La Lumière du Chérubim
1 Capítulo Único
"A Luz do Querubim"
Naquela tarde, os zéfiros entrelaçavam-se por dentre os campos do interior, levando consigo as plumas dos tímidos dentes de leão. Imaginava como o rosto dele estaria no final daquele verão, tomando sol todas as tardes. Cheio de sardas, certamente.
Vê-lo tão alegre e empolgado divertindo-se com coisas tão triviais como um pouco de lama e brinquedos gerava em mim uma satisfação tremenda. Talvez maior que satisfação, não, não é esta a palavra certa. Diria que era quase uma jovialidade, um prazer que descera das nuvens.
Quando comunicava a vinda do sono, me puxava a bainha da blusa e dizia com uma voz arrastada que gostaria de ouvir uma história. Não que isso fosse um fator para cair no sono, pois só as primeiras linhas eram o suficiente para Lourenço repousar serenamente nos braços de Morfeu. Nos seus sonhos, tomariam café da tarde junto de Ícelo e Fântaso, degustando de um bom tito (leite com chocolate) e alguns croissants. Conhecendo a criaturazinha boba, iria soltar alguma gargalhada de boca cheia em meio às histórias dos deuses dos sonhos.
Mesmo debaixo de uma intempérie, as famosas chuvas refrescantes do verão, podia-se encontrar suas pegadas na lama e sua capa de chuva azul turquesa zanzando por ali. Nos braços, carregava dezenas de galhos para a tão esperada noite do marshmallow. A noite em que fazíamos pé de moleque no mármore, morango com chocolate, queijadinhas e obviamente, marshamallowstostados na lareira. Esse era um dos poucos dias em que a família vinha celebrar conosco. Era unicamente só eu e Lourenço. Todos os dias que corriam em bons e tranquilos segundos. O pequeno segurando firmemente o galho com o marshamallow espetado, guiando-o com delicadeza até o fogo que flamejava. E eu apenas observando, controlando um riso nos lábios pelo modo como aquele procedimento parecia importantíssimo para ele. Lourenço, tão menino, tão pequeno, me parte o coração ter de empurrá-lo para esse mundo tão cruel e frívolo.
Édipo que se estremeça no caixão e Freud que se excite com essa relação. De todas as crianças que conheci na Terra, Lourenço era o mel mais afável de todas as colmeias. Quantas margaridinhas campestres me foram presenteadas mesmo fora de datas importantes? Quantas cartas em folhas de caderno com manchas de grafite, mas com todo o amor concentrado naquelas letras sinuosas? E por que tais lembranças me parecem tão efêmeras, afinal?
As fotografias grafam memórias sem fim. Recordava-me do dia em que o fantasma de minhas aflições deixara o lar, abandonando o pequenino com a roupa amarrotada do nervoso, os nós brancos dos punhos fechados e o pranto ensopando e manchando o rosto com as poeiras do jardim. Ele, incapaz de expressar nenhum piu, apenas repousara em um dos degraus da escada, descansando sua cabeça nas mãos que eram pilares dos joelhos. A angústia era nauseante. Pelo menos um mês e meio se passou com essa presença inóspita da ansiedade. Ele, meu petite douceur, tão novo para sentir os arrepios desse sentimento dispensável e tóxico. Mas, era elementar, mesmo que fosse no seu subconsciente, algo dentro de si dizia que ele iria voltar.
Algumas crianças colecionam bolinhas de gude, outras carrinhos, cards, quadrinhos, mas Lourenço não. O jovenzinho colecionava insetos que ele encontrava por aí. Ás vezes explorava os mais escuros escombros, se aventurava nos mais profundos buracos perto da densa floresta que havia atrás de casa. Voltava equilibrando potes de vidro onde guardava os pobrezinhos. Era extremamente organizado com sua coleção. Quando os encontrava vivos, fazia habitats especiais para eles, mas claro, eles nunca viviam tanto tempo. E ele ficava extremamente chateado com isso. Certa vez, Lourenço adentrara em casa correndo trazendo consigo uma libélula. Cuidadosamente, o pequenino abrira as mãos em concha e a libélula estava ali, bela e formosa. Poucas vezes eu o vira tão feliz. Se afeiçoara intimamente com aquele presente da natureza. Admirava o jeito que ela voava pelo quarto dele, ou quando pousava na estante de livro parecendo um enfeite exótico. Certa tarde de inverno, ela morreu. Seu esqueleto havia se tornado opaco. Seu tom verde esmeralda transformara-se em um cobre manchado. Foi a segunda maior perda de Lourenço.
Novamente, éramos só eu e ele. Na maior parte das vezes, sempre foi. Eu e ele. Mesmo com a presença do fantasma dos meus pesadelos. As luzes amarelas de Natal piscavam em sincronia com as outras luzes azuis que davam um divertimento a mais na singela árvore de natal. Cada bolinha colocada com todo o amor do mundo. O coração se tornava mais caloroso nessa época do ano. Enfeitar a casa era uma regra que deveria ser seguida a risca em meados de novembro já. Ao entardecer, as luzes continuavam apagadas para que dessem lugar aos brilhos pomposos que o Natal trazia. Nas escadas, resvalavam adornos natalinos salpicados de neve juntamente de berloques de prata. Sob o suporte da lareira, pequenas quinquilharias feitas pelas próprias mãos de Lourenço jaziam ali toda a época do ano e, também, uma guirlanda que se entrelaçava com ornamentos de ouro e prata, enfeitados mais ainda com fitas nas cores vermelha e verde. Era claramente a época do ano favorita do pequenino, que mesmo não ganhando muitos presentes, se entusiasmava com a chegada da meia noite e a consequente explosão de fogos de artifícios.
Seus olhos faiscavam com a imagem que reluzia na escuridão celeste. Nas profundezas daqueles orbes de avelã, festejantes salpicadas de alegria saltitavam perante aquela beleza que só acontecia nos eventos de fim de ano. Em seu peito, acendia um fulgor que iluminava a tudo que nos circundava. Com o Natal, uma esperança desconhecida crescia no inconsciente de Lourenço. A ansiedade para tudo o que aconteceria nos próximos anos. O êxtase das inúmeras possibilidades que o cercavam. E em nenhum momento ele transmitira qualquer pitada de medo, insegurança ou aflição. Sua luz ofuscava todo o sentimento de treva. Tão sábio, determinado e querido como um... querubim.
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