha animação.

Estranhamente os barulhos em minha cabeça que antes estavam quase desaparecendo estavam levemente mais altos, mas eu não ouvia nada claro, era mais como um zumbido. Isso acabou me deixando atordoado, sem entender o que estava acontecendo.

E, quando chegou o último dia do ano, parecia que a minha cabeça latejava de tão alto que o zumbido que estava na minha cabeça soava, mas eu continuei dirigindo até o apartamento de Taehyung, porque não queria ter que o ligar e desmarcar tão em cima da hora.

Subi o elevador e, à medida que este subia até eu chegar no andar certo, a minha cabeça parou de doer e o barulho parou momentaneamente, o que me aliviou.

Quando a porta do elevador se abriu, eu vi o apartamento de Taehyung aberto e várias pessoas na sala, vestidas de branco e conversando animadas.

— Chim! Não acredito que estou te vendo depois de tanto tempo! — ele falou alto, abraçando-me, para que a sua voz saísse mais alta do que o som dos convidados conversando e do que uma música ambiente baixinha.

— Oi, Tae. — Sorri para ele.

— Pode ficar a vontade, a casa é sua — ele falou. — Quer beber algo?

Neguei com a cabeça.

Ele ainda falou mais alguma coisa antes de desaparecer pelo apartamento, falando com cada um de seus convidados. O jeito animado dele me fez rir e eu procurei um lugar onde eu pudesse me sentar, indo em direção a um dos sofás que havia ali.

O fato é que o apartamento de Taehyung é enorme e havia um espaço grande na sala, que abrigava diversas pessoas. Ele sempre foi tão sociável que não me surpreendia a quantidade enorme de gente andando de um lado para o outro na sua festinha.

Eu estava sentado quando a minha cabeça começou a doer mais uma vez e a melodia de um piano, mais alta do que nunca, soou nos meus pensamentos. Senti o meu coração se apertar, e as minhas mãos tremerem um pouco, afinal, eu já não sentia isso a muito tempo. Eu já não o ouvia tocar tão claramente faz anos.

Abri os olhos e respirei fundo, sentindo como se a atmosfera ao meu redor tivesse ficado mais densa de repente.

Olhei para os lados, atordoado, e fui até o meu amigo.

— Tae, você por acaso tem uma caneta? — perguntei apressado, com medo de que o som da música em minha cabeça sumisse mais uma vez.

— Tenho. Pode ir lá no meu quarto. Fica no fim do corredor — foi só o que ele disse antes de eu sair apressado em meio as pessoas que estavam na minha frente.

Assim que entrei no cômodo, agradeci mentalmente porque estava mais silencioso que na sala e isso me permitia atentar mais facilmente aos meus pensamentos.

Olhei ao redor em busca de algo com o que eu pudesse escrever e avistei um um pote com algumas canetas dentro. Peguei qualquer uma e a levei até o meu próprio braço, já que eu não estava avistando nenhum papel por ali.

"Yoongi", foi só o que pensei em escrever.

A melodia do piano parou temporariamente e eu senti o meu coração se acelerar, tendo a certeza de que, assim como eu o ouvi, ele havia voltado a ler o que eu escrevo.

"Jimin, Jimin... Ah, meu Deus... Isso é você?", ele perguntou e a sua voz deixava clara a sua surpresa. "Achei que eu nunca mais fosse conseguir falar com você..."

Mordi meu lábio inferior antes de buscar uma parte limpa do meu braço para continuar a falar com ele.

"Yoongi... Eu havia parado de te escutar. Quando te ouvi hoje eu... senti que precisava falar com você. Senti medo de parar de te ouvir de vez e que essa pudesse ser a minha última chance."

Houve silêncio por alguns segundos até eu escutar a sua voz grave, já muito mais firme do que quando éramos apenas dois adolescentes confusos.

"Tive tanto medo de te perder", ele falou e eu senti a minha respiração falhar.

"Desculpa ter parado de falar com você quando me falou que estava namorando. Eu não devia ter feito isso. Fui egoísta."

"Senti tanto a sua falta", confessou. "E eu imagino como você deve ter se sentido quando eu disse isso, então não te culpo." Sua voz soou tão sincera que um certo alívio me tomou, por ele não guardar rancor. Logo depois ele voltou a falar, e eu prendi a respiração:"Também me senti muito mal quando, algum tempo depois de pararmos de nos falar, escreveu aquela carta para o seu editor, o Jungkook."

Abri a boca em choque. Eu não sabia que Yoongi ainda podia ler o que eu escrevia quando comecei a sair com Jungkook. Na época a voz dele estava tão apagava na minha cabeça que eu achei que o inverso também estava acontecendo.

Enfim, de todo jeito o meu lance com Jungkook não durou mais do que dois meses, pois eu percebi que ele nunca poderia preencher o espaço no meu coração que seria preenchido apenas com o meu amor, a minha alma gêmea Yoongi.

Mesmo que eu não fosse correspondido, apenas a lembrança da sua voz me foi suficiente durante todos esses anos.

"Eu não queria ter te deixado triste quando saí com o Jungkook. Só escrevi a carta para ele porque achei que você não conseguia mais ler o que eu escrevia", expliquei-me rapidamente. "Além disso, nós terminamos alguns dias depois."

"Tudo bem. Acredito em você", falou. "Também não queria ter te magoado falando com o Hoseok aquele dia. Eu só tentei algo com ele porque me sentia muito mal por querer tanto estar com você e não poder. Mas o meu namoro com ele não durou quase nada e também não foi sério, logo ele encontrou a alma gêmea dele. E eu nunca senti por ele metade do que eu sinto por... por você", ele concluiu a última parte um tanto quanto envergonhado.

"Yoongi, onde você está agora?", indaguei curioso, sentindo o meu coração se acelerar com a sua declaração.

"Estou em Busan. Em uma festa na casa do meu primo", ele falou e eu quase perdi o fôlego com a possibilidade que surgiu na minha cabeça. "Eu me mudei para Busan a alguns anos na esperança de te encontrar, Jimin."

Fiquei surpreso com as suas palavras.

"Yoongi, eu acho que sei porque a sua voz está tão alta na minha cabeça de repente", eu escrevi, tomado por uma súbita compreensão.

"Por que?"

"Porque estamos os dois no mesmo lugar", eu afirmei e a minha letra saiu tremida de tanto nervosismo que surgiu em mim à medida que a certeza de que eu estou perto dele tomava conta de mim.

"Mas... Como você sabe disso?"

"Seu primo é Kim Taehyung?"

"Sim. Como você sabe disso?", ele me confirmou o que eu já imaginava, provocando um sorriso em meu rosto.

Não escrevi mais nada, apenas enfiei a caneta no bolso da minha calça e saí do quarto correndo, quase tropeçando nos meus próprios pés de tão ansioso que eu estava para vê-lo pela primeira vez.

Ele está aqui, tão perto, e eu preciso encontrar o meu amor.

Corri pela casa inteira até que escutei um barulho vindo de um dos cômodos e o meu corpo simplesmente paralisou. Eu estava escutando a melodia de uma música e, pela primeira vez, não era da minha cabeça que vinha o som, mas sim de um enorme piano, posicionado no centro do ambiente.

Encarei com admiração o homem de cabelos descoloridos sentado ali, tocando, e o meu coração se acelerou com uma certeza: é ele. Eu não preciso perguntar para saber disso.

Quando eu era um menino imaturo, eu procurei em diversos locais de onde vinha o som que tomava conta de mim; mas, só quando eu me tornei um adulto, é que eu consegui perceber: o garotinho raivoso — que agora já é um homem — sempre foi a fonte de tudo. Eu só precisava ir até ele.

— Te achei, Yoongi — falei em voz alta e o homem se virou na minha direção, olhando-me por cima do ombro. Seus fios loiros caiam sobre a sua testa e ele tinha olhos bem pequenos que me olhavam por inteiro. — Agora eu não vou mais me afastar da sua voz.

— Jimin. — Ele se levantou. Assim como eu o conheci, ele sabia quem eu era sem nem mesmo perguntar.

Ele sorriu e eu tive a certeza: nós nascemos para esse momento. Me senti completo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!