La Belle Anglaise

40 39. La Belle Anglaise.


Notas iniciais
Anteriormente eu havia dito que nenhum outro capítulo passaria das 4 mil palavras, mas eu decidi abrir um exceção ao último capítulo. Sendo assim, aproveitem o último capítulo de La Belle Anglaise.

21 de janeiro de 1793| Place de la Révolution, Paris

Poderia um rei ser julgado como se fosse um criminoso comum? Um monarca, um que viveu toda a sua vida pela nação, poderia ser culpado de traição?... Certamente que poderia, quando o radicalismo governava uma nação, todas as coisas eram permitida e vantajosas. Como a exemplo de agora.

Por unanimidade, o cidadão Louis Capet é declarado culpado pelos crimes de: conspiração contra a liberdade pública e traição contra o Estado... Sua pena será: execução pela guilhotina...

Aos pés do cadafalso, enquanto o assistente do carrasco cortava o cabelo dele, Louis XVI, ou Louis Capet como a Convenção Nacional o chamava agora, observava placidamente as multidões que vieram testemunhar a execução... ele não conseguiu ver quase ninguém, mas conseguia ouvir. O povo estava em silêncio, apenas esperando o momento mais esperado, mas o rei preferia interpretar isso como um sinal de último respeito. Melhor esse silêncio que gritos profanos.

Os arredores da Place de la Révolution estavam lotados de pessoas, eram homens, mulheres e crianças, alguns até mesmo com lanças, que vieram testemunhar o fim de um tirano. Estava cheio, tanto que alguns assistiam dos prédios mais altos perto da praça. O rei quase ficava emocionado com esse público tão grande. Claro que também haviam os 80 mil homens armados que deveriam impedir qualquer intervenção.

— Está na hora, monseigneur.— Quando o cabelo do rei foi cortado, seu confessor, o abade de Firmont, anunciou calmamente.— Os Céus esperam pelo seu martírio.

Que assim fosse então. Acompanho por um rufar de tambores, Louis XVI, ajudado pelo abade, sobe os íngremes e úmidos degraus do cadafalso. São dois metros de altura, o que logo faz o rei começar a ser visto pela multidão, mas qualquer grito, de ofensa ou protesto, é abafado pelos tambores, que parecem apenas ficar mais altos e rápidos a medida que ele chega ao topo.

Na plataforma, o rei é deixado sozinho com o carrasco e seus quatro assistentes. A guilhotina está bem à frente dele, pronta para acabar com o tirano Louis XIV... ele não seria o primeiro a morrer dessa forma, assim como também não era o primeiro rei a sofrer regicídio pelo próprio povo, mas Louis XIV sabe de um coisa: ele nunca será esquecido, o sangue dele marcaria a França para sempre.

— Morro inocente de todos os crimes que me são atribuídos.— Observando seu povo, o rei sinaliza para os tambores pararem e tenta fazer um discurso:— Eu perdoo os perpetradores da minha morte. Peço a Deus que o sangue que estão prestes a derramar nunca recaía sobre a França.

Porém as palavras do rei não são escutadas, os tambores continuam a tocar, abafando assim qualquer coisa que ele venha a dizer... Não perdendo mais tempo, Louis XVI coloca sua cabeça abaixo da máquina e os assistentes do carrasco amarram seu corpo. A morte está chegando e está muito perto, o absolutismo francês está prestes a morrer. Charles-Henri Sanson, o carrasco, ativa então a guilhotina... a lâmina desce rapidamente rumo ao pescoço do rei...

Às 10h22, o rei Louis XVI da França foi morto pela guilhotina... junto com o rei, uma era morreu na França. Um dos assistentes do carrasco pegou então a cabeça jorrando sangue do monarca e a apresentou ao povo.

Vive la Nation! Vive la République!— Alguns parisienses gritam animadamente.— Vive la liberté!

A artilharia disparou em comemoração, para a maioria dos parisienses presentes, esse parecia ser o início de uma "era de iluminação"... eles não poderiam estar mais errados...

... A notícia da execução de Louis XVI escandalizou a Europa, e fez isso de uma forma tão grandiosa que destruiu qualquer receio dos soberanos europeus em agir contra a rebelde França.

*****

"Após declarar, no início de fevereiro, guerra a Grã-Bretanha e Holanda, a República Francesa tomou a mesma ação contra a Espanha nessa [...] nota-se por sinal uma grande movimentação francófoba entre as nações europeias [...]"

"Seguindo o exemplo da Grã-Bretanha e do Santo Império, os Estados Papais, Nápoles e Sicília, Parma, Modena, Toscana e Portugal declararam guerra a República da França [...] o bloqueio naval britânico e a invasão às colônias francesas continuam, [...]. A coalizão europeia contra a França ganha mais força."

"Os efeitos da guerra continuam a abalar a França, após os distúrbios em Rouen por causa dos preços do pão, estouraram revoltas em todas as províncias [...], a situação da guerra não mostra-se animadora para nenhum lado, o Governo de Sua Majestade teme uma invasão naval francesa[...] Em contrapartida, a marquesa de Bristol ofereceu um baile em Hampton Court comemorando a captura austríaca de Condé[...]"

"A coalizão de nações contra a França ganha a cada dia mais força, embora também esteja colecionando algumas perdas [...], certos príncipes alemães colocaram seus exércitos a disposição das forças armadas britânicas, como o landgraf de Hesse-Kessel [...] a marquesa de Bristol até mesmo se predispôs, assim como Niedersieg, a pagar o subsídio desses exércitos [...] Maximilien de Robespierre entrou para a Comissão de Segurança Pública[...]"

A carruagem oficial da marquesa de Bristol, seguida por mais carruagens, protegida por seis guardas germânicos a cavalo, e mais dois no veículo, cruzava em rapidez os verdes campos de Derbyshire. Qualquer um que visse o veículo, e conseguisse perceber que os guardas, em uniformes quase austríacos, não eram do rei, iria pensar que havia uma grande urgência acontecendo... o que não era verdade, Katherine apenas tinha ordenado rapidez ao condutor.

— Os jornais de fofocas estão dizendo que na sua última festa em Hampton Court, aquela comemorando o bloqueio de Cambrai, você prometeu um beijo ao homem que trouxesse as línguas de Robespierre, Couthon e Saint-Just.— Rindo consigo mesmo, Wilhelm amassou o jornal e sorriu desdenhoso a esposa. Katherine balançou a cabeça em horror.— Chega a ser hilariante eles darem a entender que sua influência na guerra é maior.

— Os jornais falam muitas tolices, afinal, estão buscando apenas o próprio ganho.— O discurso de sempre. Ele negou, ainda sorrindo, mas a marquesa não mostrou abalo.— Eles não estão completamente errados. Sou a regente de um principado alemão, alguma influência eu tenho.

— Então eu devo ser muito honrado por estar casado com uma mulher tão importante.— Revirando os olhos, o príncipe respondeu e olhou pela janela da carruagem.

— Isso seria ciúmes?— Como!? Voltando-se rapidamente a esposa, Wilhelm negou ofendido. Essa ação apenas fez ela sorrir ainda mais.— Não fique preocupado, meine liebe, eu nunca iria trocar você, principalmente por um qualquer.

Como essa garantia era edificante! O príncipe suspirou com ironia voltou a paisagem de Derbyshire, muito provavelmente eles logo estariam chegando... poderia ser uma visita bastante agradável, não poderia? Todas as coisas estavam sendo desagradáveis ultimamente, desde a execução de Louis XVI, então ver máquinas talvez não fosse tão ruim assim. Wilhelm, inquieto em seu próprio lugar, passou a mão no rosto e encarou Katherine, que franziu o cenho.

— Por que Richard Arkwright, o jovem, nos convidou para Cromford Mill? Melhor ainda, por que você aceitou?— Não havia nenhum problema nisso, de fato, mas deixar Cheshire para visitar uma fábrica? Ela não respondeu de imediato.— A produção de algodão, tecidos no caso, nunca foi um grande interesse seu.

— De fato, nunca dei a mínima importância as novas tecnologias, mas eu desejo muito saber como andam as coisas além da nossa área de influência.— Como andam as coisas... Wilhelm arqueou a sobrancelha, o que ela queria dizer com isso? A princesa suspirou e olhou pela janela.— Estou curiosa sobre como os ingleses estão reagindo a guerra, principalmente nessas áreas rurais.

— Muito provavelmente o maior medo deles seja enviar seus filhos ao continente, de novo.— Um pouco injusto? Talvez, mas não deixava de ser a realidade. Tentando sorrir brincalhão, o príncipe acrescentou:— Ou talvez você seja a medrosa, Katherine, os jornais estão fazendo de você uma das principais organizadoras da coalizão.

Katherine não respondeu, continuou calada e olhando pela janela. Havia alguma coisa? Wilhelm também tentou ver, mesmo estando do lado contrário, mas ela percebeu.

— Estamos chegando, Wilhelm. Logo iremos entrar na vila de Cromford e em seguida na fábrica.— Suspirando, a marquesa respondeu. Quase imediatamente ele sentiu a carruagem diminuir a velocidade e "civilização" começou a aparecer. Novamente ela suspirou.—Sinceramente, estou com um leve medo sim. Eles assassinaram o rei da França!

— Não é você e seus lords que afirmam veemente que os ingleses nunca se rebelariam contra a autoridade real?— Arrumando-se em seu próprio lugar, Katherine negou e colocou um sorriso no rosto. Um novo pensamento surgiu na cabeça de Wilhelm.— Ou o seu medo...

— Uma revolução na Inglaterra não me assusta, meu medo na verdade é o povo.— O povo... fazia um certo sentido. Com a carruagem entrando na vila, alguns acenaram para eles, enquanto outros nem deram atenção.— São tão gentis, não?

— E como, nunca fui recebido com tanta hospitalidade.— Usando um tom irônico, ele respondeu e sorriu para os aldeões.

Normalmente as recepções sempre eram assim, alguns eram calorosos, enquanto outros eram frios, mas Wilhelm entendia a preocupação de Katherine. Essa não era uma situação normal, uma grande guerra europeia estava acontecendo no continente, todas as nações estavam voltando-se contra a França afim de vingar a morte de Louis XVI, e isso estava trazendo consequências aos envolvidos.

A comitiva dos Bristol cruzou a vila e começou a se aproximar da fábrica de algodão dos Arkwright, não necessariamente significando o fim dos sorrisos.

— Será que os jornais londrinos chegam aqui também?— Encarando ela novamente, o príncipe inclinou a cabeça em confusão. O sorriso de Katherine diminuiu.— Quem seria tolo o suficiente para acreditar que sou muito influente? Talvez um francês.

— Você não nasceu para apoiar uma guerra, Katherine, a paranoia absolutista está lhe fazendo mal.— Usando um tom mais brincalhão, Wilhelm tentou fazê-la sorrir, mas Katherine negou.— Por que um francês revolucionário estaria na Inglaterra?

— São variados os motivos... eu não sei.— Exatamente. Ele a encarou com certeza, porém a dúvida permanecia nos olhos dela. Por fim, a marquesa suspirou em desistência.— Talvez você esteja certo, mas continuarei com meus guardas. Não quero desafiar o perigo.

— Desafiar mais do que já faz?— Dessa vez um sorriso surgiu nos lábios dela, embora muito pequeno. Wilhelm estendeu a mão e pegou a dela com carinho.— Eu vou estar sempre atrás de você. É uma garantia.

Uma que ele pretendia cumprir. Ao chegarem na fábrica, a marquesa e o príncipe, junto das damas de companhia e cavalheiros, foram recebidos por Richard Arkwright, o filho do falecido Sir Richard Arkwright, e então levados para conhecer a fábrica. Primeiro os arredores e prédios, depois o Canal Cromford, que ainda estava sendo construído, e por fim foram levados para conhecer as máquinas.

A fábrica em si... era mais limpa do que o imaginado, mas que grande sujeira o algodão poderia fazer? Afinal, não era carvão. Houve apenas uma coisa desagradável de se ver: existiam muitas crianças trabalhando na fábrica, pareciam ser em sua maioria mulheres e crianças, na verdade. Um pouco atrás de Katherine, Wilhelm tentou comentar isso num sussurro, mas Arkwright percebeu:

— Damos muita atenção as nossas crianças trabalhadoras, antigamente o mínimo para trabalhar aqui era sete anos, agora é dez.— Quanta evolução! Wilhelm quase revirou os olhos, mas ele lembrou que não poderia esperar muito.— Sem contar todo o apoio educacional que prestamos, empregados inteligentes são naturalmente mais eficientes.

Enquanto o pais eram analfabetos, os filhos saberiam ler e escrever, essa seria a educação que as crianças receberiam... ainda era melhor que a de muitos lugares pelo mundo. A visita pela fábrica continuou, até que Richard Arkwright anunciou que tudo havia sido mostrado e eles foram embora. Quando estavam saindo, afim de voltar a carruagem, uma pequena multidão formou-se do lado de fora, eram pessoas querendo ver a marquesa.

— Sua fábrica é impressionante, Sr. Arkwright, nunca em minha vida estive em um lugar igual.— Entre os "minha marquesa", "madame" e "uma rosa", Katherine comentou com o industrial.— O futuro parece ser maravilhoso... e barulhento também.

Vindo logo atrás da esposa e de Arkwright, Wilhelm escutava isso com desdém, embora não mostrasse. As vozes chamando estavam começando a ficar desnorteantes, nunca eles estiveram tão próximos do povo.

— Certamente é, minha marquesa, certamente.— As pessoas começaram a se aproximar mais ainda da princesa, que sinalizou para os guardas não impedirem.— Espero que esteja gostando do seu público, uma exceção especialmente para a senhora.

— Amo meus administradores da mesma forma que eles me amam.— Quanto a isso, era uma verdade. Estavam oferecendo muitos ramalhete de flores a Katherine, ela quase não sabia mais o que fazer.— Quantas flores, eu agradeço pelo presente, Sr. Arkwright.

O desconforto do industrial era visível, mas ainda assim ele sorriu. As damas de companhia pegavam os buquês pela marquesa e quase não davam atenção ao que estava em volta. Wilhelm tentou aproximar-se da esposa, mas antes disso uma menininha puxou a mão dele, fazendo ele também distrair-se. A criança estendeu um ramalhete de rosas.

— São para a marquesa?— Pegando o pequeno ramo, Wilhelm perguntou sorrindo. A menina assentiu.— Ela vai gostar muito, são as favoritas dela, sabia?

— Eu sei, por isso escolhi essas, além de serem as minhas favoritas também.— Que criancinha doce. Ele iria perguntar mais algo, porém a menina, arregalando os olhos, apontou para trás e gritou:— A marquesa!

Alguns também perceberam e arfaram assustados. Um mulher, despercebida pelos que estavam mais perto da marquesa, apontava uma faca contra a ela. Toda a situação ocorreu muito rápido, quando percebeu, Wilhelm corria em direção a esposa, alguns guardas faziam o mesmo.

— Katherine!— Foi a primeira coisa que veio na cabeça dele, a princesa olhou para o príncipe, mas a assassina também, que apressou o crime.

Vive la Nation! Vive la République!— Em francês fluente, a mulher gritou e lançou a faca contra a marquesa.

*****

A única reação dela foi olhar para a mulher, fechar os olhos e se proteger com as mãos. Katherine por um momento chegou a pensar que já estava morta, o fim havia chegado e filhos dela estavam sozinhos no mundo, porém, quando deu-se por si, ela estava caída no chão com um guarda germânico, enquanto a assassina era segurada por outros dois guardas.

Vive la liberté! Vive la Révolution!— Mesmo com a contenção dos dois guardas, a mulher continuava a resistir com fúria.— Mort aux tyrans!

— Não queremos machucá-la, madame, solte a faca, pelo amor de Cristo!— Os olhos de Katherine continuavam perplexos, atentos a luta dos guardas pela faca da assassina.— Solte, ou quebraremos a sua mão!

Qu'ils se brisent, mais ma foi ne sera jamais ébranlée!— No meio dessa resistência, ela acabou atingindo a faca na mão de um dos guardas, que a soltou na dor.— Putain autrichienne!

Os guardas novamente agarraram a mulher, e outros juntaram-se nessa contenção. Até aquele momento, Katherine continuava sentada chão, perplexa demais para falar algo, Wilhelm até mesmo correu para junto dela, a abraçou e beijou com emoção, mas a marquesa continuou estática, isso até escutar esse último insulto... Putain autrichienne... puta austríaca... da mesma forma como chamavam a marquesa Anne e chamam Marie Antoinette! A raiva superou o susto.

— Minha marquesa, a senhora está bem? De alguma forma eu lhe machuquei ou toquei onde não deveria?— Ainda em silêncio, a princesa encarou o guarda que a salvou e negou, mas não foi o suficiente para acalmá-lo.— Minha marquesa? A senhora não poderia...

— A faca atingiu você de algum forma, Katherine?— Cortando o guarda, Wilhelm perguntou com urgência na voz. Novamente em silêncio ela negou e estendeu a mão, para ele ajudá-la a levantar.— Eu quase morri com a perspectiva de perder você! Tem certeza de que está bem?

O príncipe ajudou ela a levantar, mas a princesa não respondeu imediatamente, Katherine arrumou a saia do vestido e voltou-se aos guardas, que ainda tentavam tirar a faca da mulher sem machucá-la.

— Tão bem quanto estaria alguém que acabou de sofrer um atentado.— Tão fria... esquecendo isso, a princesa sinalizou para o guarda pegar o chapéu dela e depois deu um passo à frente.— Um assassino é um assassino, guardas, lembrem-se disso! Usem a força bruta, caso necessário!

Bastou essa permissão para os guardas agarrarem os dois braços da assassina e tirassem a faca dela, a mulher gritou de dor no processo, mas dificilmente foi usada força o suficiente para quebrar algum osso. Katherine observou tudo com um olhar frio, enquanto Wilhelm, ao lado dela, mostrava alguma pena nas expressões. Atrás deles, Richard Arkwright e os operários olhavam o desenrolar dessa cena com medo, uma princesa quase foi morta na frente deles.

— Precisava realmente de toda essa violência, Katherine?— Preferindo não discutir, a princesa ficou em silêncio, qualquer resposta perto dessas pessoas seria um escândalo.— Deve ser apenas mais uma louca qualquer, devemos agir com pena.

Wilhelm estava certo, muito certo, mas ela não precisava aceitar isso em público. Pegando seu chapéu do guarda, Katherine voltou rápida e silenciosamente para a carruagem, o desejo dela era nunca mais voltar para uma fábrica, assim como jamais pisar novamente nesse Derbyshire... o que acabaria por acontecer realmente. Logo o príncipe também foi para o veículo, e quando estava entrando a marquesa em fim respondeu:

— Certamente, Wilhelm, não precisava de tudo isso, mas assim aconteceu.— Ele negou e acomodou-se no banco. Katherine sabia que estava sendo fria, mas como não ser?— A francesa tentou me matar! Dificilmente mostrarei misericórdia!

— É apenas uma criaturinha que perdeu a razão! Uma louca!— Katherine balançou a cabeça para a alta resposta dele. Não importava se estava louca ou sã, era uma assassina!— O que você fará com ela? Enviar para alguma prisão fora da...

— A justiça cuidará em decidir qual será o destino da criminosa, não eu.— Muito provavelmente seria algum hospital para loucos. Fechando seus olhos com dor e os abrindo novamente, Katherine encarou o marido com tristeza.— Podemos não mais falar desse assunto, Wilhelm? Por um momento eu realmente senti a morte chegando.

Isso seria o suficiente para ele entender a situação dela!? Katherine estava sofrendo, ele não entendia!? Porém, olhando realmente para o marido, a princesa percebeu que ele também sofria. Wilhelm a encarava com muita emoção nos olhos, igualmente sentindo dor. Ambos estavam no mesmo mar, embora em pontos diferentes. A princesa enfim sorriu mais calma ao príncipe, que retribuiu o sorriso e veio até ela.

Sentando ao lado dela, Wilhelm abraçou Katherine com força. Fechando seus olhos, a marquesa encostou a cabeça no peito dele e assim permaneceu. A viajem de Derbyshire a Cheshire foi feita em quase total silêncio entre eles, os dois condados poderiam ser vizinhos, mas isso, porém, não significava que eram próximos. Foi um momento de reflexão e pensamentos... um momento para colocar os pensamentos em calma, ou melhor, todo o resto desse dia foi assim.

No dia seguinte, as lembranças de Cromford Mill ainda estavam muito frescas, mas não o suficiente para impedir qualquer sorriso ou brincadeira. Katherine e Wilhelm estavam analisando a maquete da nova residência em Bristol, enquanto as crianças brincavam mais distantes na sala. Nada havia sido dito para Richard, Anne, Robert e Mary, as eles percebiam que algo havia acontecido, mas sabiam o quê.

— Já não está grande o suficiente, Katherine?— Inicialmente o objetivo da marquesa era apenas se distrair, mas então ela começou a pensar em mudar a propriedade, irritando assim Wilhelm.— Para mim está perfeito assim. A construção até mesmo já começou.

— Mas para mim, a opinião que realmente importa, ainda falta algo. Parece apenas um grande quadrado enfeitado.— Embora não pudesse ser outra coisa. A princesa pegou uma parte da maquete, mas logo se arrependeu e colocou no lugar.

Sir Edmund Brocket havia projetado uma grande residência retangular, com um pátio no meio, em estilo barroco tardio, embora também houvesse um pouco de barroco e neoclassicismo. Seria muito bela, mas Katherine ainda sentia que faltava algo, e ela não estava se referindo ao fato do rococó estar fora de moda... Seria a cor creme da residência?

— Você insistiu para Sir Edmund projetar em estilo rococó, então o enfeitado estava garantido.— Irônico na voz, Wilhelm respondeu e pegou uma parta da maquete, irritando assim Katherine.— Não sei como você consegue...

— Eu não disse nada quando você me mostrou sua Oldenburg House, então me faça o mesmo favor.— Ela respondeu e tomou do marido a parte que ele havia pegado.— E também não toque em nada, não quero você mudando o lugar.

— A maquete ter ou não alguma parte dificilmente mudará o resultado. Sir Edmund...— Oh Deus, Katherine negou e esperou ele acabar, o que não aconteceu.

— A residência em Bristol está tão bonita, e essa cor... quase parece amarelo.— Richard percebeu a discussão dos pais e veio ver a maquete. Aproveitando esse elogio, a princesa deu um vitorioso sorriso ao marido.— O que será exatamente? Um castelo, house, hall... park?

— Será mais um dos esbanjamentos da sua mãe, ou melhor, dos Tudor-Habsburg.— Desdenhoso como sempre. O sorriso dele tornou-se provocador para ela.— Por que esse creme é tão amarelado, Katherine?

— Seu pai pensa saber de tudo, Richard, não escute o que ele fala. Esse será a futura residência dos Tudor-Habsburg em Bristol.— Retribuindo o mesmo sorriso, a princesa fitou o filho mais velho e respondeu. Richard riu.— E o creme amarelado é para dar uma maior sensação de maior riqueza.

Logo, porém, o pequeno príncipe de Niedersieg voltou para perto dos irmãos, permitindo assim que Katherine e Wilhelm voltassem a discutir como antes, uma doce, mas azeda, brincadeirinha. Entretanto isso não significava o esquecimento do acontecimento em Cromford, principalmente quando Sir Eliot Palmer entrou na sala acompanhado pelos três guardas do dia anterior. As crianças foram rapidamente levadas aos jardins de Amelian House por Lady Pembroke.

— Chegaram notícias de Matlock, minha marquesa. A Guarda Germânica recebeu uma permissão especial para interrogar a Mme. Marin.— Madame Marin?... a assassina, claro. Sentada em uma cadeira, ao lado de Wilhelm, Katherine sinalizou para o capitão, em pé, continuar.— Graças a Providência, não precisamos usar da força, Mme. Marin falou tudo.

— Pois muito bem, assim ninguém acusará a Guarda Germânica de tortura.— Sendo apenas mais problemas a resolver. Katherine suspirou e encarou os outros três guardas.— E esses com o Sir? Gostaria de presenteá-los com alguma ordem niedersieger, mas para isso preciso dos nomes.

— Não creio que uma ordem seja...— O primeiro deles, com a mão ferida, tentou protestar, mas a marquesa sinalizou para ele parar.— Keppel Fane, minha marquesa.

Charles Palliser.— Abaixando a cabeça, o guarda respondeu. Esse foi o outro que ajudou a segurar aquela mulher.— Sua vez, Páris.

Rapidamente Katherine e Wilhelm trocaram um olhar divertido. Talvez o herói da marquesa tenha se tornado uma piada entre seus companheiros. O último, não escutando a provocação, baixou a cabeça e respondeu com firmeza:

— Sou John Churchill, minha marquesa.

— Como o grande general, assim como Fane e Palliser como grandes almirantes.— Seria uma boa frase para usar no discurso... balançando a cabeça, Katherine voltou aos guardas.— Creio que a Goldrose já está de bom tamanho, não? A Orden vom Silbernen Inntal é apenas para serviços a Niedersieg.

— Qualquer honra, estrangeira ou não, enche de orgulho um militar, minha marquesa, não fique preocupada. Agora podemos voltar a criminosa?— Havia isso ainda. Katherine assentiu vagarosamente. Sir Eliot começou:— Mme. Marin é uma francesa que vive na Inglaterra desde 1788, um pouco antes da Revolução, ela...

— Não tenho interesse algum na vida dessa senhora, Sir, apenas quero saber as motivações dela.— Cortando o capitão, a marquesa falou com desprazer. Wilhelm direcionou a ela um olhar, mas Katherine não importou-se.— Como uma louca dessas foi parar na fábrica dos Arkwright?

— Qualquer pessoa pode trabalhar nessas fábricas, minha marquesa, essa é a triste realidade.— Sir Eliot respondeu com pena, mas logo ele lembrou da Mme. Marin.— A assassina é uma apoiadora da Revolução. Ao ler sobre o envolvimento da senhora na coalizão, ela decidiu que... iria matá-la durante a visita.

— Assim a coalizão iria se desmantelar e a França voltaria a bela e gloriosa paz.— Palliser completou as palavras do capitão, deixando a marquesa ainda mais calada.— Ela seria louca ou apenas tola mesmo?

Apenas o silêncio permaneceu na sala. Não havia como Katherine falar alguma coisa, ela desviou o olhar dos guardas e ficou pensativa. Essa Mme. Marin deveria realmente ser louca, para pensar uma coisa dessas só assim mesmo! Matar a marquesa?... isso... não tinha como classificar isso! Porém o silêncio da princesa foi rápido. Ao lado dela, Wilhelm tocou no braço da esposa e a fez voltar ao agora.

— Ela disse mais alguma coisa? Talvez cúmplices ou... quem saber um mandante?— Por Cristo! Katherine encarou o marido com horror, ele falava de uma conspiração!?— Devemos ser reais, Katherine. Existem muitos loucos aqui. Franceses, radicais... irlandeses revolucionários.

— Tenho total conhecimento disso, Wilhelm, mas prefero pensar nessas ameaças como separadas, não juntas!— Caso o contrário... a princesa negou e suspirou, assim ela ficaria louca!— Os jornais não me ajudam em nada, espero que, pelo menos, quando eu morrer eles me façam de mártire

Novamente o silêncio tomou de conta. Não aguentando mais, Katherine levantou e foi para perto de uma janela, seria melhor de respirar assim. Todo esse perigo e tensão era instigante.

— O que a senhora fará em relação a essas ameaças?— Sir Eliot perguntou com certo receio.

Inicialmente ela negou, sem saber ao certo o que fazer. Haviam tantos pensamentos na cabeça dela que... era quase impossível organizá-los direito. Mesmo nesse silêncio, Wilhelm também levantou e veio até ela, não a abraçando, eles tinham público, mas perto o suficiente para fazer Katherine sentir alguma calma e ternura. Estava na hora... na hora de ser a marquesa.

— Sir Eliot, envie a Lord Amherst um pedido para que novos guardas germânicos sejam recrutados, os que já recrutamos anualmente são i insuficientes.— Se o Comandante em Chefe das Forças Armadas recusasse... Katherine iria recorrer ao rei e a Pitt. Ela continuava de costas, mas sabia que ele aceitou.— Quero também que a proteção das minhas propriedades seja redobrada, principalmente as que sempre estou mais presente.

— Isso pode demorar um pouco mais, minha marquesa, proteger a senhora não é a mesma coisa que proteger uma propriedade.— Ouvindo isso, a marquesa olhou friamente de lado para o Sir e assentiu. Que ele fosse o mais rápido possível então.— Farei assim como foi pedido.

— Também irei ordenar que Lancaster House, em Lancashire, seja reformada. É uma propriedade rural e... bastante isolada de tudo.— Sim, pouco antes da Revolução começar essa propriedade foi adquirida, porém nunca usada.— Caso tudo fique pior, poderemos nos refugiar lá.

— Não querendo ser desagradável ou ruim, mas o que faremos caso ... nossos esforços não sejam o suficiente?— Wilhelm, até aquele momento calado, perguntou com dúvida e... receio.

— São duas opções: iremos reinar em Niedersieg ou...— Ela parou, era tão difícil falar. Katherine sentiu Wilhelm se aproximar mais ainda.— ou iremos reinar nos Céus.

Uma perspectiva sórdida e desagradável, mas ainda assim muito possível. Sir Eliot assentiu e depois foi embora juntos dos três guardas. Agora sozinhos, Katherine e Wilhelm finalmente se abraçaram e beijaram, era mais desespero e busca por um sentimento de segurança, que necessidade, mas ainda assim... muito necessário. Era quase uma promessa, a marquesa sentia isso, ele nunca iria deixá-la. Então a princesa também apertou o abraço, pois ela nunca iria deixá-lo.

Katherine iria continuar a reinar, Wilhelm continuaria a protegê-la, não importa onde... seja Inglaterra, Niedersieg ou... qualquer lugar! Juntos e com muita, imensamente muita, beleza. Encarando o príncipe, a marquesa acariciou a bochecha dele e o beijou novamente. Correspondendo o beijo, Wilhelm apertou a cintura dela e a trouxe para mais perto. Quando o beijo acabou, Katherine acariciou o rosto dele e sorriu alegremente.

Notas finais
* Eu nunca realmente soube criar um último capítulo, principalmente para meus Tudor-Habsburg, onde o fim de um é o início de outro, mas aqui estamos. Ficou bem aberto esse final, o que é meu objetivo, então está valendo. * Ainda falando de último capítulo, inicialmente eu pensei em escrever aqui todos os meus aprendizados e frustrações com esse romance, mesmo La Belle Anglaise sendo o meu favorito ainda existem frustrações, mas eu decidi fazer de outra forma. Quando o meu próximo romance chegar ao fim, eu decidi comemorar o "fim de uma era" postando minhas considerações finais no meu blog... eu acho muito estranha esse palavra... Lembrando que quando eu digo "fim de uma era" não significa o fim da minha saga Tudor-Habsburg, eles transcendem os séculos 18, 19, 20 e 21. * Lembrando que amanhã mesmo, sábado, saíra o epílogo. Então fiquem prontos para descobrir qual será meu próximo romance. * La Belle Anglaise no Pinterest: https://pin.it/2kcLNpH