La Doña del Rio
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Marisela ficou com tudo o que ela tinha. As terras, o homem, o sonho de ter uma família com aquele homem. Marisela tem tudo o que Bárbara deixou para ela.
E no lugar daquele sonho (agora Bárbara percebe que era um sonho bonito, mas vazio e jamais teria se tornado real), ela tem um barco e mercadorias para entregar. E, sim, às vezes parece que ela voltou no tempo, para aqueles poucos anos em que passou com sua velha, vendendo coisas em um barco, com ódio do mundo e dos homens e de si mesma.
Mas o que Bárbara tem agora não pode ser regressão, não quando todo aquele ódio se dissipou, deixando apenas a força, a coragem, o ferro por baixo de sua pele; que ela sempre achou que iriam embora se ela algum dia perdesse a raiva. A raiva, Bárbara percebe, não era o combustível para sua força, era o combustível para sua derrocada. Ela se sente infinitamente mais leve sem ela.
Suas costas ainda doem com o peso de seus erros e seus traumas e suas péssimas escolhas. Ela ainda acorda suando frio, o coração batendo rápido, o pesadelo daquela noite terrível ainda presente, queimando sua mente como ferro em brasa. E alguns dias ela acorda com um péssimo humor, sem nenhum motivo aparente. Sua arma ainda anda em sua cintura, por precaução, e ela a saca com mais frequência do que qualquer um gostaria. Ainda é um mundo de homens, esse onde ela vive, e, homens, nem sempre respeitam seus limites.
Mas ela sorri mais, ri mais. Seus dias bons são frequentes e as pessoas não têm mais tanto medo dela como costumavam ter. Alguns não têm medo nenhum. Existem algumas crianças, em uma missão religiosa, que dão pulos de alegria quando Bárbara chega e a abraçam como se ela fosse uma pessoa qualquer. Não, não uma pessoa qualquer, mas uma pessoa boa.
Bárbara não acha que ela é boa, mas não se acha mais tão má.
Existem pessoas pelo seu caminho que ela pode chamar de amigos e existem lugares para onde ela sempre volta e passa mais tempo do que deveria por causa delas. (Ela nunca volta para a Araúca, apesar de que as pessoas que ela mais ama estão lá). Bárbara ainda passa a maior parte do tempo sozinha, em seu barco, em sua floresta, em seu rio, mas em paz. Tão em paz quanto ela é capaz de ser.
E Eustáquia estava certa. Ela havia dito que quando tudo acabasse, Bárbara veria tudo de maneira diferente, então estaria pronta para voltar ao rio. Na época, ela havia achado a escolha de palavras da Velha, voltar para o rio, errada. Ela já estava longe daquela vida há tanto tempo. Mas quando Bárbara entrou em sua canoa, o rio abriu-se em frente a ela, como uma mãe abre os braços para a filha a muito perdida.
Assim ela se sente quando está sozinha em seu rio, mais perto do mundo e de si mesma do que jamais esteve. Ela escuta Eustáquia no silêncio da floresta.
Fale com o autor