Notas iniciais
Olá, pessoas! Tudo bem com vocês? Eu sei, já faz mais de seis meses que eu não atualizo "La Petite Mort" e eu realmente sinto muito por isso... Mas, todos aqueles problemas dos quais eu tanto falava nas demais notas voltaram e desabaram sobre mim. Eu precisei desse período para colocar as ideias no lugar e poder entregar o melhor nessa história, espero que me perdoem! No mais, voltamos a Inglaterra com Fleur e Hermione. Indico, para esse capítulo, três músicas: "Mystery of Love", Sufjan Stevens; "Gone, Gone Gone", Phillip Phillips e "At Your Side", The Corrs. Espero que gostem do capítulo, boa leitura!

A paisagem mudou da cidade para o campo e do campo para o litoral tal qual o aroma presente no ar deixou de ser poluente e passou a ser puro para, depois, trazer a maresia ao olfato de quem chegava a Ottery St. Catchpole. Fleur Delacour estava com saudades de sua terra natal ao deixar o pequeno povoado e, agora, quando voltava, surpreendia-se ao perceber que a visão daquele aglomerado de construções junto ao litoral acalentava o seu coração.

Ela nunca pensara que a Inglaterra pudesse tornar-se sua casa e jamais imaginara que naquele país diferente pudesse descansar os seus ossos e o seu coração, sem medo algum.

Fleur respirou fundo, sorvendo o aroma vindo do mar, ela também fechou os olhos e sorriu para o acelerar de seu coração leve, sentiu-se flutuar dentro do automóvel que a levava para a sua casa e procurou, com a sua mão, aquilo que a mantinha com os pés firmes no chão.

A sua mão, de dedos longos e ligeiramente calejados pelas panelas e o fogo que dominava, encontrou a mão menor e delicada de Hermione, que revirava papéis e redigia petições, a descansar no câmbio do carro automático alugado. A morena sobressaltou-se por apenas alguns segundos antes de envolver a mão que procurava a sua, com os olhos na estrada, Hermione retribuiu o sorriso e perguntou:

— Feliz?

— Muito mais do que eu estava quando deixei essa cidade. — Fleur respondeu com sinceridade antes de levar a mão que segurava muito mais do que a sua, os lábios finos encontraram a pele morena, beijando-a e entregando mais do que o carinho. Hermione ofegou, Fleur trouxe a mão dela para o seu colo, protegendo-a entre as suas. — Na verdade, muito mais do que eu já estive em qualquer momento da minha vida.

— Bill não ficaria muito feliz se escutasse isso... — Hermione respondeu envergonhada, as bochechas estavam coradas, entregando todo o seu embaraço por sentir e ser retribuída daquela forma. A advogada não estava acostumada com tais demonstrações de afeto, sabia amar em silêncio, mas, ser requisitada com tanta avidez era algo novo. Algo que aquecia o seu coração, algo que jamais tivera em sua vida. Fleur franziu a testa para as palavras da morena, girando o corpo de forma que observava o perfil de Hermione com ambos os olhos azuis cerúleos. A morena percebeu aquela mudança e voltou a sua mão protegida para o volante, remexendo-se no banco do carro. — O que foi?

— Eu não amo Bill da forma como eu amo você. — Fleur disse as palavras da forma mais simples possível, como se elas fossem tão triviais como um cumprimento educado em um dia qualquer. Elas já disseram aquilo mais de uma vez, assim como demonstraram infinitas vezes... Mas, ainda era diferente quando Hermione as escutava, ainda fazia a morena sentir como se fosse a primeira vez que as escutava da boca de Fleur.

As palavras possuíam uma força que muitas pessoas sequer imaginavam. Para Hermione, as palavras podiam significar uma defesa ou uma acusação quando estavam restritas ao seu trabalho, também significavam o abandono quando não eram ditas e, muitas vezes, a solidão quando eram faladas no silêncio de um quarto após uma noite qualquer de sexo. Durante os anos de sua vida, as palavras foram a fonte de seu dinheiro, o afastamento de seus pais e as desculpas de seu relacionamento falido com Astoria...

As palavras tiveram muitos significados, sobretudo, porque advinham da razão ou eram usadas, pela mesma, para justificar a ausência de um sentimento, como a coragem. Porém, raramente, as palavras foram usadas para descrever, de forma crua e verdadeira, um sentimento.

Até então. Até Fleur Delacour entrar na sua vida e usar as palavras para dizer quanto a amava em momentos cúmplices como aquele e quanto a desejava e a queria entre ofegares e suspiros em meios a lençóis, suor e sexo.

A intensidade das palavras da francesa, ditas por aquela voz rouca entrecortada pelo sotaque e pelas palavras de seu idioma natal, ainda pegavam Hermione de guarda baixa e ainda a faziam estremecer. O coração da advogada acelerava e tirava a sua respiração de qualquer freqüência respiratória... As palavras, instrumentos da racionalidade, tinham o poder de tirar a sua razão quando vindas da boca de Fleur.

— Dessa forma, eu acho que não fui ou que pudesse ser feliz com ele da forma como eu sou com você... — Dessa vez, Fleur sussurrou e, nem por isso, as palavras vieram com menor intensidade do que antes. Hermione foi pega por elas e, sobretudo, envolvida pelas mesmas. Astoria a amara em silêncio por tanto tempo e só resolvera dizer quando a perdera enquanto Fleur a amava para que o mundo visse e dizia, todos os dias, como se vivessem o último.

Como poderia resistir àquilo?

E pensar que elas começaram da forma errada, com palavras rudes e zombeteiras. Elas tinham tudo para não dar certo e, depois de tudo que passaram, estavam juntas, mais fortes do que nunca e do que Astoria e Hermione jamais seriam.

Era até errado pensar em Astoria, a partida da ex não significava nada depois da noite que Hermione tivera com Fleur.

As palavras eram companheiras de Hermione, mas, naquele momento, no interior daquele carro enquanto percorriam os poucos quilômetros que faltavam para Ottery St. Catchpole, elas falharam com a morena. As ações, contudo, não. Hermione não tinha medo em demonstrar o que sentia e, por isso, ela parou o carro alugado junto ao acostamento e suas mãos abandonaram o volante para guiarem-se até o corpo de Fleur.

As mãos pequenas encontraram o rosto belo e pálido, trazendo-o para perto. Fleur ofegou e foi nesse momento em que Hermione — tão cheia de palavras — entregou uma ação. A morena beijou a francesa, como se quisesse dizer tudo que estava engasgado em sua garganta naquele silêncio entremeado por suas respirações entrecortadas e suas bocas reconhecendo-se.

Ainda em silêncio, Fleur sorriu de encontro à boca de Hermione, segurando os pulsos que sustentavam o seu rosto. A morena tinha os olhos fechados quando a francesa, como se soubesse o que ela pensava naquela ausência de palavras, sussurrou:

— Leve-me para casa, mon amour.

Hermione sorriu quando religou o carro, a mão de Fleur encontrou a sua coxa e a morena, olhando para aquilo, suspirou realizada.

Nem todas as palavras que conhecia pareciam capazes de descrever o tamanho do amor que cabia naqueles atos. Nas proximidades de Ottery St. Catchpole, Hermione Granger não se preocupou com palavras.

Ela apanhou a mão daquela que enchia o seu coração e beijou-lhe a palma.

No silêncio, elas voltaram a dizer que se amavam. E aquele foi um dos poucos silêncios que não pesou e nem amargou o coração da morena.

A pequena cidade encravada ao litoral britânico tinha uma aura totalmente diferente de Londres e Paris. Enquanto as duas capitais viviam da velocidade, da pressa e o contínuo movimento de pessoas, Ottery St. Catchpole era feita de morosidade, de calmaria e, até mesmo, de uma preguiça pitoresca que era apaixonante. Era uma cidade única.

Fleur observou Hermione trancar o carro enquanto trocava o peso do corpo nos pés, ansiosa. Elas haviam estacionado em uma das ruas paralelas que levavam à praça central do povoado — a mesma em que se conheceram — e mesmo distante, Fleur conseguia discernir os contornos do La Petite Mort misteriosamente fechado.

A ansiedade que já habitava o corpo pálido e esguio intensificou-se, intrigada pelo fato do restaurante não manifestar sinais de vida em um horário tão próximo ao almoço e adiantadamente irritada pelo fato de Bill não conseguir, aparentemente, manter o funcionamento normal na ausência dela... Fleur não queria nem imaginar o que a esperava dentro do restaurante.

— Algum problema? — A voz de Hermione se fez presente em meio aos pensamentos e questionamentos de Fleur, a francesa crispou os lábios e respirou profundamente, colocando as mãos na cintura sem tirar os olhos do restaurante do outro lado da praça. O olhar castanho tomou a mesma direção e não precisou de uma resposta verbal de Fleur para que a morena entendesse do que se tratava. — Entendo... Não se preocupe antes da hora, Bill deve ter uma boa explicação para o que estamos vendo.

— É bom que ele tenha a melhor! — Fleur grunhiu irritadiça, tomando a frente e marchando pelas ruas desertar de Ottery St. Catchpole. Devido ao horário do almoço, não existiam muitas pessoas nas ruas, porém, os poucos habitantes que reconheceram a chef cumprimentaram-na e Hermione, contendo um sorriso, observou-a respondê-los educadamente enquanto lutava contra o próprio gênio furioso.

Hermione, imersa em sua observação, só despertou quando a própria Fleur, sentindo a sua falta, virou-se para buscá-la. A morena rapidamente percorreu a distância que as separava, agora, ambas estavam no meio da praça em que trocaram olhares no Festival Anual. Já fazia algum tempo, mas, parecia existir um resquício daquele momento especial ali. As duas pararam frente a frente, Fleur ainda ofegava e tinha os olhos elétricos enquanto Hermione tentava conter um sorriso que só queria arrebentar-lhe os lábios. A morena aproximou-se, invadindo o espaço pessoal da francesa e sussurrou:

— Prometa que não vai matá-lo quando o encontrar.

— Não posso prometer isso por...! — Fleur até tentou responder, porém, os lábios de Hermione tomaram os seus antes que as suas palavras pudessem ser ouvidas. A francesa correspondeu ao beijo imediatamente, segurando o rosto de Hermione em suas mãos enquanto a morena apertava a sua cintura, sorrindo em meio à carícia. As duas se afastaram, Fleur também sorria e beijou a testa de Hermione enquanto a morena sussurrava de encontro ao corpo esguio:

— Você precisa ser calada de vez em quando.

— Eu achei que você que tivesse um problema com excesso de verdades em uma sentença... — Fleur contra-argumentou forjando uma expressão ofendida que não chegava aos seus olhos que, agora, estavam cerúleos e calmos, como o mar. Hermione beliscou-lhe a cintura e beijou o queixo pálido, murmurando de encontro à pele:

— Você também tem os seus momentos e, de qualquer forma, não estou escutando reclamações em relação a minha interferência.

— Cheia de justificativas e explicações, por que eu fui me apaixonar por uma advogada? — A francesa reclamou com um sorriso nos lábios finos antes de ser empurrada por Hermione que, logo, puxou-a de volta para que pudessem percorrer a distância que faltava até o La Petite Mort, juntas.

A tensão abandonou o corpo de Fleur, ainda que a sua expressão permanecesse séria quando os seus olhos visualizavam as cortinas fechadas do restaurante. Entretanto, o calor do corpo de Hermione transmitia certa calmaria ao seu, assim como os olhos castanhos da morena amoleciam os seus... A francesa sorria a cada passo porque Hermione estava transformando-a em uma proprietária muito benevolente.

As duas finalmente chegaram à porta do La Petite Mort. A mão pálida rapidamente fechou-se na maçaneta e a girou, surpreendentemente, o local estava aberto e Fleur não vacilou em entrar no estabelecimento.

Porém, ela não encontrou funcionários apressados para ajeitar os últimos detalhes para a abertura no horário do almoço, tampouco, viu Cedric correndo com bandejas ou Bill vociferando ordens. Também não escutou sons na cozinha e nem sentiu o aroma de refeições sendo preparadas. Ela dera a ordem para que Bill abrisse o restaurante para que ela chegasse e pudesse trabalhar, contudo, o ruivo nunca fora bom em escutá-la, nem quando eram casados e, muito menos, quando eram parceiros de negócio.

O interior do La Petite Mort estava totalmente descaracterizado. As muitas mesas foram juntas e convertidas em uma longa, as cadeiras estavam dispostas ao redor. Os funcionários estavam espalhados pelo salão, muitos aplaudiam e os mais próximos adiantavam-se excitados. Sem que Fleur pudesse entender ou questionar o que haviam feito com o seu restaurante, ela se viu presa em um par de braços fortes repletos de um cheiro masculino que ela conhecia tão bem.

Todas as perguntas perderam a importância porque ela apertou Bill de encontro a si. A risada rouca dele misturou-se a sua e ele a girou no ar, ela reclamou, mas, ele a ignorou. Quando, finalmente, Fleur foi posta no chão e pode observá-lo direito, ele sorria enormemente ao lado de Cedric que se aproximara para beijar-lhe a testa. O casal lhe sorria, mas, foi Bill que, risonho, disse:

— Eu espero que você abandone a persona de chefe tirana e aproveite a pequena recepção que preparamos para comemorarmos a sua volta!

— Até posso abandonar essa parte, mas, continuo imaginando o tamanho do prejuízo que estamos tendo ao não abrirmos o restaurante em pleno horário de almoço! — Fleur respondeu, tentando parecer séria e falhando miseravelmente, o sorriso parecia explodir em sua boca enquanto ela sentia a familiaridade do local envolvê-la e abraçá-la.

Como era bom estar em casa.

— Quanto a isso, não se preocupe. A minha sogra tem nos ajudado e fizemos algumas noites especiais com culinária britânica enquanto esteve fora. Temos o bastante para nos permitirmos um bom dia de folga... — Cedric respondeu com o sorriso charmoso que tornava impossível negar qualquer coisa a ele.

As palavras dele surpreenderam Fleur, ela esperava certa melhora em sua relação com a ex-sogra, contudo, não imaginava que encontraria tamanha diferença naquela volta. A francesa lembrava-se do convite que recusara antes de voltar a Londres, porém, aquilo era novo e... Aliviante.

E como se Molly Weasley tivesse um sexto sentido — algo que Fleur acreditava imensamente depois dos anos de convivência e guerra com a matriarca — ela saiu da cozinha com as mãos na cintura e uma expressão reprovadora no rosto. A senhora sorriu maternalmente para Fleur e, destinando um olhar bronqueador ao filho, vociferou:

— Não deixe Fleur em pé, William Weasley! Traga-a para dentro e a acomode! E ligue para o seu pai e os seus irmãos, a comida logo estará pronta!

Fleur foi rapidamente puxada para dentro por Cedric e Bill, sendo abraçada imediatamente por Luna e cumprimentada à distância por Neville e Cho. A francesa sentou-se no meio da mesa e, imediatamente, procurou Hermione em toda aquela confusão inesperada no La Petite Mort. A morena manifestou-se ao seu lado, segurando uma taça de vinho branco e lhe susurrando:

— Eu achei que fosse precisar de álcool para lidar com tudo isso.

— Eu precisarei de mais para lidar com você mais tarde, mademoiselle Granger... Não ouse dizer que você não tem nada a ver com isso! — Fleur respondeu repleta de malícia, piscando um dos olhos azuis antes de tomar um gole do vinho branco. Hermione engoliu em seco, sentando-se ao lado dela com uma expressão que tentava dissimular o que sentia. Uma das mãos de Fleur pousou sobre a perna morena e Hermione respirou fundo, a francesa sorriu para o efeito que provocara e aproximou-se. — A propósito, eu não vejo a hora de mostrar quão grata eu sou por tudo que você faz por mim... Não sei se mereço.

A voz de Fleur perdera toda a sensualidade que, até então, exalara. Hermione virou-se para ela e os olhos se encontraram, calmos em meio à conversa que as cercava. Hermione beijou a têmpora pálida e murmurou:

— Você merece tudo.

As duas só separaram quando outro casal sentou-se em frente a elas, com uma imensa bandeja repleta de queijos, pães, presuntos, picles e ovos — o Ploughman’s Lunch — Cedric e Bill já mastigavam e Hermione já se adiantava para o prato. Fleur observou os três e suspirou antes de garfar um pedaço de queijo e levá-lo aos lábios.

O sabor forte do queijo não conseguiu disfarçar a doçura que Fleur sentia em cada pedaço de si, não somente em seu paladar, mas, em seu olfato e visão. Ela nunca fora muito adepta do doce, talvez, porque não o tivesse entendido perfeitamente até então.

O doce não era viciante e sim, extasiante. O sabor que abria sorrisos e libertava suspiros, era o sabor daqueles que amavam e essencialmente, daqueles que eram felizes.

Harry Potter estava nervoso, ele não sabia o que esperava no interior do La Petite Mort e, provavelmente, essa incerteza o paralisara em frente às portas do restaurante. Através dos vidros, ele conseguia enxergar e até mesmo sentir a alegria pungente de quem chegara e de quem recebia. Claro que ele estava sentindo saudade de sua melhor amiga, mas, não era somente ela quem estava ali dentro.

Por mais que Harry tivesse Gina ao seu lado, era Cho quem estava lá dentro. Provavelmente, magoada e decepcionada com a sua atitude enquanto ele não se arrependia, nem um pouco, da decisão que tomara.

A caçula Weasley não era perfeita — muito pelo contrário — e também não era fácil de lidar como Cho era, porém, era Gina que detinha o seu coração. Os dois começaram de forma errada e continuaram colecionando uma infinidade de desentendimentos, entretanto, o que sentiam um pelo outro falava mais alto do que todos os mal-entendidos. Eles se amavam, isso bastava.

Ou, pelo menos, deveria bastar.

— O que foi? — A voz curiosa de Gina interrompeu a profusão de pensamentos que ocupava a mente de Harry em frente ao restaurante. O rapaz suspirou, tentando encontrar as melhores palavras para fazer a ruiva entendê-lo ou, pelo menos, perdoá-lo. Ele tinha plena consciência do que fizera às duas garotas, contudo, enfrentar as conseqüências de suas atitudes era muito mais difícil do que, simplesmente, reconhecer a natureza delas. Harry fez menção de colocar as mãos nos bolsos da calça jeans que usava, mas, Gina foi mais rápida do que ele, trazendo a sua mão para as suas. Ele sorriu para o entrelaçamento seu e dela e respondeu sincero:

— Eu não sei se estou pronto para enfrentar o que possa estar me esperando lá dentro...

Os olhos verdes procuraram Cho involuntariamente, encontrando-a em pé, com a mão apoiada no encosto da cadeira de Cedric, rindo de algo que Fleur contava, com uma taça de vinho tinto em mãos. A asiática parecia feliz e satisfeita, caso não estivesse, estava dissimulando muito bem. Ela também parecia muito mais madura do que o próprio Harry e Gina.

— Ah, entendi... — Gina murmurou baixinho, atraindo a atenção de Harry que, alarmado, pensou que ela tivesse entendido as coisas da pior forma possível. Mas, a ruiva o surpreendeu com um sorriso e os olhos castanhos amenos. Ela não brincara quando dissera que tentaria ser o melhor para ele naquela vez. Gina suspirou, apertando a mão dela. Por mais que Harry conseguisse enxergar um tênue ressentimento no castanho, a ruiva não parecia irritada ou furiosa... Ela continuava a sorrir e Harry continuava a perder-se nela. — Você é um cara sensacional, sabia? Eu realmente não sei como consegui você de volta...

— Pare com isso, Gina... Nós dois sabemos que muito dessa confusão foi causada pela minha imaturidade. — Harry respondeu na defensiva, tentando esconder-se dos próprios erros que ruborizaram o seu rosto e afastaram o seu olhar de Gina. A ruiva revirou os olhos para esse comportamento, ela sabia muito bem qual era a sua porção em toda aquela situação e que essa era grande, fora ela que tirara Harry do sério. Ela não mentia quando dizia que não sabia como conseguira fazê-lo permanecer em sua vida.

Harry Potter era intuitivo e, no limite, explosivo, mas, ele era diferente. Não eram poucas pessoas que sabiam e percebiam isso. O moreno tinha uma capacidade absurda de atrair pessoas e de fazê-las permanecer em sua vida, assim como também era dono de uma paciência e de uma bondade admiráveis. Essas qualidades especiais refletiam em suas relações, fraternais ou não. Ele errava como qualquer um, mas, as intenções em seus erros eram boas e verdadeiras.

O casal não quebrava o contato visual, Gina não sabia o que dizer, sentia-se culpada pelos erros que ele cometera enquanto Harry tinha consciência de cada um deles, mesmo que não soubesse como remediá-los. Ambos eram teimosos e aquele conflito tendia a perdurar por mais alguns segundos se não fosse a porta do La Petite Mort abrindo-se e surpreendendo aos dois.

— Vocês não vão entrar? Fleur e Hermione já perguntaram de vocês... — Cho Chang tinha um rubor indisfarsável no rosto, porém, trazia um sorriso levemente desconcertado e gentileza nos olhos escuros. O casal olhou para ela, sem saber como reagir enquanto ela permanecia firme, mantendo a compostura. A asiática riu de cabeça baixa e acenou para o restaurante. — Está tudo bem, não tem espaço para muita coisa que não seja boa no dia de hoje.

— Cho, eu...! — Harry até ensaiou um pedido de desculpas, mas, foi interrompido pelo acenar negativo de Cho. A asiática permanecia com um sorriso, ainda que os seus olhos estivessem brilhando um pouco mais do que o normal. Gina olhava de um para o outro, até que ela permaneceu na outra. As duas se conheciam há anos... Era impossível não sentir-se culpada pela tristeza que enxergava nos olhos dela, mesmo diante de tamanho sorriso gentil. A ruiva abaixou a cabeça, envergonhada e Cho pigarreou, antes de dizer:

— Eu estou feliz por vocês, de verdade. Não tinha como competir com o que vocês possuíam.

O casal não teve como competir com tal constatação. Gina sorriu branda para Cho, acenando em entendimento para a asiática que a retribuiu antes de entrar no restaurante e deixar a porta aberta. Harry manteve-se no lugar, sentindo a tristeza velada de Cho pesando sobre os seus ombros. Contudo, a ruiva beijou-lhe o ombro e, tão desencorajada disse:

— Eu estou pronta quando você estiver.

E mesmo que as palavras dela não fossem de encorajamento, funcionaram dessa forma para Harry. Ele firmou o aperto na mão dela e guiou-a para o interior do La Petite Mort. Harry não sabia o que esperar de Hermione quanto as suas decisões, mas, a sua melhor amiga dera um bom exemplo de como largar tudo em favor de um sentimento, justamente ela que sempre fora tão racional, portanto, ele esperava que ela o compreendesse da forma que ele a compreendera. Esperava muita coisa de Hermione, menos o abandono. Por mais que ela não aprovasse, ela não o deixaria — ela até poderia ficar com comentários maldosos e desaprovadoras, mas, não o deixaria -, a amizade dos dois passara por muita coisa para acabar porque os dois encontraram as pessoas com as quais esperavam terminar a vida. Harry e Hermione eram maiores do que isso.

Adentrar no La Petite Mort foi como entrar na casa de uma família, uma das grandes. O local estava mais quente do que o lado de fora, com conversas misturando-se umas às outras e sorrisos perpetuando na maioria dos rostos ali dentro. Harry sentiu-se abraçado por aquela atmosfera, algo que não tivera com os tios que o criaram, e, que encontrara no padrinho já falecido. Era uma sensação experimentada poucas vezes e por poucos durante a vida.

Era como voltar para casa depois de muito tempo perambulando pelo mundo.

Hermione encontrava-se distante dele, próxima à cozinha, imersa em uma conversa com um dos irmãos de Gina, Harry acreditava que aquele era Percy. A morena tinha uma taça de vinho em mãos, o que era surpreendente para uma britânica como ela que freqüentava pubs como se fossem a sua segunda casa. E, mesmo àquela distância, ele percebeu as diferenças nela.

A advogada estava mais relaxada, até sorria. A postura dela toda evidenciava que ela estava satisfeita com o que quer que tivesse conquistado. A forma como ela sorria para Percy também deixava claro que ela estava feliz, de tal forma que era incapaz de conter tudo dentro de si. Porém, foi como ela reagiu a Fleur que fez Harry sorrir enormemente.

As duas mal se tocaram e o corpo de Hermione já procurou por Fleur. A chef chegara por trás da morena e, imediatamente, os contornos dela se encaixaram ao da recém-chegada. Uma das mãos de Fleur apoiou-se na cintura delgada de Hermione, a francesa também tinha um sorriso ao olhar, rapidamente, para a britânica.

A cumplicidade entre elas era perceptível, assim como o sentimento que elas dividiam. Harry vira Hermione transitar aos tropeções por um amor unilateral e tóxico, ele estava em todos os momentos de tristeza e decepções, fora ele quem cuidara das noites de choro sem fim e das manhãs de ressaca emocional e alcoólica. Harry conhecera as piores facetas de Hermione e era por isso que estava tão feliz diante do que via.

Ele jamais presenciara tamanho amor nos olhos de sua melhor amiga. Era como se ele enxergasse o próprio reflexo nela.

— Harry! Gina! Até que enfim! — A voz animada e trovejante de Rony falou acima das outras, quase que imediatamente, o casal sentiu-se abraçado pelo outro ruivo que já trazia uma caneca de cerveja para Harry. O moreno a aceitou, ainda envergonhado e temeroso, contudo, foi poupado de responder porque Gina se adiantou e respondeu sarcástica ao irmão:

— Não é para tanto, você nos viu agorinha, Ronald!

— Porém, eu os vi, sozinho, e não no meio disso aqui! — Rony respondeu animado, gesticulando para o salão do restaurante. Gina e Harry cumprimentaram todos aqueles que os seus olhos alcançaram, Cho abaixou a cabeça antes de afastar-se deles, indo para a extremidade oposta da mesa, próxima a Hermione e Fleur e ao lado de Luna. Gina empurrou o irmão levemente e sorriu para ele, antes de responder:

— Eu estava brincando contigo, eu sei o que sente... Por isso, vamos aproveitar essa felicidade e arranjar uma bebida para a sua irmã, sim?

Rony, surpreendentemente, sorriu para ela antes de abraçá-la e correr para a cozinha. O casal o observou, rindo enquanto se viravam para a mesa enorme à procura de algum lugar para sentarem. Contudo, antes que pudessem movimentar-se, a voz de Fleur chegou até eles:

— Eu achei que não viessem, Mousieur Potter e Mademoiselle Weasley...

— E perder uma refeição preparada pela minha mãe? Você realmente não me conhece, Delacour... — Gina respondeu divertida, trazendo um sorriso aos lábios finos da francesa que logo se adiantou, cumprimentando-os com beijinhos no rosto. Hermione vinha atrás dela, dividindo-se entre o acanhamento e a incerteza de como agir. A felicidade, provavelmente, falara mais alto porque a morena disse sarcástica:

— E eu esperando que as pessoas viessem para cá por causa da nossa volta!

— Vocês são acompanhamentos, belos acompanhamentos, para uma refeição feita pela Sra. Weasley. — Harry respondeu com sorriso nervoso, surpreso pelo humor da melhor amiga ao mesmo tempo em que não sabia o que esperar em seguida. Os olhos castanhos de Hermione encontraram-no e ele se encolheu, não estavam frios, tampouco, amistosos.

Ele teria que enfrentá-la e não sabia muito bem se seria repreendido pelo seu comportamento em relação a Cho e Gina ou pela forma como abandonara o escritório em Londres.

Rony voltou a interrompê-los apenas para entregar uma taça de vinho branco para Gina e olhar, descaradamente, para o casal recém-chegado à cidade. Fleur enlaçou a cintura de Hermione possessivamente e arqueou a sobrancelha quase prateada para o ruivo, a expressão visivelmente ameaçadora. Gina sufocou uma risada, Rony corou até as orelhas e gaguejou algo antes de sair de perto deles enquanto Harry ria baixinho, antes de levar a caneca de cerveja aos lábios.

Hermione riu abertamente quando Rony partiu e deu uma cotovelada brincalhona nas costelas de Fleur que fez uma careta de dor, mas, aproximou-se para roubar um beijo de seus lábios. Harry observava as duas com uma adoração genuína que logo se transformou em silencioso desespero ao ver Hermione cochichar algo no ouvido de Fleur. Logo depois, a morena sorriu para Gina e pediu educadamente:

— Será que vocês podem me deixar a sós com o Harry por alguns minutinhos?

A francesa e a ruiva logo os deixaram, Gina ainda arrumou um segundo para sorrir encorajadora para Harry antes de deixá-lo. E assim que elas se afastaram, o moreno sentiu, imediatamente, os olhos julgadores da melhor amiga sobre si. Contudo, parecia que a reprovação dela estava menos intensa do que ele esperava, Harry virou-se para ela e ainda que o desagrado distorcesse as feições de Hermione, a felicidade que ela exalava perto e junto a Fleur ainda estava presente.

Era isso que parecia estar ao seu favor naquele momento.

Os dois amigos ficaram em silêncio, Harry não tinha coragem de iniciar aquela conversa porque sabia que não existia muito ao seu favor para que ele não dissesse a coisa errada enquanto Hermione esperava, de verdade, que o amigo tivesse coragem para explicar tudo o que ele fizera questão de deixar no ar durante a sua viagem a França. Porém, ela o conhecia bem demais para saber que, naquele momento, ele tinha medo de sua reação. Por isso, Hermione pigarreou e comentou com certa ironia na voz:

— Não tem nada a me dizer?

— E-eu estou muito feliz de vê-la de novo. — As palavras saíram mais sufocadas do que Harry gostaria, mas, eram cheias de sinceridade. Ele finalmente virou-se para a amiga e a olhou, os olhos castanhos estavam mais amenos, quase que compreensivos. Harry colocou a caneca de cerveja sobre a mesa mais próxima e respirou fundo, levando as mãos aos bolsos da calça. — E eu sinto muito pelo escritório. Eu precisava voltar para cá e ajeitar as coisas antes que fosse tarde demais.

— Eu sei e eu não tiro a sua razão nisso tudo... Mas, eu confiei em você quando deixei o escritório em suas mãos. — Hermione o repreendeu de forma delicada, sorrindo triste para a expressão de Harry que logo entregou a vergonha dele. O rapaz olhou para o chão e suspirou, a mão da morena alcançou a dele e ele voltou a olhá-la, inquieto. — E eu também confiei em você em relação a sua felicidade e realmente espero que esse descaso com o nosso escritório não seja em vão. É bom que aquela ruiva lhe faça feliz, Potter.

Harry só não se surpreendeu ainda mais porque a expressão de Hermione abrandara conforme ela falava. Ao final das palavras, a morena lhe sorria abertamente e ele, estabanado, jogava-se nos braços dela. Ele a apertava em seus braços e a erguia do chão, fazendo com que ela grunhisse e o reprovasse. Algumas risadas chegaram aos ouvidos do rapaz que viu-se rindo roucamente, satisfeito e sentindo-se sortudo por ter a sua melhor amiga de volta — bem e feliz — e, também, a garota dos seus sonhos. Os dois teriam ficado mais tempo abraçados se não fosse o celular do moreno tocar, Harry separou-se de Hermione e apanhou o aparelho no bolso da calça, franzindo a testa para o número desconhecido. A morena olhou para a tela do aparelho e comentou sarcástica:

— Isso que dá largar um escritório de advocacia sem qualquer aviso...

Os olhos verdes reviraram-se enquanto Hermione sorria satisfeita antes de levar a taça que segurava aos lábios. Harry ainda arrumou um tempo para fazer uma careta para ela antes de atender a chamada, o telefone mal chegara ao seu ouvido quando ele escutou uma voz masculina e conhecida perguntar:

Esse é o número do Sr. Potter?

— Sim, é ele quem fala. E muito me surpreenda que você tenha o meu número, Sr. Malfoy. — Harry respondeu educadamente, ainda que o seu tom de voz fosse cortante. Hermione engasgou-se com o vinho e acenou para que ele entregasse o telefone a ela, coisa que ele não fez. Do outro lado da linha, Lucius Malfoy ria friamente. Ele era pai de Draco Malfoy e também, dono de uma das maiores firmas de advocacia de Londres. O filho e Pansy Parkinson trabalhavam para ele e não foram poucas as vezes em que a poderosa firma dele enfrentara o pequeno e corajoso escritório de Harry e Hermione nos tribunais. — Em que posso ajudá-lo?

Na verdade, é você quem pode me ajudar, Sr. Potter. Você e sua sócia, Srta. Granger. Eu sei que tivemos nossos problemas no passado, ainda os acho tremendamente teimosos e arrogantes... Contudo, vocês são a minha única alternativa. Eu não estaria pedindo se não fossem tudo que tenho. — A voz de Lucius Malfoy perdera toda a frieza, assumindo o tom severo que ele adotava quando falava de negócios. Um tom que Harry e Hermione conheciam bem, já que ele tentara separá-los, mais de uma vez, com propostas absurdas para trabalharem em sua firma. A morena olhava ansiosa para o amigo enquanto ele fazia sinal para que ela esperasse. — Meu filho estava no meio de um grande caso contra o governo, um caso que eu não posso me dar o luxo de perder. Porém, acontecimentos recentes o impedem de alcançar 100% de seu potencial e eu gostaria de saber se você e sua sócia estariam dispostos a finalizá-lo, apenas esse caso, sem compromissos futuros. O que me diz?

— Só um minuto, Sr. Malfoy. — Harry pediu de forma respeitosa, afastando o celular do ouvido e levando as mãos ao microfone para que nada do que conversasse pudesse ser ouvido pelo homem do outro lado da linha. A morena não esperou muito para disparar ansiosa:

— O que essa serpente quer com a gente?

— Aparentemente, Draco teve um ataque de pelanca e não pode terminar um caso, ele quer que a gente assuma, sem compromissos futuros, apenas esse caso. — Harry respondeu enojado. A simples ideia de trabalhar com os Malfoy já o fazia quase vomitar. Ele lembrava muito bem o que passara nas mãos de Draco na faculdade e fora dela, não estava disposto a esquecer tudo por causa de um pouco de dinheiro. Hermione resmungou para a resposta que recebera, ela parecia tão indignada com a proposta quanto ele. A morena tinha a expressão fechada quando ela se abriu em realização e ela disse:

— Eu sei que nem eu e nem você aceitaremos essa proposta, contudo, eu estou curiosa para saber o que o menino de ouro fez para abandonar mais uma chance de se gabar para cima da gente.

Harry sorriu maquiavélico para a proposta da amiga que lhe sorriu de volta. Um sentimento de vingança preencheu o seu peito, ele não costumava desejar mal as pessoas, ainda mais porque, antes de seu padrinho, a sua vida fora muito difícil por causa de pessoas cheias de males dentro delas. Porém, os Malfoys eram desprezíveis e saber que o karma os acertara, ainda que de forma branda, já era saboroso. Harry sentia-se vingado. Ele voltou a levar o aparelho à orelha e pigarreou antes de continuar:

— O que aconteceu com o seu filho, Sr. Malfoy? Tanto eu quanto Hermione precisamos saber em que estamos nos metendo caso aceitemos a sua proposta...

O noivado de Draco terminou e ele não tem condições emocionais para trabalhar agora. Foi um baque, para todos nós, principalmente, para ele. — Lucius respondeu de forma seca, evidenciando quão incomodado estava com o rumo daquela conversa. Hermione, que tinha o ouvido junto ao dele, escutou e, sem dizer uma palavra, orientou que ele perguntasse sobre Pansy e o moreno assim o fez:

— E quanto a Pansy Parkinson? Ela é, praticamente, a sua segunda ponta da lança. Ela pode muito bem assumir o caso, você não precisa de nós.

Como eu disse, eu não estaria pedindo se não fosse necessário. A Srta. Parkinson poderia ter assumido o caso se ela não tivesse fugido com a noiva de Draco. — As palavras de Lucius soaram desconfortáveis e, enquanto Harry ficava boquiaberto, Hermione não segurava a risada. O moreno não conseguiu se conter e dando-se conta, tarde demais, que Lúcio escutara as reações de ambos. Então, sem perder tempo, Harry ofegou entre as risadas:

— Pelas nossas reações, pode perceber que não estamos interessados, Sr. Malfoy. Esperamos que resolva os seus problemas enquanto nós ficamos do lado de fora, aguardando pelos próximos acontecimentos. Passar bem!

Imediatamente, a chamada fora terminada para que ambos pudessem continuar a rir. Eles até mesmo brindaram quando conseguiram sustentar os seus copos. Era realmente hilário que Astoria abandonasse Draco por causa de Pansy e era ainda mais absurdo que ela fizesse isso logo depois de tentar, mais uma vez, ter Hermione. A voluptosidade da ex da morena era assustadora.

Os dois ainda riam quando Fleur e Gina voltaram para eles. A francesa olhou intrigada, de um para o outro e, levemente, irritada, perguntou:

— Posso saber o motivo do riso?

Hermione abraçou-a pela cintura, encostando a cabeça junto à clavícula da mais alta e suspirou. Quando recuperou o fôlego, a morena sorriu para o seu par e respondeu divertida:

— A minha ex acabou de largar o noivo para fugir com a melhor amiga dele.

— E isso é um motivo para você rir abertamente, Mademoiselle Granger? — Fleur perguntou enciumada, fechando a expressão para Hermione que deixou morrer as risadas. A expressão satisfeita no rosto da morena apenas irritou Fleur ainda mais, Harry viu quando o aperto nos ombros de sua melhor amiga se intensificou e também percebeu quando, após um beijo na bochecha perolada, esse aperto relaxou. Hermione ainda sorria deliciada quando respondeu:

— Não, você é o meu maior motivo para rir abertamente, Delacour.

Fleur, surpreendentemente, corou diante da resposta. Ela abaixou a cabeça e sorriu para os próprios pés enquanto Hermione esticava-se na ponta dos pés para beijá-la no pescoço. Harry e Gina trocaram olhares e, logo depois, sorrisos. O moreno aproveitou o momento para beijar o topo da cabeça ruiva e abraçá-la junto de si, suspirando em meio ao cheiro campestre que Gina exalava.

Os casais estavam prestes a voltar à conversa quando Bill chegou à roda, de braços dados com a mãe, conduzindo-a. A Sra. Weasley olhou alegre para os dois casais e o filho anunciou:

— Tem alguém aqui que quer fazer um convite.

— Pois bem, vocês quatro estão convidados para jantar conosco essa noite. Essa foi uma recepção para todos, porém, hoje à noite será para família e estão intimados a vir... — Molly Weasley parecia um pouco nervosa ao fazer o convite, contudo, o sorriso de Fleur e o aceno a fizeram sorrir realizada. Gina tocou o braço da mãe, orgulhosa. A francesa separou-se de Hermione e fez o mesmo, antes de responder, sincera:

— Será um prazer, Sra. Weasley.

— Ah, por favor, depois de tudo que passamos... Pode me chamar de Molly, querida. — A matriarca disse animada, colocando a mão de Fleur entre as suas e piscando para francesa que sorriu, um dos maiores sorrisos que Harry e Bill viram nos lábios finos dela. Em seguida, as duas se soltaram e a agitação voltou aos gestos de Molly. — Agora, por favor, vamos almoçar!

E eles foram. Todos almoçaram naquela imensa mesa juntada às pressas. Harry sentou-se em frente a Hermione e a observou durante toda a refeição, achando incrível como a sua melhor amiga gravitava para Fleur que fazia o mesmo em direção a ela. Não existia peso entre elas e nem mesmo, nele. Tudo estava leve como há muito tempo não estivera.

O moreno permitiu-se descansar no encosto da cadeira e deliciar-se com a cerveja e a refeição. Em determinado momento, os seus olhos encontraram os de Cho que lhe sorriu verdadeiramente, a mão de Gina encontrou a sua debaixo da mesa e ele a afagou.

Ele não era tão órfão como imaginava, aquele poderia ser o pedacinho de algo que podia chamar de casa. Ao lado da sua melhor amiga, da garota que amava e daquele punhado de gente que conhecera e o acolhera. Sem medo, sem julgamentos e sem conflitos... Exatamente como uma família que ele imaginara e que, até agora, não tivera.

# # # # #

Fleur era capaz de corrigir o sabor de um prato, de criar uma receita e, até mesmo, de administrar o La Petite Mort ao mesmo tempo em que liderava a cozinha do estabelecimento. Era uma mulher de muitas qualidades e, recentemente, poderia afirmar que era uma pessoa forte, que se recuperara de muito do que a vida tentara lhe tirar... Porém, naquele momento, a francesa se sentia como uma criança prestes a enfrentar um adulto disciplinador.

O sobrado dos Weasley nunca fora um local que lhe inspirara a tranqüilidade do Shell Cotage ou a paz da casa que dividira com Bill quando casados. Pelo contrário, aquele sobrado fora o cenário de inúmeras discussões, choros contidos e palavras ríspidas. Era um ambiente hostil que evocava uma Fleur da qual ela pouco se lembrara.

A francesa irritante, arrogante e egocêntrica que pisara em Ottery St. Catchpole acreditando que podia passar por cima de qualquer um, uma mulher tão cheia de cicatrizes que precisava machucar para sentir um pouco de alívio, a chef de cozinha que não sabia respeitar culinárias que não fossem as suas... Uma mulher da qual Fleur não se orgulhava e que estava satisfeita por ter abandonado-a.

A sensação era que milhões de anos haviam se passado desde a última vez que ela colocara os pés na calçada daquele sobrado, naquela circunstância, ela agarrava-se com unhas e dentes ao La Petite Mort, a única coisa que possuía e que podia chamar de sua. E hoje, ela também segurava algo só que, dessa vez, era alguém.

Alguém que significava muito mais do que o único e sim, o tudo.

Fleur sabia que a sua mão, entrelaçada a de Hermione, suava e tremia. Também podia sentir os olhos castanhos observando-a e estudando-a com afinco, mesmo sem ver — explicitamente — ela tinha plena consciência da preocupação que a morena tinha nas feições franzidas. Fleur chegara em um pouco que simplesmente sabia como Hermione se sentia, elas já tinham uma conexão que ia muito além do físico. E a francesa não gostaria de preocupá-la, não gostaria de voltar a se sentir vulnerável, queria ser forte...

Mas, as lembranças, como sempre, mostravam o que poderia esperá-la no interior do sobrado.

— Você sabe que não precisa ficar nervosa... — Hermione sussurrou pacientemente, acariciando o dorso da mão pálida trêmula, beijando o local em seguida. Fleur sorriu torto, voltando os olhos para a morena e sentindo-se suspirar nesse ato. A britânica sorria tranquilamente e aquela tranqüilidade emanou-se, atingindo uma pequena parte de Fleur. — Eu sei que a Sra. Weasley não conversou o suficiente conosco, mas, foi ela que organizou a recepção e que segurou as pontas enquanto você esteve fora. Não acho que ainda exista alguma mágoa entre vocês. Não uma que valha a pena.

— Eu sei, racionalmente, eu sei. Emocionalmente? Eu estou desesperada. — Fleur respondeu sincera, rindo desconfortável no final da frase, provocando um sorriso compreensivo em Hermione. A morena acariciou o rosto perolado, ajeitando as mechas loiras antes de ficar na ponta dos pés para os seus lábios tocarem os lábios finos. Fleur suspirou enquanto era beijada e o coração estava acelerado pelos temores e pelo beijo, contudo, aquilo não importava naqueles curtos segundos.

Tudo que importava era Hermione, tão próxima de si e tão sua.

Quando se beijavam, era como se o volume de tudo ao redor delas diminuísse. Um clichê que Fleur surpreendia-se por ser real. Também parecia que o seu corpo respondia imediatamente à proximidade com Hermione, desacelerando, acalmando-se para que a morena pudesse penetrar o seu exterior atribulado e acessar o interior, inseguro e frágil. E quando isso finalmente ocorria, Fleur sentia-se — não somente melhor maior. Tão grande que era capaz de lutar contra qualquer coisa, inclusive, os fantasmas de seu passado. Imensa para agregar tudo que o mundo tinha para lhe oferecer.

Fleur sentia-se forte e, acima de tudo, pertencente... Ao mundo e, essencialmente, a Hermione.

Tudo isso parecia muito, mas, durava o infinito de apenas alguns segundos. E mesmo tão intenso, poderia ser quebrado por uma banalidade... Não porque fosse frágil e sim, porque era absurdo demais para caber em uma realidade.

— Meninas? Tudo bem? — O tom temeroso de alguém que não gostaria de ter interrompido, era tímido e receoso, quase como se pedisse desculpas. As duas se viraram em direção a voz, deparando-se com Molly Weasley na varanda, um sorriso gentil nos lábios e um avental em volta do corpo, os cabelos vermelhos presos e as mãos na cintura.

Fleur viu, pela primeira vez, aquela “mãezona” que Bill sempre descrevera para ela. Era impossível não sorrir para uma mulher que invocava proteção, gentileza e casa. Por isso, o sorriso nos lábios finos era sincero e também se fez presente em Hermione.

A senhora se aproximou, fazendo algumas caretas de dor para os estigmas da idade que, provavelmente, já carregara. Contudo, nem isso parecia macular aquela essência matriarcal que ela exalava. Quando finalmente chegou ao casal, depois de atravessar o caminho no jardim, Molly olhou de uma para outra e perguntou preocupada:

— Estão bem?

Oui, madame. — Fleur respondeu tão rapidamente que o nervosismo falou pelo seu francês. Ela riu fracamente, lembrando-se de como Molly detestava quando ela usava o idioma de sua terra natal. Entretanto, a senhora parecia preocupada e a observava cuidadosamente, Hermione apertou a mão de Fleur e tomou a frente:

— Fleur precisou de um tempo, mas, estamos bem...

— Ótimo, não quero que se sintam deslocadas em minha casa! — Molly respondeu entusiasmada, colocando-se entre elas e enganchando os seus braços gorduchos ao de cada uma. Fleur sorriu surpresa para o gesto enquanto Hermione ria, satisfeita. — As crianças ainda estão fazendo sabe-se lá o quê, mas, eu e Arthur podemos entretê-las.

— Os outros estão... Pardon? — As palavras tropeçaram pela garganta de Fleur e Hermione olhou surpresa para o comportamento dela, esse olhar só fez a francesa engolir ainda mais em seco. Fleur abaixou a cabeça e Molly, chegando à porta, respondeu:

— Não há engano, querida. Bill informou esse horário porque Arthur quer conversar com Hermione e eu preciso de alguma ajuda na cozinha. O tempo passará sem que vocês percebam.

— A senhora quer que eu cozinhe com você? — Fleur perguntou confusa enquanto entravam no sobrado. Essa era uma situação que a francesa desejou tendo plena consciência de que, possivelmente, jamais ocorreria.

Molly Weasley e Fleur Delacour eram de mundos completamente diferentes. Enquanto a matriarca aprendera a cozinhar para alimentar os filhos e o marido, a francesa se dedicara à culinária por pura paixão. Uma soube tirar o sustento da família por meio do que lhe fora inerente e obrigatório, a outra optara por adentrar nesse ambiente, tanto por causa dos negócios da família como por si. Ambas começaram na gastronomia por motivos diferentes, contudo, o amor que ambas nutriam pela arte de inventar e aprimorar sabores era o mesmo.

E, talvez, esse amor tenha sido mais um empecilho que impedira uma proximidade maior entre elas. Uma tinha as raízes na culinária caseira, nas receitas do dia-a-dia que alimentavam não somente o corpo como, também, a alma enquanto a outra aprendera a cozinhar em uma escola profissional, em que não havia muito espaço para sentimentos e improvisação, em que o único objetivo era alimentar. Eram filosofias diferentes que, mesmo tão tênues e entremeadas ao mesmo amor pela arte de cozinhar, tornavam-se magnâmias perto do que já as separava.

Todavia, naquele momento, essas diferenças pareciam ser postas de lado justamente pelo amor, não o sentido pela gastronomia e sim, por uma pessoa. Bill as separava e, agora, as juntava da mesma forma. Ambas estavam ali por Bill e pareciam estar dispostas a ficarem, uma pela outra.

Molly separou-se das mais novas quando chegaram ao hall, ela deu um passo à frente e voltou a se virar para o casal. Os receptivos olhos castanhos — olhos de uma mãe — trafegaram de uma para outra antes de, finalmente, pousarem nos olhos azuis celestes de Fleur. A francesa engoliu em seco, sentindo o rubor esquentar o seu rosto. Molly até tinha uma expressão séria que se dissolveu em um sorriso ao dizer gentil:

— Eu não vou voltar a perder a oportunidade de cozinhar com uma chef renomada. Ainda mais depois do que Bill me contou a respeito de sua família, será um orgulho cozinhar com você, Fleur.

A francesa estava dividida entre o choque e uma emoção que muito se assemelhava ao sucesso e que, de fato, não era. Porque o sucesso vinha acompanhado de um feito e, naquele instante, Fleur estava mais grata do que orgulhosa. Grata por Molly Weasley ter um coração imenso, capaz de abrigar o filho e a ex-nora, por mais “diferentes” que ambos fossem, agradecida por aquela mulher perdoá-la por tudo que fizera para descaracterizá-la e, principalmente, realizada pela segunda chance que a vida estava lhe dando.

Fleur estava imóvel até sentir um apertar carinhoso em sua cintura, ao seu lado, Hermione vestia um sorriso brilhante que servia muito bem nela. A morena acenou com a cabeça e, baixinho, perguntou:

— O que está esperando?

Com o apoio da britânica que lhe trouxera a França e, também, a fizera permanecer na Inglaterra, Fleur estendeu a mão para uma Molly ansiosa. A sua mão perolada foi envolvida pelas velhas e manchadas mãos da matriarca, com um sorriso nos olhos azuis que cintilavam a emoção, Fleur abriu um sorriso e respondeu agradecida:

— Será uma honra cozinhar com você, madame.

— Hermione!

A grossa voz de Arthur Weasley se fez ouvir na desengonçada sala de estar. A morena, que observava o cômodo com discreta curiosidade, virou-se e encontrou o senhor caminhando até ela. Ele tinha uma caneca de cerveja em cada mão que estendeu a Hermione assim que os dois estavam próximos o bastante. A advogada aceitou, mesmo preocupada com a quantidade de álcool que já consumira durante aquele dia, somando tudo ao seu cansaço, ela tinha certeza absoluta que desabaria na cama assim que chegassem ao chalé. Arthur passou por ela, sentando-se em uma poltrona de tecido xadrez verde que acentuava os seus já grisalhos fios ruivos, Hermione sentou-se em frente à mesa de centro e a ele, em um antigo sofá de couro que destoava, como muitas coisas, da poltrona na sala.

Se os Delacour tinham uma decoração clássica, os Weasley não tinham decoração alguma. Ainda assim, ambas as casas eram aconchegantes — a Mansão Delacour tornara-se depois que conhecera cada um de seus ocupantes — de jeitos diferentes. Hermione experimentou a cerveja, apreciando o gosto ligeiramente amargo do líquido fermentado antes de dizer educadamente:

— Eu agradeço, em meu nome e de Fleur, por nos receber no almoço e nessa noite, Sr. Weasley.

— Por favor, abandone os pronomes... Não há necessidade, você é da família. — Arthur respondeu com um sorriso acolhedor, tomando um gole de sua própria cerveja. Ele colocou a caneca sobre a mesa de centro que possuía várias marcas de copos. Em seguida, voltou a se recostar na poltrona, satisfeito. Hermione sorriu para as palavras dele, depois de tanto tempo sozinha, era bom pertencer a algum lugar. — Tanto é que eu indiquei você para uma amiga que precisa de certa orientação jurídica.

— Bem, eu agradeço, senhor. — Hermione respondeu sem jeito, sentindo-se corar pela confiança depositada nela. Por mais que fosse uma advogada de sucesso, a morena ainda não sabia lidar com os elogios e indicações, sempre trabalhara muito para conseguir alcançar os seus objetivos e era estranho receber elogios por algo que ela acostumara-se a fazer. Ainda assim, era gratificante e, por isso, ela corava. — Mas, a minha situação profissional está indefinida no momento. Eu realmente não sei como prosseguir a partir daqui e isso vindo de mim, é preocupante.

Arthur riu para a resposta sincera da advogada, ele tomou mais um gole da cerveja e inclinou o corpo para frente, os olhos azuis do senhor brilhavam divertidos. Arthur Weasley tinha uma postura que, assim como a da mulher, exalava acolhimento e receptividade. Ele suspirou e disse gentil:

— É uma pena, eu também falei com Harry e ele, praticamente, deu a mesma resposta. Eu sei que o motivo dele é Gina, porém, e você? Tem certeza que está tão indecisa assim?

Nesse momento, os sons vindos da cozinha chamaram a atenção dos dois na sala de estar. Hermione escutou as risadas delicadas de Fleur misturadas aos risos abertos de Molly, as duas cozinhavam e riam, como se fossem velhas conhecidas. Aqueles sons invocaram o calor dentro da morena, ela se viu sorrindo e deliciando-se com o som da felicidade de Fleur, quase se esquecendo da conversa que travava e que a esperava para ser prosseguida.

Hermione sabia que não seria capaz de viver sem aqueles sons ou sem qualquer um que Fleur produzisse. A sua vida, em algum ponto, entrelaçou-se a dela. A morena sabia que se entregara completamente.

Em algum momento nos segundos seguintes, a sua razão bateu levemente em seu cérebro, trazendo-a de volta para a realidade. Arthur a observava com uma expressão de admiração, escondendo um sorriso. Ele sabia o que se passava com Hermione porque ainda, depois de tantos anos de casamento, olhava para a esposa da mesma forma e também sabia que a morena faria de tudo para ficar ou partir com Fleur. A morena agitou a cabeça e sorriu boba para a caneca em suas mãos, apreciou a textura da umidade da condensação que se formara na superfície de vidro e corada, disse:

— Tudo bem... Eu acho que permanecerei aqui por mais algum tempo. Do que a sua amiga precisa?

Arthur Weasley sorriu para a resposta recebida e passou a explicar toda a situação irregular envolvendo a pousada de Madame Rosmerta, próxima à praia. Hermione prestava atenção racionalmente porque, emocionalmente, o calor dentro de si propagava-se em ondas que a engoliam. Involuntariamente, assumia o compromisso de ficar, independente para onde Fleur quisesse ir.

Hermione ficaria com Fleur e, principalmente, seria o lar da francesa fosse para onde as estradas da vida pudessem levá-las...

# # # # #

O aroma de temperos e especiarias ainda perpetuava no ar na cozinha, contudo, não existia qualquer som que pudesse acompanhá-los. O silêncio era cativo no ambiente, mesmo que Molly ainda mexesse algumas panelas e checasse o cozimento de outras.

As duas trabalhavam entre sorrisos envergonhados e gestos respeitosos, Fleur ocupou-se em não adentrar no espaço de Molly e de não criticar o que estava programado para o jantar. Jamais fora admiradora da culinária britânica, mas, sabia do que a senhora era capaz. Por isso, Fleur preferiu admirar o que estava sendo feito enquanto auxiliava, cortando e checando temperaturas pela cozinha que lhe era desconhecida.

Porém, ela temia e muito os silêncios de Molly Weasley, até porque, a senhora era dona de posições barulhentas e retumbantes e o silêncio era algo desconhecido para ela, a não ser que os pensamentos estivessem mais altos do que as suas risadas calorosas e a sua voz alta e entusiasmada. E a francesa, por mais que escondesse, sempre temera os pensamentos e os julgamentos de sua ex-sogra. Não era agora, depois de tudo aparentemente resolvido que ela deixaria a guarda abaixar.

Uma panela foi aberta e o perfume do cordeiro sendo cozido juntamente aos legumes, especificamente, a batata, perpetuou na cozinha. Esse Lancashite Hotpot era apenas o primeiro prato de um jantar que ainda incluía Kedgeree Recipe — uma receita de origem indiana, consistindo em um risoto de limão com peixe defumado, curry, salsa e ovos cozidos — além de Onion Bhaji, cebola frita envolta em uma massa com temperos. Fleur estava verdadeiramente surpresa de um cardápio com tanta influência indiana, mas, curiosa.

Depois de tanto trabalharem juntas, coordenadas e organizadas, o silêncio parecia ser o fim mais provável daquela parceria. Contudo, Fleur ainda sentia-se intimidada por Molly, tanto que foi surpreendida pelo sorriso da senhora, observando-a junto ao fogão. Com um pano em mãos e uma expressão gentil no rosto, Molly disse tranquilamente:

— Bem, agora temos que esperar.

— Foi um prazer ajudá-la, madame. — Fleur respondeu com sinceridade, sorrindo para Molly que se aproximava. As duas se olhavam e a ausência de sons parecia mais leve, agora. — Eu gostaria que tivéssemos feito isso antes.

— As coisas acontecem na hora que tem que acontecer, querida. — Molly respondeu sabiamente, apanhando uma das mãos de Fleur e envolvendo-a entre as suas. Fleur sorriu para o gesto. Agora, entendia o que Bill falava a respeito do coração da mãe ser enorme e sempre disposto a abrigar mais um. A francesa não esperava que fosse enxergar tamanho carinho e respeito naqueles olhos castanhos que tanto a reprovaram, agora, não reclamava de tê-los. Era reconfortante saber que mais pessoas se preocupavam naquele país que, a princípio, não fora dela. Fleur suspirou para as palavras que chegaram ao seu coração e respondeu:

— Muitas coisas deveriam ter acontecido antes entre nós. Eu, por exemplo, deveria ter deixado a senhora permanecer no restaurante. Pardon por ter sido autoritária e desrespeitosa...

— Isso já passou! E, no mais, você fez pelo restaurante mais do que eu poderia ter feito um dia... — Molly a interrompeu veemente e, por mais que as palavras tivessem a natureza bronqueadora, também exalavam carinho e compreensão. Fleur sentiu os olhos azuis arderem pelos erros do passado, mas, o sorriso se abrir pelo que escutava no presente. A senhora ajeitou os cabelos loiros que caíam do desajeitado coque que Fleur prendera no início do trabalho, as mãos enrugadas e calosas sustentaram o belo rosto com delicadeza. — E continuará a fazer... Bill pode ser a cabeça do La Petite Mort, mas, você é o coração daquele lugar.

As palavras — que já eram poucas e inseguras — faltaram ainda mais para Fleur, muito por causa do que Molly provocou nela naquele momento. O primeiro sentimento foi a gratidão, simplesmente, por ter todo o seu esforço reconhecido mesmo que tenha sido executado da forma mais agressiva possível. E, em segundo lugar, veio o peso da responsabilidade de manter-se naquele caminho que a levava em direção ao que amava.

Era muito e ainda existia mais. Fleur sentiu, naquele momento, algo falando mais alto dentro dela. Algo que a levava diretamente a Hermione. Por mais que o La Petite Mort representasse tudo que ela fora desde que chegara a Inglaterra até alguns meses atrás, era Hermione que ocupava o seu presente e o seu futuro desde que entrara em sua vida. Qualquer decisão, por menor que fosse, precisava englobar a morena, Fleur não cogitava perdê-la, de forma alguma.

Por isso, a sua mão segurada por Molly tremeu, sensação que não passou despercebida pela senhora, as feições mais velhas e rechochudas desenharam a preocupação e a voz saiu delicada ao sussurrar:

— Eu não quero pressioná-la, apenas imaginei que já estivesse decidido permanecer conosco.

— Não foi nada, eu estou bem, madame... Eu só não tinha pensado nisso. E eu deveria ter pensado. — A expressão de Fleur era um misto de seriedade e pura emoção, a francesa estava no limite dentro de si, julgando-se egoísta por arrastar Hermione de volta para um lugar sem saber se, de fato, a morena estava disposta a vir com ela.

A insegurança abateu-se sobre ela, sendo que, para qualquer um que visse de fora o que as duas sentiam e representavam aquela dúvida não existiria.

Molly pareceu, instantaneamente, arrependida pelo que dissera. A matriarca não queria provocar confusão ou tristeza na ex-nora, ainda mais agora que estavam aproximando-se, por isso, ela continuou a afagar a mão perolada entre as suas e respirou de forma profunda, as suas feições entregaram um carinho sincero ao aconselhar:

— Eu tenho certeza que, independente do local onde a vida levar você, Hermione estará contigo, ela não parece ser do tipo que fica para trás... Mas, eu, por experiência própria, sei que o certo é deixar tudo às claras, ainda mais com aqueles que amamos.

Fleur sorriu grata para os conselhos da mulher que, até então, não fazia parte da sua vida. O silêncio entre elas, naquele instante, sacramentou a compreensão mútua que elas, finalmente, dividiram. Ainda olhando uma para a outra, elas foram surpreendidas pela voz masculina querida por ambas que disse entre risos:

— E onde estão as panelas voando? Os gritos? As ofensas?

A francesa revirou os olhos para Bill Weasley, antes de abraçá-lo. Cedric vinha logo atrás, aparentando uma timidez que provocou um riso contido em Fleur. O ruivo adiantou-se para mãe, também o abraçando enquanto o parceiro foi surpreendido, sendo também abraçado e beijado. O casal recém-chegado sorria abertamente para as mãos dadas entre as duas mulheres e Molly, distanciando-se deles para desligar as panelas, vociferou:

— Eu estou pensando seriamente em trocar você por Fleur, Bill. Ou por Cedric. Os dois me respeitam, pelo menos.

As risadas preencheram a cozinha enquanto Bill fazia uma careta ofendida para a mãe. Ela apanhou uma das panelas, a que exalava o perfume do cordeiro e dos legumes cozidos, e a estendeu ao filho que a apanhou, ainda irritado. Cedric se adiantou e ficou encarregado de outra panela enquanto Fleur apanhou a última. Sob as ordens de Molly, o trio levou as panelas para a mesa preparada no jardim do sobrado.

Fleur sorriu com as panelas em mãos, quando foram recebidos por aplausos pelos demais. Nem em seus sonhos mais malucos e otimistas, ela esperava ser recebida daquela forma pelos Weasley. Uma separação foi necessária para que eles, ironicamente, se juntassem.

O divórcio trouxera mais do que o próprio casamento e, com esse pensamento em mente, Fleur procurou a sua maior dádiva ganha naquela confusão. Hermione guardara um lugar para ela, as duas estavam quase no final da comprida mesa de madeira, sentadas junto a Harry e Gina. Entre panelas sendo postas, conversas sendo iniciadas e copos sendo bebidos, mais uma vez, o olhar azul encontrou o castanho.

Hermione sorriu para a francesa que não deixou de retribuir, mesmo com todos os questionamentos em sua cabeça... Mal deixara a panela sobre o tampão da mesa e Fleur gravitou até a morena, sendo recebida de mãos dadas e braços abertos, da forma como sempre quisera e da forma como sempre deveria ser.

As ondas estendiam-se preguiçosas pelas areias, a maré alta desenhava padrões úmidos na porção terrena da praia. O som era reconfortante e hipnotizante, ainda mais para mentes levemente embriagadas pelo álcool e corações bêbados pelo amor.

Hermione sentiu os braços de Fleur circundarem a sua cintura para alcançarem a fechadura da porta do chalé e também sentiu quando a francesa se afastou de suas costas. A mente da morena estava leve, flutuando entre as gotas de álcool e nas nuvens do sentimento que nublava completamente a sua razão. Aquela chegada fora intensa e, por mais que tivesse adorado se resolver com Harry e os demais, tudo que queria era ter Fleur para si, de novo.

A chef parecia sentir o mesmo porque mesmo afastada, tocava a cintura morena com a ponta dos dedos enquanto trancava a porta. As duas abandonaram a brisa litorânea do lado de fora e entregaram-se ao calor do chalé, Hermione rapidamente sentou-se no carpete em frente à lareira, ajeitando as toras de madeira, preparando-a. Concentrada em sua tarefa, não percebeu que Fleur agachara-se atrás dela e apenas sentiu os longos braços perolados envolvendo-a, Fleur respirou junto aos seus cabelos e sussurrou rouca de sono:

— O que pensa que está fazendo?

— Acendendo a lareira, eu sei que, se dormir agora, acordarei de ressaca amanhã e serei incapaz de conversar com Madame Rosmerta. — Hermione respondeu preguiçosa, aconchegando-se nos braços de Fleur e no calor que ela emanava. A morena sentiu um beijo atrás da orelha, arrepiando-se com esse toque delicado. Fleur sorriu e pigarreou, perguntando curiosa:

— E por que precisa falar com ela amanhã?

Hermione virou-se nos braços de Fleur, encontrando a francesa sentada. As pernas da francesa também a abraçavam e a morena afagou uma panturrilha, olhando com um sorriso deliciado para os olhos azuis que, tentando-se conter, ainda brilhavam enciumados. A morena aproximou-se e beijou os lábios finos sussurrando de encontro a eles:

— Não precisa sentir ciúmes, é apenas um trabalho para o qual Arthur me indicou.

— T-trabalho, mon amour? V-você pretende ficar? — Fleur perguntou confusa, sentindo o coração acelerar tanto pela negativa como pela afirmativa. Hermione contemplou as belas feições angustiadas sem entender o real motivo para elas, voltou a se aproximar, os olhos castanhos extremamente intensos ao responder:

— E para onde eu deveria ir?

E, como se para provar a intensidade de suas palavras e de suas escolhas, a morena rompeu a distância entre elas e inclinou o corpo sobre Fleur. Ambas encontraram o tapete e sorriram antes de entregarem-se uma a outra.

O acendimento da lareira foi esquecido, assim como qualquer coisa, no exterior daquele chalé. O que importava eram as duas e, especialmente, o que elas tinham ali dentro.

Era carinho, era amor... Era o começo de um lar.

# # # # #

Notas finais
E aí, gostaram? Como podem perceber, quase tudo está resolvido e eu penso que faltam mais uns dois ou três capítulos para o final... Mas, não desanimam porque ainda tem muitas emoções! Hahahaha Posso adiantar que, no próximo capítulo, teremos o passado de Hermione voltando com tudo! Eu quis, nesse capítulo, mostrar o que os outros pensam quando observam Hermione e Fleur... Assim como o mundo interior delas é muito importante, eu também gostaria que vocês a enxergassem pelos olhos dos outros para enriquecer, ainda mais, o relacionamento delas. Espero que tenham gostado! Aguardo o feedback de vocês e nos vemos nas próximas atualizações, beijos!