La Petite Mort

18 O passado e seus fardos - Parte II


Notas iniciais
Boa noite! Sei que não existe perdão e nem justificativa para toda essa demora em atualizar LMP... Eu estive em bloqueio com essa história, mas, felizmente, ele parece ter passado. Por isso, esse capítulo é bem intenso. Traz muito de relações familiares e do passado de Fleur... Espero que gostem, leiam-no ao som de "Foreigner's God" do Hozier e de "Be The Song" do Foy Vance. Espero que gostem!

Fleur Delacour encontrava-se em estado de choque. A irmã era sua e a surpresa também, mas ela mal conseguiu se mexer e Hermione, que estava tão surpresa quanto ela, mas ainda mais racional e controlada, teve a decência de terminar de abrir a porta e convidar Gabrielle para entrar.

A francesa não precisou olhar uma segunda vez para Hermione para perceber que toda aquela luz e aquele calor que a circundavam haviam sido substituídos por uma aura fria e obscura. Cada gesto dela denunciava isso, cada olhar e cada palavra não-dita que se perdia quando contato visual entre elas era quebrado... Fleur sentiu os sentimentos amargos da morena em sua própria pele. Quando Hermione se afastou, mais emocionalmente do que fisicamente, da cena que se desenrolava com Gabrielle, a francesa soube que não seria fácil voltar ao que elas estavam anteriormente.

Era como se Hermione tivesse se excluído e, por conseqüência, tivesse excluído a própria Fleur de sua vida. Pelo menos, naquele momento, Fleur não se sentiu bem vinda nos domínios da morena.

Uma decepção oriunda de uma quebra de confiança era justamente o que Hermione pedira para que ela não fizesse. Fleur sentiu sua garganta se apertar enquanto a perda começava a castigar seu peito, esmagando-o de encontro às costelas. Ela ofegou e respirou profundamente, procurando pelo ar que se perdera... Fleur olhou firmemente para Hermione e ignorou a irmã, indo de encontro a ela.

— Hermione, eu... — Fleur gaguejou um pedido de desculpas que jamais saiu de sua garganta, esta estava totalmente vedada pela vergonha que sentia de sua covardia. E, também, pela vergonha do seu passado assombrando-a de maneira tão exigente em seu presente. Hermione jamais a perdoaria, muito menos quando soubesse o que escondia. A morena ergueu os olhos, olhando-a, finalmente. E foi esse olhar que terminou de calar as palavras sôfregas de Fleur.

Hermione olhou para Fleur por breves segundos, os olhos castanhos sempre tão misteriosos e intensos estavam úmidos e distantes. A advogada respirou profundamente e, discretamente, deu um passo para trás, colocando uma distância segura e desconhecida entre elas, a morena pigarreou e, de forma seca e impessoal, disse:

— Coloque o assunto em dia com a sua irmã, eu vou dar uma volta.

— Por favor, você não precisa sair daqui... Esse é seu apartamento. — Fleur justificou-se, ferida pelo tom acusatório de Hermione. A morena agitou a cabeça negativamente, um sorriso irônico e inquieto brotando em seus lábios carnudos. Hermione mexeu nos cabelos castanhos e, friamente, tornou a responder:

— Eu não posso ficar no mesmo cômodo com você, Fleur. Não depois disso que eu acabei de descobrir.

Fleur ficou tão atônita que não teve como responder essas palavras. Contentou-se em observar, calada e paralisada, Hermione desaparecer de seu campo de visão, apanhar um casaco e sair do apartamento. Gabrielle olhou da morena para a irmã, um crepe a meio caminho da boca e a expressão desconcertada, típica de uma criança pega fazendo uma travessura.

A porta bateu e o silêncio perdurou.

Fleur levou as duas mãos ao peito, exatamente sobre seu coração. Este batia de forma acelerada, motivado pela adrenalina que percorria as suas veias, produzida a partir da situação emocional a que fora exposta. A francesa o sentia debater-se de encontro aos ossos que protegiam seu coração totalmente ferido e desesperado, um perfeito retrato de como ela mesma estava do lado de fora, exposta a sua irmã.

Gabrielle tinha os olhos azuis cerúleos, iguais aos de Fleur, fixos na irmã mais velha. A caçula estava preocupada, ela jamais vira Fleur se comportar daquela forma diante de uma pessoa. Normalmente, Fleur não perdia discussões e, muito menos, dava a última palavra em uma despedida. A sua irmã mais velha da qual se lembrava era impositiva e até mesmo desagradável com seus pretendentes... Não existia passividade e melancolia na Fleur Delacour que ela vira pela última vez na França.

Quem era aquela garota? E o que fizera com sua irmã?

Antes mesmo que Gabrielle pudesse dar voz as suas dúvidas, Fleur saiu de seu torpor. Os olhos azuis entraram em foco e estavam felinos, furiosos. A mais velha caminhou a passos pesados até onde Gabrielle estava acomodada na mesa, não fez questão de sentar-se. Olhou para a caçula de cima e, ferida e irracional, vociferou:

— O que você está fazendo aqui, Gabrielle?!

— Vá com calma! Você não precisa descontar sua frustração em mim, seja lá o que aconteceu aqui, a culpa é sua! — Gabrielle se defendeu ao mesmo tempo em que atacava, a frustração banhou os olhos azuis tão parecidos com o de Fleur e ela, indignada com a recepção da irmã, depositou o crepe que comia violentamente no prato. Fleur não fraquejou ainda que seu coração estivesse espremido em seu peito, ela cruzou os braços e franziu as sobrancelhas a irmã. Gabrielle tampouco fraquejou o olhar, seus olhos brilhavam agressivos e prontos para a discussão. — Na verdade, você bem podia agradecer por ter sido eu a chegar aqui antes de maman!

— Não era nem para vocês terem me encontrado, Gabrielle! — Fleur explodiu, a dor e a preocupação em relação a Hermione impressa em seu tom de voz desesperado e incontido. A expressão da morena continuava nítida em sua mente, nublando todo o raciocínio de sua cabeça. Ela não precisava daqueles que a abandonaram e sim, daquela que a acolheu.

Gabrielle, por sua vez, tinha lágrimas teimosas umedecendo os seus olhos, mas, assim como Fleur, ela era uma Delacour e podia manter-se forte diante de uma discussão. A caçula suspirou e desviou os olhos da irmã, ela ficou em pé e se afastou. Olhou de lado para Fleur, evitando os olhos dela e, ferida, grunhiu:

— Como eu disse, sinta-se agraciada por eu tê-la encontrado primeiro. Maman está a menos de uma hora de nos encontrar e você sabe muito bem que não é nada inteligente entrar em uma discussão com Apolline Delacour sem, ao menos, ter a munição necessária para debater com ela!

Fleur sentiu o rubor preencher suas bochechas, ainda que sua irmã tenha sido inconseqüente em procurá-la daquela forma, ela mesma não dera muitas opções visto que ignorara todas as ligações destinadas a ela. Gabrielle, como sempre, estava sendo protetora do seu jeito estabanado e atrapalhado. Fleur não podia culpar a sua tentativa de ajudá-la, ainda que esta tivesse terminado com uma Hermione enfurecida e surpresa saindo do apartamento.

A chef optou pelo mais racional, resolveria um problema de cada vez, estava atolada até o pescoço com seu passado e ele estava influenciando em seu futuro. Enfrentaria o que quer que fosse, enfrentaria até mesmo Hermione se fosse preciso, mas não perderia a morena, aquilo sim estava fora de cogitação.

Nutrindo-se de uma energia quente que afastou a surpresa e a mágoa, Fleur baixou suas armas e sentou-se em frente à irmã. Gabrielle deixou o canto dos lábios erguer-se em um sorriso não exposto, a mais nova voltou a sentar-se e deu mais uma mordida em seu crepe. Fleur não pode deixar de sorrir para a expressão deliciosa de sua irmãzinha enquanto o mastigava, os olhos de Gabrielle se iluminaram e ela, logo após engolir o pedaço, murmurou:

— Ainda bem que você se sentou, tudo é chocante demais para ser escutado de pé!

— Estou acostumada com os dramas da família, Gabby... Sei muito bem lidar com eles. — Fleur respondeu levemente impaciente e curiosa, facetas que se acentuaram ainda mais quando ela viu Gabrielle agitar a cabeça negativamente, como se duvidasse de suas palavras. A chef franziu a testa para o comportamento levemente desesperado da irmã, Gabrielle apanhou as mãos da irmã por cima da mesa e respondeu:

— As coisas pioraram desde que você saiu de casa, Fleur... Tudo está uma bagunça na empresa, em casa e na nossa família. Maman contratou um detetive que lhe encontrou porque ela está realmente disposta a levá-la de volta à força!

Fleur não pode deixar de rir do desespero de Gabrielle. Desde quando a sua mãe achava que ainda podia exercer algum tipo de autoridade sobre ela? A partida de Fleur da França, na verdade, a sua fuga fora repleta de gritaria, discussões e brigas. A chef lembrara-se bem dos motivos que a levaram a fugir assim como também se lembrava das coisas que sua mãe, imersa na raiva e na decepção, lhe dissera. Por bastante tempo, Fleur preferiu acreditar que sua mãe não sabia o que dizia, mas depois de algum tempo, observando as interações da Família Weasley junto a Bill, assim como o próprio comportamento preocupado de seu ex-marido em relação a ela mesma, Fleur compreendeu que o que tinha na França não era família.

Entretanto, sua maior preocupação e seu maior arrependimento, desde que deixara sua terra natal era Gabrielle. Sua irmã mais nova era inocente e impulsiva demais para viver em um mundo determinadamente planejado e fruto de aparências que era, de fato, o universo dos Delacour. Gabrielle era espontânea e criativa e a grande preocupação de Fleur era de que as amarras de sua mãe se estendessem para ela.

Fleur arrependia-se por não ter sido mais forte para poder proteger sua irmã.

Porém, se ficasse, não conseguiria ser feliz... Não diante das condições que sua mãe, desde seu nascimento, estabelecera para ela. Fleur nascera para ser livre, ela culta e educada demais para permanecer na França. E, ainda que tivesse sido criada em meio ao luxo, era simples demais para as convenções sociais da Família Delacour.

Fleur respirou fundo, olhando para suas mãos entrelaçadas as mãos menores de Gabrielle. A caçula olhava ansiosa esperando uma resposta efusiva da irmã e sentindo-se confusa pela calma que a cercava, Gabrielle percebeu quão diferente a irmã estava e quanto todos aqueles anos a transformaram numa mulher ainda mais maravilhosa do que sua jovem irmã mais velha que ela sempre admirou, mesmo quando ela a abandonou. Não existia nada, naquele mundo, que pudesse romper a ligação que as duas possuíam.

Os sete anos que as separavam eram ainda mais evidentes naquele momento, Fleur era uma mulher adulta e estabelecida enquanto Gabrielle galgava os primeiros passos para tornar-se independente de sua família. Durante muito tempo, diante dos compromissos dos pais, Fleur fora mais mãe do que irmã e quando ela partira para a Inglaterra, Gabrielle fora a que mais sofrera e também a que mais insistira em reestabelecer uma comunicação. E cada silêncio de Fleur doía tanto nela quanto em sua irmãzinha.

Era irônico como a vida as juntava, novamente, diante de tanto caos e loucura. Mas, por outro lado, não era surpreendente... Não se podia esperar outra coisa vinda dos Delacour além dos dramas e tragédias.

Fleur afagou as mãos de sua irmã e, nutrindo-se de coragem para tentar afugentar o medo de perder Hermione e o asco em relação a sua mãe, perguntou:

— O que aconteceu na França, Gabby?

— Othon, ele aconteceu, Fleur. — Gabrielle respondeu de forma sombria, a expressão dela contorceu-se em nojo enquanto Fleur, pela segunda vez naquele dia, chocou-se.

Ela deixara a França justamente por causa do seu primo, ela abandonara sua casa e sua terra para que ele não pudesse, de forma alguma, fazer mal a ela. Fleur deixara a França para se proteger justamente da ameaça que, agora, batia em sua porta.

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Bill estava particularmente irritado naquela manhã. Ainda que tudo tivesse corrido bem com seus pais e seus irmãos, ele não estava satisfeito com o que se desenrolava entre Gina, Cho e Harry. Isso e o silêncio de Fleur. Já fazia alguns dias desde que ela deixara Ottery St. Catchpole com Hermione e por mais que ele tivesse confiado-a plenamente à advogada, ainda sentia-se responsável o bastante por Fleur.

Aquele silêncio o preocupava porque ele não sabia, sequer, se podia rompê-lo. Ele não queria atrapalhar a provável felicidade que Fleur estava vivendo, mas queria contar a ela a respeito da própria... Por isso, diante da preocupação em relação a Gina e Fleur, ele mal conseguia segurar as pontas ali, no dinner que encontrava-se fechado.

Como expulsara Cho e Harry no dia anterior, Bill e Cedric estavam fazendo o levantamento do que possuíam na dispensa, assim como do que tinham na adega. A lista de mantimentos a serem comprados apenas crescia, assim como a frustração de Bill.

O ruivo acordara emburrado naquela semana e Cedric o conhecia bem demais para não se manifestar e nem tentar uma aproximação. Portanto, os dois trabalhavam em silêncio e de vez em quando trocavam olhares, Cedric oferecia um sorriso sempre que achasse necessário e Bill cedia naqueles curtos segundos.

Os dois estavam em um daqueles momentos, conversando por meio de olhares no silêncio do dinner fechado quando escutaram batidas na porta de vidro do estabelecimento. Bill deixou que a curiosidade modificasse os traços de seu rosto, todos na cidade sabiam que o dinner estava fechado até a volta da chef responsável. Depois da curiosidade, veio a frieza.

E se Harry fosse o dono das batidas? Bill realmente não sabia o que seria capaz de fazer com ele se esse fosse o caso.

Porém, a frieza abandonou as feições de Bill quando seus olhos reconheceram a pequena e gorducha figura através do vidro. Molly Weasley sorria grandemente e acenava efusivamente para o filho, apontando para um embrulho que trazia nos braços. Bill não pode deixar de rir para sua mãe tentando recuperar todo aquele tempo perdido, ele até mesmo correu para derrubar os últimos metros que o separavam da mãe e abriu a porta, tomou o embrulho das mãos da mãe e o cheiro do assado e dos legumes tomou seu olfato. Ele aspirou satisfeito antes de abraçar a mãe.

Aromas como aqueles rivalizavam com os aromas proporcionados por Fleur e suas comidas francesas. Se dependesse das duas mulheres, Bill estaria obeso.

— O que faz aqui, mamãe? — Bill perguntou animado, apertando a mãe em seus braços e escutando a risada rouca dela tomar conta do salão do dinner. O ruivo puxou-a para dentro, acomodando-a em uma das mesas. Molly olhou para o filho, o tipo de olhar que uma mãe saudosa dá, e respondeu:

— Vim oferecer um pouco dos meus dotes culinários a você e Fleur. E também bronqueá-los por estarem trabalhando até a essa hora sem almoçarem!

— Oh mamãe, Fleur não está aqui, infelizmente... — Bill respondeu com uma tristeza verdadeira em sua voz, seu coração apertado de saudade. A expressão de Molly sorriu tristemente e ela abaixou a cabeça, sentindo-se subitamente envergonhada. Bill, porém, não deixaria que a mãe se sentisse ainda mais culpada. — Ela viajou para Londres para resolver alguns problemas, mas Cedric está aqui me ajudando e eu acho que ele não faria objeção alguma de almoçar conosco.

Molly parecia um pouco insegura por conhecer o namorado de seu filho, mas tudo mudou quando um Cedric distraído chegou ao salão e ela, enfim, viu o sorriso apaixonado de seu filho. Bill sorria para Cedric que tinha as bochechas avermelhadas, o moreno tossiu e disse:

— Ahm, é... Desculpe. Eu não sabia que estava aqui, Sra. Weasley.

— Não precise se desculpar, querido... Bill já ia lhe chamar mesmo, sente-se conosco. — Molly deixou o temor de lado e assumiu aquela faceta acolhedora e gentil pela qual era conhecida. Cedric parecia preso ao chão e não se moveu, surpreso com a atitude da senhora. Bill observou, divertindo-se, quando Molly levantou-se da pesa e apanhou o braço de Cedric, arrastando-o para sentar ao seu lado na mesa. Cedric olhou de Bill, que sorria, para Molly que parecia ansiosa e disse:

— Acho que já sei de onde vem certas coisas de Bill.

Bill riu roucamente, sua risada preenchendo e refletindo-se nas paredes do dinner, Molly corou e deu um leve tapinha nas mãos de Cedric antes de abrir o embrulho, o próprio Cedric riu do comportamento da senhora que, discretamente, olhou de um rapaz para o outro, sentindo-se subitamente à vontade porque ali sentiu exatamente o tipo de amor que sentia em sua própria casa. O cheiro de assado distraiu o grupo e voltou a preencher o ambiente intensamente, Bill aspirou o aroma de forma faminta e murmurou:

— Que Fleur não fique sabendo disso, mas eu estava realmente sentindo falta disso!

— Prometo que serei um túmulo se puder comer pelo menos um pedaço disso tudo! — Cedric comentou divertido, olhando para a travessa que tinha carne e vegetais assados e ao molho. Bill voltou a rir e Molly suspirou aliviada por ter conseguido quebrar o gelo, a senhora olhou para os dois rapazes e disse brincalhona:

— Por favor, comam e não piorem a minha situação com Fleur! Esse almoço será o nosso segredo assim como tudo que vocês dois andaram falando!

Bill riu ainda mais e se aproximou da mãe, dando-lhe um beijo na têmpora. Cedric, como bom cavalheiro que era, beijou a mão de Molly e levantou-se, sumindo na adega e voltando com um vinho tinto extremamente doce que Fleur abominava. Bill franziu a testa para ele e Cedric deu de ombros, dizendo:

— Fleur me mandou jogar essa garrafa fora, mas eu realmente gosto de vinhos adocicados.

Molly riu do rapaz ao deixar a garrafa na mesa e o observou correr pelo dinner, apanhando pratos, talheres e taças de maneira hábil. Em algum momento, Molly desviou os olhos de Cedric e olhou para seu filho que tinha uma expressão apaixonada no rosto.

Não tinha por que aquele tipo de olhar ser errado, o sorriso que Bill carregava era o mais brilhante que ela havia visto em anos... Não tinha como nada, do que Cedric despertava em Bill ser errado. Aquilo tudo era amor e Molly não pode deixar de sentir-se orgulhosa de seu filho.

Bill encontrara exatamente o tipo de amor que ela, desde sempre, desejara a ele.

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— O que esse clochard fez, Gabrielle?! — Fleur vociferou ameaçadora e nervosa, olhando para irmã com os orbes azuis frios, exatamente como gelo. Gabrielle engoliu em seco e estava prestes a responder quando batidas foram escutadas na porta.

Fleur, ainda que imersa na raiva provocada pelas novas notícias, não pode deixar de sentir certo alívio e esperança ao pensar que Hermione poderia ter voltado. Por isso, ela caminhou rapidamente até a porta e abriu-a sem medo algum.

A expressão da chef transformou-se no exato momento em que ela viu quem era a dona das batidas, porém, ela não pode sequer manifestar a sua fúria porque a outra, tão parecida com ela e Gabrielle, a encarou com um sorriso repleto de escárnio... Os cabelos loiros e os olhos azuis, a mesma postura insaciável e vitoriosa, a mesma beleza que somente as Delacour possuíam. Fleur viu-se refletida nela, era como se tudo que adquirira de Bill, de Hermione, de Cedric e de todos em que encontrara abrigo na Inglaterra tivesse se perdido. Fleur não teve tempo de falar porque essa mulher, Apolline Delacour, disparou:

— Gabrielle não é tão boa assim em fugir sem deixar pistas.

— O que você faz aqui? — Fleur indagou irritada, já sabia a resposta, mas algo em seu interior esperava que sua mãe desse outra resposta que não envolvesse arranjos sociais ou financeiros. A chef esperava que sua mãe fosse, afinal, uma mãe. Apolline marchou para dentro do apartamento e Fleur apertou a madeira da porta, procurando canalizar toda a sua fúria. A mais velha olhou com desprezo a sua volta e respondeu:

— Vim aqui para acabar com essa palhaçada, Fleur Isabelle Delacour! É hora de voltarmos para casa.

— Para sua informação, ainda sou Fleur Isabelle Delacour Weasley. — Fleur rosnou, avançando para a mãe e a olhando de forma desafiadora, esperando que ela voltasse a ofender Bill. Entretanto, Apolline permaneceu olhando-a, ilegível e calada, Fleur estranhou o comportamento da mãe. Algo lhe dizia que, afinal, as coisas estavam feias demais na França. — E achei que tivesse deixado claro que não voltaria a pisar na França enquanto você ainda quisesse mandar em minha vida.

— Nós não temos tempo para isso, Fleur. Eu não vim aqui para discutir com você, por mais que seja muito aprazível jogar na sua cara tudo que você perdeu em troca disso... — Apolline tinha tanto desprezo e tanto escárnio na voz que provocou um revirar de olhos em Fleur. Gabrielle parecia estar em uma partida de tênis e olhava da mãe para a irmã, nervosa. — Ou nós todas voltamos para a França ou vamos, verdadeiramente, perder tudo.

O silêncio instalou-se entre mães e filhas porque, afinal, a intensidade dessas palavras finalmente pesou entre elas. Fleur observou sua mãe, elegantemente vestida e parecendo não pertencer ao apartamento simples de Hermione, olhar para ela com um pedido nos olhos que ela, jamais, diria em voz alta. Ainda que fosse orgulhosa, Apolline admitia que precisava da filha de volta. Porém, existia muita mágoa dentro de Fleur e ela, distraída, respondeu:

— Eu não tenho mais nada a ver com você ou com o que tínhamos na França, maman... Eu tenho um casamento aqui e, principalmente, tenho algo que posso chamar de meu. E não pretendo voltar aos seus domínios, merci.

Gabrielle abriu a boca, provavelmente para perguntar qual casamento, mas Fleur a calou com um olhar e a caçula, inquieta, voltou a comer seu crepe. Apolline semicerrou os olhos para a filha, completamente inquieta pelo comportamento teimoso dela e, irritada, disse:

— Por favor, Fleur. Deixe seus problemas comigo de lado. Se você não voltar à França e assumir o que, de fato, é seu, o stupide de seu primo vai nos tirar tudo!

— Othon e sua família não têm o poder de tirar a Cuisine Delacour de nós. Somos os descendentes diretos, se eu não assumir os negócios, Gabby pode. — Fleur estava, oficialmente, enojada pelo que recebia depois de tantos anos. Othon estava, de fato, alcançando tudo que queria. Gabrielle revirou os olhos para a probabilidade de ser a herdeira do “império” Delacour. Apolline finalmente deixara a máscara de frieza e desprezo cair, porém, era a raiva que habitava seu corpo quando ela esbravejou:

— Sua avó nomeou Othon como herdeiro se você não voltar à França.

Fleur sentiu-se como se tivesse sido apunhalada pelas costas. Sua tão amada e admirada avó, Éponine Delacour, que fundara a Cuisine Delacour e que sempre, em qualquer situação, deixara claro sua preferência e seu carinho por ela, Fleur, a traíra. Ela não podia entregar tudo a Othon, não quando fora Fleur que crescera correndo pelas cozinhas dos restaurantes e ajudando sua avó. A chef olhou incrédula para sua mãe e Apolline agitou a cabeça negativamente.

Apolline virou-se para Gabrielle e a caçula, imediatamente, largou a pequena porção que ainda restava de seu crepe. Gabrielle levantou-se da mesa e caminhou até a irmã, beijando-a na bochecha. Apolline permanecia fria e distante, esperando-a ao lado da porta. Gabrielle abriu a boca para falar algo com a irmã, mas a mãe disparou:

Laisser le prix amer de ses propers actions, Gabrielle! [Deixe-a amargar o preço de suas próprias ações, Gabrielle!]

Gabrielle olhou feio para a irmã, mas nem por isso deixou de obedecer à mãe. Fleur escutou os passos se afastarem até, por fim, desaparecem. Ela sentou-se na cadeira e apoiou o cotovelo na mesa, a mão sobre a testa e os olhos fechados, tentando esquecer-se de tudo que ouvira recentemente e procurando, sonhadoramente, voltar a bolha de alegria em que estivera presa com Hermione...

Minutos depois, mãos conhecidas massagearam seus cabelos loiros. Fleur sentiu-a se aproximar, ela cheirava à whisky e ainda assim, ao perfume amadeirado que a seduzira. Hermione beijou sua têmpora e murmurou em seu ouvido:

— Desculpe por antes... Eu estava nas escadas e acabei escutando tudo.

Pardon, eu deveria ter lhe contado! — Fleur murmurou sofregamente, tateando às cegas e encontrando a cintura de Hermione, abraçando-a de forma apertada e escondendo-se no corpo que ainda trazia um pouco do frio britânico para dentro do apartamento.

Hermione lembrou-se da promessa que fizera, de se jogar no que sentia por Fleur e do pensamento de que Fleur não era como Astoria. A morena se focou nisso diante do ar levemente ébrio que a envolvia, ela precisava da bebida para não deixar que sua razão colocasse tudo a perder diante de seu coração. Hermione afastou o rosto de Fleur de seu corpo, os olhos azuis estavam molhados e ela, levemente vermelha, chorava culpada. A morena beijou-lhe os lábios levemente e, sorrindo, disse:

— Você pode me contar tudo agora, estou mais calma.

Fleur mordeu os lábios, incrédula. Os olhos azuis, culpados e carentes, piscaram várias vezes. Hermione viu, dentro deles, o que Fleur escondia dela. A francesa suspirou... A morena era boa demais para ela.

Hermione, naquele momento, cedeu mais uma vez. Ela dividiu o peso da herança e do passado de Fleur. Ela permitiu-se carregar aquelas toneladas e manteve sua promessa.

Estava amando demais para, simplesmente, dizer adeus.

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Notas finais
Othon mal apareceu na história e já está sendo odiado, acertei? Hahahaha Quero ver o que sentirão quando souberem o que ele fez com a Fleur no passado :X E o que acharam de toda essa lealdade da Hermione? Acham que ela se mantém até o final? E nosso OTP gay, Cedric e Bill? *-* E caso queiram me acompanhar no Twitter, meu user é @RedfieldFer. Comentem, dêem sugestões, critiquem... Aguardo feedback! Prometo não demorar tanto assim, Até a próxima, FerRedfield.