Java, Indonésia.

Era quase 05 da manhã e eu acabava de acordar de um pesadelo, algo recorrente nas minhas noites de sono depois que comecei a viver com ele. O dia quase amanhecia e na penumbra do quarto, eu podia olhar o homem que dormia ao meu lado. Nem estava quente, mas gotas de suor escorriam pela testa dele. A expressão serena que ele tinha durante o dia, se transformava em expressões de agonia durante à noite.

Sobre o peito, pousava a mão esquerda dele que tremia perceptivelmente deixando evidente a aliança dourada no dedo anelar dele. Aquela aliança que fazia eu me lembrar de um dos dias mais tristes da minha vida. Eu também tinha a minha que eu usava com o meu anel de noivado, e apesar de ambas serem joias muito bonitas, eu não conseguia ver cor em nada já que eu as pra sustentar uma vingança, não por amor. Todos os dias eu me perguntava o que eu ainda estava fazendo ali. Talvez fosse muito tarde para voltar atrás.

Não percebi ele se mexer enquanto eu o observava, e antes que eu pudesse fechar os olhos e fingir dormir, ele abriu os dele e me encarou.

— Teve um pesadelo, meu amor? Ou apenas está velando o sono do seu marido? – Ele me perguntou com a voz meio sarcástica, mas totalmente grogue, tanto pelo sono quanto pela dose pesada de medicamento que ele havia injetado para não sentir dor. Cada dia que passava, mais perto da morte ele ficava. – Vamos lá, conte-me o que te aflige.

— Não foi nada, eu só... só estava me lembrando do dia em que nós nos casamos. – Eu respondi e ele esfregou os olhos com a mão direita levemente surpreso com a minha resposta.

— Foi um dia muito bonito, não foi? Às vezes também me pego pensando nele, eu não te culpo. Ainda me lembro como se tivesse sido ontem mesmo.

El Salvador – 02 meses antes.

Era pra ser o dia mais feliz da minha vida, mas estava muito longe disso. Bom, pelo menos estávamos há cinco dias sem nos ver. Eu poderia ter fugido, mas preferi ficar. Afinal de contas, com o dinheiro que ele tem, ele poderia muito bem me achar e me castigar ou até me matar. Eu não acreditava no amor dele, eu sabia bem o monstro que ele era, e os monstros não ficam longe por muito tempo. Tive a certeza disso quando ouvi barulho na porta da frente de casa. Era ele voltando depois daqueles cinco dias.

— Meu amor, cheguei. Você está... tão bonita! – Ele disse após invadir o quarto em que eu vestia o meu vestido de noiva. – Dizem que ver a noiva antes do casamento dá azar, mas nós somos um casal diferente. Para nós, isso é um sinal de sorte!

— Os costumes não mudam com o lugar. Você acabou de condenar a nossa união ao desamor me vendo assim antes do nosso casamento. – Eu digo sarcasticamente, mas ele nem nota, rindo em seguida. – Por que a urgência em querer me ver?

— Você sabe que eu não consigo ficar muito tempo longe de você. – Ele diz com um sorriso de canto. – Bom, na verdade, eu vim te trazer isso. – Ele tira um estojo de cetim do bolso do blazer e abre na minha frente.

Era um lindo colar de pérolas com brilhantes em volta de cada uma. Era o tipo de joia que só víamos nas mais caras joalherias da Europa. Não pude deixar de evitar um sorriso. Ela era tão linda e deveria ter sido uma fortuna. Essa era a parte boa de ter que aguentá-lo.

— É linda! Estou sem palavras. – Eu digo e ele sorri em resposta.

— Você deve estar se perguntando quantos euros eu gastei comprando esta joia pra você, mas eu te digo que não foi nada. – Ele se aproxima e eu seguro o cabelo para que ele pudesse colocá-la em meu pescoço. – Eu a roubei na semana passada, na Inglaterra. Sim, foi uma loucura aparecer em um país em que o meu rosto deve ser notícia todos os dias nos jornais e para cometer um delito mesmo sendo milionário, mas eu precisava fazer essa loucura de amor por você. Foi por isso que eu sumi. Este é o seu presente de casamento.

— Obrigada, mas não deveria ter se arriscado tanto assim por mim... – Eu digo fingindo preocupação. – É um colar muito bonito. Eu queria poder retribuir.

— Você terá os doze meses que me restam de vida pra isso. Se eu tiver ao menos o seu carinho, Ariadna, tudo isso terá valido à pena. – Ele me responde pegando a minha mão direita e a beijando.

— Você tem o meu carinho e terá doze meses pra comprovar isso. – Eu retruco e ele abre um largo sorriso.

— Eu tenho outra surpresa pra você, mas essa você terá que ver mais tarde. Agora eu preciso ficar bonito pra você também. Nos encontramos na cerimônia. Virão te buscar. – Ele me beija nos lábios e sai do quarto em seguida.

Desde menina, eu sonhava com o meu casamento. O vestido bonito, o buquê perfeito, meus amigos presentes, meus pais orgulhosos e a minha mãe chorando de emoção. O homem que eu amo lá fora me esperando com um sorriso no rosto estampando todo o amor que sente por mim, enfim, o cenário perfeito para o felizes para sempre, mas ao invés disso, eu estava me casando com um homem que eu desprezava, em um país da América Central que eu nunca cogitaria visitar em circunstâncias normais, com desconhecidos entre os convidados e os meus pais longe, sem nem ao menos saberem se eu estava viva ou morta. A última vez que eu soube deles, foi em uma entrevista que eu vi pela internet quando o Berlim estava dormindo após uma forte dose de morfina. Nela, eles se perguntavam pela filha já que a última notícia que eles tiveram dela foi que ela havia se envolvido com um dos assaltantes da Casa da Moeda, e havia trocado tiros com a polícia em Paris para ajudar o namorado.

As únicas coisas boas nesse casamento eram o vestido que conseguia ser ainda mais bonito do que eu havia sonhado, o colar de pérolas perfeito que eu havia acabado de ganhar e a festa de casamento na praia, do mesmo jeito que eu havia sonhado quando menina. Aquela era única coisa que eu concordava com o Berlim, mas o país...

El Salvador, um país cercado pela pobreza, mas que teria pelo menos uma noite repleta de luxo e de dinheiro esbanjado. O Berlim dizia que estávamos dando a oportunidade daquele povo sofrido saber como os ricos vivem para se voltarem contra o sistema, mas eu achava aquilo uma grande besteira. Nós estávamos debochando da pobreza deles.

Quando terminei de prender o meu cabelo em um coque com um uma presilha de brilhantes minúsculos, ajeitei a minha maquiagem e olhei o relógio. Faltavam apenas meia hora para eu me unir com o homem que eu detesto em uma cerimônia selvagem, mesmo eu sendo católica. Calcei, então a minha sandália de pedrinhas, fiz os últimos retoques e saí do quarto. Berlim não queria que eu me atrasasse porque pra ele cada segundo era único e ele não podia desperdiça-lo. Mas, apesar de ele ter me explicado como tudo ocorreria naquela noite, eu não pude conter a grande surpresa ao encontrar os meus na sala de estar da casa que eu estava que eu estava morando com o Berlim. Eles estavam muito pálidos e a minha mãe parecia que tinha emagrecido uns 10 kg. Sem que eu pudesse me conter, comecei a chorar e corri para abraça-los.

— Pai, mãe, me perdoem! Me perdoem! Como é bom vê-los de novo, eu pensei que nunca mais os veria. – Eu digo abraçando-os com força. Eles retribuem o abraço e as lágrimas.

— Graças a Deus você está viva, minha filha. Mas, o que você está fazendo? Filha, como pôde? – Ela me perguntou após me soltar do abraço.

— Ele é um criminoso! A Casa da Moeda foi só mais um dos seus crimes. E trocar tiro com a polícia, meu Deus, filha. Ele está te forçando? – Meu pai acrescentou a pergunta e uma onda de vergonha bateu sobre mim. Dizer que eu estava triste poderia preocupa-los, então decidi mentir.

— Eu o amo, pai. Quando estávamos lá dentro, ele não fez mal a ninguém que tivesse seguido as regras, pelo contrário, ele cuidou de mim e me ajudou a lidar com a minha ansiedade. Eu me apaixonei e precisei trocar tiros com a polícia para não vê-lo ser preso ou morto e nem eu. – Eu me justifico e ele troca olhares incrédulos com a minha mãe.

O que acontece é que assim que saímos da Casa da Moeda e fomos para a ilha de Java, Berlim precisou garantir que eu estava com ele e que não o entregaria à polícia na primeira oportunidade. A solução que ele encontrou pra isso foi me levar para assaltar uma luxuosa joalheria em Paris e atirar na polícia só para que o meu nome fosse estampado nos jornais também, e ele garantiu que acrescentassem às notícias que eu o ajudei na fuga e facilitei a entrada dele na Casa da Moeda. Se eu o entregasse, eu também seria presa por tudo isso e por encobrir o roubo mais comentado do mundo. Eu só tinha duas escolhas: ficar com ele até que ele morresse, me revoltar e deixá-lo me matar ou ser presa. Desde sempre eu escolhi a primeira opção.

— Bom, minha filha, se é assim... eu quero que você fique segura. Você já sofreu muito nessa vida. Imagine a nossa surpresa ao receber um convite para vermos a nossa filha casar. Só soubemos que viríamos para El Salvador quando desembarcamos aqui. Seu futuro marido cuidou de tudo, nem se quiséssemos avisar a polícia conseguiríamos porque estamos fomos acompanhados por uns sujeitos até aqui e estamos sendo constantemente vigiados. – Minha mãe fala e eu consigo arrumar mais um motivo para odiar o Berlim.

— E vocês chegaram a cogitar me entregarem? – Eu pergunto e eles negam com a cabeça.

— A não ser que você dissesse que estava sendo forçada. Aí contaríamos tudo para a polícia e arrumaríamos bons advogados para livrarmos você. Já consultamos alguns e com o seu quadro de depressão e ansiedade, não seria difícil provar o que estamos falando. – Meu pai diz e eu suspiro. Era tarde demais, eu precisava seguir com a minha vingança e pegar o dinheiro dele.

— Bom, então vamos. Ele está me esperando. – Eu digo e o meu pai segura o meu braço, indicando que entraria comigo naquela cerimônia escabrosa. Pelo menos eu havia voltado a vê-los outra vez.

A casa em que eu morava com o Berlim era em frente à praia mais bonita de El Salvador. Eu só precisava atravessar a rua para chegar lá, e enquanto eu fazia isso, eu podia ver as luzes que iluminavam o local que seria a nossa cerimônia de casamento. Muitas plantas bonitas ornamentando a festa, um jogo de luzes douradas, todos vestidos à caráter um longo tapete vermelho para que eu fizesse a minha caminhada até o meu futuro marido. Ele estava lá na ponta e respirou fundo quando me viu aparecer com o meu pai. A cerimônia seguiria algum ritual selvagem e desconhecido, mas o Berlim mudou algumas regras. Assim que eu apareci, a marcha nupcial começou a tocar feita por violinistas, um pianista e até saxofonistas. Um monte de pessoas que eu não conhecia estavam entre os convidados, mas eu não me importei. Berlim era carismático e acabou se dando bem com todos os moradores locais dali. Eles até gostavam dele.

Então eu comecei a minha caminhada, e à medida que eu me aproximava, eu conseguia vê-lo melhor: ele usava um lindo e elegante terno branco com gravata branca, a calça dobrada até a canela e ele descalço na areia. E eu não posso negar: ele estava lindo e sorria o sorriso mais bonito que eu já o vi dar. Quem não conhece, imaginaria que ele está completamente apaixonado por mim, e talvez até esteja mesmo. Eu também estaria se ele não fosse um maníaco e um sociopata da pior espécie.

Quando nos aproximamos dele, ele cumprimentou o meu pai, tomou a minha mão, sussurrou no meu ouvido o quanto eu estava linda e se virou comigo para que a cerimônia começasse.

Eu não prestei atenção em nada do que o cerimonialista falava, na verdade, eu só despertei dos meus devaneios quando ele voltou a tocar na minha mão e eu o olhei, indicando que já estava na hora de trocarmos as alianças.

Ele havia comprado um lindo par de alianças de ouro. A minha tinha pequenos diamantes ao redor dela, a dele não tinha nada, mas também era tão bonita. Fingi alegria e a coloquei no dedo dele enquanto ele colocava no meu também.

Nesse momento, um homem alto e loiro jogou um colar feito de conchas ao redor do nosso pescoço e ali fizemos os nossos votos de felicidade. Nós prometemos ficar juntos até o fim das nossas vidas e que a cada ano teríamos que voltar ali para tomarmos um banho do mar daquela praia que nos abençoou. Eu sei que ele morreria antes de termos que voltar e aquela ideia me divertiu, tanto que comecei a sorrir. Ele sorriu de volta e me beijou, inclinando o meu corpo enquanto uma chuva de aplausos ecoava em nossos ouvidos.

Após aquele beijo, a multidão nos levantou e nos levou até uma fogueira que nós teríamos que dançar ao redor dela para pedir a bênção do fogo também. Ali, o fogo e a água juntos, o bem e o mal estando a favor de nós dois. Nesta crença nada podia dar errado já que todas as forças estavam ao nosso lado.

Então fomos tomar o nosso banho de mar.

Ele me pegou no colo e foi andando comigo até que as ondas passassem pelas nossas cabeças. Nos beijávamos, engolíamos água e deixávamos a água nos abençoar também. Era diferente, mas era interessante. Antes de voltarmos para a areia, ele segurou o meu braço e encostou os lábios próximos ao meu ouvido.

— Sei que sentia falta dos seus pais, por isso os trouxe aqui. Essa era a outra surpresa que eu tinha. Farei o que tiver de ser feito para tornar a nossa convivência agradável. – Ele diz e eu me viro para olhar nos olhos dele.

— Obrigada, de verdade. Eu precisava tornar a vê-los. Farei o possível para te dar bons últimos momentos a você. – Eu respondo e ele sorri, voltando comigo para a areia.

Ali somos abraçados por todo mundo e arrumamos um local pra trocar a roupa molhada, agora por roupas mais casuais que simbolizariam a nossa vida cotidiana. Eu havia escolhido um vestido básico azul claro e ele um terno azul marinho, mas com a gravata do tom do meu vestido. Quando voltei para a festa, vi ele conversar bem próximo ao homem alto e loiro que havia jogado o colar em volta do nosso pescoço. Ao invés de ir até eles, fui me sentar com os meus pais que estavam deslocados em um canto da festa.

Conversamos sobre como a vida estava na Espanha. O que os meus outros familiares falavam sobre mim, os vizinhos e conhecidos. Senti muita pena ao ver o quanto eles estavam sendo hostilizados e num impulso quase os convidei para ficar comigo, mas o Berlim não iria querer. Eu teria que me conformar em rezar por eles para que tudo ficasse bem.

— Sogrinhos, estão se divertindo? – Berlim se aproximou com o amigo. – Este é Martín, um amigo de longa data! Ele foi o nosso padrinho e você não percebeu, meu amor. Era pra ele ter entrado com você, mas sei que toda garota católica sonha em fazer essa caminhada com o pai. Eu não poderia tirar isso de você.

— Muito gentil da sua parte, meu amor. – Eu respondo apesar de ter soado estranho a forma como eu o chamei de amor. – Olá, Martin. Sou Ariadna.

— Eu sei. Já sei tudo sobre você. Andrés me contou durante os dias que estivemos na Inglaterra roubando isso pra você. – Ele aponta para o colar. – Realmente, você tem lindos olhos. Ouvi muito sobre eles também. Aliás, inusitado a forma como aconteceu a coisa toda. Será que dessa vez é pra valer, Andrés?

— É a minha última chance de acreditar no amor, quer dizer, sexto casamento. Tenho doze ex sogros, mas sabe por que não deu certo? Porque nenhuma cerimônia e nenhuma mulher foi mais especial do que essa. A filha de vocês é muito especial, sabiam disso, sogrinhos? Vou fazê-la feliz... e rica! Essa última parte eu garanto pra vocês, venha meu amor, vamos dançar. – Ele me puxa pelo braço e eu me deixo levar.

As músicas que ali tocavam eram diferentes de tudo o que eu já havia escutado, mas depois de três taças de champanhe, eu já estava no clima. Eu não podia beber, mas aquela noite exigia, e já que eu estava no meu casamento e precisava passar para os meus pais a impressão que eu estava feliz, eu fingi felicidade: dancei com ele inúmeras música e troquei mais outros tantos beijos calorosos com ele. Berlim me pegava no colo, rodopiava comigo, quase caíamos, ele ria e voltávamos a dançar. Ele parecia feliz e eu anestesiada de tantas taças de champanhe e calmantes que eu havia tomado durante o dia pra suportar essa noite. Depois disso tudo, não estava tão ruim assim.

Depois de não sei mais quantas horas, eu fui me despedir dos meus pais. Eles embarcariam naquela mesma noite para não terem tempo de avisarem a polícia e nós iríamos embora no dia seguinte também, depois de termos a nossa noite de núpcias.

— Se cuida, minha filha. – Meu pai disse me abraçando forte e me beijando.

— Lembre-se sempre que viremos ao seu socorro caso você precise. – Minha mãe disse me abraçando em seguida.

— Tá tudo bem, eu estou com ele e não poderia estar mais protegida. – Eu respondo forçando um sorriso e o Berlim confirma com a cabeça abraçando eles em seguida.

Então atravessamos a rua e fomos para a nossa casa. Berlim estava tão bêbado que não valia à pena injetar a medicação dele. Ao invés disso, fomos ter a nossa primeira noite como marido e mulher. Depois de tanta bebida, não foi tão ruim ficar com ele.

Após, caímos em um sono profundo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.