La Belle de Jour
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu me lembrava exatamente como havia conhecido Samara.
Foi em uma tarde, onde o vento atingia meu rosto, afastando aquela sensação de calor e dando lugar ao frescor, eu me encontrava observando o mar, em sua grandiosa ressaca e me questionando: “Quem algum dia ousará me amar?”
Eu sou um garoto intenso.
Sinto feito fogo.
Feito brasa.
Sou como o mar em seus dias mais tempestuosos.
Nenhum barco ou navio ousará enfrentar tamanha revolta, sempre esperará pela calmaria.
Tenho tantos sentimentos, que às vezes, eles não cabem em mim.
― Renato ― Meu irmão mais velho, Rafael, me chamou ― Estarei te esperando no carro, não demore ― Apenas olhei em sua direção e o observei, seus cabelos cacheados, estavam desarrumados, talvez pelo vento contínuo que não dava trégua ― Entendeu?
Acenei com a cabeça positivamente, vendo-o se afastar. Eu não queria ir embora. Queria ficar observando o mar em sua ressaca até chegar na plena calmaria, o que não aconteceria tão cedo.
Olhei as ondas cristalinas se chocando contra as pedras, desejando estar ali pela eternidade, o que era impossível. Olhei para a areia, que parecia quente com os raios solares intensos, chutando-a com a ponta de meu all-star preto. Queria levar um pouco da praia até minha casa, mesmo se entrasse areia dentro do tênis, eu não me importava. Queria levar essa sensação de puro deleite.
Uma buzina de carro tocou ao longe.
Rafael.
Decidi não ficar prolongando minha estadia por ali, não queria deixar meu irmão furioso. Ele deveria estar apressado, é um professor de filosofia, sua vida, basicamente, é dentro das salas de aula, cumprindo seus respectivos horários, ou corrigindo provas e trabalhos.
Eu andava tranquilamente, as mãos nos bolsos da calça jeans, o olhar fixo para o céu azul anil onde diversas gaivotas voavam livremente, intensamente. Não estava com a menor pressa. Sentia a imensa vontade de explorar cada canto daquele lugar.
― Pare com isso, Sirene! Eu já lhe disse pra parar. ― Uma voz feminina dizia entre meio a risadas. Com a curiosidade aflorada, virei meu pescoço em direção a bela voz. Uma moça, estava correndo de um cachorro, grande, com os pelos molhados, parecia um Golden retriever.
Lá estava ela. Samara.
Com seus longos cabelos castanhos esvoaçando-se com o forte vento, o vestido azul leve, parecia molhado, ou poderia ser apenas ilusão de ótica. Ela parecia alheia a absolutamente tudo o que ocorria ao seu redor. Era como se houvesse apenas Sirene e ela naquela enorme praia.
Outra buzina foi ouvida.
Decidi apertar o passo, antes que minha atenção voltasse apenas para a bela mulher que ali se encontrava.
O corolla azul de meu irmão, estava estacionado não muito longe da praia, do outro lado da rua, no estacionamento. Atravessei a rua com cuidado, chegando perto do carro e abrindo a porta.
― Você demorou, hein? ― Rafael me olhou com reprovação ― Sei que gosta de ficar na praia, mas estou cheio de trabalhos para corrigir.
― Desculpa ― Sussurrei, sentindo-me culpado, entrando no carro, fechando a porta e passando a mão em meu cabelo.
― Não se desculpe, Renatinho! ― Rafael sorriu, bagunçando meus cabelos ― Está tudo bem ― Apenas acenei a cabeça positivamente ― Coloque o cinto, rapaz ― Me ordenou.
Sorri, colocando o cinto. Vendo meu irmão dando a partida no carro e saindo.
☆☆☆
Meus dias eram um tédio com um T gigantesco.
Não acontecia nada de bom em minha vida, basicamente, eu ficava em casa, lendo livros, ouvindo bossa nova, rock nacional e MPB nos discos de vinil. Isso, quando não colocava alguma música indie no celular e ficava nos fones de ouvido.
Já fazia algum tempo da qual eu procurava por um emprego, mas sem sucesso algum. Cada vez mais, saía manchetes nos jornais que o número de desemprego era exorbitante. O que me restava, era ajudar minha mãe nos afazeres de casa e meu irmão nas correções de provas, ficar na varanda de casa lendo algum livro, com Donatello, meu gato de estimação, em meu colo, ver algum filme ou, jogar vídeo game.
Mas nada disso parecia aplacar a sensação de tédio em minha vida.
Bem esporadicamente, saía com meus dois melhores amigos: Bruno e Takashi.
Bruno era alto, cabelos castanhos claros, olhos esverdeados e com uma espontaneidade gigantesca. Emanava uma energia tão gostosa, que era impossível ficar ao lado dele sem ao menos rir. Ele era capaz de aplacar até a pior escuridão apenas com sua luz de felicidade.
Já Takashi, era moreno, cabelos negros e lisos, olhos puxados, um pouco mais baixo. Era um rapaz mais fechado, diferente de Bruno, mas que possuía dentro de si, uma gigantesca onda de carinho para com sua família e seus amigos.
Apesar de sermos tão distintos, nos completávamos. Acho que é por conta dessa diferença que somos tão unidos.
Eu já não via minha vida sem estar ao lado de Takashi e Bruno.
― Não vai sair? ― Mamãe me perguntou, enquanto eu estava deitado no sofá da sala, acariciando o pelo macio de meu gato, que ronronava em aprovação.
― Sendo sincero? Acho que não, mãe.
― Pois deveria. O dia está lindo, Renato.
― Mas eu não quero, mãe...
― Chame seus amigos, lhe fará bem ― Beijou minha testa com carinho e foi até a cozinha.
Respirei fundo.
Sabia que minha mãe iria insistir até que eu saísse.
Ela não gostava de me ver tão entediado.
Como eu sabia que Takashi e Bruno estariam ocupados, decidi sair sozinho. Ambos davam aula de reforço para alguns alunos.
Retirei Donatello de meu colo, colocando-o no chão, recebendo miados desaprovadores e, indo em direção ao meu quarto, pegar roupas limpas e uma toalha. Minha casa não era tão grande, como morávamos apenas mamãe, Rafael e eu, era minúscula, mas aconchegante.
Tomei um banho demorado.
Não estava com a mínima vontade de sair, de qualquer forma.
Desliguei o chuveiro, sentindo as gotas das pontas de meu cabelo, caírem em meu rosto. Era uma sensação gostosa.
Abri o box e me olhei no espelho, estava embaçado pelo vapor, passei minhas mãos calmamente, para que pudesse ver meu reflexo.
Eu não me considerava um garoto bonito.
Mas também, não me considerava feio.
Considero-me uma pessoa... Normal. Que não chama a atenção das pessoas, mas que ainda sim, está ali.
Meus cabelos são negros, levemente cacheados nas pontas, a pele bronzeada e os olhos extremamente castanhos e com algumas marcas de espinhas nas bochechas. Houve um tempo, em que elas eram mais densas, doloridas e complicadas.
Hoje em dia, nem tanto. A puberdade me deixou com algumas marcas.
A diferença, é que algumas estavam por dentro.
Já outras, para fora.
Como as marcas das tensas, horríveis e doloridas espinhas.
Decidi passar protetor, antitranspirante e vestir minhas roupas íntimas.
Coloquei uma camiseta polo preta e uma calça jeans da mesma cor, rasgada. Borrifei um pouco de perfume nos pulsos, pescoço e atrás das orelhas. Passei as mãos pelo cabelo úmido, não estava com a mínima vontade de arrumá-los e decidi sair.
― Passou protetor solar, Renato? ― Mamãe me perguntou assim que saí do banheiro.
― Sim, não se preocupe ― Dei um sorriso.
― Você sabe que o sol muito forte pode causar câncer de pele, é sempre muito bom passar protetor ― Mamãe murmurou, enquanto arrumava a gola de minha camiseta polo ― Takashi e Bruno vão sair com você?
― Não, mãe, vou sozinho. Takashi e Bruno dão aulas hoje, se lembra?
― Ah, é verdade, havia me esquecido... ― Franziu a testa e os lábios ― Pode ir, mas vê se volta antes do jantar.
― Tudo bem, até mais tarde ― Dei um beijo em sua testa e decidi sair. A casa amarela dava um grande contraste com as árvores que haviam em frente. Eu gostava disso. Me dava uma sensação de paz.
Abri o portão em frente à minha casa e andei pela rua.
Sem rumo.
Sem saber para onde iria.
O que faria.
E o que poderia fazer.
...
Horas mais tarde, eu me encontrava em frente ao mar, observando o belíssimo pôr do sol que pairava no horizonte com suas cores misturando-se como se fossem uma só. Quando criança, eu costumava pensar que os maiores pintores já existentes nesse mundo, ao partir dessa, faziam sua arte por meio dos céus, para que assim, todos pudessem aproveitar o espetáculo.
Mas com o passar dos anos, esse pensamento foi deixado de lado. Quando crescemos, deixamos muitas coisas essenciais para trás.
Quando criança e nos machucamos, choramos em alto e bom som para que todos ouçam o quanto está doendo. Já em nossa mocidade, não. Passamos a esconder nossas dores, e é por isso que sangramos sozinhos.
Fechei os olhos, sentindo a brisa levar a sensação calorosa e dando lugar ao frescor.
Queria que o vento tivesse o dom de levar todas as nossas dores internas, assim como leva o calor.
Assim, a vida seria mais fácil.
Mais leve.
E muito mais tranquila.
Respirei fundo, abrindo os olhos, dando de cara com um grande pastor alemão, balançando freneticamente seu rabo. Dei um sorriso, estalando os dedos numa maneira de chama-lo para perto. Em resposta, o grande cachorro veio até mim, com sua língua para fora. Parecia estar muito feliz.
― Olá, garotão! Você vem sempre aqui? ― Abaixei-me ― Você é lindo, cara. Cadê seu dono? Você deve ter, um garoto lindo assim não vai ficar dando sopa por aí ― Murmurei enquanto acariciava seus pelos macios e observava seus belos olhos castanhos.
Eu amava cachorros.
Antes de ter Donatello, tive Michelangelo, um cachorrinho vira-lata, que me dava muita alegria e era capaz de aplacar qualquer dor dentro de meu peito. Mas infelizmente, sua passagem pelo mundo foi curta. Após cinco meses de tanta felicidade, ele acabou morrendo por conta da maldade humana.
Foram longos meses de choros, saudades e muita tristeza, que foram embora, dando lugar a um dos sentimentos mais puros que esse mundo já teve: O amor.
― Trovão, seu excomungado, volte aqui! ― Um homem bradava enquanto se aproximava. Entretanto, o cachorro deitou sua enorme cabeça na areia, ignorando completamente o chamado ― Me fará ir até aí, folgado?
O cachorro apenas resmungou.
― Até algum dia, garoto! ― Sussurrei para o cão, que apenas me fitou com seus olhinhos amorosos. Eu não queria ir embora, adoraria passar mais um tempo ao lado dele, que parecia confortável com a minha presença, entretanto, infelizmente, ele não era meu. Não poderia prolongar meu tempo por ali.
Acariciei seus pelos macios, enquanto observava seu dono, era um homem alto, negro com um belo sorriso e aparentava estar tão ou mais feliz que seu cão.
― Esse excomungado não aguenta ficar sem receber carinho ― O homem me olhou sorrindo.
― É um cachorro muito bonito ― Sussurrei, olhando para o cachorro, que me olhava com curiosidade no olhar.
― Isso é verdade, mas sou suspeito para dizer – Soltou uma gargalhada, me fazendo sorrir – Nunca te vi, vem sempre aqui?
Acariciei o pelo do cachorro mais uma vez antes de me levantar e responde-lo: ― Na realidade, não muito – Respondi de forma vaga, olhando o mar a nossa frente.
― Entendo... – Sussurrou – A propósito, muito prazer, me chamo Vicente.
― O prazer é todo meu – estendi minha mão, de forma acolhedora – Me chamo Renato –Vicente apertou a minha mão com força, sorrindo, soltando logo em seguida. Parecia feliz em me conhecer.
― Você não mora aqui? – Perguntou.
― Na realidade, moro sim.
― Ora, como não vem aproveitar a praia, rapaz? – Vicente me olhou sorrindo.
― É – sorri sem graça – eu sou mais de ficar em casa.
― Percebi – Franziu a sobrancelha sorrindo.
Acabei sorrindo também.
Vicente parecia ser um homem extremamente de bem com a vida, isso me deixava feliz. Sem muitas explicações.
― Vicente, conseguiu encontrar... Oh, oi! – Uma moça aproximou-se. Olhos azuis e cabelos negros saudou-me com um sorriso caloroso e gentil.
― Olá! – Respondi tímido.
― Essa é minha esposa, Renato – Vicente se dirigiu a mulher, olhando-a com carinho.
― Muito prazer! – Sorri, ficando ainda mais tímido.
― Trovão estava com ele, Samanta. Acredita? Esse folgado que nunca faz amizade com ninguém, fez com ele. – Sorriu largo, olhando o cachorro que nos observava com as orelhas empinadas. Parecia curioso.
― Isso é maravilhoso! – Samanta sorriu – Significa que gostou de você.
Sorri, abaixando meu olhar pro chão, sentindo minhas bochechas queimarem. Não era tão acostumado a ter a atenção de desconhecidos voltadas para mim. O casal começou a conversar e me dispersei em pensamentos, sentindo o vento acariciar meu rosto. O mar me trazia uma sensação de calmaria e eu gostava disso.
― Samanta e eu iremos tomar água de coco, quer se juntar a nós? – Vicente perguntou-me, fazendo voltar a realidade.
― Ah, devo voltar pra casa, me desculpe – Dei de ombros.
― Você quer uma carona? – Samanta perguntou – Podemos te levar até sua casa.
― Muita gentileza da parte de vocês, mas não precisa, de verdade. Tenho que ir logo – Sorri.
― Esperamos que chegue bem em casa, Renato. Foi um prazer conhecer você! – Vicente murmurou – Obrigado por ficar com Trovão.
― Não precisa agradecer, amo cachorros – Repliquei sorrindo – Espero encontra-los em breve.
― Também esperamos – Samanta respondeu – Caso queira nos ver novamente, só nos procurar por aqui.
Esperava de coração encontra-los mais vezes aqui na praia. Pareciam ser boas pessoas. Uma pena que minha timidez me torne tão taciturno. Iria responde-los, porém, uma voz – feminina – interrompeu minha quase fala, aparecendo de forma irritada.
― Ah, fala sério que o Trovão só estava aqui. Que droga, de verdade. E eu morrendo de preocupação, que saco. – A moça revirou os grandes olhos azuis. Os cabelos negros, cacheados
― Acalme-se, Samara, sabemos bem que Trovão tem dessas – Vicente respondeu.
― E ele esteve em boas mãos – Samanta apontou para mim com a cabeça.
― Ah, eu nem tinha te visto aí – A garota se virou para me olhar. Olhando-a assim, de frente, seus olhos eram azuis, tão azuis quanto os de Samanta, porém, pareciam mais profundos que um oceano, os cabelos escuros emolduravam uma pele branca. Abriu um grande sorriso, mostrando covinhas. Desse dia em diante, para sempre, Samara não sabia que mudaria minha vida através do amor.
☆☆☆
― Ah, fala sério, cara – Bruno exclamou, tomando mais um gole de seu refrigerante – Vai ficar aí, sem dizer pra ela o que sente?
― Pois é, man— Takashi sorriu, enquanto cortava mais um pedaço de bolo de chocolate feito por minha mãe – Já está assim há mais de quatro meses, tem que dizer.
― Você chegou a escrever um poema pra ela – Bruno suspirou, revirando os olhos – Quem é que escreve poemas quando se está apaixonado?
― Renato – Meu irmão apareceu na cozinha, com os cabelos desarrumados, roupa amassada e um olhar sonolento – Quem é a garota, Renato?
Fuzilei Bruno com os olhos, que apenas deu um sorriso sacana.
Olhei para Takashi, a fim de buscar ajuda, mas este só estava interessado em uma coisa: bolo.
Revirei os olhos.
― Não é ninguém, Rafael – Sorri. Não gostava de falar sobre minha vida amorosa com meu irmão, não era sutil com as coisas. Lembro-me da primeira vez que contei a ele que estava apaixonado por uma garota da escola. Rebeca. Alta, magra, cabelos cacheados e loiros acima dos ombros, olhos esverdeados como as folhas das árvores no verão. Era uma paixão platônica, nunca daria certo. Afinal, ela era do último ano, não olharia pra um sujeito que ainda estava no primeiro ano.
― Você é muito bobo – Rafael me deu um tapa na nuca enquanto eu estava na cantina esperando Bruno e Takashi voltarem com o lanche – Chega logo nela.
― Eu não vou fazer isso – Exclamei – Ficou maluco?
― Se você não dizer o que sente, alguém poderá tomar o seu lugar – Arqueou as sobrancelhas – Anda logo. Palerma.
― Não vou fazer isso – chiei irritado – ainda me restam resquícios de sanidade.
― Se não for, irei até ela dizer que você está apaixonado – ameaçou.
― Ah, dá um tempo. Faça o que quiser – Dei de ombros.
Na época eu não me importei, pensei ser mais uma de suas piadinhas. Mas na realidade, não era. Rafael contou a sua colega de sala sobre meus sentimentos. Lembro de Rebeca se aproximar de mim, sorrindo e dizendo: ― Desculpe, mas não sinto o mesmo que você. Algum dia, irá encontrar alguém.
Afagou meus cabelos de forma gentil, como se eu fosse uma criança. Que de fato, era. Após isso, nunca mais contei sobre minhas paixões platônicas para meu irmão.
Não guardo mágoas e ressentimentos, mas sim, vergonha e medo que possa acontecer novamente. Quero ser independente. E poder dizer o que sinto pra outra pessoa sem a tutela de meu irmão.
Meu irmão apenas saiu da cozinha, me olhando com ar divertido.
― Vou corrigir algumas provas, se quiser conversar, sabe onde me encontrar – Murmurou indo em direção ao seu quarto.
Fiquei em silêncio.
Talvez algum dia eu dissesse a ele.
Mas não seria agora.
☆☆☆
― Já namorou alguma vez, Samara? – Perguntei, enquanto observava o mar a nossa frente.
Samara soltou gargalhadas altas. Olhei-a sem entender.
O pôr do sol iluminava seu rosto e meu coração batia acelerado dentro do peito.
E eu não sei se alguém poderia ser capaz de sentir tanta coisa como eu sinto ao vê-la sorrir.
― É engraçado... – Sussurrou me olhando com carinho.
― O que é engraçado? – Perguntei sem entender.
― Você... – Sorriu ainda mais. As covinhas aparecendo. Meu coração acelerando ainda mais.
― O que tem de tão engraçado em mim?
― Sempre é curioso – Aproximou seu rosto do meu. Nossos narizes quase se tocando. Meu coração acelerando. Passou a mão pelos meus cabelos já bagunçados pelo vento. Estremeci com o toque tão gentil – Quer mesmo saber?
― Sim... – Sussurrei, fechando meus olhos. Sentindo o vento trazer seu perfume até mim.
― Eu não namoro pois já sou apaixonada – Sussurrou.
Abri meus olhos surpresos. Fitando o céu de seus olhos, muito mais próximos agora.
― Já? Por quem? Você nunca me contou... – Exclamei, sentindo um aperto no peito, mas decidi ignorar.
Samara riu. Afastando-se de mim. Os cabelos se desprendendo das tranças que fizera mais cedo.
― Eu sou apaixonada pelo mar, Renato – abriu os braços – Quer coisa mais linda que isso?
Aproximou-se novamente, chacoalhando os cabelos até que se soltassem totalmente das tranças, deixando-o bagunçado.
― Maluca – sussurrei encantado.
Ela sorriu levantando-se. Me levantei também.
― Vamos aproveitar um pouco a água – me puxou pela mão.
― Não, deve estar um gelo – Contestei.
― E quem se importa? – Gritou, jogando seus braços ao redor de meu pescoço, num abraço apertado.
Meu peito sempre se enchia de amor quando ela me abraçava, assim, sem motivo.
Samara era o motivo de meus sorrisos mais apaixonantes. De meus poemas mais errantes. De meus telefonemas mais longos. De meus sonhos mais distantes.
Por Samara, eu cometeria loucuras – mesmo que fosse entrar na água do mar extremamente gelada.
☆☆☆
― Que merda, Renato – Bruno gritou – Vai ficar até quando nessa putaria?
― Deixe-o em paz, animal— Takashi jogou uma almofada em Bruno, que como resposta, apenas deu um grito.
― Eu vou dizer pra ela o que sinto – suspirei, enquanto rodeava o copo cheio de coca cola com a ponta do dedo – Mas não agora.
― É, seu energúmeno, não sabe esperar? As coisas levam tempo.
― Ah, fala sério, Takashi. Ele está nessa paixão há tempos – Revirou os olhos esverdeados – Tem que tomar atitude, Renato.
― Está parecendo meu irmão – Fitei-o com tédio.
― Esse é o meu papel – Sorriu sacana, colocando os braços atrás da cabeça.
― Cadê seu irmão, inclusive? – Takashi perguntou, após tomar mais um pouco da coca cola.
― Ah, fim de bimestre, está cheio de provas para corrigir – Murmurei.
― Que porra, hein – gritou Bruno com a boca cheia de Doritos – dar aulas é um inferno.
Takashi e eu rimos do escândalo exagerado de Bruno.
― Para de ser dramático – Sorri zombeteiro.
― Cara, não é drama, é sério – Bruno me olhou de olhos arregalados – Dar aula em escola é horrível, não dá nem pra você cagar em paz.
― Cê não disse isso, bro. – Takashi colocou a mão sobre a boca e começou a rir.
Passei a rir também.
A vida era cheia de contradições, mas estar com meus melhores amigos, não significava nada disso. Eles eram o vento que dava direção para o meu navio a vela. A lua que iluminavam os meus dias mais escuros.
☆☆☆
― Samara, e se eu lhe dissesse que estou apaixonado? – Perguntei, enquanto ela mergulhava seus pés no mar.
― E se eu lhe disser que vou embora?
Silêncio.
Apenas o barulho do mar e o vento eram ouvidos.
― Como assim? – Sussurrei.
― Ah, não fique triste, Renatinho— bagunçou meus cabelos – Mas, me conte, quem é a garota por quem está apaixonado?
Me fitou com os olhinhos brilhando de curiosidade.
Não valeria a pena dizer o que sentia.
Não agora.
Não depois disso.
― Ah, é só uma bobagem – menti olhando para a areia molhada – Quando você vai embora?
― Amanhã mesmo – sorriu feliz – vou morar com meu pai, ele me ligou hoje.
― E quanto a sua mãe e sua irmã? – perguntei, sentindo uma fagulha de esperança passar por meu coração.
― Ah, Renato, é mais complicado do que imagina – balançou a cabeça fechando os olhos por um instante – ele está doente.
Fiquei em silêncio novamente.
Meu coração estava em pedaços.
Samara ia embora.
Não havia nada que eu pudesse fazer.
― Não está se sentindo triste?
― Eu? É claro que não – deu um sorriso largo – só ficaria triste se meu pai morasse em algum lugar sem praia.
― Você sem praia? – tentei sorrir – é impossível imaginar.
Samara gargalhou alto.
Naquele momento uma mistura de felicidade e tristeza tomou conta de mim.
― Esse é o nosso último dia juntos aqui na praia – Olhou-me com um mínimo sorriso – Obrigada por ter me acolhido.
― Eu é que agradeço – respondi sincero – você mudou a minha vida.
― Ah, cale a boca. Não quero te ver chorar – Apontou o dedo em minha direção.
Mas logo me puxou para um abraço.
― Sentirei sua falta... – sussurrei contra seus cabelos.
― Eu também – se agarrou ao meu pescoço com força, passando a mão por meus cabelos, arranhando minha nuca vez ou outra.
Naquele momento, nada mais importava.
Era apenas: O mar, ela e eu.
E em meu coração, esse momento seria eterno.
☆☆☆
― Não acredito – Bruno gritou do outro lado da linha – Você não disse a ela o que sente?
― Não grita, Bruno – Takashi respondeu mal-humorado – Ela vai embora. Queria que o Renato sofresse?
― Tá, mas ele poderia pelo menos tentar – Gritou novamente.
― Ah, tá bom, seu banana— Respondeu de modo sarcástico – Você sabe que ela sempre deu fora em todos os rapazes que se aproximavam dela, por que seria diferente no caso do Renato?
― Sempre muito otimista, Takashi – Respondi enquanto segurava o telefone com uma mão e acariciava o pelo de Donatello com a outra.
― É, parece que teve aulas com Schopenhauer.
Gargalhei.
― Agora, tenho que ir, senhores – respondi.
― Fala sério, cara! Vai nos deixar assim?
― Que drama, Bruno – Eu claramente poderia ver Takashi revirando os olhos nesse momento.
― Me respeita, é meu momento de brilhar – gritou – vai se despedir de Samara?
― Na real, não – suspirei – uma hora dessas ela já deve ter ido.
― Como assim não foi se despedir dela? – Takashi perguntou surpreso.
― Ela quis assim. Disse que doeria menos.
― Que maluca – Bruno gritou – Nunca gostei dela mesmo.
Takashi riu.
― Agora, eu realmente tenho que ir. Depois retorno. Tenho que sair.
― Sair pra onde?
― Larga de ser curioso – Takashi alfinetou.
― Ué, cara, eu só perguntei – Exclamou.
― Meu irmão quer ir até o centro.
― Leva a gente também. Tá muito chato aqui.
― Até levaria, senhores, mas iremos ao mercado fazer compras.
― Na próxima, vamos cobrar – Takashi sussurrou.
― Tudo bem – Sorri – Depois retorno.
― E é pra retornar mesmo, hein – Bruno gritou.
Desliguei balançando a cabeça e sorrindo.
Meus melhores amigos me faziam rir até mesmo do improvável.
...
― Por que tão calado, Renato? – Meu irmão perguntou após sairmos do estacionamento do mercado.
― Ah, não é nada... – olhei para o mundo que se passava fora do carro.
― É a garota por quem está apaixonado? – Fiquei em silêncio. Ele sabia, sempre sabia – Ok, vamos parar um pouco e conversar?
― Vamos sim – sussurrei ainda sem olhá-lo.
Meu irmão apenas soltou um ruído, concordando. Parando próximo a praia.
Senti meu peito se apertar.
Saímos do carro, andando vagarosamente pela areia.
O vento era forte, bagunçava meu cabelo.
Apenas o pôr do sol naquele momento, era capaz de compreender minha dor.
Ficamos de pé, olhando o espetáculo que o sol fazia a nossa frente.
― Quer contar o que aconteceu agora? – Perguntou, os olhos esverdeados, parecendo ainda mais claros com o sol do fim de tarde.
― Ela foi embora. Não tive coragem de dizer o que sentia – Olhei-o, mordendo o lábio inferior.
Meu irmão me puxou para um abraço de lado.
― Não há nada de errado nisso – Respondeu com pesar – é algo que serve para não se repetir futuramente.
― Eu espero...
Talvez eu tenha agido certo, apenas o tempo que tenha errado. Será difícil sem Samara por perto, mas eu tenho que seguir em frente. Quando eu vejo o mar, existe algo que me diz: “Está mais perto dela do que imagina!” e isso me deixa mais feliz do que nunca.
― Haverá outros sorrisos, Renato – sussurrou – Não é porque não deu certo com ela, que não dará com mais ninguém.
Olhei-o, sentindo um sorriso se abrir em meus lábios.
Samara jamais foi minha – e nem poderia. Jamais senti seus lábios róseos nos meus. Nunca pude sentir sua mão entrelaçada a minha.
Samara virou música. Dessas em que o gruda na cabeça e é impossível esquecer.
Pode passar-se anos sem ouvir, mas ainda assim, quando menos esperar, a nostalgia baterá.
Desse dia em diante, Samara esteve distante, porém, presente em minhas lembranças, histórias e o mais importante, em meu coração.
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