La Belle Anglaise
4 3. Desconhecidos.
Não era apenas a Inglaterra que parecia ser muito diferente, mas também os Bristol.
Tudo na casa dos Bristol parecia ser grandioso e assustadoramente formal. Os criados mal olhavam para seus senhores, havia uma imensidade de mesuras a fazer e uma grande quantidade de pessoas para servirem a família. A corte de Copenhagen era muito bem conhecida por sua rigidez e grandiosidade, mas Wilhelm e sua família quase nunca estavam na corte, então tudo isso era muito estranho e formal a ele.
Wilhelm cresceu em um ambiente muito informal. Em sua casa haviam brincadeiras, risadas, amizade e até mesmo gritos, aquele era um ambiente familiar e até tranquilo, muito diferente desse Hampton Court. Wilhelm estava rodeado por estranhos, frios desconhecidos. Ele já sentia falta de casa, de seus irmãos.
Suspirando sem muito ânimo, o príncipe sentou no recamier perto de sua cama. Havia um contraste tão grande entre aqui e lá. Ele estava sendo tratado de uma forma tão fria. Pareciam até achá-lo inferior. Mas dificilmente Wilhelm era inferior, ele era um príncipe dinamarquês, bisneto, neto e primo de reis, que cresceu com reis. E o que o príncipe de Niedersieg era?
Ele nunca se considerou alguém orgulhoso ou arrogante, mas Wilhelm não gostava de ser tratado com rudeza. Ele nunca havia gostado, e seu relacionamento com o pai era a maior prova disso. Wilhelm não iria se deixar ser humilhado, nem mesmo pela princesa Katherine.
— Maldita princesa Katherine!— Falando consigo mesmo, o príncipe gemeu.— Por que as bonitas são sempre terríveis? Tão bela mas... tão... Argh!
A princesa Katherine de Niedersieg e Bristol era bonita, muito bonita, não havia como negar, e ela o havia encantado, seria hipocrisia dizer o contrário. Em aparência a princesa parecia perfeita, seu corpo, rosto, os olhos azuis celestes, até em altura ela era perfeita, mas tudo isso parecia esconder uma personalidade ruim e orgulhosa.
A forma como a princesa lhe olhou, falou com ele, como se ela fosse muito superior e ele um animalzinho, isso incomodou a Wilhelm.
Mas talvez, e ele queria muito acreditar nisso, fosse apenas a ansiedade, ela deveria estar assustada em casar com um completo estranho. Tinha que ser assim.
Três batidas foram dadas na porta, fazendo Wilhelm interromper seus pensamentos e olhar para a porta. Ele não disse nada, assim como não deu permissão alguma, mas mesmo assim três homens entraram no quarto. Wilhelm vagamente lembrava de já tê-los visto, mas ainda assim, isso era certo?
— Sua Alteza, sou Charles Windsor, o 3° barão York.— O mais velho dos cavalheiros foi o primeiro a falar, e fez isso soando superior.— Faço parte do Conselho de Bristol. O marquês enviou-me para apresentar seus cavalheiros.
— Cavalheiros?— Mas o que era isso? Wilhelm olhou sem entender para o barão, antes de tentar sorrir.— Eu não pedi isso, Mein Herr. Para falar a verdade, nem mesmo sei o que significa isso.
Um cavalheiro inglês Wilhelm sabia muito bem o que era, mas isso ele não fazia ideia. O barão olhou para os dois lords atrás, suspirou e voltou ao príncipe.
— Os homens dessa família sempre têm a disposição assistentes, homens nobres para ajudá-los a cumprir suas tarefas, os cavalheiros.— Um assistente pessoal. Ele não havia sido informado disso.— Esses são Julian Congreve, o 3° marquês de Nondell e James Carlton, o 4° barão Cottington.
Os outros dois, que eram mais jovens que o barão York, fizeram uma mesura. Wilhelm ainda não estava entendendo.
— Eu agradeço, Mein Herr, pelo marquês os ter enviado. Mas não vejo necessidade alguma deles...
— Perdão, meu príncipe, mas Lord Nondell e Lord Cottington foram enviados por ordem do marquês.— Colocando muito ênfase na última parte, Lord York apontou. Mas Wilhelm não era obrigado a aceitar.
— Não posso ficar com o simples auxílio de valete? Não é isso que usam aqui?— Wilhelm ainda não havia desistido, ele ainda questionaria. A expressão do barão já estava cansada.— Há algum problema nisso?
— Não é permitido aos Tudor-Habsburg falar com a criadagem.— Então como esse lugar funcionava? Mesmo assim o príncipe sorriu para York, pronto para responder...— A regra inclui os Tudor-Habsburg por casamento.
Wilhelm encarou o barão York por um momento. Já estava ficando ridículo tudo isso. Ele estava insatisfeito com issa situação, mas depois de tanto questionar, perguntar, Wilhelm estava cansando. Mas ainda...
— Eu não serei um Tudor-Habsburg por casamento, na verdade, a princesa que será uma Oldenburg.— O barão York ficou calado por um momento, apenas encarando Wilhelm.
— Meu príncipe, o senhor terá de aceitar.— Mas Wilhelm não estava disposto! Ele teria que gritar!? Antes que o príncipe pudesse falar qualquer coisa, o barão York deu as costas e caminhou para a porta.— Passar bem, meu príncipe.
E o barão saiu, deixando Wilhelm sozinho com esses dois estranhos.
Mas que ótimo! Tudo parecia estar indo contra ele, e nada Wilhelm poderia dizer contra, fazer contra. Suspirando impaciente, Wilhelm sentou novamente no recamier, que seja. O príncipe olhou para os dois lords e apontou para o mais alto.
— Você, diga-me novamente seu nome.— Nenhum dos dois entendeu.— O loiro alto.
Pelo menos parecia ser loiro, Wilhelm não fazia ideia se era uma peruca empoada ou o próprio cabelo do lord.
— Cottington. O barão Cottington.— Cottington. O barão Cottington, parecia ser um homem muito grosseiro pela voz.
— Mande preparar meu banho,... Cottington.— De qualquer forma, Wilhelm não julgava uma pessoa apenas pela primeira vista, não geralmente.— E você... eh...
Wilhelm apontou para o outro loiro, mas que era baixo.
— Nondell.— Sim, o marquês, Wilhelm se lembrava agora.
— Procure saber onde estão os baús com minhas roupas e traga-os para cá.— O Nondell fez uma mesura e saiu do quarto junto de Cottington, que foi procurar algum criado.
Agora pelo menos ele estava sozinho e poderia pensar em paz. Mas que desgraça! Wilhelm nunca refletiu tanto sobre algo como fez hoje. Wilhelm nunca desejou tanto estar em casa, ele nunca desejou mais que sua tia, a rainha viúva, tivesse mudado de ideia.
Os cavalheiros rapidamente voltaram, e com eles vieram criados comuns e baús. Wilhelm foi banhado, vestido e arrumado para seu casamento. E depois disso, mais uma viagem foi feita, agora para o Palácio de St. James, onde moravam o rei, a rainha e a corte britânica. Novamente Wilhelm ficou encantado com Londres. A carruagem passou por casas e prédios tão belos que pareciam até mesmo palácios. Eram construções magníficas.
Mas o que Wilhelm não achou nada magnífico foi o Palácio de St. James. Se Hampton Court parecia velho e atrasado, esse parecia muito mais. Não parecia a casa de um soberano. Pelo menos o interior do palácio era melhor que o exterior.
Antes de ser levado a Capela Real, onde o casamento iria acontecer, o príncipe conheceu o rei e a rainha da Grã-Bretanha e da Irlanda. E esse foi um conversa seca e rápida. Era muito bem conhecido na Dinamarca que o rei britânico não gostava deles, por causa do sofrimento que a rainha Caroline Mathilde passou nas mãos dinamarquesas. Mas o rei parecia esquecer dos problemas que Caroline Mathilde e Struensee causaram a Dinamarca.
Embora Wilhelm fosse um adepto das ideias iluministas, as mesmas ideias de Struensee, ele não achava que tudo deveria ser imposto como Struensee fez. Era mais um processo calmo e gradual.
— E como está meu primo, o rei Christian?— O rei perguntou sem emoção. Embora essa conversa fosse "informal" Wilhelm ainda se encontrava de cabeça baixa.
— Está muito bem, Mein Herr
— Que felicidade.— Não parecia muito.— Espero que a incapacitante doença dele não esteja evoluindo.
— Eu também espero, Mein Herr. Mas não tenho muito contato com a corte.— Wilhelm não era médico para saber dessas respostas.— O príncipe herdeiro também está crescendo muito.
— Imagino meu sobrinho seja um verdadeiro Hanôver.— Frederik, o príncipe herdeiro da Dinamarca, parecia um verdadeiro Oldenburg. Dos Hanôver ele herdou apenas o cabelo loiro.
Houve um momento de silêncio entre eles.
— E a prima Juliane Marie, a rainha viúva?— A rainha quebrou o silêncio com sua voz dura.
Mas esse assunto Wilhelm teria o prazer de conversar. E felizmente a conversa não se estendeu muito. Logo os monarcas britânicos foram embora e Wilhelm levado a Capela Real.
O casamento foi rápido e ocorreu sem problema algum. Embora Wilhelm tenha percebido uma insatisfação da princesa ao fazer os votos e ao falar qualquer outra coisa. Era temporário, ele tinha que lembrar sempre disso. Essa rudeza iria acabar logo. Wilhelm esperava que sim.
Quando deu-se por si, Wilhelm e Katherine já estavam casados.
*****
A vida era tão irônica. Muito irônica. Katherine estava casada, ela havia se tornado uma mulher, a princesa Wilhelm da Dinamarca e Noruega. Não estava sendo como Katherine tinha imaginado, estava muito longe na verdade.
Em seus mais felizes sonhos Katherine se imaginou casando com Frederik Adolf, um príncipe sueco bonito, que irradiava encanto, diversão e até malícia. Mas olhando para o agora, Katherine estava casando com Wilhelm, um príncipe dinamarquês, ainda bonito claro, mas que irradiava tédio e rebeldia. Ela estava perdida.
Não havia como negar que o príncipe Wilhelm era muito bonito, realmente. Mas Katherine não conseguia evitar o desgosto e tristeza por essa situação. Ou melhor, ela sentia, mas não mostrava. Katherine estava ao lado do príncipe Wilhelm, recebendo dos convidados comprimentos pelo casamento. Alguns desses que era visivelmente forçado e cheios de falsidade, mas a princesa sorria a aceitava tudo com aparente alegria.
Havia apenas três coisas que Katherine não fazia: tocar, olhar e falar com seu marido. Isso a princesa se recusava fazer. Olhar apenas para frente e falar apenas com as outras pessoas. E assim eles iriam viver bem.
Maria Denbaste, a condessa de Courteney, se aproximou junto de seu marido John Denbaste, o 3° conde de Courteney.
— Suas Altezas.— Lord e Lady Courteney fizeram uma respeitosa mesura.— Que sejam muito felizes no casamento, e vivam em constante alegria.
— Tenho certeza que sim, Maria.— Katherine respondeu ironicamente, mas dessa vez ela nem mesmo se repreendeu. A condessa continuou olhando para a princesa, como que a avisando de algo.— Mais alguma coisa, Lady Courteney?
— Não. Você deseja acrescentar algo, John?— Sem animação alguma o conde balançou a cabeça. Os Courteney fizeram novamente uma mesura, e Maria sussurrou rápido:— O seu marido não deveria estar sorrindo, Katherine?
Depois eles se afastaram do novo casal. Katherine realmente não dava a menor importância se o príncipe Wilhelm estava sorrindo ou não, mas os outros davam. Evitando suspirar, a princesa sorriu e perguntou ao marido:
— Por que meu príncipe não sorri?— Ele não deu uma resposta, fazendo o sorriso de Katherine levemente diminuir.— Meu príncipe.
— Você está falando comigo?— Vagarosamente o príncipe olhou para Katherine e perguntou.
Isso só poderia ser uma brincadeira! Ele estava brincando com a paciência dela.
— Não há nenhum outro príncipe do meu lado.— Haviam pessoas olhando, então ela arranjou alguma paciência.— Seria melhor, meu príncipe, sorrir.
— Não gosto que me chamem de "meu príncipe", apenas me chamam assim os que não conheço ou em momentos formais. Eu tenho nome, Wilhelm.— E ainda era sensível. O sorriso de Katherine foi substituído por sarcasmo. Wilhelm continuou:— Por que eu deveria sorrir se não tenho motivos para ficar alegre?
Agora isso foi uma ofensa. Ele estava casado com ela, a princesa Katherine de Niedersieg e Bristol, uma das mais belas princesas da Europa, e a mais bela da Grã-Bretanha. O príncipe Wilhelm tinha motivos de sobra para sorrir e ficar alegre. Mas evitando qualquer discussão, Katherine tentou ser calma.
— Essas pessoas a nossa volta desejam um sorriso nosso. Todos devem ver que estamos alegres com esse casamento.— O que não era uma verdade. Balançando a cabeça, ela continuou:— Sorrir é muito importante. É o que todos querem.
O príncipe não respondeu de imediato, fazendo Katherine pensar por um momento que ele iria deixá-la falando sozinha, mas para a surpresa da princesa, Wilhelm se virou na sua direção. Os olhos dele eram azuis como o mar, Katherine percebeu apenas agora.
— Eu não dou a mínima importância ao que as pessoas pensam, Katherine.— Mas que homem afrontoso. Ele havia conseguido a sua raiva.
— Não fale o meu nome.— O príncipe a fitou desafiador.— Eu não lhe dei permissão para fazer isso!
Os olhos da princesa se arregalaram depois que ela falou, foi muito alto e agora as pessoas estavam olhando. Senhor, mas que vergonha. Katherine olhou para Wilhelm irritada, mas ele apenas sorriu novamente desafiador, deu de ombros e saiu de perto, deixando-a sozinha. Mais afrontoso apenas Georgiana Cavendish.
Haviam muitas coisas que Katherine não gostava, mas de todas, haviam duas que se destacavam: ser suplantada e ser desafiada, a claramente ela foi desafiada pelo próprio marido. As coisas não iriam ficar assim, ele iria ver.
Não sobrando a Katherine outra alternativa, ela voltou a sorrir e também saiu de onde estava. William Lennox, o 1° barão Lennox, e Lady Elizabeth Baster estavam conversando perto da lareira, então foi para lá que Katherine foi, muito provavelmente os dois iriam noivar antes da próxima primavera, era divertido observar os dois juntos, era um casal tão envergonhado. Seria a distração perfeita para a princesa.
Até pouco depois da meia-noite tudo ocorreu como deveria, isso significava então que o momento mais temido de Katherine para esse noite chegou: a cerimônia de cama. O momento em que ela foi levada para seus aposentos, despida de suas roupas, vestida com a camisola e aconselhada de como ela deveria agir essa noite. Francamente isso era desnecessário, traumatizante até. E também, Katherine duvidava muito que era apenas deitar e deixar o príncipe fazer o resto.
Foi constrangedor, não era necessário tantas damas para levá-la ao leito conjugal, consumar o casamento. Katherine percebeu que sua mãe não estava presente durante essa primeira parte, até ela deveria estar envergonhada.
Por fim, Katherine ficou pronta, sua mãe enfim apareceu, e não foi sozinha, atrás dela entrou seu pai, logo depois o rei, junto da rainha, e finalmente Wilhelm, sendo seguido por um grupo de cavalheiros liderados pelo conde de Carlisle, seu tio. Era vergonhoso, mas a consolação de Katherine era saber que Wilhelm pensava o mesmo, o rosto dele estava envergonhado e desconfortável, faltava apenas ficar vermelho.
E nisso ela novamente descobriu algo sobre o príncipe Wilhelm. O cabelo dele era castanho, e era castanho escuro, muito diferente do esperado com a peruca empoada. Katherine sempre pensou que ele era loiro. Mas em contrapartida, Wilhelm também a encarava com atenção. Katherine apenas não poderia saber se o motivo era seu cabelo, loiro alaranjado, ou seu corpo, ela não era tola o suficiente para não perceber que seu corpo atraía os homens.
O novo casal foi deitado na cama, abençoado e deixado sozinho. O que vinha agora? Katherine sabia pelo menos que nada iria acontecer, não da sua parte, de Wilhelm ela nada sabia, apenas que estava deitada ao lado de um estranho. A princesa fez uma careta com esse pensamento, era assustador pensar assim.
Depois de alguns momentos de profundo silêncio, ele foi quebrado.
— Você não vai tremer, chorar ou fazer qualquer outra coisa do tipo, não é?— Wilhelm foi o primeiro a falar. Mas o que ele falou...
Katherine olhou para Wilhelm ofendida.
— Por que eu faria uma coisa dessas? Eu tenho orgulho.— Ela era uma Tudor-Habsburg, nada de tristeza, choro ou desespero.— Eu quero que fique bem claro que nada irá acontecer entre nós
O príncipe ficou inicialmente em silêncio, até que ele respondeu:
— Certo então. Não tenho nada contra isso.— Era um alívio ouvir isso, Wilhelm também havia percebido que eles eram dois estranhos e nada poderia acontecer. Mas esse alívio não durou muito. Por algum motivo o príncipe levantou da cama e quando Katherine pensou que não poderia ficar mais estranho, ele tirou a camisola.— O que foi? Gosta do que vê, Katherine?
Ela estava pasmada, talvez não pasmada, mas... Na Dinamarca eles não tinham decoro!? O príncipe estava completamente nu, Katherine estava vendo tudo! Essa imagem não iria sair nunca da cabeça dela. Katherine não conseguia desviar os olhos. Era um verdadeiro misto de sentimentos: vergonha, ridículo, desgosto, nojo e... Santo Cristo, curiosidade e certa admiração. Ela estava louca, só poderia ser isso. Não! Era ele que estava.
Então era isso que os homens escondiam... Os olhos de Katherine arregalaram-se, e sua hipnose acabou. Na sua frente havia um homem nu!
— O que é que você tem na cabeça!? Eu sou uma dama! Uma moça virginal! Seu homem imoral!— Com toda a sua força, Katherine gritou assustando o príncipe.— E não me chame pelo nome!
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