Ela veio até mim em uma fria manhã de Domingo. Não sei como ela me achou, nem porque havia me procurado. Apenas sei que ela estava lá, que era real.

Ela, com uma voz de tonalidade singular, disse-me:

- Nomeie sua graça.

Por um momento, a calmaria e a frieza de sua voz me deixaram sem reação. Eram como um oceano desconhecido pelos homens, intocado e perigoso. Por fim, respondi:

- Joffrey. Joffrey Muspell.

- Joffrey… É costumeiro oferecer chá a um visitante.

- Oh, perdoe meus modos, — havia notado uma aliança nos dedos da moça — senhorita…

- Décès.

- Certo… Que tipo de chá a senhorita deseja?

- Não gosto de chá, obrigada.

- Mas a senhorita disse…

- Eu disse que era “costumeiro”, não “obrigatório”. Mas aceito um café.

Eu me dirigi à cozinha, adentrando o hall principal e deixando a escura sala de piso de mogno para trás.

A imagem da mulher me fez lembar dos últimos meses, meses de perda. Minha mulher havia sido morta por um grupo de ladrões, deixando a mim e a meus filhos sozinhos. Dois meses depois, eles morreram de Pneumonia. Desde então, eu havia caminhado escuridão adentro. Eu fui apresentado a um mundo onde a luz do dia se dissolve em sombras, e a devastação criava um rastro à minha volta. A casa se tornara triste e escura, e eu supria um enorme desejo de findar esse desperdício de vida…

Preparei o café e me dirigi à sala, passando novamente pelo hall enfeitado com retratos de pessoas que não mais estavam vivas e vasos com plantas antes coloridas e vistosas, que agora jaziam num cinza melancólico, a terra escapando pelas rachaduras.

Quando minha vista alcançou a sala, ela atravessou a janela à frente e foi parar na neve que caía incessantemente lá fora. Era inverno na Escócia, e a neve se misturava com a umidade do ar.

Olhei para a escada que formava uma das paredes do hall, e as memórias dos invernos passados me entorpeceram com um misto de nostalgia e extrema tristeza. Por um momento havia me esquecido da peculiar mulher. Mas somente um breve momento.

Eu poderia ter simplesmente fechado a porta quando ela veio até mim mais cedo naquela manhã, mas eu não consegui. Era como se fosse humanamente impossível desobedecer a bela mulher de cabelos ruivos claríssimos, dedos longos e rosto afinado.

Talvez tenham sido os olhos. Os olhos cinzentos contrastavam com a pele pálida e passavam a sensação de que haviam presenciado toda a História humana. E que se lembravam de tudo.

- Como gosta de seu café, Srta. Décès? — Eu disse, quebrando o breve silêncio.

- Puro e frio.

- Oh, entendo… Bom, a senhorita terá de esperar um pouco, pois está muito quente.

- Não será preciso.

Dito isto, ela tirou a xícara e o pires de minhas mãos e os colocou sobre a mesa em frente ao sofá onde ela se sentava. Descansou a mão um pouco acima da xícara e literalmente absorveu a fumaça. Naquele momento, eu senti um frio cortante caindo como uma foice sobre a sala, apesar de a lareira estar acesa. Acredito que o café também havia esfriado, pois a dama o saboreou alegremente após isso.

- Você compreende que eu não vim até aqui para tomar café, certo? Você pode não me conhecer, Joffrey, mas eu sei tudo sobre você. Sei da sua mulher e de seus filhos, tirados de você antes da hora. Sei de seu sofrimento, de seu ingresso na profunda sombra da melancolia.

- Q-quem é você?!

- Eu sou seu futuro, e sou a única certeza em sua vida. Ainda assim, sou imprevisível. Posso tardar a chegar, como posso também estar logo atrás de você.

- V-você é…

- A Morte? Sim.

Por algum motivo, parecia algo bem fácil de se acreditar. Os olhos cinzas, a pele pálida, o longo vestido negro… Os olhos. Com certeza os olhos.

Com a voz suave, ela continuou:

- Não há com o que se preocupar. Bom, não muito. Eu acompanho sua vida desde que seus filhos pisaram em meus domínios. Suas últimas palavras antes de irem de encontro aos Portões do Paraíso foram “papai vai ficar bem?”. Geralmente não sinto compaixão. Mas você… — Parou e olhou para baixo, triste.

- Eu…

- Você me lembra meu marido. — Disse isso enquanto girava a aliança no dedo, e eu pude jurar que vi uma lágrima solitária na face da Morte.

- A senhorita tem… marido? — Eu estava, no mínimo, perplexo.

- Tinha. Ele não está mais entre nós. Nem entre vocês.

- Oh, me desculpe, eu…

- Pelo quê? Não foi você que o matou…

“Joffrey, você perdeu tudo. Eu conheço a sensação. É um vazio, um buraco negro que suga toda a possibilidade de alegria possível. E, junto dessas possibilidades, sua vontade de existir.

Esse vazio cresce dentro de você, até você tornar-se o próprio vazio.

Dois meses, Joffrey. Siga em frente. Eu segui, há sempre esperança. Até a Morte pode ter esperança.”

- Eu não…

- Temo que que deva partir. Se você seguir meu conselho, o meu retorno há de tardar. Do contrário, nos vemos em duas semanas. Até lá, passar bem.

Ela não me deu chance de debate. Foi até a varanda e fechou a porta da sala. Tive a certeza de que ela não estaria lá quando eu abrisse a porta, então deixei-me desabar no sofá.

Meus olhos estavam vagos. Eu olhava para a xícara de café que a Srta. Décès usou, tentando entender o que aconteceu ali. Olhei para cima, esperando que minha mulher, Deus, ou até mesmo Décès me respondessem. Nada.

Faz dois anos que ela apareceu em minha casa, e essa é a primeira vez que conto esta história.

Ironicamente, a Morte me deu uma razão para viver.

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