Notas iniciais
Bom dia, Boa tarde, boa noite!

Essa história foi escrita especialmente para a coletiva Expresso Polar do grupo Café com Leite, esse e outros contos estão no perfil do grupo no nyah, passa-lá.

E fique até o fim, não posso prometer bolo, mas prometo cena pós-créditos.

Olive acordou sentiu os pequenos joelhos cederem ao cair no chão. Tinha os olhos brilhantes como duas grandes bolas de vidro e o cabelo loiro ensopado. — Papai — choramingou estendendo a mão há sua frente.

...

— Olive, minha querida — disse o velho com um sorriso bondoso nos lábios, havia sido um bom dia para a menina. — É hora de dormir, sim?

— Certo, papai! — respondera impulsionando o pequeno corpo para dentro de sua cama — Boa noite!

— Boa noite! — retrucou a voz calma, fechando a grande tampa de madeira.

Brincara com um par de crianças naquela manhã, cantara e dançara até seus pequenos pés doerem, mas tudo acabou de repente, quando os homens de casaca azul pegaram dois garotos pelas orelhas, muitos escaparam para suas casas e Olive foi salva por seu papai. Nicolau a segurou antes que os homens a vissem e a puxou para dentro de casa.

Os homens em casacas azuis não gostavam de barulho naquele horário e tinham uma regra sobre crianças. Por isso Nicolau sempre a mantinha por perto, ele costumava dizer que aquela cidade não era para crianças pequenas, mas que um dia a levaria para um lugar muito diferente, onde as crianças podiam brincar sem medo pelas ruas e não haviam casacas azuis.

Mas aquele dia nunca chegou.

...

Olive percorreu as ruas sozinha, tinha de achar uma forma de encontrar Nicolau. Os ruas estavam lotadas de pessoas, pessoas sérias vestindo roupas cinzentas e nenhuma criança. Ela andou com passos vagarosos até a escola mais próxima até encostar os dedos finos nas grades que separavam o pátio da escola do resto do mundo, o frio daquele metal nem ao menos incomodava a pele clara. Aquelas crianças eram cópias exatas dos adultos lá fora, como Olive percebeu. Usavam os cabelos bem cortados e roupas sóbrias, sempre se mantinham distante uns dos outros e muito sérios. Nicolau não gostava daquilo, nem um pouco.

...

— O que está fazendo papai? — perguntava a jovem enquanto o pai polia as pequenas caixinhas de música, ele tinha muito cuidado e delicadeza apesar dos dedos grossos e sorriu ao soltar o objeto sobre a mesa. A pequena bailarina começou a rodar lentamente sobre o suporte, tocando uma música gentil — Uau! Ela é tão linda. — respondeu ouvindo o som suave que saia da pequena caixinha e então a pegou na mão.

— Você gosta dela? — perguntou sorrindo para a menina que novamente soltara a caixinha e tentava imitar a pose da boneca enquanto girava em um pé só por meio segundo antes de apoiar o outro no chão novamente — Fique para você, mas só pode usa-la aqui dentro.

Naquele momento o único som do dia soou, o sino da única igreja da cidadezinha. Os homens de azul se postaram nas ruas e as crianças começaram a sair da escola em direção a suas casas. Mesmo assim, o único som que se escutava era o sino das seis badalando lentamente enquanto a multidão de crianças se arrastava de forma organizada e lenta com seus uniformes monocromáticos pelas ruas da cidade.

— Papai...— chamou com delicadeza, olhando pela janela o reflexo do pai escolhendo as peças para concertar o despertador feio de um garoto, segundo dizia a pequena Oliver. — Porque não posso ir para a escola? — perguntou se afastando da janela e se aproximando, pegou com as mãos o relógio de mesa preto com ponteiros pretos e números pretos e fundo branco, sem qualquer sinal de cucos ou bailarinas.

— Olhe pela janela, minha pequena — respondeu o homem colocando o monóculo sobre o olho para selecionar as peças certas — Você gostaria de se vestir dessa forma, agir desse jeito? Sua vida é cheia de música e beleza.

Ela olho mais uma vez, a quantidade de crianças diminuíra bastante, mas algumas ainda se movimentavam calmamente, entrando em suas casas ou seguindo pelas ruas estreitas. — Você não acha que eu precise ir para a escola? Dizem que é importante para as crianças da minha idade — ela argumentou, mas naquele momento já não tinha certeza se realmente queria estar em um lugar como aquele.

— As escolas criam adultos, pequena — ele respondeu se levantando e beijando os fios dourados — Agora beba a sua gemada, ok? Depois pode brincar.

Ela assentiu.

...

Afastou as mãos da grade. O sino da igreja já começava a tocar e a água fria se acumulava na altura de seus tornozelos nus e o vestido estava ensopado. As pessoas passavam na rua a encarando, como uma criança tão pequena não sentia frio.

Foi uma jovem, com os cabelos tão claros como os dela que parou e lhe entregou um casaco — Você deve estar com frio, pequena — comentou a jovem sorrindo como Nicolau.

A jovem sorriu de volta. A moça tinha um sorriso calmo e tranquilizador, com uma nova segurança, Olive seguiu a jovem de cabelos claros até um apartamento de dois andares.

Era um apartamento muito modesto, de sala e banheiro, parecido com o local que crescera, mas sem uma lareira aconchegante e nem uma mesa de trabalho repleta de engrenagens e relógios, apenas flores de todas as cores e paredes de um amarelo clarinho. Também haviam quadros, muitos quadros, muito coloridos e divertidos.

— Você quer beber algo quente? — perguntou a mulher lhe entregando uma toalha felpuda e quentinha para a pequena que parecia muito curiosa examinando algumas caixinhas sobre a bancada — Vou fazer um chocolate quente para você. Coitadinha, deve estar congelando.

Ela apenas acenou com a cabeça enquanto a mulher se afastava. Estendeu as mãos para tocar uma das caixinhas que se encontrava embaixo de uma foto para a qual não deu atenção. Abriu a caixinha de madeira com decoração em metal pintado de dourado.

“Para minha pequena Olive,

Dizem que a música afasta os monstros, eu espero que isso possa afastar seus pesadelos,

Com amor, papai”

— Meu pai me deu isso quando era menina — respondeu observando a pequena bailarina de porcelana rodando lentamente sobre uma única perna.

A mulher tomou a caixinha com delicadeza das mãos frias da jovem e deu corda no pequeno enfeite. Uma música suave começou a tocar, muito parecida com aquela que deixara em casa.

...

Oliver acordou sozinha em casa, sua cama ainda estava fechada, mas não teve dificuldade para abrir. Os relógios e engrenagens estavam jogados no chão e quebrados, o relógio feio e chato do pequeno Alex se encontrava quebrado, com os pássaros que Olive havia pintado no fundo branco destruídos. Era uma pena, Alex havia gostado tanto, até sorrira.

— Papai! — chamou observando ao redor, a lareira estava apagada e vazia.

Em um canto estava sua caixinha de música, a bailarina de porcelana quebrada, mas a música continuava tocando.

“Dizem que a música afasta os monstros”

Dizia a inscrição na tampa. — Papai! — chamou mais uma vez, mas nesse momento sabia que não havia papai para responder, ele havia ido embora por alguma razão.

...

— Seu papai foi embora? — perguntou a pequena encarando a mais velha que ainda encarava a bailarina com os olhos cheios de saudade.

— De certa forma. — ela brincou com a bailarina um pouco — Não, ele foi preso. — respondeu pegando a foto ignorada nas mãos — Ele gostava de ver as crianças brincar e incentivava isso. Ele dava aula na escola, ensinava música para as crianças e gostava de vê-las cantando e brincando. Uma vez ele inventou uma marcha — ela sorriu com saudade ao lembrar do dia — Era véspera de Natal, ele sempre gostou do natal, dizia que as crianças eram o mais próximo de Cristo que havia na terra e por isso deveriam ser louvadas em nome do próprio. Elas estavam vestindo roupas coloridas, cantando, brincando. Os homens de azul não gostam disso, o louvor deve sempre ser em silencio e as crianças criadas para a vida futura — ela deu de ombros — Meu pai foi preso e minha mãe me levou embora, para longe das “más-influencias” de meu pai. Ela disse que ele não era assim, antes de mim.

Ela sorriu para o nada, enquanto a boneca continuava a girar de forma solitária.

— Mas e você? Precisamos te levar até seus pais — falou olhando para ela.

— Não sei onde está o meu papai — respondeu com um meio sorriso — Ele estava trabalhando quando me colocou para dormir e depois, quando eu acordei, não tinha mais ninguém.

— Como era o seu papai? — perguntou a mais velha pegando papel e um lápis.

— Ele tinha um sorriso muito bonito e uma risada contagiante — ela sorriu enquanto traçava o rosto do homem na foto. Ele era realmente parecido com seu papai e olhava uma garotinha muito parecida com ela, que ria ao dançar na chuva com um vestido florido sob a pesada capa de chuva e botas — E bochechas fofinhas e vermelhas e os olhos ficavam bem pequenininhos quando sorria.

A mulher sorriu com nostalgia enquanto traçava a imagem que já conhecia de cor.

— Ele adorava música e relógios — ela disse enquanto observava a criança sorrindo e o homem que ria gostosamente com a mão na barriga — Ele até deixou eu pintar alguns passarinhos coloridos no relógio novo do Alex e também colocou uma música bonita.

— Qual o nome dele? — perguntou ao terminar, a menina ainda parecia absorta em seus pensamentos, mas respondeu sem pensar muito.

—Alex, ele é um garotinho loiro que estuda na escola lá perto de casa e tinha um alarme estragado e feio.

— Não — ela respondeu sorrindo — Do seu pai.

—Nicolau — respondeu a mais jovem.

O coração da mais velha parou por um instante — Esse é ele? — perguntou mostrando o desenho e recebendo uma afirmação da pequena, que sorria empolgada.

...

O homem estava sozinho, era meados de novembro e os ares de natal já começavam a se espalhar por seu ser e pela primeira vez em muito tempo isso parecia realmente péssimo. Estava fechado em uma casa pequena, longe de tudo que construíra para si. Outra vizinhança. Outra cidade e nem ao menos podia voltar para ver a vida que deixara para trás.

A neve caia sobre o parapeito de sua janela e o fogo pouco aquecia a casa vazia. A última vez que se sentira assim fora quando voltara da prisão, nem sua mulher nem sua filha estavam em casa e demorou muito tempo para voltar a encontrar um caminho, pelo menos o tempo de juntar as engrenagens perfeitas e criar sua pequena filha de metal, mas agora até mesmo Olive haviam tirado dele, logo ela que havia tido tanto de seu tempo e dedicação, trabalhada apenas com os melhores metais e plásticos, tão semelhante a um humano que poderia enganar a qualquer um.

Não, Oliver não era uma máquina, era uma menina como sua filha que fora embora e como qualquer outra, ela tinha sentimentos, mesmo que seu coração fosse feito de engrenagens de relógio e pensava, mesmo que seus neurônios fossem de metal. Ela era um pequeno toque de mágica em um mundo mecânico.

Mas agora nem poderia criar outra criança, só recebia os materiais para seu trabalho e sempre que saia era escoltado por casacos azuis. Eles nunca o deixariam levar alegria para crianças, nunca o perdoariam por desobedecer a lei e criar a desordem.

...

O tempo que passaram na busca por Nicolau fora muito longo, ainda mais para a pequena que tinha passado toda a viagem acordada, olhando pela janela e conversando vez ou outra. Conforme os dias iam se tornando mais curtos e as informações mais escassas, era possível ver que a pequena ficava mais e mais frustrada, mesmo seu pequeno corpo parecia ficar mais desgastado com o tempo, fazendo rangidos preocupantes.

— Está tudo bem? — perguntou a mais velha olhando nos olhos da pequena, ela piscou de forma pouco natural duas vezes enquanto fechava o casaco pesado da menina — Nós vamos encontrar ele, eu prometo.

Era uma cidade pequena, há quase duzentos quilômetros da pequena cidade onde as duas haviam se encontrado, mas mantinha o mesmo ar de tristeza e opressão. O sol já havia se posto há um bom tempo e mal havia passado das 6 horas, consequência de se estar tão ao norte provavelmente. Naquele horário, as primeiras pessoas já começavam a voltar para casa de seus trabalhos, mulheres saiam para comprar alimentos para o jantar, mas fora isso tudo estava vazio, nem crianças na janela.

— Olive? — perguntou a mais velha, observando a pequena cambalear e cair no chão. O barulho estranho aumentou e ela teve a certeza de que precisava encontrar o pai, mais que nunca — Preciso de um relojoeiro, rápido! — bradou em meio as poucas pessoas que andavam de um lado para o outro.

...

Nicolau não acreditou no que viu em sua frente, uma jovem de cabelos claros carregando a pequena Olive, como haviam encontrado ele? Era a única pergunta que corria por sua mente quando a mulher abriu a boca para dizer.

— Oi papai! — ela disse com calma estendendo o pesado corpo de metal e plástico para ele —Olive precisa de você.

…

As primeiras semanas de dezembro chegaram de forma cálida, as crianças não faziam festa nas ruas, fosse por causa das férias ou do natal que se aproximava, apenas o mesmo silencio genérico de sempre, como sempre fora até então. A mais velha das Olivers olhava pela janela com uma xícara de gemada nas mãos, sozinha. A mais jovem havia saído sorrateiramente atrás do papai e dos guardas que sempre o seguiam. Haviam conseguido ficar com Nicolau sob muitos protestos após argumentarem que eram suas filhas e mesmo assim tinham marcação serrada, Olive tinha que sempre estar presa em casa e a mais velha só podia sair quando o pai podia ficar, o que não era o caso no momento.

Ela soltou a caneca e começou a mexer nas peças espalhadas, eram apenas peças estragadas e velhas, mas seu pai com toda a certeza saberia tornar tudo mágico se lhe fosse dada a chance. Pegou uma das ferramentas que estivera jogada ali e começou a moldar um flor com as engrenagens, podia não entender nada de mecânica ou fosse o que o seu pai fizesse, mas era uma artista e adorava flores.

Estava terminando quando a pequena Oliver entrou correndo pela porta dos fundos com uma sacola.

— Olha irmã, peguei tudo isso no descarte — disse a pequena automata abrindo o grande saco vermelho cheio de engrenagens, madeira e plástico — Imagina o que podemos fazer com tudo isso, muitos e muitos brinquedos — ela disse arregalando os olhos, se parecia muito com qualquer outra criança era quase impossivel acreditar que era uma junção de engrenagens e plástico.

— O papai vai adorar — respondeu pegando a sacola e a escondendo para que os guardas não vissem quando chegassem e foi bem a tempo, pois assim que voltou a se virar para a mais nova a porta se abriu com certa violência e o rosto rosado e risonho de Nicolau apareceu junto ao rosto duro do guarda.

— Agora vocês cuidem dele — foi tudo o que disse, ignorando a flor que, sabiamente a pequena Oliver pegara de cima de mesa e escondera atrás das costas.

— Olha o que a Oliver fez — disse erguendo o pequeno arranjo em forma de flor — É linda e acho que dá para fazer cantar.

A mais velha sorriu antes de se mover para o baú no canto da sala — E a Oliver trouxe isso agora — respondeu — Acho que dá para passar o tempo — respondeu com um sorriso cúmplice e em pouco mais de uma semana a casa já estava cheia de geringonças e brinquedos de todos os tipos, tantos que nem sabiam o que fazer com os mesmos.

—Talvez devêssemos parar de brincar — disse a mais velha das Olivers olhando para a sala infestada — Se não teremos que sair.

Foi quando a mais jovem entrou, em sua frente vinha um pequeno ser de metal com roupas coloridas e um gorro vermelho — Eu fiz um gnomo.

Os dois se olharam, alguém teria que acabar com a felicidade da pequena, mas a Oliver mais velha já havia abaixado a cabeça e parecia triste ou apenas estava pensando, mas era difícil dizer com a grossa camada de cabelos prateados sobre o rosto.

— Olive — disse ele baixo evitando olhar para o pequeno gnomo de Oliver — Nós vamos ter que parar de fazer brinquedos, não temos mais onde e nem como esconder, daqui a pouco os guardas irão nos prender.

A pequena abaixou a cabeça de forma tristonha, entendia a situação, claro que sim, mas ainda sim era triste não poder mais fazer brinquedos com a família.

— Ou talvez não — respondeu a mais velha se correndo para o boneco — Talvez possamos nos livrar dos brinquedos, alegrar as crianças da vila e não ser presos.

— No que essa sua terrivelmente genial cabecinha está pensando, filha? — perguntou o velho a olhando com os olhos brilhando de ansiedade.

— Você ira distribuir os brinquedos para todas as crianças quando elas estiverem dormindo, vai deixar de baixo da soleira da porta. Daremos sonífero para os guardas e ninguém vai provar que foi você.

— Isso! — vibrou a mais nova.

— E como vou entregar em todas as casas? — perguntou sorrindo com a mão na barriga saliente enquanto a filha ainda examinava o automato.

— Não vai ser você, você, vão ser esses pequenos gnomos, muitos deles.

…

Os preparativos foram todos tomados com grandes precauções e na véspera de natal, a humana Oliver convidou os dois guardas para tomar uma gemada com eles. Já era próximo das 23 horas da noite do dia 24 de dezembro quando tudo começou a acontecer. Os homens adormeceram logo e Nicolau e Olive começaram a arrumar os gnomos e as sacolas que entregariam os presentes e a solta-los nas ruas, naquele momento todos dormiam na pequena cidade e a pequena família Noel observava enquanto suas invenções corriam soltas entregando alegria pelas casas e então voltavam para pegar os próximos brinquedos.

Talvez fosse a alegria da noite ou o saber da impunidade que fez com que Nicolau e a pequena Oliver saissem correndo, entregando presentes nas casas até todo o estoque estar acabado, foi só então que entraram e puderam terminar a noite como uma família.

A felicidade na manhã seguinte ainda era contida, mas já era possível ver os primeiros sinais de criancice nos pequenos que começavam a brincar como se não houvesse amanhã, aquela era apenas uma pequena chama de anarquia em meio ao rígido controle sobre aquelas crianças que aos poucos se libertavam para sonhar, mas obviamente Nicolau não viu nada daquilo, estava ocupado demais sob a vigília atenta de seus guardas dorminhocos, mesmo assim, os relatos da alegria o encorajaram a repetir no ano posterior e no depois e no depois, até que se tornou uma tradição.

Notas finais
FICA, POR FAVOR, TEM CENA P
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!