La Petite Mort
1 Único - La Petite Mort
Notas iniciais
La Petite Mort
Ela não é diferente de muitas outras existências. Tem uma certa inteligência mórbida, uma beleza transcendente e uma discrição — ou indiscrição, pois às vezes também o prefere — digna de louvor. Traja para esconder o que vai no seu âmago, pois o que esconde assusta os mortais, e remove toda a maquilhagem quando chega a hora de levar as almas até ao seu último destino.
Ela não é muito diferente das outras existências. Tem um cheiro doce de mel, meio dia e se canta ora nos rios lacrimosos dos violoncelos ora nos luminosos céus dos trompetes. Está presente no vermelho fundo dos olhos dos que ficam, no negro infinito dos olhos dos que a abraçaram, no desabrochar quebrado das saudosas flores que lembram e no infinito azul ímã do sol.
Sabe a morango, a chocolate, a especiarias — a tudo o que as almas amam. Sabe a vida — por muito contraditório que isso seja — e sabe a um doce amargo. Traz uma panóplia de emoções, agridoces sensações e muitas memórias — um filme inteiro delas. Tem um toque de porcelana, um hálito de medo.
Olhos dos últimos suspiros, feição das palavras terminais, dedos dos toques finais, braços incansáveis, silhueta da suprema justiça e o toque débil das camélias. Varre. Prefere os sacrifícios. Sem nenhuma estridência. Deus subordina-se.
Deus subordina-se e a Morte condena. A doce Morte, a injustiçada Morte, a bela Morte, que para a paz carrega todas as almas, a indesejada Morte. Aquela que permite que outra vida, essa criada por Deus, tome o lugar da que parte. Aquela que mantém a Vida a circular, que aquece o leito da terra e arrefece os amores dos que ficam.
A faísca de tudo que é vida em nada.
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