La Petite Mort

4 Território inimigo


Notas iniciais
Boa tarde! Como vocês estão? Muito obrigada pelo feedback e pelos comentários no capítulo anterior... Fiquei muito feliz em ver que existe mais gente lendo, mesmo que ficando na moita :D Espero que gostem desse capítulo, boa leitura!

Bill olhava de esguelha para Hermione, que batia o pé incessantemente, desde que os dois pararam na soleira da porta do sobradinho que pertencia aos Weasleys. O ruivo não queria desrespeitar a aparente timidez da advogada, entretanto, ela realmente precisava conhecer sua família para compreender com o que estava lidando.

– Eu acho que não é uma boa ideia, Bill. — Hermione resmungou desconfortável, trocando o peso de seu corpo em seus pés. A jovem advogada detestava sentir-se insegura em qualquer que fosse a situação, ainda mais quando era pega de surpresa e não tinha como se preparar para o que poderia enfrentar. Ela era racional e precisava de certo tempo para pensar e obter os melhores resultados.

Bill escutou cada palavra desconfortavelmente insegura que saiu da boca de Hermione e até chegou a concordar com ela. Porém, sabia que Hermione partiria naquele mesmo dia, caso ele não tomasse as devidas providências. E mesmo Fleur sendo mais teimosa do que um touro debandado, ele precisava que a advogada ficasse. Ele não queria acabar com a vida que Fleur havia construído. Por isso, influenciado por esse raciocínio, ele endureceu a expressão e a voz ao responder:

– Concordo com você, não é uma boa ideia. Mas você precisa conhecê-los, Hermione. Precisa saber quem está enfrentando.

– Eu não vou enfrentar ninguém sem o devido aval de sua futura ex-esposa. — Hermione podia ser tão dura quanto ele em seus argumentos, a diferença de nove anos entre eles sequer parecia evidente. Bill semicerrou os olhos diante do ar sério e destemido que ela assumiu. Ela respirou fundo quando o encarou de forma incisiva. — E ela não parece querer a minha ajuda.

– Fleur é orgulhosa e costuma ficar irracional quando se sente ameaçada ou ferida. Ela realmente não sabe o que está fazendo e nem quão perigosa é essa decisão de não aceitar sua ajuda. — Bill justificou-se decidido. A dor que passava, como sombra, em seus olhos castanhos, confundia Hermione. A vida matrimonial daqueles dois era estranha e aguçava a curiosidade da advogada, ao mesmo tempo, ela sentia que algo em seu cérebro a avisava que era até perigoso se aproximar demais.

E ah... Seu cérebro também estava ficando estranhamente eufórico quando ela repassava as memórias que possuía de seu primeiro encontro com Fleur Delacour. E Hermione preferia tentar não entendê-lo naquele momento, aliás, preferia se concentrar no que tinha como certeza. E esta, atualmente, era a sua partida daquela cidadezinha.

– Você precisa conhecer os dois lados da história para convencer Fleur a deixá-la ajudar... — O tom de voz de Bill era, de certa forma, suplicante. Hermione detestava ver alguém daquela forma, Harry costumava dizer que ela tinha uma tendência a querer ajudar todo mundo e fazer todo mundo ficar bem... Por isso, seu coração até apertou diante de todo o silencioso desespero que Bill deixava transparecer em suas atitudes. A advogada suspirou e, derrotada, comentou:

– O que isso vai mudar, Bill? Fleur vai permanecer irredutível... E mesmo assim, eu não conhecerei todos os lados da história. Ainda me faltará o seu.

– Se você almoçar conosco, eu prometo que lhe conto o que aconteceu com meu casamento. — Bill dava sua última cartada, seu último movimento, e Hermione não conseguiu determinar se ele blefava ou não. Entretanto, a advogada percebeu que acenava inconscientemente e que Bill abriu um sorriso triste ao apertar a campainha.

Estava feito. Ela entrara, mais uma vez, naquela confusão.

Hermione e Bill esperaram cerca de três minutos, escutaram alguns gritos incompreensíveis através da madeira da porta e passos apressados dentro do sobradinho. Em seguida, a porta abriu-se de supetão, revelando a figura de uma jovem de cabelos ruivos.

A Gina de Harry.

Hermione, como a melhor de todas as amigas, estudou a garota com olhos atentos e criteriosos. Ela era bonita e aparentava ser contemporânea a ela em termos de idade. Cabelos ruivos, olhos castanhos e algumas sardas na pele. Aparentemente, eram os componentes indispensáveis para ser um Weasley.

E Fleur era loira, tinha olhos azuis e suas sardas eram quase que imperceptíveis.

A jovem ruiva não se deixou intimidar e devolveu toda a avaliação que ela lhe destinava, aquele foi um ponto a favor. Hermione costumava detestar as garotas, que Harry lhe apresentava, e que a temiam no primeiro instante. A jovem possuía semelhanças inquestionáveis com Bill, ela sorriu de lado, havia um pouco de rebeldia em seus olhos castanhos quando ela gritou por cima do ombro:

– É o Bill, mamãe... E ele trouxe visita. Uma visita britânica, aliás.

A advogada pensou como seria se Fleur estivesse com eles, colocou-se no lugar dela e imaginou-se recebendo olhares nada satisfeitos de Gina Weasley. A irmã mais nova de Bill parecia ser uma mulher de opiniões extremamente fortes, Hermione podia sentir isso apenas com o olhar determinado que ela lhe estudava.

Hermione estava prestes a cumprimentá-la de forma decente quando outra figura ruiva entrou em cena. A matriarca da família Weasley apareceu às costas da filha caçula, os cabelos ruivos enrolados emoldurando o rosto gorducho. Ela era corpulenta, tinha uma expressão gentil no rosto e um sorriso nos lábios. Assim que seus olhos, do mesmo tom castanho da filha e do filho mais velho, encontraram Hermione... A senhora sorriu e eufórica, disse:

– Seja bem-vinda à casa dos Weasley, garota!

Hermione só teve tempo de lançar um olhar confuso a Bill, onde estava o perigo? Bill sufocou uma risadinha e observou a mãe apertar Hermione nos braços, a advogada não conseguiu corresponder e seus olhos estavam arregalados enquanto ela era puxada para dentro da casa.

O interior era quente, receptivo, familiar... Bem diferente da casa dos Granger em Londres. Hermione afastou os pais distantes de sua mente e concentrou-se em avaliar cada pedaço do cômodo. Molly enganchara o braço gorducho com o seu e a arrastava para a cozinha, Bill a deixara e subira as escadas atrás dos irmãos.

Hermione se encolheu diante do olhar entusiasmado de Molly e do tom eufórico:

– Espero que você seja a justificativa para que Bill esteja largando aquela francesa... Apesar de que você parece ser muito nova para ele.

Aí estava. A expressão de Molly Weasley contorcera quando ela mencionara Fleur e ela também batera uma forma metálica com força exagerada em uma mesa. Gina, que estava na cozinha com elas, bufou ao sentar-se na pia, a expressão entediada bastou para Hermione compreender.

Aquelas duas odiavam Fleur Delacour.

Hermione abriu o melhor de seus sorrisos desconfortáveis e, com o máximo de educação que seus pais lhe deram, pigarreou e respondeu:

– Somos amigos, Sra. Weasley. Eu sou de Londres e estou de passagem pela cidade.

– Ah claro, você me parece londrina mesmo... A cor de sua pele lhe denunciou, querida. — Molly respondeu com a expressão bondosa, Hermione corou levemente e continuou sorrindo. A senhora lhe olhou gentil e acenou com a cabeça, a advogada sentiu-se incomodada por estar sendo tão bem tratada por uma mulher que seria sua “inimiga” dentro de um tribunal.

Gina a observava com um olhar atento, a ruiva franziu a testa e, sem a menor cerimônia, perguntou:

– E vocês se conheceram como?

Hermione engoliu em seco enquanto seu cérebro começava a trabalhar rapidamente em busca de uma explicação para aquela pergunta. Não conhecia Bill a fundo e não sabia como respondê-la. Porém, não desviou seus olhos de Gina que parecia desconfiada. Molly, que estava de costas para as duas, bateu palmas e anunciou:

– Vamos continuar isso na mesa, o almoço vai ser servido, meninas!

Hermione era a única morena no meio das cabeças ruivas que ocupavam a mesa, na varanda, dos Weasleys. A advogada tinha uma leve impressão de como Fleur Delacour provavelmente se sentia quando estava com eles. Era como estar totalmente estranha dentro de um ninho ruivo.

Arthur Weasley, o patriarca da família, era alto e magro, estrutura física que ela passara aos filhos como herança. Os poucos cabelos que ainda possuía na cabeça tinham a mesma coloração avermelhada, mesmo que já estivesse desbotada pelos fios brancos. Os filhos, que se sentavam à mesa, eram Gina, Rony, os gêmeos, Charlie e o próprio Bill. Um dos filhos do meio, Percy, estava viajando pelo país, representando uma grande empresa de comunicação.

Pelas conversas que Hermione já escutara, Gina era a mais nova e estudara jornalismo. Quando ela e Harry se conheceram, provavelmente, ela estava terminando o estágio em Londres que mencionara anteriormente na conversa. Rony, que estava vermelho da cabeça aos pés desde que seus olhos reencontraram Hermione, trabalhava com os gêmeos em uma loja de souvenires que eles possuíam a beira da praia. Charlie era outro dos filhos viajantes dos Weasleys, estava de passagem, entre uma e outra das milhares de viagens que fazia como biólogo.

Os Weasleys pareciam uma família encantadora. Mas Hermione admitia que eles eram bastante amedrontadores. A união entre eles podia deixar qualquer um com medo, parecia que nada seria capaz de perturbar aquela aura familiar que os envolvia.

– Então, Hermione, como você e Bill se conheceram? — Arthur tinha um tom de voz bem mais ameno, diferente da inquisição empregada pela filha com a mesma pergunta. Hermione terminou de mastigar e engolir o delicioso cordeiro preparado pela Sra. Weasley e limpou os lábios. Trocou um olhar preocupado com Bill que, tomando um gole de sua cerveja, assumiu a questão:

– Nos conhecemos em Londres, em um pub, quando eu visitei Gina.

– Eu não me lembro de Hermione conosco no pub. — Gina comentou displicente, mas Hermione percebeu o olhar desconfiado e até um pouco ameaçador que foi lançado em sua direção. A advogada, que não era conhecida por sua covardia, semicerrou os olhos e, defensiva, sibilou venenosamente:

– Eu e Gina temos um amigo em comum, Harry Potter. Ele que me apresentou a Bill.

Primeiramente, Gina demonstrou surpresa ao escutar o nome do rapaz, depois, demonstrou ainda mais curiosidade e desconfiança. Ela franziu a testa diante das aparentes inocentes palavras, mas que carregavam a ameaça de trazer seu caso com Harry à tona para sua família superprotetora. Hermione sabia que colocava ainda mais fogo nas dúvidas da jovem ruiva, mas não podia recuar diante da série de ameaças disfarçadas que Gina lhe enviara desde que pisara na casa dos Weasleys.

Os componentes da mesa estavam mais preocupados com seus respectivos pratos para repararem na troca de faíscas entre Hermione e Gina, apenas Bill percebeu e disfarçou a risada com um acesso de tosse. O rapaz estava satisfeito, conseguia enxergar algo crescendo dentro de Hermione, algo que, com certeza, faria com que ela ficasse.

Hermione, por sua vez, estava tendo dificuldades em lidar com a dubiedade de sentimentos que aquela família lhe entregava. Por mais bem recepcionada que fosse, ainda sentia que precisava da aprovação deles para se provar digna de pertencer àquela família. E, pelo que conhecia da história de Bill e Fleur, a francesa parecia ter feito muito pelo estabelecimento nos Weasleys. Tanto que, qualquer situação desagradável que ela fizera, poderia ser facilmente esquecida.

Já provara do gênio difícil de Fleur Delacour, mas ela ainda parecia ser merecedora do que estava lutando para conseguir.

– Eu realmente fico feliz de Bill estar conhecendo novas pessoas, ainda mais, garotas britânicas tão educadas e auto-suficientes. — Molly comentou com um sorriso orgulhoso em direção ao primogênito, Bill sorriu de lado de forma desconfortável e Hermione corou levemente. — Apesar de que eu ainda lhe acho muito nova para ele.

– Nós somos somente amigos, mamãe. — Bill respondeu levemente irritado, trocando um olhar incomodado com Hermione que corava totalmente naquele momento. Gina ainda a olhava, cética. Molly e Arthur riram longamente, deixando Bill e Hermione ainda mais envergonhados, a matriarca retomou o ar após uma longa gargalhada espalhafatosa e comentou sugestiva:

– Ah isso não deixa de ser um empecilho, Rony ainda está solteiro.

O sexto filho dos Weasleys, que estava com a boca cheia de batatas assadas, engasgou-se e precisou de fortes tapas nas costas de Charlie para finalmente conseguir se recuperar. Gina riu do embaraço do irmão que tinha lágrimas nos olhos vermelhos e vermelhidão tomando suas bochechas. Ambos os gêmeos reviraram os olhos e um deles bronqueou:

– Mamãe, por favor, pare de nos envergonhar.

– Além do mais, Hermione parece ser o tipo de mulher que assusta Rony. — O outro gêmeo comentou em tom de voz jocoso, Hermione não conseguiu suprimir o pequeno sorriso no canto de seus lábios quando constatou que realmente assustaria não só Rony, mas como todos os Weasleys se eles conhecessem a sua vida. A mesa toda ria do jovem que, irritado, terminou de comer entre batidas de talheres até levantar-se da mesa com seu prato e entrar na casa.

Os gêmeos se entreolharam, depois olharam risonhos para Hermione. A advogada retribuiu os sorrisos dele e os escutou:

– Ele só saiu daqui porque já está muito apaixonado por você.

Gina gargalhou diante do embaraço do irmão e voltou a se concentrar em seu prato, assim como os outros. Hermione e Bill trocaram mais um olhar de completo entendimento, o ruivo sorriu de lado antes de voltar a comer.

# # # # #

Bill e Hermione estavam de volta à rua, depois da sobremesa e das despedidas e pedidos de retorno de Molly. Os dois caminhavam lado a lado, Bill tinha oferecido o braço para Hermione, mais uma vez, e esta o segurava delicadamente. O casal andava lentamente, nenhum dos dois falava.

Já era final de tarde em Ottery St. Catchpole e o movimento era quase nulo nas ruas. Os lampiões elétricos eram acesos, conforme a noite caía e o clima tornava-se mais frio. Hermione observava a tranqüilidade da pequena cidade e respirava de seu ar litorâneo enquanto estava imersa em seus pensamentos elétricos e acelerados, dentro de sua mente.

Bill dera uma cartada de mestre ao levá-la, de surpresa, para aquele almoço com a família. Os Weasleys não eram maldosos, entretanto, estavam sendo injustos com Fleur Delacour. Na verdade, somente Gina e Molly pareciam ser capazes de realizar algum comentário maldoso e irônico a respeito da francesa, os outros homens pareciam satisfeitos com a jovem ou estavam embriagados pela beleza indiscutível dela, o que também era possível.

Hermione não tolerava injustiças, era por isso que cursara Direito. A advogada não gostava de enxergar as diferenças entre as pessoas e era por isso que estava na área, se pudesse trazer um pouco de justiça a vida de poucas pessoas, ela assim o faria. Agora, depois daquele almoço, ela estava inflamada pela vontade de resolver aquela situação da melhor forma possível para ambos os lados. Naquele momento, compreendeu que Bill não queria, somente, uma acessoria jurídica para Fleur. Ele queria uma conciliadora.

Já não importava tanto assim escutar o que Bill tinha para dizer. Ela estava decidida.

– Você passou corajosamente pelo almoço conosco, Hermione... Meus parabéns. — Bill comentou com a expressão divertida, provavelmente, ele estava lembrando-se do pequeno confronto entre ela e Gina na mesa. A própria Hermione sorriu para ele, levemente envergonhada. — Está na hora de eu lhe contar o meu lado da história.

– Não precisa contar se estiver desconfortável com isso, Bill... — Hermione sugeriu com um sorriso bondoso e olhos de um brilho leve, situações que Bill não presenciara na forte e decidida advogada que conhecera naqueles dois dias, a mudança já estava perceptível nas atitudes dela. O ruivo riu, de forma mais fria que o esperado e fez Hermione olhar para ele, preocupada. Em seguida, respondeu com ironia:

– E correr o risco de você não aceitar participar dessa confusão? Claro que não.

Hermione ficou quieta, o silêncio parecia ser o melhor encorajamento que ela podia dar a Bill. O ruivo estava dividido entre a agonia de segurar certas coisas por tanto tempo e o medo de contar. A advogada olhou para ele e ofereceu o melhor de seus olhares compreensivos, tentando esconder a curiosidade que a inflamava em seu interior. Bill sorriu abertamente, feliz e caloroso, e disse calmo:

– Vou me separar de minha mulher porque estou apaixonado por outro homem, Hermione.

A advogada estava, de certa forma, preparada para aquela resposta. Algo do tipo parecia ser a única coisa que fazia sentido para que um homem resolvesse separar-se de Fleur Delacour, por mais que ela fosse uma mulher de gênio difícil. Então, Bill estranhou a passividade na expressão de Hermione. A advogada sorriu para ele e respondeu gentil:

– Eu já esperava alguma coisa do tipo.

– Dei muito na cara? — Bill perguntou divertido, com a postura mais leve, como se tivesse tirado um peso desconfortável de seus ombros. Hermione afagou o braço dele rapidamente e respondeu sincera:

– Pelo contrário. Apenas juntei algumas peças. Além do mais, nenhum homem racional seria capaz de abandonar uma mulher como a sua, por mais difícil que o gênio dela fosse.

Bill arqueou a sobrancelha para ela, ligeiramente desconfiado de suas palavras. Hermione desviou os olhos dele e voltou a focalizar-se no caminho a sua frente, Bill ainda a observava atentamente e, curioso, perguntou cuidadoso:

– Você é gay, Hermione?

Foi a vez de Hermione surpreendê-lo. A advogada, sempre séria e centrada, deu uma gargalhada gostosa e olhou entretida para ele. Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e murmurou:

– Hoje falaremos de você, lembra-se?

Bill sorriu para a astúcia dela e os dois aceleraram o passo, estavam próximos à praça da cidade. O ruivo sentia seu coração esquentar, ao mesmo tempo em que sentia certa cumplicidade surgir entre os dois. Era o início de uma troca de confiança e, por que não, de uma amizade?

– Eu e Fleur fomos felizes por três anos e meio... E eu não percebi o que estava acontecendo comigo até, de fato, acontecer. Eu o beijei em uma noite, por vontade própria e fui correspondido. — Bill continuou sua história com o olhar distante, vasculhando as memórias de seu passado. Havia certa dor em seu tom de voz, Hermione olhou preocupada para ele, mas se recolheu ao seu silêncio de ouvinte. Bill engoliu em seco, o nó formando-se em sua garganta ao mesmo tempo em que as lágrimas chegavam aos seus olhos. — Fleur é minha melhor amiga e ela percebeu antes de mim que algo estava diferente, ela viu tudo acontecer desde o começo. Foi ela quem me contou suas observações e eu neguei tudo, mesmo já tendo o beijado... Mas ela foi insistente e me fez enxergar a verdade. E quando eu achei que ela fosse me largar ou expor tudo isso a minha família... Ela me apoiou. Foi a maior prova de amor que eu recebi de alguém.

Hermione não soube o que falar. Não esperava esse tipo de atitude de uma pessoa que parecia ter a facilidade de ferir qualquer um que se aproximava sem sua devida aprovação. Fleur Delacour parecia ter muitas camadas a serem retiradas até chegar a sua verdadeira superfície. A advogada afagou o braço de Bill e ele olhou agradecido para ela, os olhos castanhos banhados por suas lágrimas seguradas corajosamente. Bill pigarreou e ajeitou o caminhar ao continuar:

– Fleur é, de certa forma, minha alma gêmea. Ela é o sangue do “La Petite Mort”, aquele restaurante é o que é por causa dela. Foi Fleur quem recriou o que tínhamos, ela quem ficava noites, sozinha, criando receitas e desenhando plantas durante a reforma enquanto eu vivia meu romance proibido. Eu levei o crédito pelo sucesso e o aceitei de bom grado, sem pensar nela... Eu não posso tirar isso dela, não é justo. A minha família não foi justa com ela. Eu não posso tirar mais, não quando eu já tirei cinco anos da vida dela, sendo um bom amigo e não o melhor dos maridos.

As palavras de Bill eram cheias de um remorso e de uma dor que pareciam imensuráveis e ela não soube como reagir, ela mesma tinha lágrimas reprimidas em seus olhos.

Ele e Hermione pararam de caminhar quando estavam, coincidentemente, na frente do restaurante. Bill olhou para o vidro da fachada e seus olhos foram do jovem garçom que os atendera na noite anterior para Fleur que fazia as contas no balcão da saída. Através do vidro, os olhos azuis de Fleur encontraram os olhos castanhos de Bill, a francesa fez uma careta quando constatou a presença de Hermione ao lado do marido, mas depois, abriu um delicado sorriso.

Bill separou-se de Hermione e, rapidamente, percorreu a pequena distância da calçada de pedras e interceptou a mulher com um abraço de urso. Hermione observava a cumplicidade entre os dois, envolto nos braços de Fleur, Bill permitiu-se desabar. As lágrimas caíam de seus olhos e ele tremia o corpo todo enquanto tinha os cabelos afagados pela francesa que, naquele momento, tinha a força de um ser invencível.

Receosa, Hermione aproximou-se dos dois e esperou que o momento passasse. Bill limpou os olhos, de costas para ela, e assumiu as contas do caixa. Os olhos azuis, tão viscerais, encontraram Hermione e Fleur fez um discreto aceno com a cabeça para a cozinha. A advogada a acompanhou a passos pesados e, quando olhou por cima dos ombros, viu o jovem garçom afagando o ombro de Bill de forma educada.

– O que ainda faz aqui, madeimoselle Granger? — Fleur perguntou sem rodeios, ela estava encostada em uma das bancadas da cozinha, os braços cruzados na altura do peito e os olhos animalescos, como sempre. Uma postura defensiva que não afugentou Hermione. A advogada parou a alguns metros de distância, impassível. — Acredito que não tenha mais assuntos a tratar na cidade, non?

– Eu vou ficar para ajudá-la. Não aceito uma negativa como resposta. — Hermione também foi intensa em sua resposta, Fleur arqueou a sobrancelha para ela, encantadoramente surpresa pela audácia da advogada. A francesa começou, novamente, o ritual de retirar o dólmã, desabotoando-o de costas para a advogada. Hermione encontrou-se completamente hipnotizada pelos movimentos de Fleur.

O silêncio reinou entre as duas durante esse tempo. Hermione procurou desviar seus olhos da figura feminina a sua frente, mas quanto mais lutava contra essa vontade, mais ela se tornava incontrolável. Fleur retirou o dólmã, revelando a camisa social, a qual dobrou as mangas e a calça jeans surrada. A francesa voltou a encarar Hermione, respirou fundo procurando a calma que parecia inexistente em seu emocional e disse séria:

– Eu não preciso de sua ajuda, já lhe disse.

– Senão quer fazer isso por você, faça pelo Bill. — Hermione contra-atacou fortemente, Fleur olhou chocada para ela, mas não teve tempo de resmungar algo. — Eu sei de toda a situação entre vocês, pelo menos, do lado dele da história. E estou motivada a ficar, por ele.

Fleur ficou calada, de cabeça baixa, ilegível. A francesa remexeu nos cabelos loiros, as mãos trêmulas e nervosas. Hermione aproximou-se e, mais próxima, contemplou a chefe. Fleur percebeu o olhar sobre si e levantou o seu abruptamente, a intensidade elétrica azul novamente atingiu Hermione. A francesa suspirou e com o tom de voz surpreendentemente cansado, disse:

– Por favor, vá embora. Nós dois não precisamos de mais uma pessoa interferindo em nossas vidas.

– Eu sei que a senhorita quer protegê-lo, Miss Delacour. Mas ele também quer e só me chamou aqui para que eu possa protegê-la. — Hermione era boa em argumentos, os olhos azuis pareciam atentos as suas palavras naquele momento e ela corou, imperceptivelmente. — Você não precisa perder tudo, de nada vai valer, para Bill, a felicidade dele se você não for igualmente feliz.

Hermione achou que a vulnerabilidade que Fleur passou a ela naqueles minutos fosse um sinal de abertura, mas não era. A francesa voltou a se afastar dela e, fria, resmungou:

– Como eu disse, não preciso de ninguém para me proteger.

– Eu vou ficar, a senhorita não vai conseguir me mandar embora. — Hermione resmungou de volta, impaciente e com os olhos faiscando, quentes. Fleur a olhou profundamente e, irônica, resmungou:

– Então, espero que seja paciente, madeimoselle Granger.

– Acredite, paciência é uma das minhas melhores virtudes. — Hermione respondeu com um sorriso irônico e, novamente, a sobrancelha arqueada e a expressão divertida estavam no rosto de Fleur. Era um desafio. — E a senhorita aprenderá isso da pior forma, madeimoselle Delacour.

Com um aceno, Hermione saiu da cozinha. Fleur ficou atônita observando a porta. O seu interior estava quente e ela sequer percebera que seus punhos estavam fechados aos lados de seu corpo. Fleur bufou silenciosamente e passou as mãos sobre o rosto.

Aquela advogada londrina estava tirando-a do sério.

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Hermione era muito racional, mas a teimosia de Fleur estava quase fazendo com que ela gritasse furiosa e esmurrasse alguma coisa.

A advogada passou pela recepção de seu hotel caminhando rapidamente, subiu as escadas com passos exageradamente pesados. Estava irritada e precisava de um banho frio. E, quando chegou ao corredor de seu quarto, mal reparou na figura sentada e escorada à porta de seu quarto. Hermione quase passou direto pela porta quando a voz sonolenta resmungou:

– Mione?

– Harry? — Hermione perguntou confusa, olhando para baixo e dando de cara com o amigo que se levantava. A advogada jogou-se no braço do amigo o abraçando com força, Harry percebeu que ela não estava nada bem. O rapaz apertou a amiga em seus braços e, com um sorriso, disse:

– Sua ligação me pareceu um silencioso pedido de socorro.

Hermione sorriu, a raiva e a fúria estavam, lentamente, esfumaçando-se em seu interior.

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Notas finais
E aí? Gostaram? Continuem comentando! Espero comentários... Beijos e até a próxima, FerRedfield