La Donna

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Boa leitura para vocês, aproveitem ♥

Eu estava no canto daquela grandiosa sala.

Sozinha ali, nada mais tinha um sentido significativo para mim. Não tinha mais porquê não desistir, ou um motivo para seguir em frente.

Matteo caminhava em minha direção em passos pequenos e calmos, nada exagerado. Era engraçado pensar que a menos de dois dias eu ficaria desejosa de seus braços ao redor de mim ou de seus beijos em meus lábios e pescoço.

Seu rosto revelava a aflição que ele sentia. Seria por mim ou pelo momento?

Ele estava a poucos passos de mim. Olhei para baixo para fingir não o ver, mas não demorou muito para seu perfume amadeirado tomar conta do pouco espaço que ele fez ficar entre nós dois.

Num gesto de pena, talvez, ele me envolveu em seus braços. Eu realmente não queria pena de ninguém, mas não queria luta. Na verdade, não tinha mais nem um pingo de força tudo havia se esvaído no momento em que aquela campainha tocou.

Íamos, mamma, papa, Valentina e eu jantarmos fora, para comemoração de algum feito de meu pai que ele só contaria no jantar. Estávamos em um momento de descontração, as três meninas se arrumando. Meu corpo, minha mente e meus sentidos me avisavam que algo ruim aconteceria, mas decidi ignora-los.

Depois de correr atrás de Valentina por toda a sala, eu estava

vitoriosa, sentada no sofá calçando em seus pezinhos pequenos sapatinhos vermelhos.

A campainha tocou, foi a última vez que vi um sorriso no rosto da minha mãe. Ela caminhava para o pesadelo, mas não sabia disso. Não sabia do impacto que traria uma visita naquele momento, não sabia a devastação que causaria o tocar daquela campainha.

Dois dias depois é isso que passa na minha cabeça enquanto recebo um abraço que me conforta, mas sufoca.

Não tive coragem de ir ver seu caixão simbólico. Os legistas disseram que o queimaram vivo. Só de lembrar disso meus olhos começam a arder novamente. Mamma logicamente não me disse isso, ouvi, espionando as conversas dela e de zia Geovanna.

Me dava ódio essa situação, e mais ainda não poder fazer nada. O que eu faria? Sairia pelo mundo atrás do assassino do meu pai e na melhor das hipóteses voltaria quebrada para casa? Mamma não suportaria outra perda.

Minha cabeça estava confusa e girava no meio de tanta gente com quem eu não queria falar, não queria ver. Não era problema com as pessoas sem si, mas todo meu momento me transformava, transformações doem.

Os dias que se passaram foram mais complicados demais.

Ainda tinham uma movimentação grande na minha casa, as pessoas vinham se despedir, mostrar condolências, contar belas histórias sobre meu pai e outras vinham para fofocar. Querem saber quem assumirá o lugar dele, alguns cara-de-pau vem até para pedir o cargo dele. Algo que me enoja.

O cargo estava entre Geovani Greco, Francesco Fiori e eu, mas não era uma briga ou guerra, era algo complicado.

Francesco era um dos melhores amigos do meu pai, ele, Manuel (meu pai) e Geovani eram como uma versão masculina e mais séria de As Três Espiãs Demais. Francesco é mais integrado na história e envolvimentos da Nostra Famiglia. Geovani é quem treina todo mundo e incentiva um bom trabalho vindo dos recrutas mais novos. E eu era apenas uma garota curiosa que adorava se meter em confusão, que amava de todo seu coração ser uma mafiosa assim como o pai.

Assim como meu pai, essa frase martelava na minha cabeça. Meu sonho era ser como ele. Ele me ensinou tanta coisa, mas me faltam tantas outras. Nunca corri um perigo de verdade, sempre estava protegida. Será que se eu ficasse com a máfia eu o desapontaria?

Em um mês tive que decidi, e a decisão estava mais clara que as águas cristalinas da praia de Elba.

A primeira reunião que eu participaria seria a reunião com os Fiori, Moccio e Geovani.

— Eu já decidi o que fazer.

Falei rápido enquanto todos estavam falando sobre a proteção e dinheiro da máfia que ganharíamos mesmo que eu não assumisse.

Fiquei quieta observando Nicola, filho de Francesco olhando para mim com a cara de quem se divertiria. Ele era o único que sabia da minha decisão.

— E qual é Mia? — disse Francesco com um ar curioso e gentil.

Apesar de Francesco ser meu padrinho e ser mais próximo da minha família, Geovani me conhecia muito bem.

— Mãe, eu não quero te decepcionar — olhei para baixo um pouco sem jeito — Mas eu quero entrar nessa.

Me detive a olhar poucos rostos. Nicola riu batendo poucas palmas, Geovani abriu um enorme sorrio enquanto Francesco ficou de certa forma emocionado e me deu um abraço, murmurando que sabia que eu tomaria a decisão certa ou algo do tipo.

Matteo me olhava preocupado, meio desesperado. Zia Geovanna falava algo para minha mãe que eu não entendia. Ela saiu da sala dizendo que ia ver as meninas, Luna e Valentina, que brincavam no andar de cima.

Mamma levantou da cadeira e deu um pequeno sorriso.

— Era lógico que você escolheria seguir os passos de Manuel, cabeça dura como ele. — disse enquanto seus olhos deixavam clara a emoção, mas não era de total alegria.

— Vou marcar uma reunião com todos os membros daqui a

dois dias — disse Geovani — Pode ser um pouco assustador, mas Francesco e eu estaremos lá por você. — Matteo deu um pigarro e Geovani riu — Matteo também.

Os dias que se seguiram até a reunião passaram lentamente como uma terrível tortura. Mamma falava o tempo todo de coisas como não deixar a família de lado e de não deixar a máfia me dominar.

Eu quando saia do quarto sempre dava de cara com a porta do escritório do meu pai, mas evitava olha-la mais que o necessário. Eu tinha medo de abri-la e desencadear todos aqueles pensamentos e memórias. Eu tinha medo de abri-la e ver que ela era como uma comporta aberta. Um pequeno despejo das nossas histórias e nada faria com que aquilo fosse cessado.

Eu evitava pensar muito sobre ele. Sabia que se pensasse muito eu seria levada a total loucura. Minha mente já estava focada e tinha um propósito maior.

Passava o dia mentindo sobre meu humor ou escondendo minhas verdades, fugindo de quem me conhecia, dando sorrisos falsos com aspectos de verdadeiros e por qualquer coisa me trancando no quarto.

Não abria as cortinas. Minhas janelas altas davam para a janela do quarto de Matteo e ele, tirando minha mãe, era o mais preocupado comigo, mas ele aprendeu a me dar o espaço necessário com o tempo.

Eu já havia mudado de roupa várias vezes. Eu me sentia confusa com o que vestir mais por questão de apresentação para eles. Não queria que eles pensassem que eu era uma princesinha metida que estava tentando fazer algo que eu não conhecia ou não sabia. Eu passei a tarde pensando em uma roupa que impusesse meu respeito, mas toda vez que pensava no termo de roupa que impusesse respeito eu ria.

Mas na última tentativa lembrei que eles já me conheciam, lembrei que eu tinha que impor respeito por ser eu, então me arrumei não me atendo a detalhes como caprichos em maquiagem. Fui até a cabeceira da minha cama, onde tinha porta-retratos com a foto da nossa família.

Beijei delicadamente a ponta dos meus dedos e as pus sobre a foto.

— Espero não te decepcionar — disse olhando a foto do meu pai. — E proteger vocês. — agora me virando para Valentina e mamma.

Sai de meu quarto me encaminhando nervosamente para a sala.

Os cabelos castanhos claros de Valentina se esvoaçavam por onde ela passava rodopiando e fazendo alguns passos de ballet. Ela, provavelmente, é o espírito que traz vida a casa. O motivo pelo qual eu sei que devo lutar.

Valent tem 9 anos e é absurdo o tanto que ela é o reflexo do meu pai. Seus olhos sempre atentos e grandes são castanho

bem claro, como de papa. Seu nariz arrebitadinho lembra muito o dele, e ainda tem toda a energia que os dois transmitiam e agora só vem dela.

— Mia, você pode vir aqui? — gritou mamma da cozinha.

Passei por Valentina sorrindo para ela, que sorria de volta para mim, ainda dando seus rodopios cheios de graça.

Ao chegar na cozinha havia uma xícara sobre a bancada.

— Para você. — disse mamma dando a volta na bancada e sentando do meu lado enquanto tomava alguns goles do chá oolong. — Eles vão querer te desrespeitar, vão tentar você se sentir mal e incapaz.

Deixei minha xícara em cima da bancada e me virei para mamma um pouco decepcionada.

— Desculpa mamma, mas pensei que você iria me apoiar, não tentar me fazer desistir.

— Não, meu amor. — Anna Moccio, se apressou. — Quero que você entenda que independente de qualquer coisa, você é capaz. Ninguém vai fazer isso melhor que você. — ela pôs uma arma que eu havia ganhado no meu último aniversário sobre a bancada. — Leva. Evite usar, mas leve.

Eu era restritamente proibida de usar armas, a não ser que fosse em aulas de tiro, e eu podia quando meu pai me levava para trabalhar com ele, mas nunca precisei.

O interfone tocou, mamma foi atender e voltou dizendo que eu deveria rapidamente ir porquê o carro que veio me buscar já estava lá embaixo.

Estava na hora da reunião. Estávamos todos numa casa afastada da cidade, no meio do nada. Era uma casa de campo majestosa, eu sempre gostei dela.

Nós reunimos, como de costume, no porão da casa e estava lotado. Havia vários gerentes de sessões da Nostra Famiglia, meu pai já havia me apresentado, alguns ainda não conhecia.

Meu pai me explicou que eles eram chamados de Dons, apesar de serem só gerentes, por conta de segurança. Quando se é Dom tem mais prestígios que um gerente, além do fato de que gerentes são descartáveis. Mas meu pai não pensava assim. Além do mais esses gerentes cuidam de sessões inteiras em vários países e regiões, eu os admirava por isso. Eles tornavam o trabalho mais fácil, mas será que continuariam a tornar?

O rosto confuso de alguns membros da Nostra Famiglia por me ver na reunião, ficaram mais confusos quando me viram ao lado de Francesco que iniciava a reunião com um minuto de silêncio em homenagem ao meu pai.

Depois desse minuto a palavra foi passada a mim. Eu tentava encontrar ali rostos conhecidos ou caras receptivas, então vi Dom Pietro Salieri, que era como um filho pro meu pai com um sorriso amigável para mim, olhei para o fim da sala e vi Matteo sorrindo para mim.

— Bem, sou Mia Moccio, filha do Dom Manuel Moccio, para quem não me conhece.

Um silêncio reinou por um curto tempo. O que eu deveria dizer agora mesmo? Me sentia um pouco inquieta, talvez confusa.

— Eu não gosto de enrolações, então vou ser direta com vocês todos. Fico feliz pelo apoio que deram a minha família e eu espero que depois desse pronunciamento ainda tenhamos apoio. — dei um risinho meio sem graça, mas agradecido — O sonho Moccio de manter um clã grande não se foi junto com meu pai, assim como não se foi com meu avô. Nostra Famiglia foi criada pelos Moccios e a decisão que tive de tomar não foi simples.

Me senti meio insegura de continuar até olhar para Matteo e ele me encorajar, em silêncio, a distância, mas encorajar como ele sempre fazia.

— Nostra Famiglia, continuará no poder nos Moccio, e eu serei a mais nova Donna.

Burburinhos e sons de espanto tomaram a sala e eu respeitei, por alguns segundos. Lógico que eles iam ficar assim. Não era que eu fosse fraca, mas eles não iriam querer ter uma mulher mandando.

— Sei que é algo inesperado, talvez nunca tenha nem passado pela cabeça de vocês. Mas foi a decisão que tive e ela cabe apenas a mim.

Tentava me conter e não olhar as caras irritadas e bravas para mim, ao invés de medo, me deu coragem. Eu não desistiria por uma sala com caras bravas.

— Tudo o que fiz e aprendi foi guiado pelo meu pai, eu sei que eu posso fazer isso por honra ao nome dele e ao nome dos Moccio.

Fiz um silencio que pareceu durar horas. Minha noção de tempo parecia estar se perdendo.

— Já que ninguém vai falar nada eu falo. — um homem com cara de 50 e pouco de cabelos grisalhos da primeira fileira se manifestou. — Eu proponho uma votação pela honra de Manuel. Essa garota não pode assumir e trucidar esse clã tão renomado.

Respirei fundo e revirei os olhos sem paciência.

— Foi mal, mas sem poder de escolha.

— Mas isso é uma vergonha para Manuel, sua filha achando que o clã mais importante da Itália é uma brincadeira.

Seu ar debochado me irritava mais do que qualquer coisa. O pior era ver algumas pessoas o apoiando

— Pare de citar o nome do meu pai.

O homem se levantou e se aproximou como em desafio. Houve uma certa movimentação, deu para ouvir.

— Senão você vai fazer o que?

Tirei minha arma do coldre e a destravei.

— Você não deve nem saber atirar. Queremos alguém que ameaça e não faz como líder? — virou ele para as pessoas ainda sentadas, mas se virou para mim. — É só isso?

Um estouro oco reverberou pela sala. O tiro pegou em uma das madeiras de sustentação do teto do porão.

— Mais uma vez ameaçando, senhorita Moccio? — disse se virando pra mim, me desafiando sem disfarçar.

Em um rápido movimento o virei e apliquei uma gravata nele pressionando com um braço quanto colocava a arma em sua cabeça.

— Se continuar me ofendendo com seu sarcasmo escroto seus miolos serão a nova decoração desse porão, estamos de acordo? — disse sussurrando em seu ouvido.

Ele não se mexeu e nem falou nada, era óbvio que estava tentando tirar completamente minha paciência para brincar de ser mártir na situação.

Apertei um pouco mais o braço fazendo o grunhir e reclamar do aperto.

— Siamo d'accordo?

Ele balançou a cabeça e então o joguei no chão. Ele caiu vermelho, tentando engolir e pôr para dentro todo o ar que poderia conseguir.

Me virei para o restante dos ali presentes.

— Como ia dizendo antes de ser interrompida, nada será modificado e todos continuaram com seus cargos.

Depois de algumas mais considerações e avisos vindos de Geovani e Francesco a reunião acabou.

— Mia Moccio, calma como um mar agitado. — riu Pietro Salieri se aproximando.

Ele era um pouco mais velho que Matteo, e Dios, como era lindo. Parecia que os dois disputavam e o mais difícil era escolher quem venceria.

Sorri sem jeito para ele que pegou minhas mãos para dar um beijo nelas e eu derreti.

Francesco se aproximou de mim, tocando em minhas costas e Salieri soltou minhas mãos. Matteo se aproximou sorrindo para mim.

— Diria que foi um pouco mais surpreendente do que eu imaginava. Uma entrada bem Mia. — disse Matteo rindo.

— Se não fosse exagerado não seria. — disse rindo.

Depois de alguns minutos conversando com algumas pessoas, fomos caminhando para o carro. Pietro se despediu enquanto eu entrava no carro de Francesco com Geovani e Matteo.

— Você acha que vão haver mais oposições? — disse a Geovani.

— Não mesmo, eles estão com medo, vão ficar.

Dei os ombros. Menos mal.

Notas finais
Obrigada por terem lido, e comentem aí se gostaram da Mia e da história. Beijinhos, até a próxima!

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