La Princesse Perdue
3 Not All Dreams Are Nightmares
Notas iniciais
Sobre a escrivaninha de madeira escura, o colorido das capas de cadernos misturado a anotações em tons diferentes chamavam atenção de qualquer observador. A pilha de livros, antes organizada, agora criava um ambiente de desordem perturbador. Contudo, tal cenário não incomodava a Anya, fosse pela sua concentração admirável ou sono crescente devido à hora avançada.
— O Romantismo foi um movimento artístico surgido nas últimas décadas do século XVIII que exerceu grande influência sobre a vida das pessoas. Os autores românticos criam um mundo idealizado, dessa forma, rendendo ao movimento o título de arte do sonho e da fantasia. – ela começou a repetir o que estava escrito no livro, numa tentativa de manter-se desperta. Contudo, sua voz foi ficando cada vez mais fraca, até as palavras se perderem no ar.
O farfalhar das folhas chamou sua atenção, fazendo a garotinha mergulhar em meio às flores coloridas. Os cabelos loiros emaranhavam-se entre as pétalas, as quais roçavam em sua pele, provocando cócegas na menina.
Ao levantar-se, as risadas que saíam de sua boca já não eram mais tão silenciosas. O sorriso esboçado em sua boca foi substituído por uma expressão de surpresa ao ver um pássaro pousado tão próximo de onde se encontrava. Suas penas coloridas atraíam a atenção da garotinha, a aparência delicada e macia a fazia querer tocá-las. Ela ficou de pé e movimentando-se devagar para não assustar o animal, foi em sua direção. A loira esticou o dedo em sua direção e permaneceu o mais estática possível. O passarinho pousou em seu dedo, alargando seu riso.
Gritos ao longe ecoaram em sua direção, assustando a ave e fazendo-a voar para longe. A princesa encolheu-se devido ao barulho crescente. Os olhos já marejados e um soluço preso em sua garganta. Ela se encostou contra o arbusto, permitindo que as flores a envolvessem em o que parecia ser uma capa.
As imagens começaram a se dissolver, à medida que um berro estridente aumentava de intensidade.
O céu ensolarado tornou-se cinzento e tempestuoso. As flores foram substituídas pelo cinza do concreto das paredes. A imagem do pássaro voando deu lugar à de um corpo de uma mulher. Sua pele excessivamente branca estava encoberta por um vestido azul escuro manchado pelo fervoroso tom de sangue. O barulho continuou a penetrar sua cabeça, cada vez mais acentuado. A garota procurava pela fonte do som, até perceber que ela mesma era a dona do grito cortante.
Anastasia acordou subitamente. O rosto molhado e o rastro deixado por suas lágrimas enfatizavam a dor sentida pela perda. O sonho apenas tornara as memórias mais vívidas. O rosto alegre de sua tia marcado eternamente pela opacidade da morte.
∞
—No início da Idade Moderna, surgiram diversos pensadores que defendiam o poder absolutista do monarca. Dentre os mais famosos podemos citar o diplomata e historiador italiano, Nicolau Maquiavel, e o matemático e filósofo Thomas Robbes. O escritor do livro que serviu como guia para muitos líderes da época – Maquiavel, autor de “O Príncipe” – defendia a ideia de os fins justificarem os meios. Tal pensamento era capaz de inocentar medidas como o Holocausto e o assassinato de milhares de pessoas... – o professor iniciou a aula, mas logo suas palavras começaram a se embaralhar na mente de Anastasia.
A garota podia sentir a sonolência chegando de forma lenta, conquistando espaço em meio aos seus músculos. Seus olhos logo passaram a pesar mais do que ela poderia sustentar, implorando por algumas horas a mais de sono. A cabeça pendia para o lado gradativamente, a visão já estava turva quando ela deitou confortavelmente sobre o ombro de Aaron. O rapaz se surpreendeu por um momento, mas, ao invés de questionar, a trouxe mais para perto, enlaçando seus dedos entre os fios dourados de seu cabelo.
— De acordo com Hobbes, ‘O homem é lobo do homem. ’ – foi a última coisa que ouviu antes de adormecer.
A claridade intensa incomodou seus olhos acostumados com a pouca luz capaz de penetrar as espessas cortinas vermelhas. As risadas suaves mescladas com a melodia das brisas produziam um som agradável aos seus ouvidos. O colorido das flores do jardim logo entrou em seu foco de visão, arrancando da garotinha uma exclamação de surpresa.
Três jovens alguns anos mais velhos do que ela pareciam se divertir muito correndo de um lado para o outro, sem se preocupar se brincar em meio aos jardins pudesse acabar com um vestido manchado ou calça de linho rasgada. Naquele momento eles já não eram mais príncipes e princesas, eram apenas irmãos aproveitando o clima fresco de início de primavera.
Um garotinho no máximo dois anos mais velho do que ela, caminhou em sua direção. Os cabelos castanhos eram alguns tons mais escuros que os seus, assemelhando-se ao do pai; a pele tão branca quanto a sua possuía uma cor mais vivida em consequência do esforço feito ao correr; seus olhos castanhos esverdeados brilhavam como pequenos diamantes. Em sua mão, uma flor delicada com um tom arroxeado degradê era de tirar o fôlego.
— Peguei para você. Não vem brincar?– perguntou Dimitri com um sorriso travesso.
Ele não aguardou pela resposta, tão rápido quanto havia se aproximado, ele retornou à brincadeira, deixando uma princesinha sorridente para trás. Não demorou para que outro rapaz se aproximasse, esse já bem mais velho do que o primeiro, a altura e os traços indicavam algo perto dos treze anos. Seu cabelo reluzia sob a luz, assemelhando-se a fios de ouro arrumados desordenadamente; os olhos tinham um tom de azul profundo e intenso, capaz de desvendar qualquer mistério e encontrar os segredos mais bem escondidos. Alexei a pegou no colo e girou-a no ar. Uma risada sincera escapou da boca da garotinha, a qual se agarrava cada vez mais ao irmão, tentando não cair ao mesmo tempo em que aproveitava a sensação de voar.
Um toque suave em sua bochecha a fez despertar gradativamente. — Anya... Anya...– uma voz chamava em tom doce e cuidadoso. Os olhos da garota se abriram lentamente, encontrando os da pessoa que ela menos esperava ver naquele momento. Olhos azuis tão intensos quanto os do rapaz de seu sonho a fitavam de perto, tirando seu fôlego mesmo contra a sua vontade. Exasperada, Anastasia afastou-se bruscamente, consciente das batidas aceleradas de seu coração ecoando em alto e bom som.
Qualquer sinal de que fora afetado pela reação da garota foi encoberto pelo sorriso presunçoso mais irresistível de toda a instituição, característico de Aaron.
— Parece que alguém está começando a ceder aos meus encantos, não, docinho de coco? – ele falou, se aproximando para arrumar uma madeixa loira que estava fora do lugar, não se dando ao trabalho de retornar à posição anterior e devolver-lhe seu espaço pessoal.
Aquele olhar ardente estava perto demais... A respiração antes regular e harmônica de Anastasia, agora estava descompassada, bem como os batimentos de seu coração. Os olhos da garota faiscavam, mas não se sabia se eram de amor ou ódio. A situação claramente começava a sair de seu controle.
Uma voz vinda do outro lado da sala a libertou das correntes que a amarravam a Aaron. Seu corpo reagiu imediatamente, dando alguns passos para trás e fazendo-a se desequilibrar ao bater de encontro à cadeira preta.
— Anya? Você está bem? – Louis repetiu, dessa vez vindo em sua direção, ao notar como estava desnorteada.
— Estou. – respondeu fitando Aaron, como se respondesse à indagação presente nos olhos azuis ao invés do questionamento. — Vamos.
Anastasia recolheu suas coisas espalhadas sobre a mesa e deu as costas a Aaron. Um pequeno sorriso se formou nos lábios do rapaz ao observar os movimentos tensos da garota; estava muito claro para ambos que aquele momento havia afetado os dois lados.
A loira passou pelos garotos sem dizer uma palavra, sendo seguida de perto por Louis. O rapaz a encarava com uma mistura de preocupação e algo a mais que ela não foi capaz de identificar.
— O que há de errado com você hoje? – indagou após minutos de um silêncio constrangedor.
Suas palavras soaram rudes, mas era possível notar a sinceridade em sua voz.
— Nada. Só uma noite difícil. – respondeu evasivamente.
Louis não se contentou com o dito. Não mais. Estava cansado de vê-la daquele jeito e não poder fazer nada. Os olhos verdes de Anya haviam perdido parte de seu brilho, levando consigo uma parte dele.
O moreno a segurou antes que ela pudesse continuar andando. Anya abaixou a cabeça ao sentir a mão firme dele segurando seu punho. O garoto a virou para si, aproximando seu corpo pequeno do dele.
— Você sabe que eu estou aqui, não é? Estou aqui para o que precisar. Sempre estive. Então, por favor, me deixe ajudar. Não consigo te ver dessa forma. – falou com o cenho franzido, finalmente liberando os sentimentos que o sufocavam.
Anya mordeu o lábio; todas as sensações conturbadas e sonhos sem nexo passaram por sua mente. A garota inflou o peito, aumentando a expectativa de Louis. No entanto, a realidade caiu em cima de si em um choque de emoções. Como ela poderia explicar a ele que há meses vinha tendo o mesmo pesadelo que a assombrava quando era menor? Como ela diria a ele que vinha sonhando com um rapaz de olhos azuis profundos, o qual lhe parecia tão familiar... Como colocar todos os seus receios em palavras se, ao externar tais ideias, os tornaria mais real?
A loira deu um sorriso fraco, pedindo desculpas silenciosamente. Não eram necessárias palavras, ela sabia que ele a entendia. E a confirmação disso foi o suspiro que escapou de seus lábios, fazendo uma mecha dos cabelos da garota balançar, envoltos pela frustração que Louis emanava.
Um momento de silêncio se prosseguiu pelo que pareceu ser uma eternidade.
Anastasia não pôde evitar se sentir mal. Ela encarou os olhos do amigo, esperando que ele retribuísse o olhar, contudo, se ele percebeu sua tentativa, simplesmente a ignorou. A tensão que pairava entre eles enevoava o ar ao seu redor. Como uma parede que parecia separá-los, recusando-se a rachar e romper o clima estranho que havia sido formado.
— Vem, já estamos atrasados para a próxima aula. – ele falou por fim, a puxando pelo braço.
∞
Anya jogou-se na cama de casal posicionada na área central de seu quarto. A cabeça descansava pesadamente sobre o tecido aveludado, afundando seus medos sobre a maciez das almofadas. As lembranças de sua tia remexiam-lhe a alma, desenvolvendo uma inquietação inexplicável.
A mulher de não mais do que 33 anos tinha uma aparência jovem e alegre que condizia com sua personalidade extrovertida. Em muito se assemelhava a Anastasia, por sua determinação e paixão pelas artes; afinal, fora ela própria quem ensinara a sobrinha tudo o que conhecia, instigando seu amor pela música, dança e literatura.
Durante anos eles foram uma família feliz; até Marie, inexplicavelmente, optar por uma vida mais reclusa e modesta. Seu novo apartamento era localizado em um prédio velho no subúrbio de Paris. A pintura descascada e os móveis em más condições davam um aspecto velho ao local. Sua casa perdera o brilho e as cores de antes, sendo recoberta apenas por uma camada de tinta acinzentada e algumas poucas mobílias.
Anya tentara fazê-la voltar atrás, mas a tia insistia em dizer que estava feliz com a nova vida, mesmo que fosse bastante contrastante com a anterior. Depois de várias tentativas, a menina terminou por desistir, fato o qual se arrepende até hoje. “E se eu a tivesse convencido a mudar? Ela ainda estaria entre nós?”– questionava-se constantemente.
Durante algum tempo vinha tentado esquecer tal cena, contudo, a recordação do incidente ocorrido há meses permanecia gravada em sua mente.
Era uma tarde cinzenta, típica dos invernos europeus. A família Vignerot du Plessis estava voltando do cinema quando decidiu visitar Marie. Ao chegar ao apartamento, apenas a filha mais velha e o pai desceram do carro para encontrar a tia.
O hall estava vazio, o balcão acumulava uma fina camada de poeira, indicando certo desleixo por parte dos funcionários. O rangido das madeiras da escada provocava arrepios na garota. As batidas na porta foram respondidas com um silêncio mortal. Jean, preocupado, conseguiu arrombar o local, deparando-se com a cena mais chocante de toda vida deles.
O cheiro forte exalado pelo corpo em decomposição irritava suas narinas, no entanto, a imagem do corpo sem vida de Marie era muito mais perturbadora.
Por fim, Anastasia fechou os olhos com força, tentando dispersar as imagens de sua mente. No final daquele dia, seu único desejo era uma boa noite de sono.
Fale com o autor