A Revolução de 1917 fracassou. A partir de então, o poder encontrava-se mais concentrado nas mãos do Czar do que nunca. A população foi oprimida com violência e punida severamente, medidas as quais reduziram os habitantes em quinze por cento. O temor alastrou-se pelo país, tendo como ponto máximo de tensão São Petersburgo, cidade mais próxima do Palácio de Alexandre, onde residia a família Romanov.

Com o decorrer das décadas, os murmúrios e a insatisfação popular voltaram a aumentar. Quando Yvon assumiu o poder, os encontros secretos reunindo os habitantes mais sábios e destemidos eram bastante frequentes e não demorou para que ele tomasse ciência a respeito do assunto. Aconselhado por sua esposa Catarina, o Czar recorreu a medidas pacíficas.

Yvon promoveu um torneio englobando todos os lutadores e aventureiros, homens e mulheres, que se considerassem aptos e corajosos o suficiente para enfrentar provas perigosas estipuladas pelo próprio Czar. O prêmio final seria a oportunidade de uma melhoria de vida e a fama como um herói do povo. Todo ano, um felizardo e sua família conquistavam tal futuro almejado por tantos outros. A competição era acompanhada de perto pela mídia, de modo que os finalistas continuavam a ser celebridades mesmo após o final das provas. Contudo, aquele jogo estava longe de ser glamoroso, como era retratado nas televisões. Muitos dos competidores nunca chegavam a superar os desafios com os quais se depararam, em alguns casos a ponto de suicidar-se para encontrar paz de espírito.

A tática conhecida como "pão e circo" foi utilizada por anos. A população continuava vivendo em condições deploráveis, no entanto, a possibilidade de uma melhoria de vida, ainda que muito rara, inflamava-os com uma esperança ardente, deixando-os alienados. Todavia, como toda chama incandescente, seu brilho foi efêmero, queimando com rapidez e deixando apenas cinzas. Como consequência, os levantes espalharam-se por toda a parte do país recebendo como resposta uma repreensão o menos violenta possível, de modo a preservar a ideia de paz instalada na região. Porém, chegou um momento no qual o Czar não pôde mais a apaziguar a revolta que se formava.

O ano era 2001. A virada do século representava esperança para milhares de famílias. Dentre elas muitas russas. Um grupo de rebeldes com condições de vida miseráveis iniciou protestos com voracidade. Cartazes, teatros, declarações públicas contra o governo, discursos cheios de emoção... Todavia, quanto mais eles gritavam, menos pareciam ser ouvidos por seus líderes. Inconformados, optaram por uma tática diferente. As manifestações deixaram de ser pacíficas, transformando o que antes eram ideais organizados em um movimento desestruturado. O exército russo teve que intervir utilizando-se de armas e força. E, aproveitando-se de um instante de descuido, os rebeldes conseguiram dar o golpe de 15 de setembro.

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15 de setembro de 2001

O dia amanhecera cinzento, até mesmo os tons antes vividos das flores do jardim imperial pareciam desbotados. A cidade acordara mais cedo naquela manhã de primavera e a inquietação parecia aglomerar-se entre os átomos de nitrogênio que compunham a atmosfera. Os sinos da catedral badalaram, de modo a seu som ecoar por entre as brechas das casas mal distribuídas, alcançando os ouvidos de seus residentes que a cada segundo ficavam mais ansiosos. O toque havia sido dado, era hora de marchar rumo a uma vida melhor. Simultaneamente, os rebeldes deixaram seus lares, acompanhados de esposas e filhos, cada um deles com o peito estufado, exalando orgulho por apresentar-se para lutar por seus interesses.

As ruas encheram-se de famílias que marchavam até o castelo de Alexandre, vários quilômetros dali. As horas passavam rapidamente e o passo deles permanecia constante e firme. Já passara da metade da manhã quando finalmente alcançaram a residência dos Romanov. Os guardas atrás dos muros se agitaram; os gritos de alerta ecoavam pelos corredores extensos e vazios; os alarmes soando em alto e bom som por toda a extensão da propriedade.

Yvon Romanov reuniu sua família em seu próprio quarto, numa tentativa de proteger-se contra o ataque. O coração do Czar martelava forte em seu peito a medida que o medo de perder qualquer um deles espalhava-se por seu corpo. Por um momento acalmou-se. Todos estavam ali. Catarina, sua esposa; Alexei, seu filho primogênito; Kênia, a segunda mais velha; Dimitri... Os olhares dos líderes da Rússia se encontraram, não precisando de palavras para expressar seus desesperos ao notarem que a caçula, Elena, não se encontrava nos aposentos.

Um grito exasperado escapou da boca da czarina, seguido pelo barulho do seu impacto no chão ao cair de joelhos. As lágrimas não demoraram a escorrer por sua face, intercalados por soluços clamando pelo nome da filha. Yvon gritou com os guardas que guardavam a porta, ordenando-os que procurassem Elena. Uma expressão de desespero atravessou o rosto dos outros Romanov ali presentes, finalmente se dando conta do ocorrido.

A pequena Elena, mais cedo naquele dia, saíra do castelo sorrateiramente, em direção aos jardins. A garota brincava entre as árvores, rindo e cantarolando quando a confusão iniciou. A correria dos guardas era tamanha que sequer perceberam a princesinha encolhida próxima às flores. O barulho a fazia tampar os ouvidos e fechar os olhos com força, desejando que aquilo não passasse de um pesadelo. Um soluço estava engasgado em sua garganta, no entanto as lágrimas escorriam por seu rosto silenciosamente.

Alguns dos rebeldes, sobressaltados ao notar a figura de uma garotinha em meio ao colorido da primavera, sinalizavam sua presença, porém, eram ignorados e logo arrastados pela multidão. Quando um deles fez menção de se aproximar, a menininha, antes estática, levantou-se em um pulo e correu como nunca havia feito antes. Dando a volta pelo castelo, o qual fora seu lar durante todos esses anos, ela não teve dificuldade em encontrar a porta dos fundos. Elena percorria os corredores vazios, escutando a marcha dos revoltos se aproximando. — Папа, папа... – ela chamava por seu pai, entre soluços.

Subitamente uma porta foi escancarada, abrindo passagem para a população insatisfeita. Seus passos aceleraram, o choro dificultava sua visão, no entanto, ela insistia em olhar para trás a cada segundo, assustada com o enxame de pessoas que se aproximava; num desses momentos acabou por tropeçar na barra do vestido e cair no chão, batendo a cabeça de encontro a uma estante de madeira. Tudo passou como um borrão na frente de seus olhos, antes de a escuridão tomar-lhe a visão.