La Vie En Rose
5 Amarelo
Notas iniciais
—Você já ganhou vários prêmios pela tv, mas acho que nada como um Oscar pelo seu trabalho em filmes e... Ah, já ficou com o Brad Pitt!
—Jennifer Aniston! – Rose grita jogando o papel que estava em sua testa no chão com força – Quem é a campeã aqui? – ela se levanta e começa a rebolar de forma exagerada.
Jogo-me no chão exausto de ver Rose ganhando de mim num jogo tão bobo. Mas exausto dessa dancinha da vitória que ela faz, nunca.
—Está cansado de perder, meu bem? – Rose lê meus pensamentos. Ela inclina-se e aperta minhas bochechas.
—Estou cansando mesmo é de ficar nesse seu trailer! – protesto para não parecer frustrado com um jogo. Mas afinal, tenho um ponto em meu argumento, estamos aqui há cerca de meia hora, Rose simplesmente não me deixa ir, apesar das filmagens de hoje já terem terminado, ela simplesmente me convidou para “dar mais dicas”, e aqui estou eu, perdendo para uma garota depois de um minuto de “dicas”.
Para ser honesto, acho que as palavras têm sentidos distintos no cérebro de Rose Esme.
“Eu vou ter que te beijar mesmo?” ela tinha perguntado ao entrar em seu trailer.
“Como você tinha dito uma vez, nada nos filmes é real” respondo observando-a pela porta do trailer.
E acabou assim o tópico “dicas”. Eu tentei ressuscitar o assunto ou sair do trailer dela, pra cuidar de minhas coisas. Mesmo que passar um tempo com Rose por que ela insiste seja um milagre, eu tenho uma coisa chamada Game Of Thrones que me espera.
—Mas você precisa me dar mais dicas! Maurice ainda está insatisfeito com minha atuação de perdidamente apaixonada!
Sem paciência, me levanto do chão e caminho determinadamente até a porta:
—Rose, eu não sei que droga que você usou hoje. Mas você está me pedindo dicas faz meia hora! E tudo o que fizemos foi brincar com bloquinho de notas. – Ela estremece. Talvez eu tenha exagerado na objetividade. – Enfim, você sabe como eu sou, e eu estou muito a fim de ver os peitos da Khalessi, do que ficar encarando os seus cobertos por dez milhões de camadas de roupas sem nenhum sucesso.
Rose permanece calada, uma pontada em meu coração me incomoda, eu não esperava por silêncio, estava na expectativa de uma resposta grosseira.
Às vezes me esqueço do tipo de sujeito com que estou lidando, o tipo Rose Esme, a caixinha de surpresas. De repente, depois de uma onda de silêncio, como imaginado, veio a crise de risos.
Como essa é a terceira vez que isso acontece entre só nós dois, (porque aconteceu incontáveis vezes no set durante filmagens) eu fiquei sem graça. E ela apenas ria mais e mais da minha cara de trouxa. E, embora eu esteja de fato deliciando cada segundo que Rose me quer por perto, é estressante conviver com ela quando ela surpreende fazendo aquilo que sempre faz. É muito complexo explicar o que acontece quando ela começa a rir. Pode-se comparar com um filme de romance clichê, como o que nós estamos filmando, o telespectador de certa forma já sabe o que vai acontecer no final das contas, mas a emoção o surpreende de tal forma e o envolve tão profundamente que quando o esperado acontece, é como um choque.
—Alain! Espera! – ela segura meu braço ao perceber que eu tinha aberto a porta do trailer. – Você consegue ser tão cego assim? Você não percebeu o propósito de tudo isso?
O olhar dela penetra em minha alma, aquele olhar realmente está desesperado para botar uma moral para fora.
—O que você tinha me dito há alguns dias atrás quando Maurice me advertiu? – balbucio algumas palavras, mas logo sou interrompido pela voz de Rose- Que quando você faz uma cena de amor, você pensa em suas experiências! E o que eu tinha tido depois disso? – insisto em tentar completar a frase, mas novamente, Rose me corta – Que eu não tinha boas lembranças com relacionamentos e toda essa baboseira! Então, você deu à louca e falou coisas que na sua cabeça – ela toca minha testa com um dedo – podem não ter tido impacto, mas na minha... – ela gentilmente pega minha mão e coloca-a em cima de seu coração – na minha cabeça foram sentenças em vão, mas no meu coração, elas ficaram tatuadas, e como toda tatuagem, a princípio dói, mas acabamos aceitando a dor.
Respiro fundo e seguro todas minhas más intenções ao sentir minha mão contra a pele dela. Respiro fundo e absorvo cada palavra dita. Respiro fundo e meus ouvidos se ampliam curiosos para ouvir o que essa mulher tem a dizer.
—Sabe, eu aprendi uma coisa, que eu levo para o resto de minha vida. Como tudo o que atuamos é pura ficção, eu tenho consciência que se fizermos alguma coisa errada nas filmagens, é só cortar e fazer de novo, que no final, tudo vai ficar perfeito, como se nada tivesse acontecido... – ela retira minha mão de seu peito – Mas, a vida é diferente. O que aconteceu no passado já está gravado para o filme de nossa vida, não tem claquete para cortar, temos que aceitar e continuar em cena. Juntando esse meu pensamento com as coisas que você me disse, eu percebi que eu preciso entender como é ter um relacionamento com alguém... E bem, você foi a primeira pessoa que estaria disposta a passar tempo comigo, fazendo coisas que... – ela para e fecha os olhos com força, buscando palavras – Bem... Coisas que duas pessoas fazem num relacionamento casual.
Ajeito meu cabelo e me afasto sutilmente, soltando uma risada tímida:
—Você quer que eu te ensine o que duas pessoas fazem numa relação casual de amizade?
Rose franze as sobrancelhas e faz uma cara de desgosto.
—Falando assim me faz me sentir com nojo de mim mesma, mas se esse for o preço para superar o passado e garantir uma atuação melhor... Por onde começamos?
Respondo com um sorriso e caminho até a porta dizendo:
—Até amanhã, Rose Esme!
***
Insônia nunca foi um problema para mim. Sou capaz de passar uma noite acordado e ter a mesma disposição de sempre. Porém, isso quando eu levava uma vida mais tranquila, uma vida sem Rose Esme.
É como se cada palavra que saiu pelos delicados lábios da dita cuja fossem um fantasma que me assombra.
Toda vez que fecho meus olhos eu penso no poder que minhas palavras tiveram sob a vida dela. Poderia eu ter impactado tanto assim? Ou eu estou ficando paranoico com toda essa historia de querer transar com ela ao ponto de levar a sério cada detalhe e movimento que ela faz?
Viro-me para o outro lado da cama, como se os pensamentos fosse ficar do lado em que estava. Mas sem sucesso, o rosto de Rose vem em minha mente mais uma vez. Acho que ela só vai sair de meus pensamentos depois que eu entrar em suas calças.
Forço minha cabeça para tentar ficar sonolento e dormir.
Continuo me lembrando da cena em que ela pôs minha mão em seu coração. Um gesto carinhoso que quebrou todas as barreiras de contato físico entra nossa relação que, recentemente, anda mais confusa do que um menino no colegial querendo sair do armário.
Pego meu celular para checar as horas. São três da manhã. Abandonei o trailer de Rose as onze. Estou mesmo há quatro horas pensando na mesma garota?
Resolvo mandar uma mensagem para Rose. Talvez isso me deixe menos angustiado.
“Oi, vc tá acordada?”
Bloqueio o celular o fico esperando por uma resposta de olhos abertos. Meus dedos tamborilam meu celular freneticamente. Sou muito ansioso. Minha vida é muito fácil. Quero uma garota, eu chego, jogo meu feitiço nela, e num estralo de dedos, estamos pelados fazendo coisas que a mídia censuraria. Eu geralmente, não estou acostumado com a ideia de esperar para algo, ou alguém me dar uma resposta.
Um “plim” me assusta.
“Agora estou... O que você quer?” ela ainda está digitando mais “não vou dormir com vc nem que vc esteja tendo pesadelos”.
Um sorriso involuntário surge em meu rosto. Rapidamente volto à expressão seria.
“Sei lá, tô sem sono” envio, mas como se não bastasse, escrevo mais “Vc estava falando sério sobre aquele negócio de relacionamento? Quero dizer, não parece muito a sua cara...”.
Encaro a tela do aparelho com os olhos secos por abstinência de piscar. E um estranho alívio consome meu corpo ao ver que ela está digitando.
“Sim, afinal, temos um mês pela frente para trabalhar nisso.”
Hesito antes de digitar, mas meu tempo perdido fez com que ela ficasse off-line.
Mandar mensagem foi uma ideia horrível. Apenas me agita mais ainda. Fecho meus olhos e penso em Rose agora em seu trailer, provavelmente brava por eu ter acordado ela nessa hora. Afinal, o que eu estava na cabeça? Eu não estou apaixonado por ela, certo?
***
—Bom dia flor do dia! – Rose me cumprimenta ao me encontrar no set.
Respondo com um sorriso. Não sei o que falar. Sinto-me constrangido pela troca de mensagens que ocorreu durante a madrugada. E tenho noventa por cento de certeza, que ela vai de alguma forma debochar de mim por isso.
—O gato comeu sua língua hoje? – ela se apoia em meu ombro, suas unhas estão pintadas de amarelo. Ontem elas estavam sem cor.
—Estou com sono, só isso. – minto. E antes mesmo de pensar numa desculpa mais elaborada, Maurice chega gritando em seu alto falante.
—Muito bem senhores – caminho para o cenário e Rose me acompanha — Hoje daremos continuidade com a cena oito.
Merda! A cena oito seria minha cena favorita se não fosse por Rose. É a cena mais melosa do filme todo.
Olho para Rose. Seus olhos estão congelados numa expressão neutra.
—Alain, eu não quero te beijar.
Respiro fundo, levemente ofendido, mas é compreensível a queixa dela. Gente nunca tinha de fato pensado nisso.
—Olhe para os meus olhos Rose. Você mesma disse que no cinema nada é real. Seus lábios não precisam estar nos meus. – penso em milhões de tipos de beijos que já dei – tente beijar a parte abaixo de meu nariz ou meu queixo. E incline bastante sua cabeça.
Um pequeno desespero em seus olhos me contagia. Ela me olha perdida, estávamos literalmente indo na fé. A química fora das câmeras entre nós é terrível. Nenhum de nós está pronto para isso.
Apesar do desespero, tenho que tomar controle da situação. Minha vida é constituída em rápidas cenas de amor como essa. Não vai ser difícil para mim. Apenas para ela.
—Alain, o que eu faço? – Rose agita meu braço – Eu vou vomitar. Eu simplesmente não posso te beijar.
Vasculho minha mente em busca de uma solução. Mas tudo o que minha boca consegue falar é:
—Você quer um relacionamento saudável entre nós, certo? Então, começamos aqui, com a sua primeira lição, confiança. – Maurice grita “ação” e eu sussurro – Confie em mim, essa vai ser minha melhor cena de amor.
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