Irá fazer um ano.

Eu fui fraca por muito tempo, quando tentei ser forte, ser nobre, nada ocorreu como queria. Eu arrisquei a vida de meus companheiros. Kurosaki-kun poderia ter morrido. As batalhas se seguiram e o número de perdas aumentou, não consigo esquecer a tristeza no olhar de cada um, as feridas na alma de todos que estavam lá – shinigamis ou não – todos que estavam lá tem alguma história para contar, alguma mágoa para por para fora.

Então porque em meio a tudo isso me pego pensando nele? Tatsuki-chan voltou a falar normalmente comigo, rezo para meu irmão, Sado-kun e Ishida-kun batalham ao meu, estamos ficando mais fortes. Sempre vejo Urahara-san e Yoruichi-san, os dois continuam misteriosos, mas divertidos. Eu voltei a ver Kuchiki-san mais uma vez, mas faz tempo.

Kurosaki-kun dá um passo de cada vez, em busca daquilo que ele renegou a vida toda.

E eu aqui pensando nele.

Aqueles dias em Las Noches vão ficar para sempre gravados em mim – a solidão, a angústia, o pânico, a dor – tudo que vive sob o domínio de Aizen e dos Arrancar às vezes volta de uma vez só, como um soco no estômago. Antes, me escondia e chorava um pouco; hoje, respiro fundo e olho em frente. Estou mais forte.

Hirako-san e seus amigos voltaram para a Soul Society, onde é o lugar deles. Cada peça vai se colocando em seu devido lugar e a vida segue em frente.

Mas porque sempre que devaneio, me pego pensando nele?

Jamais gentil. Jamais cruel. De uma praticidade e senso realista que assustavam. “O que esses olhos não veem não existe.” ele dizia – e assim continuava cego para as coisas mais preciosas que existem.

Os dias passam e tudo ao meu redor começa a perder o brilho; os amigos, as risadas, os momentos. Estou assim por causa dele? Vazio era seu estigma, será que agora o carrego?

Não consigo parar de pensar nessas coisas. Seu rosto me vem nos momentos de descanso, escuto sua voz pouco antes de adormecer – e os sonhos, sempre o mesmo deserto que há lá, a mesma vestimenta que usava lá e ninguém, apenas eu.

Quando ele surgirá em meus sonhos? Quando entenderei o que ele diz?

Estou afundada até o último fio de cabelo nessas questões, penso nisso a todo o instante. Mesmo nas horas impróprias.

O golpe me atingiu em cheio e nem tive chance de reagir. Treinei tanto, com tanto afinco e um Hollow fraco como esse consegue me surpreender – porque estou distraída, pensando nele. Como sempre.

Escuto as vozes de meus companheiros chamarem meu nome em desespero e sinto as trevas me invadindo cada vez mais .... até não conseguir mais sentir nada.

Eu estou no Hueco Mundo de novo. Por mais que olhe em volta não consigo enxergar a fortaleza onde os espadas e os três shinigami traidores se instalavam com seus subordinados, Las Noches. Então escuto uma voz atrás de mim:

–Patético mulher.

Viro e o encaro. Aquele rosto, aquele olhar indiferente e triste, aquela voz que no passado já me causou arrepios. Era ele ali, bem na minha frente. Tentei dizer algo, mas meus lábios não me obedeciam, nem ao menos para dizer seu nome.

–Sabe o que aconteceu comigo mulher? – perguntou ele.

–Kurosaki... Kurosaki-kun derrotou você. – ou o que existia dentro do Kurosaki-kun, não pude deixar de acrescentar mentalmente.

–Sim, e o que acontece com espadas quando eles morrem, ainda mais dentro do Hueco Mundo?- ele perguntou me fitando sem nunca piscar ou fraquejar.

–Eu... não sei dizer. – respondi com minha respiração travada.

–Na verdade, não é muito diferente do que acontece com um shinigami, nossas partículas se juntam a atmosfera. Criando a densidade espiritual que temos aqui. Mas sabe o que há uma exceção nesse processo? – balanço a cabeça de modo negativo, ele me encara.

–Com surgem os menos, em suas três classes distintas?

–Vários Hollows juntos? – digo insegura.

–Isso é apenas um Menos Grande, eu falo da individualidade – explica ele – quanto mais ego e senso de autopreservação tiver um Hollow, maiores as chances de ele dominar os outros e fazer com que o Menos siga evoluindo.

–Onde você quer chegar? – aquilo não fazia muito sentido, o que a individualidade que ele um dia teve possuía em comum com sua morte?

–Quando morremos – começou ele – nossas partículas espirituais são lançadas na atmosfera. Mas se o Hollow que dominava o Menos fosse poderosos e egocêntrico o suficiente para ordenar às próprias partículas que se reagrupassem para reconstruir seu corpo: — arregalo os olhos diante daquela revelação, mas só conseguia pensar em uma coisa para dizer:

– Você vai voltar?

–Eu irei voltar.

Nos encaramos em silêncio por muito tempo. Embora por fora estivesse sem reação, por dentro meio peito batia acelerado e meu estômago dava nós. Ele iria voltar, mas o que eu devo fazer em relação a isso?

–O que nos traz a você.

–A mim? Precisa de mim para voltar, é isso? – o terror da possibilidade de ficar entre o que devo e o que quero fazer ameaçaram me esmagar.

– Você está por um fio, se não lutar pela sua vida, você irá morrer. – lembrei da luta contra o Hollow e de como vim parar aqui – Acho que não se lembra o que a garota Kuchiki disse, então irei refrescar sua memória; ela disse que, quando morremos, não levamos nosso coração, e sim o deixamos com nossos companheiros.

Olhei para ele em busca de uma maior compreensão. Imagino onde ele quer chegar, mas custo a acreditar. Nele. Em nós.

–Só não ouse morrer até eu voltar Orihime Inoue, pois meu coração ainda está com você.