La Petite Mort
21 Accompagnement
Notas iniciais
Fleur acreditara, ingenuamente, que o tempo a faria superar o que acontecera em um passado que ela não lembrava, mas, ressentia. Porém, o que ela sentia não diminuiria e o tempo só tornara tudo mais amargo e intragável, exatamente como a presença de Othon a casa e à mesa de seus pais.
A francesa jamais entendera porque se calara em relação ao que acontecera, entretanto, ali estava, depois de todos aqueles anos, presa no mesmo silêncio que se fizera presente no dia em que decidiria deixar tudo para trás. Suas mãos estavam trêmulas e ela teria desabado se não sentisse a presença tão forte de Hermione ao seu lado.
A britânica a trouxera de volta à sala depois das duas dividirem poucos — mas, necessários — minutos de silêncio na cozinha. Hermione, acima de tudo, era inteligente o bastante para saber que, na presença de Othon, deveria manter-se invisível. Ele não poderia saber sobre elas ou acabaria com qualquer chance de Fleur em dialogar a respeito da herança com a avó. No final das contas, Hermione dava mais uma prova de amor ao negá-lo tão veemente para a família Delacour.
Fleur não gostaria que Hermione fizesse aquilo, mas, parecia ser o único caminho. Sua companheira estava revelando-se muito corajosa ao se doar daquela forma, tudo pela sua segurança, sem exigir nada em troca que não fosse o seu bem-estar. Quando fazia aquilo, Hermione dava todos os motivos necessários a Fleur, os motivos nos quais ela precisava se focar para não enlouquecer de medo diante do homem que tanto a enojava.
Todos se encontravam na sala de estar, à espera de Éponine Delacour que, como sempre, estava milimetricamente atrasada para poder fazer uma entrada marcante. Éponine Delacour tinha quase oitenta anos, mas, era extremamente lúcida e tinha uma personalidade forte e característica de todas as mulheres da família Delacour. A senhora não poupava palavras quando falava, muito menos, olhares quando desaprovava. Era uma senhora difícil e que amedrontava.
E Fleur estava receosa sobre o que poderia ter de sua avó depois de tanto tempo distante. E esse receio, aliado ao seu medo em relação a Othon, só tornava a situação ainda mais complicada.
Discreta e instintivamente, o corpo de Fleur buscou o calor apaziguador do corpo de Hermione. A morena estava sentada ao seu lado, bebericando uma taça com vinho que trouxera da cozinha, quando sentiu que invadira seu espaço pessoal. Hermione observou os demais na sala e todos estavam distraídos em uma conversa, inclusive, Othon. Por isso, a morena virou o rosto, cheio de confusão em relação à proximidade das duas, e os olhos encontraram-se brevemente.
O azul cerúleo estava assustado enquanto o castanho escuro estava em brasa. Hermione, desgostosa, desviou os olhos de Fleur e inclinou a boca em direção à orelha da francesa, esta suspirou ao sentir o calor da respiração da morena próximo ao seu corpo, Hermione fez mais ao afagar o joelho próximo de Fleur e perguntar preocupada:
— Está tudo bem?
A britânica afastou-se para voltar a olhá-la nos olhos e, dessa vez, tudo o que os orbes castanhos refletiam era preocupação. Fleur, rapidamente, envolveu a mão que repousava em seu joelho e a apertou, carinhosamente. Hermione olhava distraída para as mãos entrelaçadas e Fleur inclinou o rosto, o necessário para encostar a testa de encontro à têmpora de Hermione. A francesa respirou fundo e olhou para Othon que continuava distraído, seu coração apertou-se e ela sorriu triste ao responder:
— Não sei, mas, pelo menos, eu não estou sozinha.
— Você jamais vai voltar a se sentir sozinha e desprotegida enquanto eu estiver contigo. — Hermione sussurrou em tom confesso e entregue e aquelas palavra injetaram uma onda cálida através do sangue de Fleur que logo atingiu o seu coração. Mesmo diante daquela situação tão assustadora, Fleur encontrou-se sorrindo, tanto pela sensação de realmente estar protegida nos braços de Hermione como que pela certeza de que tudo que sentia era recíproco.
Os livros descreviam, as músicas tentavam definir e os franceses julgavam entendê-lo... Porém, Fleur acreditava que nada poderia explicar o que estava sentindo naquele momento. Existia amor em cada ato de Hermione... Na forma como ela envolvera sua mão e a afagara; dentro dos olhos dela que estavam tão intensos ao encará-la e no som das palavras dela que evocavam uma segurança que Fleur não sentia na França.
O que elas dividiam era bom demais para que alguém tão desprezível — como Othon — pudesse ser capaz de destruí-lo. Em seu interior, Fleur sabia que, qualquer que fosse o resultado daquela sua viagem a França, ela não se importava desde que ela e Hermione saíssem ilesas daquela situação. Ironicamente, um pedaço enorme de sua alma ficara na Inglaterra, principalmente, em Ottery St. Catchpole.
Aquela pequena e fria cidade litorânea da Inglaterra era onde estava quem não a abandonara e ali, na França, estava quem a protegeria.
Fleur olhava para Hermione, o sorriso ainda brincava em seus lábios e ela estava inquieta porque queria se aproximar justo naquele momento em que nada podia fazer. Porém, Fleur foi salva pela campainha que foi disparada e afastou-as rapidamente. Ela levantou-se, desamassou a camisa e calça, atitudes que eram feitas no automático porque sua mente ainda estava em Hermione.
A morena também se levantara e observava Othon agressivamente, o homem percebeu e, ainda assim, sorriu petulante em direção a ela. Fleur rapidamente interpôs-se entre os dois e Hermione encolheu os ombros, finalmente, olhando para o corredor em que Raoul e Apoline desapareceram para, enfim, recepcionarem Éponine Delacour.
Resmungos foram escutados através do corredor, assim como o som de passos. Gabrielle até tentou sufocar suas risadas, mas, foi inútil e, quando a caçula riu, Fleur acabou a acompanhando de forma mais discreta. Hermione olhou de uma para a outra, tentando entender o que acontecia enquanto era rude e atentamente observada por Othon.
E, finalmente, através do portal, Raoul e Apoline Delacour chegaram à sala ladeando uma senhora de idade que se apoiava em seus braços.
A senhora era rechonchuda, mais pela idade do que por alguns quilos a mais. As rugas eram distribuídas de forma uniforme em seu rosto, principalmente, no canto dos olhos e lábios, mas, nada assustador. Ela até mesmo parecia mais nova, exceto pelos cabelos, longos fios prateados chegaram ao meio de suas costas e que estavam elegantemente presos para trás, com uma presilha de pedras azuis, essas eram mais escuras do que os seus olhos, extremamente cerúleos, quase na mesma tonalidade dos olhos de Fleur. Aliás, Hermione se viu pensando que, caso visse uma foto da senhora em sua juventude, ela se casaria perfeitamente com a imagem atual de Fleur.
Precisava de ajuda para andar, mas, a sua postura era elegante — como o conjunto de terno e calça azul celeste que usava acompanhado por um lenço em seu pescoço — e segura, como o olhar que ela distribuía para aqueles que a ajudavam.
A recém-chegada falava rápido em francês e olhava feio para Apoline e Raoul. Othon adiantou-se e, educadamente, apanhou o braço da avó e a levou até a poltrona mais próxima em que, até então, Raoul estava sentado. Hermione viu que o pai de Fleur revirara os olhos, tanto para Othon quanto para a senhora, antes de se colocar atrás do encosto da cadeira de Gabrielle. Apoline permaneceu em pé e, a contra gosto, disse em inglês:
— Mil perdões, maman... Mas, temos uma visitante e ela não domina o francês.
— Como não? Os anos perdidos na Inglaterra tiraram até a língua-mãe de Fleur? — Era evidente o desgosto da senhora em ter que falar em inglês, o nariz reto e bem desenhado franziu-se, assim como os lábios finos e rachados entortaram-se. A senhora procurou a neta pela sala e, quando a encontrou, seus olhos deram o primeiro sinal de fraqueza em sua força, talvez, pela saudade ou pela alegria de ver Fleur de novo. Entretanto, ela logo reassumiu a expressão séria, ainda que a neta sorrisse para ela. Fleur aproximou-se e sussurrou:
— Eu também senti saudades, grand-mére.
— Não parece, visto que a senhorita desapareceu por anos e voltou somente agora, acreditando que pode fazer exigências daqueles que sentiram a sua falta. — Éponine estava se mantendo severa de forma surpreendentemente, porém, Fleur conhecia a avó bem o bastante para saber que, no fundo, ela estava feliz pela sua volta.
Éponine Delacour era alguém de quem Fleur sentia muita falta, a avó era seu exemplo e sua grande inspiração e muito de sua personalidade forte viera da influência da avó em sua vida. Era ela quem guiava a família a punho de ferro desde a morte do avô e Éponine esforçava-se sempre para que o sobrenome Delacour sempre estivesse limpo e fosse motivo de orgulho.
E pessoas como Othon conseguiam jogá-lo na sujeira, ainda que poucos soubessem o que ele tinha feito.
Contudo, naquele momento, Fleur não queria pensar no primo que estava dividindo aquele aposento com ela. Por isso, a chef terminou a sua aproximação da avó e ajoelhou-se aos pés dela, concentrou-se em segurar as mãos enrugadas e sábias da idosa e levou-a a seus lábios, beijando-as com carinho e saudade. Acima dela, os olhos cerúleos de Éponine Delacour brilharam, mas, não choraram e ela, ainda mal humorada, bronqueou:
— Você não vai me ganhar com beijos saudosos e declarações de amor. Tampouco, vamos conversar nesse idioma horrível.
Hermione estava assustada com o ar intimidador que Éponine fazia questão de lançar naquele local e surpresa com a vitalidade da senhora. De certa forma, já sabia que fora percebida por ela e que estava sendo ignorada de propósito. A morena não tinha problemas com apresentações, muito menos, com figuras mais velhas e de superioridade... Entretanto, Éponine Delacour a deixava inquieta.
Aquela senhora parecia invocar tudo que ela já percebera em Apoline e em Fleur. A essência das mulheres Delacour emanava através daquela senhora de expressão severa e olhos tão emocionais.
Apenas a risada rouca de Fleur, sincera e leve, pode tirar Hermione de seus apontamentos. O rosto da morena virou em direção ao som e ela mesma não pode conter um sorriso tímido ao deparar-se com a francesa tão genuinamente tranqüila depois do que passaram com Othon. Fleur voltou a ficar em pé e afastou-se da voz, estendeu o braço para Hermione e a puxou pelo punho, para perto, enquanto dizia educadamente:
— Vamos conversar em inglês por causa dela.
— Diferente desses que criaram esse idioma horrível, nós, os franceses, somos bem educados para recepcionarmos convidados. Porém, quem é você, enfant? — Diferentemente dos outros diálogos, não existia mal humor nessa resposta, porém, essa percepção não tirava o tom duro da voz de Éponine. Hermione estava sentindo-se intimidada e aproximou-se, meio sem jeito, estendendo a mão para a senhora e apresentando-se corada:
— Sou Hermione Granger, uma amiga de Fleur, da Inglaterra.
Éponine arqueou a sobrancelha prateada assim que observou a mão estendida de Hermione, a morena engoliu em seco diante do olhar e escutou risinhos masculinos as suas costas, Othon parecia satisfeito enquanto observava a interação com desdém. O sorriso de Fleur perdeu-se em sua vergonha e a senhora estendeu ambos os braços para Hermione ao bronquear:
— É um prazer, mas, não me obrigue a levantar para cumprimentá-la direito.
Hermione permaneceu parada por mais alguns segundos, mas, Gabrielle deu um tranco em suas costas e a partir daí, a morena conseguiu pensar através de seu temor e conseguiu discernir que era para se agachar. Hermione assim o fez e Éponine — que cheirava às rosas e à família — abraçou-a e deu-lhe um beijo em cada bochecha. Fleur voltou a rir, juntamente com Gabrielle e Raoul. Apoline permanecia séria e Othon parecia chocado.
A matriarca da família Delacour empurrou Hermione, como se estivesse cansada daquela proximidade, e a morena afastou-se com um sorriso discreto. Éponine observou-a novamente e pareceu satisfeita com o que vira, porque logo se virou para Apoline e sussurrou ressentida:
— Se eu soubesse que Fleur voltaria, eu teria tirado-a da herança mais cedo.
— Agora não é a hora para falarmos sobre isso, maman... Vamos jantar, os negócios ficam para depois. — Apoline sugeriu embaraçada ao ajudar a mãe a se levantar e guiá-la, delicadamente, para a sala de jantar. Othon seguiu logo atrás, passando por Fleur e a observando-a cheio de intenções. Hermione fechou os punhos, Gabrielle empurrou o primo quando ele fez menção de parar e Raoul seguiu o grupo, distraído.
Sozinhas, Fleur e Hermione voltaram a se olhar depois do que parecia ter sido uma eternidade sem se verem. O sorriso da francesa desaparecera diante do comentário maldoso da avó, os olhos nublarem-se na mesma tristeza que afogara Fleur desde que ela vira Othon. E Hermione, receosa e temendo que fossem flagradas, ainda assim entrelaçou as mãos com ela e, sem jeito, sussurrou:
— Pelo menos, eu sobrevivi a sua avó.
— Eu sei que não parece, mas, ela gostou de você. — Fleur ria entre suas palavras, um riso que não casava com os seus olhos marejados, mas que, ainda assim, era melhor do que qualquer outra expressão tristonha. A francesa, corajosamente, aproximou-se de Hermione e beijou-lhe a testa. — Merci.
— Achei que tivéssemos passado da fase de agradecermos uma a outra... — Hermione comentou de olhos fechados, ainda sentindo os lábios de Fleur sobre sua pele e deliciando-se com o calor que eles proporcionavam. A francesa se afastou e suspirou, Hermione abriu os olhos e Fleur sussurrou sôfrega:
— Eu não vou parar de agradecer, se não fosse por você, eu não estaria aqui.
E, naquelas palavras, o amor transbordava mais do que em qualquer gesto que elas não podiam exercer e em qualquer olhar que elas trocavam furtivamente. Naquelas palavras, o “eu te amo” estava evidente, claro e perfeito.
A comida estava deliciosa, característica com a qual Hermione já se acostumara quando Fleur cozinhava ou ajudava em qualquer prato.
Hermione estava acostumada às refeições silenciosas e teria escolhido o silêncio se soubesse o que viria depois dele na mesa dos Delacour. A ausência de conversas foi subitamente cortada pela voz de Othon, arrogante e venenosa, a contar sobre os novos empreendimentos da família. A morena, sentada ao lado de Fleur à mesa, conseguia sentir toda a tensão que a postura elegante e refinada da francesa não conseguia disfarçar.
Fleur continuava com um sorriso que não chegava aos seus olhos e mãos que tremiam enquanto tentavam manterem-se firmes em sua polidez e educação. Apoline e Raoul comiam entre sorrisos, Gabrielle revirava os olhos sempre que podia e era agressivamente repreendida por Éponine Delacour que parecia deliciada com os relatos de seu herdeiro. A morena observava a todos, mas, tudo que enxergava era Fleur.
A forma como ela estava tão recatada, aceitando tudo que lhe era imposto, estava deixando-a nauseada. Fleur não podia entrar naquela batalha com a derrota impressa em suas atitudes, era sábio ser maleável a tudo que a vida pudesse lhe jogar, contudo, era burrice não retrucar de alguma forma. E Hermione não podia aceitar que Fleur, que tinha conquistado tanto sozinha e que era melhor que qualquer um naquela mesa, pudesse ser deixada de lado... Ainda mais quando o legado da família estava, praticamente, nas mãos de quem não merecia.
Por isso, Hermione respirou fundo e pigarreou. Em um primeiro momento, Othon fingiu não escutá-la e continuou seu monólogo a respeito do aumento das ações da família. A britânica voltou a pigarrear e, dessa vez, olhos azuis voltaram-se irritadiços para ela. Hermione sorriu para Othon e, assumindo a sua melhor expressão inocente, disse:
— Você não foi o único que trabalhou arduamente durante todos esses anos, Othon... Fleur também conquistou muito enquanto esteve na Inglaterra.
— Ah, claro! O pequeno bistrô que ela gerencia com o marido, não é? — Othon respondeu educadamente, entretanto, o tom de desprezo em sua voz não passou despercebido da observação aguçada de Hermione. Os lábios da morena franziram-se e ela bebeu um gole de vinho de sua taça para não dar a Othon o que ele merecia e o que Fleur não precisava em frente a sua família. Os olhos azuis de Othon a desafiavam de forma silenciosa e Hermione tinha dificuldade para se manter sensata naquele embate, a morena respirou fundo à procura de calma e respondeu séria:
— Futuro ex-marido, eu cuidei dos acertos do divórcio e assegurei os direitos de Fleur após a separação, foi assim que nos conhecemos.
— Divórcio? Ora... — Othon sorriu vitorioso e malévolo para a informação recém-adquirida. Hermione mordeu a parte interna da bochecha, amaldiçoando-se por ter cedido tão ingenuamente ao que ele queria. Othon tirou os olhos da britânica e voltou-os a Fleur que estava silenciosa, a comida praticamente intocada em seu prato. Os olhos azuis dele praticamente tiraram o pouco brilho que os dela ainda sustentavam e ele se deliciou no medo que viu nos olhos da prima. — Ainda bem que não tem motivos para voltar à Inglaterra, petit cousin.
— Eu posso garantir que não faltam motivos para Fleur permanecer na Inglaterra. — Hermione voltou a falar por Fleur e, dessa vez, a ameaça estava presente na forma como as palavras foram agressivamente lançadas a Othon. O francês pareceu surpreso com a atitude da “amiga” da prima, com certeza, ele não conseguia entender qual a natureza da relação entre as duas, mas, já compreendera que Hermione sabia o que ele tinha feito no passado.
E, diferentemente do que Hermione poderia ter pensado a respeito, Othon não se sentira intimidado e sim, satisfeito. O homem estava confortável em sua posição frente à família e no temor que provocava em sua prima e, essencialmente, ele estava muito curioso pelo que teria que enfrentar quando finalmente confrontasse Hermione. A morena fechou o punho esquerdo sobre sua perna, embaixo da mesa.
Instantaneamente, a mão de Fleur tocou a sua. Os toques delicados e trêmulos da francesa desataram as tensões de sua mão e o seu punho abriu, recepcionando a mão dela e envolvendo-a, apertando-a e fazendo-se quente no meio da frivolidade naquela mesa. Fleur afagou sua mão com o polegar e abriu o sorriso mais radiante que a sua própria dor permitiu. O coração de Hermione apertou-se porque aquele sorriso não chegava aos olhos cerúleos de Fleur.
— Fleur sempre teve motivos muito fortes para permanecer na França e, ainda assim, nos abandonou. Não espere que ela fique na Inglaterra, enfant innocent... — A voz arranhada e rouca de Éponine Delacour interrompeu a intensa troca de olhares entre Fleur, Hermione e Othon. Os três mais jovens voltaram-se à idosa que tinha os olhos no prato e cortava, pacientemente, a vitela. Ela levou uma garfada à boca e olhou para a mesa. Fleur tinha os olhos brilhantes pelas lágrimas provocadas pela expressão misteriosa da avó. — Não digo isso por mal... Fleur é tão obstinada quanto eu, porém, ela é muito mais corajosa do que eu jamais serei. Tem que ser muito corajosa ou muito burra para abandonar uma herança como a dos Delacour e se jogar no mundo por amor.
Pela primeira vez desde que sentaram à mesa, Othon pareceu desconcertado e desconfortável. Hermione observou as reações dos demais Delacour, deixando Fleur por último. O canto direito dos lábios de Apoline entortou em algo semelhante a um sorriso, Gabrielle engasgou com um gole de sua taça e Raoul estava impassível. Já Fleur... O brilho nos olhos permaneceu, mas, as lágrimas que antes significavam a tristeza, agora, representavam a emoção. Éponine Delacour não elogiava para agradar e sim, quando se sentia no dever de fazê-lo e para Fleur, depois de tudo que passara, ainda ser digna da admiração da avó era uma vitória incontestável.
A mão direita de Othon fechou-se como garra em torno de sua taça e ele a levou aos lábios rápido demais, bebeu um imenso gole do vinho enquanto Hermione escondia o seu sorriso, abaixando a cabeça e dedicando toda a sua atenção para o seu prato. A mão de Fleur escorregou do aperto de Hermione e pousou na coxa da morena, afagando-a delicadamente enquanto ela sorria, de forma maléfica e seus olhos brilhavam daquele jeito elétrico, a francesa suspirou e simulou um desentendimento ao dizer:
— Você falava sobre a inauguração de um novo empreendimento antes da conversa voltar-se para a minha vida tediosa na Inglaterra, primo... Então, o que é esse novo negócio?
Hermione deliciou-se pelo toque de Fleur, tão corajoso e arriscado em sua perna, assim como sorveu do desagrado de Othon como se ele fosse um néctar. O francês crispou os lábios e franziu os olhos para a prima, depois, olhou para a avó. Éponine agitou os talheres no prato, provocando sons desagradáveis, antes de disparar:
— Othon achou uma boa ideia inaugurar um bistrô em um novo espaço de arte que será inaugurado em Paris amanhã.
— Contrariando todas as minhas previsões financeiras, diga-se de passagem. Não podemos nos dar luxo de falharmos em algum empreendimento, visto que estamos cada vez mais pressionados pelos restaurantes estrangeiros que chegam à cidade. — Apoline também não escondeu seu desagrado ao participar da conversa e a sua opinião fez com que Othon apertasse os talheres em mãos, de forma tão forte que seus dedos ficaram esbranquiçados.
Apoline cuidava do setor financeiro da Cuisine Delacour e estava preocupada com as contas da empresa familiar há anos, não era culpa de Othon, mas, investimentos como aquele podiam levá-los à falência. Fleur estava satisfeita com a desaprovação clara da mãe em relação a Othon, também podia ver certa desconfiança de sua avó em relação ao seu primo. Talvez, ainda houvesse chance para ela retomar o que era seu por direito.
Porém, Éponine era uma senhora cheia de surpresas. A matriarca bateu os talheres no prato e alguns dos que sentavam à mesa sobressaltarem-se, Gabrielle derrubou vinho em seu colo dessa vez. Éponine olhou para a filha e, depois, para a neta. A expressão estava fechada e severa e ela somente abriu um sorriso à contragosto quando seus olhos tão azuis chegaram a Othon, o francês voltou a se encher de orgulho enquanto ela dizia:
— Entretanto, Othon foi o único que teve coragem para assumir a empresa quando todos os meus herdeiros resolveram desaparecer.
O brilho elétrico desapareceu dos olhos de Fleur e a opacidade os tomou. Dessa vez, Éponine não escondeu o ressentimento por Fleur ter negado a família e tampouco escondeu a crueldade ao dizer as palavras que tanto machucaram a chef. As feições de Othon desenharam a vitória e ele, dissimulado, sugeriu:
— Acho que deveríamos ir à inauguração amanhã, incluindo a sua amiga britânica. Assim, avaliamos por nós mesmos se o investimento foi bem feito ou não. O que acham?
Houve concordância geral da mesa, incluindo Gabrielle que até fez menção de negar o convite antes de ser advertida pelos olhos astutos da mãe. Fleur acenou com a cabeça e abaixou os olhos, visivelmente ferida daquela vez. Portanto, Hermione se fez novamente presente e voltou a segurar a mão de Fleur entre as suas, da mesma forma que a segurava agora que ela caíra diante do primo. A morena olhou profundamente nos olhos de Othon e, obstinada, disse:
— Nós não perderíamos isso por nada, Othon.
Todos se deliciaram com a Tarte Tantin feita por Fleur. A sobremesa significava o fim do jantar e, para Fleur, o fim da tortura que era a companhia de Othon. O homem, entretanto, não parecia satisfeito com o que provocara nela porque, quando ela esticou a mão para apanhar o prato dele, ele a tocou no pulso e, afagando-lhe a porção interna, sussurrou:
— Eu a ajudo com os pratos e a louça, petit cousin.
Fleur não precisou se defender porque, menos de um minuto depois, a cadeira de Hermione arrastou-se delicadamente para trás e a morena estava em pé, imponente e feroz, como uma leoa. Othon arqueou a sobrancelha dourada para ela, o sorriso irônico em seus lábios. Hermione não se intimidou e apanhou o prato de Othon, sorriu da forma mais dissimulada que conseguiu e disse:
— Não precisa se incomodar, eu sou a convidada à mesa dos Delacour e o mínimo que posso fazer é ajudá-los após o jantar.
Hermione, então, movimentou-se ao redor da mesa e recolheu os pratos. Fleur viu quando Othon canalizou sua irritação para a mão fechada em punho sobre o tampão da mesa. Em seguida, seus olhos buscaram Hermione que já se encaminhava para a cozinha com os pratos em mãos. Fleur a seguiu, calma à princípio, mas, depois de percorrer boa parte do caminho e sair das vistas de seus familiares, apressou o passo.
Chegou à cozinha e deu de cara com as costas tensas de Hermione, ela já colocara os pratos dentro da pia e já esfregava rudemente um deles. As palavras faltaram a Fleur e ela, simplesmente, depositou os pratos que carregava dentro da pia e apanhou um pano de prato para secar os que Hermione lavava. O silêncio entre elas só era interrompido pelo som do contato entre as louças e o barulho da água correndo. A francesa respirou fundo e, nutrindo-se de coragem, deu um passo em direção a Hermione.
A morena tencionou ainda mais a postura, assim como fechou o aperto na bucha e nas loucas que lavava. Fleur não teve medo porque, se Othon podia destruir a sua vida, a única que poderia reanimá-la era Hermione. Por isso, a loira envolveu a cintura da morena com uma das mãos, enquanto a outra afastava os cheios cabelos castanhos do pescoço moreno. Ali, aplicou um beijo e sussurrou baixinho, em tom confesso:
— Eu não sei o que teria feito sem você.
Hermione não respondeu, a sua expressão tampouco mudou, todavia, algo no relaxar de seus ombros e na forma como ela respirou fundo fez um sorriso verdadeiro brotar nos lábios de Fleur. A francesa voltou a se afastar e elas, mais uma vez, entregaram-se ao silêncio. E a ausência de palavras e sons parecia ser a maior recompensa depois de todas as atribulações e confrontos verbais que travaram naquele dia.
Através do corredor, escutaram quando Othon e Éponine despediram-se. Logo após os dois partirem, Raoul e Apoline desejaram boa noite e as duas escutaram seus passos pesados na escada. Alguns minutos depois, foi Gabrielle quem chegou à cozinha. Ela tropeçou nas próprias pernas ébrias e riu antes de dizer divertida:
— Juízo, mocinhas! Espero encontrar somente louças limpas quando eu descer para o café amanhã!
— Eu acho que a única coisa que você encontrará pela manhã será uma boa ressaca, Gabby... — Fleur ria, mesmo que seu peito estivesse esgotado por todos os esforços de manter o seu coração intacto naquela noite. Também tinha as mãos na cintura enquanto olhava para a irmã, Gabrielle fez um gesto obsceno para ela antes de acenar e seus passos tropeçarem na escada. Hermione ria para o último prato que lavava e Fleur voltou a se aproximar dela.
A francesa beijou-lhe o topo da cabeça e respirou profundamente entre seus cabelos, Hermione riu para a necessidade de Fleur em permanecer tão perto, entretanto, não negou o seu próprio desejo de permanecer junto dela pelo tempo que fosse. Hermione queria isolar Fleur de tudo que poderia cercá-la e ameaçá-la.
As duas terminaram as louças e subiram as escadas de mãos dadas, as mãos frias pela umidade do que lavaram enquanto os corações estavam quentes pela saudade e pela necessidade. Ao chegarem ao corredor que levava aos quartos, Hermione foi a primeira que soltou as mãos. E como um aviso maldoso do destino, elas escutaram ruídos do quarto de Apoline e Raoul.
Passos e, depois, a sombra de um corpo desenhou-se embaixo da porta. Apoline estava acordada e pronta para assegurar que elas permanecessem separadas já que as suas suspeitas não haviam sido sanadas naquele dia. Fleur e Hermione se olharam e a francesa, especialmente, demorou-se para a distância que separava seus corpos.
Hermione, mais experiente, já vivera aquilo. Não aquela intensidade de sentimento e sim, a necessidade de separação. A morena aproximou-se e ficou nas pontas dos pés para beijar a bochecha de Fleur, a francesa fechou os olhos ao sentir os lábios de Hermione em sua pele e suspirou quando eles a deixaram. A britânica afagou-lhe os cabelos e sussurrou:
— Durma bem.
Fleur não respondeu, mas, a expressão desolada em seu rosto deixava claro que ela não sabia se conseguiria dormir. Aquele era somente o primeiro dia em que a proximidade entre elas não era o bastante para nutrir a necessidade de estar ainda mais perto.
Apenas o primeiro dia de uma guerra que começava a feri-la antes mesmo que ela tivesse a chance de atacar.
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